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Crítica

Ouvimos: Ho99o9 – “Tomorrow we escape”

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Ho99o9 lança Tomorrow we escape, punk-rap brutal que mistura vingança, autoconhecimento, caos urbano e colaborações explosivas.

RESENHA: Ho99o9 lança Tomorrow we escape, punk-rap brutal que mistura vingança, autoconhecimento, caos urbano e colaborações explosivas.

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Não existe nada na obra na dupla de punk-rap Ho99o9 que não seja intenso, pesado e assustador. TheOGM e Yeti Bones estão nessa justamente para meter medo, enfrentar, assustar, e lembrar que racistas e fascistas vão levar o troco deles. Tomorrow we escape, o terceiro disco, traz micropontos de autoconhecimento em meio ao ódio e à vingança, e espalha pílulas de tristeza e iluminação em sons pesados e aterradores.

Escape, rap com vibração entre punk e metal, traz Yeti exortando: “diga do fundo do peito: / sim, eu me sinto vivo”. Psychic jumper, soul-rap de terror, avisa que “consegui escapar, mas ainda estou lidando com o trauma” – sinal de que, ao contrário do que já aconteceu em vários momentos da música de protesto e do próprio rap, os sobreviventes da guerra urbana sabem exatamente onde caminharam por vários anos. I miss home, rap feito de ruídos e de glitch, abre o disco avisando que “a solução é o autoconhecimento / porque uma vez que você se conhece, sabe quem você é / sabe de onde você veio, sabe do que você é capaz de fazer / você fará todas as coisas de acordo com quem você é”.

Esse clima de “o punk-rap de terror vai à terapia” não domina 100% de Tomorrow we escape. Mas mostra sentimentos de vingança convivendo com outros tipos de sentimentos – e com uma noção de “amanhã” que propicia músicas como a celestial Immortal. Nessa, o Ho99o9 divide espaço com a cantora de metal Chelsea Wolfe, e solta versos venturosos em cima de uma base que parece sampleada de Space oddity, de David Bowie: “beije sua mãe, abrace seu pai (…) / proteja seus filhos, alimente a juventude, olhos bem abertos, diga a verdade”.

  • Ouvimos: Firefriend – Blue radiation / Fuzz
  • Ouvimos: Flor ET – Brazapunk
  • Ouvimos: Mateus Fazeno Rock – Lá na zárea todos querem viver bem

E chega porque, em se tratando do Ho99o9, o negócio é ver a porrada comer bonito. Target pratice tem batidão sombrio, lembrando um Depeche Mode metal, com letra citando vários artistas na letra (de Madonna e Drake a Tommy Lee, do Mötley Crüe) e tirando uma da cara do mercado fonográfico (“que sorte a minha / outra gravadora me dizendo o que é um sucesso”). Há evocações de Ministry em faixas como OK, I’m reloaded e no hardcore-jungle de Tapeworm, com participação de Greg Puciato (The Dillinger Escape Plan) – mas o Ho99o9 consegue ganhar dessa turma no próprio jogo deles, no rapcore nervoso de Godflesh.

Além disso, sobram recados bem dados e muita revolta em faixas como Incline (com as Nova Twins) e LA riots. Nessa última, Yeti Bones repete que “vingança eu quero, vingança eu preciso / vingança eu cheiro, vingança eu sangro” e denuncia a limpeza social e étnica de Los Angeles avisando que “isso vai limpar sua área / eles vão tentar nos enterrar”. Vingança e caos com método.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Deathkult / Last Gang
Lançamento: 9 de setembro de 2025.

Crítica

Ouvimos: Ed O’Brien – “Blue morpho”

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Resenha: Ed O'Brien - "Blue morpho"

RESENHA: Ed O’Brien mistura prog, psicodelia e influências brasileiras em Blue morpho, disco introspectivo que supera expectativas sobre sua carreira solo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Trangressive Records
Lançamento: 22 de maio de 2026

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Já vi gente comparando a carreira solo de Ed O’Brien, guitarrista do Radiohead, às “crises de diarreia” solo de George Harrison fora dos Beatles – calma aí, né? Não dá pra comparar uma coisa com a outra de jeito algum, nem Thom Yorke é um gênio do rock como John Lennon e Paul McCartney. Pode ser que, ao adotar uma vibe meio zabelê para seu novo disco solo, Blue morpho, Ed esteja trabalhando na cabeça de fãs e crítica uma imagem “espiritualizada” que ele quer que funcione como a de Harrison.

Aí é com ele. Blue morpho, basicamente um disco progressivo, surgiu de matutações e depressões durante a pandemia, e tem entre suas inspirações, uma frase do poeta e agricultor Wendell Berry (“para conhecer a escuridão, vá até ela”) e as práticas de respiração e exposição ao frio do palestrante motivacional holandês Wim Hof. O som do álbum é frio e até meio sombrio – mas parece uma sombra que você procura, nada a ver com as trevas que aparecem na vida de vez em quando.

  • Ouvindo: Modest Mouse – An eraser and a maze

As faixas surgem da simplicidade e da repetição, e vão crescendo aos poucos, como acontece com Incantations, na abertura, e Sweet spot – esta, algo entre O Terço e as passagens de violão do Pink Floyd, encerrando com um clima meio cigano no arranjo de cordas. Mas Blue morpho vai seguindo todo trabalhado na exuberância, em músicas como a faixa-título, um monolito orquestral de seis minutos (e que, só pra ficar no prog verde-e-amarelo, lembra demais Milton Nascimento e Lô Borges, por sinal). A psicodélica Teachers tem pegada funkeada e clima “tóinnnn” na onda de bandas como Gong e Can.

O terço final de Blue morpho abre com Solfeggio e Thin places, músicas curtas, simples e instrumentais, trabalhadas tanto no progressivo quanto no post rock, mas que soam mais como fillers perigosos num disco de apenas sete músicas. A surpresa no final são os dez minutos de Obrigado, homenagem de Ed ao tempo em que viveu com a esposa e os filhos no Brasil, numa região rural próxima a Ubatuba (SP). Um simpático ijexá de gringo, herdado diretamente de Caetano Veloso (sim, a voz de Ed faz lembrar), e com algumas palavras em português – e que ganha pinkfloydismos no final.

Radiohead não é Beatles, Ed não é George Harrison, mas Blue morpho desce bem e soa bem mais interessante do que a atenção desmedida aos passos confusos de Thom Yorke.

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Crítica

Ouvimos: Big Special – “O’JOY!” (EP)

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Resenha: Big Special – “O’JOY!” (EP)

RESENHA: Em O’JOY!, o Big Special explora sombras, poesia falada e experimentalismos, ampliando o som ácido e inquieto do duo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: SO Recordings / Silva Screen Records
Lançamento: 5 de junho de 2026

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No excelente álbum National average, lançado ano passado, o Big Special soava como um EMF (lembra deles?) que entrou em órbita, ou como um desdobramento da receita doidona do selo Food, na virada dos anos 1980 para os 1990 – falamos exatamente isso quando resenhamos o disco. Agora chegou a hora de dar uma arrumada de respeito na casa: O’JOY! é um EP tamanho quase-família (dez músicas, meia hora de duração) em que Joe Hicklin e Callum Moloney dão uma reaproveitada no que não coube nos álbuns.

O material não coube pelas mais diversas razões – mas o Big Special não faz questão de facilitar nada pra ninguém e faz do disco um depositário de sombras e experimentalismos. Rola na poesia falada de ** e Only free when sleeping (essa, um soul gélido sobre bilionários cada vez mais bilionários), no funk-pós-punk de Plaintive native (cujo tema é a falta de esperanças, além do fim do mundo à vista), no folk punk de Lazarus e em todo o disco, que traz um design bem mais experimental que o álbum anterior.

Tanto que faixas como The wake e Family bones trazem sons como cenário – o que se desenvolve aí é a poesia crua e bem ácida do duo, sempre apontando para os momentos em que a humanidade parece virar geleia. Garden of fools é um ambient que aponta para um “ambiente” em que ninguém adoraria estar (“então continuamos atirando e semeando joias / para fazer brotar um jardim próspero de tolos / ao redor dos antigos túmulos / onde enterramos nossas ferramentas / depois que nos tiraram as mãos e a razão”).

Faixas como Slug life e Dragged up a hill são bem inesperadas – aliás, bem mais sérias, musicalmente falando, do que que tudo que o Big Special lançou até hoje, com belezas percussivas ou meditativas. O’JOY! vale como curtição, mas é um momento bem diferente na vida do duo.

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Crítica

Ouvimos: Tooth – “Restless in bloom” (EP)

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Resenha: Tooth – “Restless in bloom” (EP)

RESENHA: Punk, garage e pós-hardcore se cruzam no EP de estreia do Tooth, que entrega músicas intensas, sinceras e cheias de energia juvenil.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Soil To The Sun
Lançamento: 12 de junho de 2026

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Uma banda que se define como “suada e promissora”… Bom, seja lá o que queira dizer isso, o Tooth – autores aí da tal definição – se mostram exatamente isso em seu primeiro EP, Restless in bloom. Basicamente o som deles é punk e garage rock, herdado tanto do punk rock quanto do indie dos anos 2000, mas com uma tendência a surfar em torno dos ritmos. Ou seja: tem uma onda pós-hardcore sendo surfada por eles, igualmente.

  • Ouvimos: Sorosoro – Eu e você ou Tudo que eu não quero que você saiba

Rola logo na primeira faixa, Schoolyard, uma lembrança de tempos idos, reconhecendo que “a cidade engoliu a gente e cuspiu de volta”. O Tooth ainda margeia o pós-punk no arranjo funkeado e garageiro de The age of innocence, música falando de dores e traumas pessoais. Wallflower e Medicine chegam perto do emo, assumido como um dos estilos pelos quais a banda passa no disco.

A faixa-título, no final, une punk e power pop em torno de uma letra que, basicamente, fala sobre a chegada ao mundo adulto – o eterno “tenho 18 anos e não sei o que quero da vida”, que sempre rende música e letra. O Tooth promete mesmo, e tem muita verdade no som.

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