Crítica
Ouvimos: Baths, “Gut”

Após quase uma década, Will Weisenfeld retoma o nome Baths e entrega Gut, um álbum que não apenas expande seu espectro sonoro – do eletropop aos sons acústicos – mas também sua franqueza emocional. Se sua discografia sempre foi marcada por experimentação e coragem, aqui ele dá um passo além: expõe sua verdade sem filtros, explorando seu cotidiano e sua vivência como homem queer. Sexo, desejo, relacionamentos enrolados, inveja de amores tranquilos, carências, homofobia – tudo está ali, abordado com honestidade quase desconcertante.
Em uma entrevista à newsletter Last Donut of the Night, Will lamentou que músicas sobre sexo costumem ser enxergadas de maneira “sexy”. Seu objetivo em Gut era ser assertivo, direto, sem romantizações. “Esta é a maneira como uma pessoa gay moderna interage com o mundo por meio da atividade sexual”, afirmou, dando a medida da franqueza que buscava. Letras como a de Governed traduzem bem essa abordagem crua: “ator, cronicamente atuando / eu fodo sem honestidade / tenho tido menos amigos em minha cama do que a maioria dos homens gays”. Já Homosexuals escancara seu manifesto: “por favor, me devore / que a massa de todos nós digeridos / seja camaradagem”.
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O álbum se encerra com The sound of a blooming flower, um épico dream pop de sete minutos que começa melancólico no piano e cresce em intensidade. No refrão, Will entrega uma confissão devastadora: “alguma beleza simplesmente aniquila completamente / passei um ano suspirando por alguém cego para mim / comportando-me como se habitasse algum tipo de monstruosidade”.
Se as letras já chocam pela franqueza, a diversidade sonora de Gut também impressiona. Há beats inventivos mesclados com folk e chamber pop (Eyewall, American mythos, Homosexuals, Sea of men), além de faixas etéreas e introspectivas (Eden, Peacocking). Cedar stairwell, uma das poucas canções que exploram um amor gay tranquilo, traz um instrumental contemplativo de cordas, mas ainda assim é uma balada R&B com ares de pop adulto dos anos 1980. Já Chaos soa como um Queen-ABBA sombrio, enquanto Governed aposta num rock eletrônico com vocais graves e quase falados.
De modo geral, mesmo o que não funciona de cara em Gut, ou tem absorção difícil, acaba instigando. No mais, as verdades ditas nas letras levam quem ouve o disco a encarar suas próprias verdades – o que já garante pontos.
Nota: 9
Gravadora: Basement’s Basement
Lançamento: 21 de fevereiro de 2025
Crítica
Ouvimos: Downtown Boys – “Public luxury”

RESENHA: Art punk bilíngue, pesado e combativo: o Downtown Boys une punk, eletrônica e esperança em Public luxury, disco que transforma luta sindical em música.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Sub Pop
Lançamento: 26 de junho de 2026
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Public luxury (“luxúria pública”), terceiro álbum da banda estadunidense Downtown Boys, traz lembranças e recados para quem é contra a escala 6×1, para patrões que chamam funcionários de “colaboradores” e para empresas que oferecem para os funcionários o básico (protegido por lei) como se fosse uma baita vantagem trabalhista. É art punk bilingue (cantado em inglês e espanhol), pesado, sombrio e – pode acreditar – cheio de vitalidade e otimismo.
Entre o segundo álbum, The cost of living (2017) e o novo, o grupo conciliou a música com o trabalho sindical (!) – vai daí, o Downtown Boys é o tipo de banda que sabe o valor da luta, do protesto e da briga pública, numa visão 2026 do punk classe-operária dos anos 1970 e 1980. Na abertura de Public luxury, tem punk em espanhol com vocais gritados (No me jodas), country-punk com riffs lembrando The Cure (The city begins) e uma faixa com tecladinho lembrando Stranglers, além de um som sinistraço de guitarra (Sirena). É assim que todo mundo é apresentado à música do grupo.
- Ouvimos: Makeshift Art Bar – Marionette (EP)
Se o punk é marcado pelo cinismo em potencial, Downtown Boys são bem o contrário disso – especialmente no que diz respeito aos vocais abertos e expressivos de Victoria Marie. Ela canta “todavia, acredito no futuro / todavia, vejo nossos mortos” no hardcore-country Viva la rosa, insere a palavra “amor” em clima Bjork na new wave-com-vibrafone Yellow sun, e solta palavras de ordem na eletrônica You’re a ghost, o mais próximo que o Downtown Boys consegue chegar do Ministry.
Na onda art punk do Downtown Boys sobra até pros Pixies, citados no arranjo de Albuterol. Rola também um batidão em Mi concha, meio indie sleaze, meio forró rápido – além da vibe quase gótica, com saxofone, de Public works. A curiosidade que ninguém esperava é a house music da faixa-título, que encerra o álbum. Uma coda de diversão em meio a vocais sindicais que parecem sair de um megafone, e da ferocidade das guitarras. Peso sonoro feito por gente que vive política.
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Crítica
Ouvimos: Makeshift Art Bar – “Marionette” (EP)

RESENHA: Makeshift Art Bar mistura jungle, industrial, ska e eletrônica pesada em Marionette, EP intenso, caótico e cheio de tensão.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Heist or Hit
Lançamento: 26 de junho de 2026
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Vindo da Irlanda do Norte, o Makeshift Art Bar é uma banda interessada em porrada, caos e ousadia: Marionette, o segundo EP, une sons eletrônicos e peso sem soar parecido com o Ministry ou com qualquer outra banda craque do estilo.
O som de faixas como Chocolate é basicamente um jungle distorcido e imagético, gravado como se fosse uma trilha de filme – dá para imaginar uma pista de dança escura bombando. Crows é um blues industrial porradeiro, em que o ritmo parece dado por várias correntes rangendo, enquanto a letra fala sobre incertezas e falta de paz.
- Ouvimos: Data Animal – Future of ghosts
Marionette é um EP curtinho, com duas faixas em cada metade. Discipline tem ares de Laibach e de Alien Sex Fiend – une música sombria, clima hi-energy, peso e ondas de pavor. Servant, no final, é um ska demoníaco e pesado, em que temas como controle mental e manipulação se tornam cada vez mais apavorantes.
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Crítica
Ouvimos: Bleeder – “Marble station” (EP)

RESENHA: Bleeder une pós-punk, post-rock e experimentalismo em Marble station, EP que transforma duas covers em viagens sonoras densas e sombrias.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Escho
Lançamento: 5 de junho de 2026
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Direto da Dinamarca, o Bleeder é o projeto musical de Peter Peter, mais conhecido como autor de trilhas de filmes de ação e crime. No EP Marble station, ele se cerca de amigos, como Elias Ronnelfelt (do Iceage), para unir pós-punk e experimentalismo roqueiro histórico.
Marble station tem quatro faixas, mas o clima é de ocupação sonora, abrindo com a faixa-título. São nove minutos de música em que as guitarras vão tomando conta de um jeitão até meio emo – mas com piano luminoso e clima perdido, quase de post-rock, em que o peso vai chegando aos poucos. Here comes the dead, a outra autoral do álbum, é metal post-rock, em clima sombrio e sonhador.
O repertório de Marble station é complementado por duas covers. Boy / girl, de Lydia Lunch, vira hardcore ruidoso e eletrônico, com ares de Ministry, mas ganhando até uma percussão. If not this time, música da pioneira banda experimental estadunidense Fifty Foot Hose, é psicodelia sombria sessentista. Loucura sonora mapeada.
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