Crítica
Ouvimos: Conveniens, “Conveniens”, “Victims of convenience” (relançamento)

Você provavelmente nunca escutou falar do Conveniens na vida. Essa estranhíssima dupla formada por David Sterling Smith (teclados) e John Maz (bateria e synth tapes) gravou alguns álbuns durante os anos 1980 e 1990. Chegaram a ter alguma divulgação, saíram na revista espertinha Trouser Press, mas é uma daquelas bandas tão desconhecidas, que seus discos ainda nem conseguiram virar raridades.
A notícia é que Smith e Maz, que já promoveram relançamentos de seus álbuns em mídia física, jogaram os dois primeiros discos nas plataformas digitais. Conveniens (1984) e Victims of convenience (1986) têm uma sonoridade que vai do ambient ao jazz-rock sombrio, passando por referências de progressivo.
O primeiro álbum, epônimo, é quase fundo de quintal: a qualidade de gravação é de disco independente brasileiro dos anos 1970/1980, os sons parece rudimentares, a bateria tem afinação quase jazzística (com aquele som tribal) e em alguns momentos, salta na frente o bom humor dos dois. Rain kite, a faixa de abertura, soa quase como paródia do yacht rock, ou um pop-progressivo em que tudo pode ruir a qualquer hora.
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O restante do disco lembra uma demo de treino de Brian Eno e do Kraftwerk, e atrai atenção justamente quando o som fica mais improvisado e experimental, em faixas como Morning lobotomy (um jazz-valsa psicodélico), Druhm rum (que lembra o som dos primeiríssimos discos do Kraftwerk, mas em tom jazz-rock) a sombria Barney Klark e o progressivo-psicodélico-jazz-punk de Regular grind.
As maiores surpresas ficam no final: Procession of bone lembra o tom mântrico do Pink Floyd do começo, Afrisha’nki é um belíssimo solo de piano entre o jazz e o clássico e Blink, a última faixa, de onze minutos, é a mais progressiva do disco – ainda que seja cortada para entrar um papo psicodélico de estúdio da dupla.
Victims of convenience trouxe o Conveniens mais evoluído em termos de composição, arranjo e até qualidade de gravação – o som lembra o de um álbum gravado no estúdio Nas Nuvens em 1986. As improvisações são mais bem boladas e dividem espaço com um tom quase industrial e pós-punk em alguns momentos.
Esse som é o que aparece na faixa-título, de estilo sombrio e ágil, e no voo eletrônico-punk de Pidgeon memory. A ambient e percussiva Industrial mylasia chega a lembrar uma brincadeira com trilha de filme policial, enquanto Geomoshadow dive parece uma outra tentativa da dupla de fazer lembrar o Pink Floyd (no caso, o PF improvisador de Ummagumma, 1968).
No disco, o destaque vai para Commercial dance song, que surge em duas versões, e é uma espécie de synth anti-pop. E Onn (ond), uma espécie de pós-punk progressivo e tribal, que lembra o Metal box (1979), do Public Image Ltd – falta só a voz de John Lydon.
Nota: 8
Gravadora: Independente.
Crítica
Ouvimos: Scaler – “Endlessly”

RESENHA: O Scaler mistura drum’n bass, trip hop e rock em Endlessly: som tenso e fragmentado, mais sensação de perigo que caos, entre post-rock e gótico eletrônico.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Black Acre
Lançamento: 26 de setembro de 2025
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O Scaler vem de Bristol, na Inglaterra – e dá uns passos além dos populares nomes eletrônicos e experimentais da cidade, como Massive Attack e Tricky. Endlessly, disco novo do grupo, soa mais como se eles fizessem parte da turma do Mandy, Indiana, cujo novo disco URGH foi comentado aqui neste site. Não basta fazer música, é preciso quebrá-la em micropedaços e colar tudo de novo. Aqui, eles fazem isso com o drum’n bass, o trip hop e até o stoner rock (em Salvation, um curioso stoner-rap-trap que desrobotiza totalmente o som do grupo e faz dele um Sleep robótico e viajante).
Endlessly mexe mais com a sensação de perigo do que com o caos verdadeiro, deixando o Scaler às vezes mais próximo do post-rock, pela maneira como insere ruídos e rangidos nas músicas – rola em Quiet when it opens e na onda desértica de Evolve, que parece uma mescla de Nine Inch Nails e (pode levar fé) Enigma. Cold storage, com seus vários segmentos, lembra um Kraftwerk sobrenatural e tenso, embarcando no clima frenético de Sinking in, que parece mostrar musicalmente a rapidez tóxica da vida urbana.
Existe algo até de metal gótico em algumas faixas de Endlessly, principalmente nos vocas de Salt (com participação de Akiko Haruna) e Mirage (com Art School Girlfriend, e uma onda sonora que faz lembrar Depeche Mode e Nine Inch Nails). Uma aclimatação roqueira chega perto de faixas como Broken entry e Ravine, duas músicas eletrônicas, tensas, sombrias e agênero – esta última abre com ligeiros afrobeats misturados e se transforma numa espécie de dub gótico e funéreo. Mesmo quando começa a parecer meio irregular, Endlessly dá um jeito de surpreender.
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Crítica
Ouvimos: Edu Aguiar, Alcides Sodré (Projeto 2) – “Todas as esquinas do mundo”

RESENHA: Projeto 2, de Edu Aguiar e Alcides Sodré, estreia com Todas as esquinas do mundo: MPB setentista à la Clube da Esquina, vocais tramados, arranjos acústicos e muitas participações.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Perro Andaluz
Lançamento: 25 de novembro de 2025
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O Projeto 2 é um trabalho coletivo, feito pelo compositor, violonista, cantor e produtor Edu Aguiar, ao lado do cantor Alcides Sodré, com participação do violonista Marcílio Figueiró e do percussionista Mingo Araújo. Além de cerca de trinta outras participações, entre letristas, instrumentistas e cantores, nas faixas de Todas as esquinas do mundo. O álbum é a estreia do Projeto, que parte de um lugar bem claro: a canção brasileira dos anos 1970, principalmente o entorno do Clube da Esquina (daí a referência no título). O resultado é de roda registrada em estúdio, de disco que prefere desenho vocal a potência, com faixas que correm como rios – como nos próprios álbuns dos criadores do clube.
- Ouvimos: Flau Flau – Íntimo oriental
A faixa-título já abre com vocais bem tramados, em torno da melodia – uma valsa acústica e folk que poderia ter saído em 1979, virada de chave para a música brasileira jovem. Sol poesia luar, com letra do “clubista” Murilo Antunes (o cara que fez Nascente com Flavio Venturini, entre outras) traz um pop acústico de leve ar beatle, lembrando algo entre a música de Milton Nascimento e o sucesso Penny Lane, de John Lennon e Paul McCartney. Fica perto de mim mergulha no romantismo com cello e clima de seresta solar. Desta vez muda o rumo com um samba de vibração urbana que lembra a sonoridade ligada a Luiz Melodia, no som e na maneira de cantar – na verdade, chega a lembrar sons que poderiam ter influenciado a música de Melodia.
Acalanto é um ponto alto: começa percussiva, vira voz e violão, passa por bossa e ciranda e termina com sotaque nordestino, quase cantiga tradicional. Já Invenção do desejo, parceria de Edu e Geraldo Azevedo, puxa para uma MPB alguma coisa mais pop, com groove lembrando Trilhos urbanos, de Caetano Veloso, e guitarra na escola de Toninho Horta. Em contraste, Passa é mínima e sussurrada, e A dona da casa retoma o clima contemplativo mineiro, chegando a lembrar as incursões solo de compositores e músicos da região, como Frederyko e Tavinho Moura.
Dia não cria um ambiente estranho e bonito, com coral fantasmagórico e letra de memória e ruas fechadas, soando como um tema feito para uma casa enorme em que todos os moradores já morreram, ou partiram para seus projetos pessoais. Claro que é você é delicada, com herança musical tanto da MPB mineira quanto do samba, e vocais de Ná Ozzetti. E Paz e sossego, dedicada a Gilberto Gil, chega com percussões, entre o tom afro e a toada, acrescentando citações de nomes da música brasileira como em Paratodos, de Chico Buarque. Do começo ao fim, o Projeto 2 faz uma música brasileira eterna e clássica, mas com mistura própria de referências.
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Crítica
Ouvimos: PVA – “No more like this”

RESENHA: PVA mistura trip hop, pós-punk e ambient em No more like this: beats imprevisíveis, voz falada de Ella, letras queer: corpo, transição, desejo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: It’s All For Fun
Lançamento: 26 de janeiro de 2026
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O PVA vem do Sul de Londres é definido como “enigmático” por eles próprios em seu Bandcamp. De fato, não apenas a fusão de beats de Ella Harris, Josh Baxter e Louis Satchell é bastante imprevisível, como também há muito mistério no clima sexy dos vocais de Ella e das letras do grupo. A própria capa de No more like this, seu novo álbum, exibe um chamado à fisicalidade – pode ser uma referência tanto ao clima envolvente do som do PVA quanto a período de isolamento que o mundo viveu há seis anos.
- Ouvimos: Sex Mex – Down in the dump trucks (EP) / Don’t mess with Sex Mex (EP)
O “não haverá mais nada assim” do PVA, por sua vez, aponta tanto para o experimentalismo quanto para um universo queer e sexualizado, marcado pela voz falada de Ella e pela vibe ambient de faixas como Rain e Enough. O som de No more like this vai chegando perto de uma noção bem particular de trip hop em faixas como Mate, Boyface e Anger song , embarca num beat mais raivoso em Send, e une vapores e rangidos em faixas como Peel e a longa Okay, de sete minutos.
Nomes como Portishead e Laurie Anderson são evocados em boa parte do disco, mas fãs de krautrock e pós-punk vão também ficar bastante felizes com No more like this. Já as letras usam afirmação pessoal e corporal como uma expressão que vai bem além da música. Em Mate, Ella prega: “eu quero cantar / você tem minha língua / na palma da mão”. Boyface fala sobre transição de gênero, amor e sexo queer, narrando cenas (“encontre o meio, toque a borda / corpo desprovido, eu acaricio / eu me importo”). A raiva de Anger song é dirigida a um amor problemático, narrado com frases curtas.
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