Crítica
Ouvimos: Matuê – “XTRANHO”

RESENHA: Críticas veem Xtranho como pouco original e raso – e apesar de ter alguns bons momentos, o novo disco de Matuê soa como mashup que rende menos que os anteriores.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 6
Gravadora: 30PRAUM
Lançamento: 10 de dezembro de 2025
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
A crítica musical Carol Prado publicou no G1 uma resenha arrasando com Xtranho, disco novo do cantor de trap Matuê – ela explicou que não gostou do disco por causa de suas letras infantis e pelo fato da sonoridade apenas imitar o que artistas norte-americanos do estilo vêm fazendo.
Ela também contextualizou a carreira de Matuê e explicou que o sucesso do artista não aconteceu por acaso: ele (realmente, acrescentamos) criou uma marca pessoal em pouco tempo, explicitada em seus dois álbuns anteriores, e que fizeram com que sua música fosse entendida não apenas por adolescentes fãs de trap, como por fãs de música de várias idades. Já a conta do xwitter Rap World enxergou pouca profundidade no disco, além de também encarar Xtranho como um quase mashup, e uma imitação de coisas que já vêm sendo feitas.
- Ouvimos: Veigh – Eu venci o mundo
Outras resenhas enxergaram Xtranho com mais leveza – Kadu Soares, na Rolling Stone Brasil, disse que o disco “poderia ir mais além” mas que mesmo assim ele entrega uma nova plataforma para o estilo musical no Brasil. Era algo que Matuê já vinha fazendo, inclusive: em álbuns como 333 (2024) ele já tangenciou até estilos como soft rock e rock oitentista, o que provavelmente fez muita gente torcer o nariz.
Já Xtranho, o terceiro álbum, chama a atenção por não ser nada do que o próprio Matuê explicou a respeito dele. Não é exatamente o disco “disruptivo” e “underground” que ele vem comentando, e as vibes lisérgicas e dark que invadem as músicas soam meio batidas – como se fosse um repertório feito para “funcionar”, mas que no fundo rende bem menos que os dois discos anteriores.
Um detalhe: se roqueiros fossem sempre criticados por copiarem outras bandas, não sobraria um de pé – ainda mais no Brasil. Vai daí que a suposta pouca originalidade do disco nem chega a ser um enorme problema. De bom, Xtranho tem a psicodelia de Rei Tuê, Todas as luzes e Talking bout, os vapores sonoros de Icone fashion, o descontrole de Alterado (com vocais sujos e ritmo desencontrado). Além da revolta pessoal de Meu cemitério, a melhor do disco.
O resto parece aquelas vezes em que alguém tenta acertar na mira e passa longe, especialmente porque soa como se Matuê tivesse pouca conexão com o que foi lançado musicalmente no disco – olha aí a tese do Rap World, de que o álbum soa como um mashup. Em alguns momentos, parece realmente que todo o repertório vai ser picotado em mini-canções para serem apresentadas nos shows, como um enorme pot-pourri de si próprio.
Quanto às letras: não é para esperar “maturidade”, mas uma parte de Xtranho lembra a fase de esgotamento do Charlie Brown Jr, quando a formação estava desfigurada, Chorão já parecia desanimado e as músicas soavam como um análise combinatória avacalhada. Não se trata nem de haver frases que é preciso jogar no Google pra entender: estilos como rap e trap costumam ter letras feitas com expressões restritas ao universo dos próprios artistas, e isso costuma até envolver mais os fãs.
A questão é que versos como “mano, eu só ando estranho, dinheiro movendo estranho”, e “eu sou um mano muito revoltado / preciso fumar alguns baseados” não parecem evocar muita coisa. É nas letras, por sinal, que esse lado “mashup” de Xtranho é mais visto, como se cada faixa evitasse focar num tema – isso poderia ser algo bem “underground” e criativo, mas aqui parece que faltou direção.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Crítica
Ouvimos: The Paradox – “NSFW” (EP)

RESENHA: O EP NSFW, do The Paradox, traz punk pop nervoso à la Blink-182 e Green Day, com letras sobre frustrações, festas, trabalho ruim e ansiedade.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Hundred Days Records
Lançamento: 19 de setembro de 2025
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
Falar que The Paradox é uma banda “punk pop negra” é chamar atenção para um fato (os caras são tão esporrentos quanto o Blink-182 e são uma banda formada por quatro afro-americanos), só que de maneira completamente inadequada. Nas seis faixas do EP NSFW, o vocalista/guitarrista Eric Dangerfield, o baixista Donald Bryant, o guitarrista Christopher ‘Xelan’ Bernard e o baterista Percy ‘PC3’ Crews seguem a tradição do estilo, e falam dos problemas de sua geração de forma hábil, sempre de olho na vivência urbana-suburbana.
- Ouvimos: Madremonte – Neurose (EP)
A poética de NSFW tem bastante a ver com a do Charlie Brown Jr, por sinal: desilusões amorosas, skate no pé, diversão animal, vagas arrombadas de trabalho, maconha, um sistema que só cobra, sensação de despreparo para as demandas arrochantes de um mundo acostumado a tratar os “desajustados” com desdém. O som é bastante parecido com o do Blink-182 e do Green Day – vale dizer que eles já abriram shows do GD e que Travis Barker, batera do Blink, produziu e coescreveu The bender, uma das faixas.
Get the message, na abertura, é amor e luta de classes: o garoto já está de saco cheio de ser visto como um zé-ninguém pela família da namorada e avisa que está vzzando. Do it again fala de bebedeiras, ressaca, festas de arromba e do baita vazio da vida (“eu estou surtando / eu sou tóxico / minha cabeça é um caos mental / TDAH, por que você está me odiando?”).
É por aí que NSFW segue, mostrando um lado mais hard rock em No strings attached e um clima meio xatiado em Do me like that. Já Leave my room é deprê total, leseira total, auto-estima no pé e vontade de nem sair do quarto – pode até ser uma coisa meio geracional, da Geração Z que não sai da internet, mas vale lembrar que o Green Day já falava desse tipo de coisa em 1994. Destaque também para a capa, com o grupo tocando o zaralho num escritório, e para o trocadilho do título (o “not safe for work” indica “conteúdo adulto” que não deve ser aberto no trabalho, mas também pode ser entendido como uma zoeira com a roda-viva do 9 às 17h). Peso, emoção e identidade juntos.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Crítica
Ouvimos: M(h)aol – “Something soft”

RESENHA: Something soft, do grupo irlandês M(h)aol, mistura fragilidade e ruído em canções sobre machismo, medo e violência, com pós-punk tenso, microfonias e vocal intenso.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Merge Records
Lançamento: 16 de maio de 2025
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
É quase impossível você olhar para a capa de Something soft, segundo disco da banda dublinense M(h)aol, e não tomar um baita susto com a possibilidade daquele gato fugir ou se acidentar, por causa da janela sem telas – por outro lado, dá pra dar um sorriso justamente por causa da foto do gato. Essa mistura de fragilidade, peso e ansiedade é a cara da banda e do disco, que trabalha simultaneamente nessas três áreas.
Constance Keane, a baterista e vocalista, vai do sussurro sexy ao horror e ao desespero em poucos minutos. Enquanto isso, ela, ao lado de Jamie Hyland (baixo), Zoë Greenway (baixo) e Sean Nolan (guitarra), enchem as canções de microfonias, distorções e batidas que vão do peso punk ao beat seco, quase maquínico.
- Ouvimos: Deadletter – Existence is bliss
O M(h)aol é uma banda aguerrida e feminista que fala sobre os riscos que as mulheres correm pelo simples fato de saírem na rua (Pursuit), sobre machos “brincalhões” e abusivos (DM: AM, que vai se tornando um monstro de microfonias), sobre o “legado” de pessoas mortas nas redes sociais (You are temporary, but internet is forever), sobre machismo e conservadorismo (no eletropunk Clementine, dos versos “Clementine, doce mãe divina / espere e reze para que encontre um marido / caso contrário, aos olhos da sociedade / você desaparecerá, um prêmio sem valor”).
Já I miss my dog, música de puro ruído guitarrístico, deve ser a música mais pesada e estridente já feita no mundo sobre a saudade de um cachorrinho falecido – você vai se entristecer com a letra e curtir o barulho. O grupo se atira também na no wave sufocante (E8/N16, as transmissões radiofônicas de Vin Diesel, e a curiosa IBS – a sigla significa irritable bowel syndrome, ou a popular “síndrome do intestino irritável”, em português).
Já em Snare, Constance recorda o chorrilho de babaquices que precisou ouvir por ter se tornado uma baterista (“por que não tocar algo suave como piano ou violino? / eu sei agora o que eu não sabia aos nove anos / você está falando besteira e perdendo seu próprio tempo / eu não consigo tocar um violino sem que ele quebre”).
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Crítica
Ouvimos: Cris Braun – “Terno” (EP)

RESENHA: O EP Terno, de Cris Braun, mistura rock, alt-pop e ecos de samba em quatro faixas. O disco passeia por lembranças de Jards Macalé, ecos de Itamar Assumpção e synthpop oitentista.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Poliphonia / Lab 344
Lançamento: 16 de janeiro de 2026
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
Cris Braun uniu vários lados de sua musicalidade num disco de duração bem curta. Terno é um EP de quatro faixas, que une rock, vibes alt-pop e muita coisa herdada do samba. Ela regrava um lado B de Jards Macalé, Meu amor, meu cansaço (do álbum Besta fera, lançado em 2019), numa versão que tem muito do próprio Macalé e de Marina Lima – com um piano lindo e ágil, que harmoniza bem a música. A voz de Cris soa incrível nessa música, por sinal.
- Ouvimos: Mahmundi – Bem vindos de volta
O curioso é que quase tudo em Terno surge sob o signo de Macalé, mesmo quando o som não tem nada a ver com ele – poderiam ser músicas dele altamente retorcidas e modificadas, de certa forma. Olhamor, parceria dela com Fernando Fiuza, lembra não apenas Jards como também Itamar Assumpção – a letra é uma declaração de amor e sexo, valorizada pelo piano e pelas linhas vocais, que têm algo de samba pré-bossa.
Já Eu iria (uma canção bem humorada sobre a vontade de não ir a lugar nenhum) e o ambient instrumental Logun mi respondem pelo lado mais anos 1980 do disco – a primeira soa um pouco próxima da faceta synthpop do Ultravox, e a segunda, em vibe sombria, traz um pouco do começo do Human League.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.


































