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Crítica

Ouvimos: La Dispute – “No one was driving the car”

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La Dispute volta com No one was driving the car: pós-hardcore intenso sobre solidão, IA, envelhecimento e raiva em tempos sombrios.

RESENHA: La Dispute volta com No one was driving the car: pós-hardcore intenso sobre solidão, IA, envelhecimento e raiva em tempos sombrios.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Epitaph
Lançamento: 5 de setembro de 2025

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Dizem por aí que, em 2025, todo mundo imaginava que teria carros voadores, mas tem que se contentar com guerras, crise mundial, covid, racismo, neo-fascismo e outras pragas. A banda norte-americana de pós-hardcore La Dispute vai pelo outro lado da decepção com “o futuro” em seu quinto disco, No one was driving the car, inspirado numa reportagem sobre um acidente violento envolvendo um Tesla com piloto automático, que tinha dois passageiros e não parecia estar sendo dirigido por ninguém.

Antes de mais nada, importante falar que o La Dispute, uma banda do elenco da gravadora Epitaph, foi um dos grupos que correram para que o Turnstile pudesse andar com seu novo álbum, Never enough. Discos anteriores como Rooms of the rouse (2014) e Panorama (2019) mostravam a banda fazendo art-rock com argamassa oscilando entre o emo e o pós-hardcore – quase sempre com letras faladas e gritadas, trazendo o vocalista Jordan Dreyer narrando as faixas em meio a uma sonoridade rompe-ferros.

Uma olhada bem rápida nas resenhas que andam sendo publicadas sobre No one was driving the car mostra que o álbum está sendo visto por aí como se o La Dispute tivesse tentado fazer um filme em formato de álbum. Faz sentido: nas letras, o grupo investe em imagens de dissociação, vulnerabilidade, sofrimento, brigas familiares, relacionamentos marcados pela falsidade, envelhecimento inevitável e a sensação de que os valores nos quais você apostava deram errado. E – detalhe – quase sempre como se a música seguinte explicasse a anterior. Ou como se o disco inteiro, ao final, formasse uma obra tão tortuosa quanto a capa do álbum. E sempre com descrições detalhadas de cenas.

Não custa lembrar que, num papo com a newsletter Last Donut Of The Night, Jordan explicou os temas do disco metendo a mão em cumbucas pesadas de envelhecimento, sensação de falência do negócio da música (e vale lembrar que No one é o primeiro álbum da banda depois da pandemia), inteligência artificial e sobre como as redes sociais estão empurrando todo mundo para a solidão (“a única maneira real de resistir ao isolamento total ou à indiferença é sair de casa e conversar um pouco mais com os vizinhos”, afirma ele).

Boa parte do material do novo álbum é esse isolamento explicitado em letras, música e raiva. Raiva por sinal herdada do lado mais inquieto do pós-punk e até do meta alternativo dos anos 1980, em músicas como I shaved my head, Man with hands and ankles bound, a funkeada Autofiction detail e a apocalíptica Environmental catastrophe film – essa, com oito minutos de peso, e de comentários sobre aqueles momentos em que a vida é desperdiçada e só se segue o rio. Self-portrait backwards une o tom grave de Lou Reed ao peso e à intensidade do grunge. The field, por sua vez, tem tudo para agradar a fãs de bandas como Therapy?.

O lado mais eminentemente pós-hardcore do La Dispute está o fino nas distorções e quebras rítmicas de faixas como Sibling fistfight at mom’s fiftieth / The un-sound, I dreamt of a room with all my friends I could not get in e nos sustos de Top-sellers banquet, uma faixa sobre um estranho banquete de escolhidos pelo sistema, que acaba num estranho clima religioso e esquerdista. Tem também o screamo de Steve, história pesada de acidente e morte. Já Saturaton driver, com clima tenso e misterioso no início, vai se tornando algo quase lynchiano e posteriormente, ruidoso – algo próximo do Sonic Youth, mas numa concepção celestial e noturna. Um álbum repleto de desconfortos.

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Crítica

Ouvimos: Vinícius Tavares – “Zé do Cão – cap. 1” (EP)

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Resenha: Vinícius Tavares – “Zé do Cão – cap. 1” (EP)

RESENHA: Em Zé do Cão cap. 1, Vinícius Tavares une rap, coco e dub num retrato maquínico do Agreste pernambucano entre protesto, tradição e futuro.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Facção de Arte
Lançamento: 1 de maio de 2026

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“A música que faço é ligada ao território em que vivo. Toritama é a menor cidade de Pernambuco em termos de espaço, mas abriga, junto com outras cidades do Agreste, o maior pólo da indústria têxtil brasileira. Ao mesmo tempo em que vemos o desenho das serras na paisagem, também estamos constantemente em contato com esse maquinário produtivo e com um fluxo intenso de pessoas que passam por aqui cruzando o estado”.

Quem diz isso é Vinícius Tavares, músico, cantor e compositor natural de Toritama (170 km de distância de Recife), e cujo som surge como uma mistura de organicidade, história e máquina. Zé do Cão cap. 1 cita o personagem interpretado por José Pimentel no filme A noite do espantalho, de Sérgio Ricardo (1974, filme que trouxe Alceu Valença como ator e autor da trilha sonora) e embarca num rap + coco + repente em suas sete faixas, que soam como atualização da psicodelia nordestina de Zé Ramalho e Lula Côrtes, ou como rapsódias de um país constantemente assediado por ideologias tortas, e no qual diversão, protesto e existência andam lado a lado.

  • Ouvimos: Tangolo Mangos – Pedágios y caronas

Essa onda ganha cadência de reggae em Deus é brasileiro e o cão também, mergulha no eletrococo em Cavalo do cão, migra para o dub nordestino em Na fulô ronca o besouro e volta para o Nordeste maquínico em Vai cair corisco, com Jessica Caitano, e Vende-se coisa bonita, com Virginia Guimarães – música em que Vinicius cita Mundo Livre S/A e canta que “computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro”, mas que “dinheiro faz o artista fazer computador”.

Há um quê de funk nas duas músicas finais – a eletrônica e cerimonial Música de bailinho e o batidão Bota ideia Zé. Tudo apontando para um Brasil cercado de máquinas e ideias, e que inventa a si próprio.

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Crítica

Ouvimos: Erasmo Carlos – “Mano”

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Resenha: Erasmo Carlos - “Mano”

RESENHA: Mano reúne rappers ótimos com Erasmo Carlos, mas falta ousadia: algumas releituras funcionam, mas uma parte boa soa reverente demais.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 6
Gravadora: Universal Music Brasil
Lançamento: 22 de maio de 2026

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É muito ruim escutar um disco de releituras, reimaginações ou retrabalhos post-mortem em que o original foi horrivelmente estragado – exemplos não faltam. Em pior situação está quem ouve um disco desses esperando um pouco mais de ousadia ou até um sacrilégio que grude no ouvido e acabe agradando, mas encontra convidados tímidos e/ou reverentes demais.

Mano, o disco que une Erasmo Carlos e nomes conhecidos do rap, reúne uma galera ótima: Marcelo D2, Xamã, Budah, Emicida, Criolo, Tasha & Tracie, Rael, Dexter, Tássia Reis, Criolo. O álbum oficializa coisas que todo mundo já sabia: o repertório de Erasmo nos anos 1970 sempre foi perfeito para samplear, e disco como Carlos, Erasmo (1971) e 1941-1972: Sonhos e memórias (1972) eram precursores em estilos de música que até hoje não foram devidamente documentados. Lá, tem jazz com trip hop, soft rock e samba-rock, hard rock latino, MPB-pop para ouvir a bordo de um skate (o ritmo sinuoso de Mundo cão)… Coisas que se bobear, não podem ser ouvidas no som de mais nenhum artista, só lá.

Da turma selecionada para Mano, uma parte parece ter sentido o drama e ficado meio amedrontada com a responsabilidade: Dexter (Mundo cão), Budah (Cachaça mecânica) e Xamã (Sábado morto) não fizeram muita coisa além de acrescentar versos nos originais – que ganharam um banho de loja hip hop, vá lá. Por causa dos acréscimos, as músicas ganharam subtítulos (respectivamente, no caso dessas três, Quem é herói ou vilão?, Queimando tudo dentro e Eu enquanto pássaro).

Maria Joana, com Marcelo D2, vale mais pelo remix reggae feito na faixa, que dá uma baita ambiência aos backing vocals do original. Mas nem a vibe conceitualmente correta, que acrescentou o subtítulo Pra que as trevas destravem, ajudou muito – D2 soa mais como um enxerto do que como um convidado. De ótimo em Mano, tem Emicida, que foi parceiro de Erasmo, sentindo-se à vontade justamente em É preciso dar um jeito, meu amigo (A vida irrita a arte) – aliás a voz do rapper, acompanhado pelo Tropkillaz, surge até antes do cantor. E Tássia e Criolo fazendo uma reforma em Gente aberta (Imensamente visceral).

Num universo de oito faixas, metade acaba engrenando, porque Tasha e Tracie dão um ar brincalhão a Grilos (subintitulada O tempo é amigo e inimigo) e enchem a música de estilo. E Rael moderniza Sorriso dela, que ganha ares de trap romântico com o nome Não tem pra ninguém. Ouça como dever cívico, mas o que falta a Mano são justamente aquelas remexidas que deixam os puristas putos da vida.

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Ouvimos: Spouses – “I could be your dog”

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Resenha: Spouses - “I could be your dog”

RESENHA: Em I could be your dog, Spouses mistura folk intimista, lo-fi e ruído no disco de estreia, indo de folk a la Paul Simon ao shoegaze e aos experimentalismos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Kalfhölt Records
Lançamento: 22 de maio de 2026

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Vindo da Inglaterra, onde morou por vários anos – chegou a ser aluno do Liverpool Institute for Performing Arts (LIPA), fundado por Paul McCartney – o músico canadense Joel Durksen acabou migrando pra zona rural da Islândia, onde montou o Spouses, basicamente um projeto intimista e de uma pessoa só, que vem lançando singles desde 2025. Beth, o single mais recente, tem cara de Paul Simon: é uma composição romântica, tranquila, com vocais e violões intimistas e trabalhados. Mas lembra também Whitney e grupos parecidos.

Não é a única cara do Spouses, que estreia com o álbum I could be your dog, dividindo canções em inglês e vinhetas em islandês, e dando espaço tanto para o lado alt-folk de Dursken, quanto para sua faceta lo-fi e ruidosa. Faixas como Crutch, mesmo dando espaço para sons acústicos, chegam perto do shoegaze e de uma salada de ruídos eletrônicos. Bem diferente do clima pastoril de Beth, que mesmo assim é bem baixa-fidelidade (soa como se viesse de uma fita que vai se deteriorando e ganha glitches no fim).

Entre um polo e outro, tem a folktronica de Choke (que chega a lembrar The Coral) e da invernal Saint Christophe. Fish hook soa como Smashing Pumpkins em formato acústico, de voz e violão no quarto, até ganhar guitarra, baixo, bateria e clima psicodélico – além de uma onda ruidosa, como numa transmissão que vai sendo desligada. O indie rock mágico Splinter e a tristeza acústica e fantasmagórica de Lazurus encerram a ótima estreia do Spouses.

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