Crítica
Ouvimos: Bombay Bicycle Club, “My big day”

- My big day é o sexto disco da banda londrina Bombay Bicycle Club. O disco foi produzido pelo cantor e guitarrista Jack Steadman, que também escreveu quase todas as faixas. É o segundo álbum da banda após um hiato que durou três anos.
- Além de Jack, a banda é formada por Suren de Saram (bateria), Jamie MacColl (guitarra) e Ed Nash (baixo).
- A banda falou sobre a variedade do disco novo num papo com o New Musical Express. “Estávamos definitivamente tentando ser um pouco mais corajosos do que no álbum anterior e dizendo que nada estava fora dos limites. Principalmente quando você faz isso há 18 anos, não faz sentido tentar jogar pelo seguro neste momento. Não há nada a ganhar com isso, pessoalmente ou mesmo comercialmente”, diz Jamie.
Lembra quando, lá pelo fim da primeira década do século 21, o indie rock ganhou uma cara meio mauriceba que levava os fãs de algumas bandas a se zoarem de “hipsters”? Aquela época em que 1) CD já era um item caro; 2) pessoas de vinte e poucos anos baixavam vários álbuns e orgulhavam-se de terem uma cedeteca de, no máximo, dez títulos e de nem saberem como se usava uma vitrola; 3) a MTV nacional já era mais popular como um canal de humor do que de música, bandas pensavam em landing pages fantásticas para suas redes sociais e o Orkut ainda era considerado como um local de divulgação para novos álbuns.
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O Bombay Bicycle Club é uma banda de 2005, permaneceu na ativa de lá para cá, gravou seu primeiro álbum (o memorável I had the blues but I shook them loose) em 2009, e faz lembrar bastante desse período intermediário entre alguma coisa e as plataformas digitais. Mesmo estando longe de ser apenas uma banda que dá a impressão de que uma determinada época nunca vai acabar – como quando rola numa festa Hey ya, do Outkast, ou a proscrita Pumped up kicks, do Foster The People, e todo mundo fica lembrando da aurora dos clipes no YouTube, ou da música na internet, ou de como era baixar música pelo 4shared ou pelo Rapidshare. Voltaram até com um disco que chama a atenção pelo total desapego com a colocação de bandas e músicos em caixinhas, na melhor tradição do rock britânico.
My big day parece até projeto especial: são músicas cujo forte é a variedade, num repertório repleto de convidados especiais – a lista incui dois nomes do indie, Jay Son e Nilufer Yanya, além do veterano Damon Albarn e da clássica Chaka Khan, além de uma cantora britânica que acabou de lançar o primeiro álbum, Holly Humberstone. No disco, canções viciantes de rodinha de violão, como Sleepless e Turn the world on, dividem espaço com a dança soul-jazz-psicodélica de Just a little more time e I want to be your only pet, e com algo entre o r&b e bandas clássicas como Small Faces e Kinks (a faixa-título). Meditate, a melhor faixa, une riff marcante, e sonoridade entre o pós-punk e o indie rock dos anos 2000.
Um lado psicodélico e meio lounge surge em Heaven, abrindo com uma batida hip hop, mas ganhando um interlúdio de violão e voz feito por Damon Albarn, e uma mescla de metais e riff de guitarra que joga a sonoridade para os anos 1960. No final, os seis minutos de Onward, com violão, percussão, orquestra, parede de guitarra, e uma letra que lembra Ian Curtis, ou o David Bowie apocalíptico de The man who sold the world (1970): “estamos todos morrendo/somos todos os mais gentis e os mais cruéis/e os mais brilhantes e os mais sombrios”.
Nota: 8
Gravadora: Island
Foto: Reprodução da capa do álbum.
Crítica
Ouvimos: Carlinhos Carneiro & Os Excelents Animais – “Hotel Ritz”

RESENHA: Carlinhos Carneiro estreia solo com Hotel Ritz: disco irônico e inventivo que mistura estilos e retrata infernos cotidianos com humor e boas ideias pop.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Frase Records
Lançamento: 6 de outubro de 2025
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Atrasamos muito para escrever sobre a nova investida do gaúcho Carlinhos Carneiro (Bidê Ou Balde), mas esperamos que você corra para ouvir, porque Hotel Ritz, estreia solo dele, é uma das maiores surpresas lançadas no ano passado. O disco é apresentado como uma coleção de personagens que passam pelos quartos e elevadores do hotel – e mais que isso, resume vários infernos pessoais e coletivos dos dias de hoje.
O Hotel Ritz do disco existe de verdade. Ele fica no Centro Histórico de Porto Alegre, passou um bom tempo destruído (a foto da capa é real, foi clicada por Marcelo Franco Bonifácio e decorava a parede da casa de Carlinhos) e, aparentemente, passou por uma bela reforma nos últimos anos. Buscando no Google dá pra ver imagens da fachada e a inscrição “a casa do estudante” na vidraça da porta. No álbum de Carlinhos, o hotel é a senha para um dia a dia muito louco em que – como costuma acontecer em hotéis do Centro – você só tem as paredes do quarto para olhar.
Vai daí que, nas letras, as memórias não vão te salvar (no chamber rock sofisticado da faixa-tíulo, com cordas e metais, em parceria com Catto), mas a música pop pode fazer você ganhar o dia (Música pop). As melhores e piores coisas do passado vão ficando para trás sem que você se dê conta (o power pop Pra ter saudade, lado a lado com a banda Supervão). E ainda por cima, “os boletos falam mais alto / do que os sonhos que a gente tem” (Boletos / Burnout, com guitarra seca no começo e algo de Pixes na melodia e no arranjo, evoluindo para algo quase pop anos 1980). Tudo isso entre outros detalhes, como a onda Radiohead de Escritório edifício e a paródia chamber pop de O velho papapa, que lembra as investidas experimentais de Paul McCartney no começo da carreira.
Essa mistura de musicalidade e ironia passa por todo o disco, mas ganha um ar mais zoeiro ainda em faixas como o beatlegrunge Curso online (“fazendo curso online / pra vender curso online”), a onda Taxman de Sopa de confete, o soul rock Metaleiro é que sabe viver e mais duas músicas cujas letras nem vou citar, porque tem que ouvir: a mescla de Júpiter Maçã e Rogério Skylab de Teu sorriso e o hard rock funkeado Tony Ramos (!), gravada ao vivo com direito a um irônico Anúncio de faixa escondida – coisa do tempo do CD que não dá pra repetir na era do ispotifai. Genial.
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Crítica
Ouvimos: Wire – “Read & burn 03 plus” (relançamento)

RESENHA: Read & burn 03, EP do Wire de 2007, ganha reedição com bônus: pós-punk frio e experimental, quatro faixas longas e histórias curiosas por trás de 23 years too late.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Pinkflag
Lançamento: 18 de abril de 2026
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A série de EPs Read & burn, iniciada pela banda punk britânica Wire em 2002, chamou a atenção de vários fãs e jornalistas por ter dado uma bela revigorada no som e na mítica do grupo – e particularmente o volume 3 despertou muita gente por sua elaboração quase progressiva. São quatro longas faixas, e o material é mais próximo da frieza krautrock, e de uma noção própria de post-rock.
Read & burn 3 ressurge agora numa reedição com material bônus, lançada hoje para o Record Store Day. O disco sai num vinil que provavelmente vai esgotar rápido, mas chegou também às plataformas digitais. Por acaso, também é o último disco do Wire feito por sua formação original: Colin Newman (voz, guitarra), Graham Lewis (baixo, vocal), Bruce Gilbert (guitarra) e Robert Grey (bateria).
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Para o novo lançamento, o grupo solta um clipe da versão edit de 23 years too late, que abre o EP. Dirigido por Malcolm Boyle, o vídeo é composto por fotos e imagens de arquivo, com direito a material que vai sair no documentário Wire – People in a film, sobre a história do grupo, feito também por Boyle. Além do som, o principal é que Read & burn esconde histórias bem legais sobre o Wire, como o fato de 23 years too late, com seus nove minutos, ter começado como uma tentativa de refazer o single country-punk Dot dash (1978), numa versão chamada Dip flash.
A faixa acabou se transformando em outra música assim que o Wire reparou que sua turnê de 2002 vinha passando por cidades que estariam numa tour de 1979 que a banda precisou cancelar – a EMI, gravadora deles nos primeiros tempos, tinha desistido do Wire e deixou o grupo sem nenhum tipo de apoio. Colin Newman, vocalista e principal compositor, vinha fazendo um diário de turnê (do qual veio o conceito dos “23 anos tarde demais”, referente às cidades que a banda visitaria em 1979 e estavam na atual tour) e a música partiu disso.
O clima maquínico e frio de 23 years too late dá o tom do disco. É uma poesia declamada, cujo refrão soa como um estranho cântico que mal cabe na música, e cujo tom é de susto com a riqueza revolucionária das ruas – o Wire soa como um grafite no muro, e faz música eletrônica com teclados, guitarra, baixo e bateria. Our time, música quase mecânica, fundamentada no lado mais gélido do pós-punk, une várias sentenças que falam sobre o tempo e sobre as incertezas em relação a ele (“nosso tempo é certo, nosso tempo é errado / nosso tempo é curto ou talvez longo”).
Um lado mais próximo do pós-punk em formato “canção” surge no ataque frontal e cultural de No warning given e na poesia punk e surrealista de Desert diving. Mas a versão nova do EP ainda inclui o edit “24 anos depois” de 23 years too late, novos mixes de Our time e Desert diving (este, em clima menos ruidoso e mais tecladeiro), e também Dip flash, que originalmente seria a tal nova versão de Dot dash antes da transformação em 23 years. Quem não conseguir o vinil, tem pelo menos esse presente nas plataformas.
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Crítica
Ouvimos: Planoreal – “Mérito” (EP)

RESENHA: Planoreal mistura hardcore, emo e alt 90s em Mérito, EP visceral e melancólico; vai do punk veloz ao screamo, com clima catártico e letras intensas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: AlterEgo
Lançamento: 10 de abril de 2026
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Com um álbum e alguns singles na discografia, o Planoreal vem de Joinville (SC) e faz som visceral, entre hardcore, emo e rock alternativo dos anos 1990. Entram sons que fazem lembrar o skate rock, o punk californiano dos anos 1990 e até as músicas mais melódicas e rápidas de bandas como Blink-182 e Charlie Brown Jr. Mas o papo aqui é música melancólica e um rock mais catártico e triste – que pode interessar a fãs de Midwest emo e até de bandas nacionais como Hateen e Blind Pigs.
A faixa-título do EP Mérito abre com dedilhados e uma vibe quase metal, até cair no punk repleto de palhetadas, vocais agudos e até trechos declamados, falando sobre sonhos, privilégios e poder da mudança. O hardcore Importância tem recordações de bandas como Pennywise, mas com vibe melódica que surge também em Inércia. Já Sabotagem abre com guitarra longínqua e sombria, caindo imediatamente no hardcore.
As diversas possibilidades do grupo surgem em Imortal, música com várias partes. E a faixa mais catártica do EP é a última, com título formado por várias lacunas, participação de outra banda punk de Joinville, o Harakiri, e vibração screamo. Intensidade em vocais e instrumentação – faltam apenas as letras nas plataformas de músicaa, necessárias por causa do foco na rapidez sonora.
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