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Crítica

Ouvimos: Borealis – “Lostwaves”

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No novo disco Lostwaves, o Borealis mistura shoegaze, dream pop e rock britânico em faixas cheias de ironia, psicodelia e referências noventistas.

RESENHA: No novo disco Lostwaves, o Borealis mistura shoegaze, dream pop e rock britânico em faixas cheias de ironia, psicodelia e referências noventistas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Scream & Yell
Lançamento: 29 de agosto de 2025

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Músico e jornalista, Marco Antonio Barbosa criou o Borealis de forma experimental, como um projeto caseiro feito no computador. Lostwaves, novo disco do Borealis, soa um pouco mais acessível que os outros álbuns do projeto – até por mexer numa sonoridade que está em evidência, e que vem sendo usado como template até para produções de maior alcance (tá aí o disco do Wisp, shoegaze feito em clima de superprodução, que não me deixa mentir).

A capa de Lostwaves traz uma print de uma matéria chamada “O que aconteceu com o shoegaze?”, publicada em setembro de 1992 pela Melody Maker. Era uma reportagem que aproveitava o gancho do primeiro álbum da guitar band britânica Moose para perguntar se haveria sobrevivência numa cena secreta, que parecia existir apenas porque os músicos jogavam confete uns nos outros (a famosa “cena que celebra a si própria”) e se contentavam com público restrito.

  • Ouvimos: Beige Walls And No Roof – Dual liquid hands

Ironicamente, o Moose mal chegaria ao século 21, e hoje mal é lembrado como influência ou referência – por outro lado, as demais bandas entrevistadas (Idlewild, Telescopes e nada menos que o Blur) ainda circulam por aí e deixaram um legado que dá pra ver de longe. Essas contradições, tão comuns em estilos associados ao underground, acabam marcando Lostwaves, dividido em um lado “gaze” e um lado “shoe”. O primeiro lado tem clima de dream pop sujo, com teclados voando e música quase formando uma imagem distorcida no ar, como rola em Celebrates itself, Sleep apnea e Sad & sorry scene. I’m thinking of ending things, por sua vez, soa como um trecho do Metal machine music (disco de Lou Reed, 1975) com um beat leve.

O lado “shoe” é mais associável ao rock britânico dos anos 1980/1990, com Rise again trazendo algo que lembra Cabaret Voltaire, Baggy! (Police disco lights) recordando a união disco-rock-rap e Play 2 press unindo referências de Primal Scream, Inspiral Carpets e Stone Roses – embora haja um sample da bateria inicial de Smells like teen spirit, do Nirvana. A extensa Loveyoutoo põe psicodelia e dança hipnótica na receita. Já a impagável 365 day party people une a loucura de Manchester em 1988 ao ritmo da Macarena.

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Crítica

Ouvimos: The Paradox – “NSFW” (EP)

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O EP NSFW, do The Paradox, traz punk pop nervoso à la Blink-182 e Green Day, com letras sobre frustrações, festas, trabalho ruim e ansiedade.

RESENHA: O EP NSFW, do The Paradox, traz punk pop nervoso à la Blink-182 e Green Day, com letras sobre frustrações, festas, trabalho ruim e ansiedade.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Hundred Days Records
Lançamento: 19 de setembro de 2025

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Falar que The Paradox é uma banda “punk pop negra” é chamar atenção para um fato (os caras são tão esporrentos quanto o Blink-182 e são uma banda formada por quatro afro-americanos), só que de maneira completamente inadequada. Nas seis faixas do EP NSFW, o vocalista/guitarrista Eric Dangerfield, o baixista Donald Bryant, o guitarrista Christopher ‘Xelan’ Bernard e o baterista Percy ‘PC3’ Crews seguem a tradição do estilo, e falam dos problemas de sua geração de forma hábil, sempre de olho na vivência urbana-suburbana.

  • Ouvimos: Madremonte – Neurose (EP)

A poética de NSFW tem bastante a ver com a do Charlie Brown Jr, por sinal: desilusões amorosas, skate no pé, diversão animal, vagas arrombadas de trabalho, maconha, um sistema que só cobra, sensação de despreparo para as demandas arrochantes de um mundo acostumado a tratar os “desajustados” com desdém. O som é bastante parecido com o do Blink-182 e do Green Day – vale dizer que eles já abriram shows do GD e que Travis Barker, batera do Blink, produziu e coescreveu The bender, uma das faixas.

Get the message, na abertura, é amor e luta de classes: o garoto já está de saco cheio de ser visto como um zé-ninguém pela família da namorada e avisa que está vzzando. Do it again fala de bebedeiras, ressaca, festas de arromba e do baita vazio da vida (“eu estou surtando / eu sou tóxico / minha cabeça é um caos mental / TDAH, por que você está me odiando?”).

É por aí que NSFW segue, mostrando um lado mais hard rock em No strings attached e um clima meio xatiado em Do me like that. Já Leave my room é deprê total, leseira total, auto-estima no pé e vontade de nem sair do quarto – pode até ser uma coisa meio geracional, da Geração Z que não sai da internet, mas vale lembrar que o Green Day já falava desse tipo de coisa em 1994. Destaque também para a capa, com o grupo tocando o zaralho num escritório, e para o trocadilho do título (o “not safe for work” indica “conteúdo adulto” que não deve ser aberto no trabalho, mas também pode ser entendido como uma zoeira com a roda-viva do 9 às 17h). Peso, emoção e identidade juntos.

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Crítica

Ouvimos: M(h)aol – “Something soft”

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Something soft, do trio irlandês M(h)aol, mistura fragilidade e ruído em canções sobre machismo, medo e violência, com pós-punk tenso, microfonias e vocal intenso.

RESENHA: Something soft, do grupo irlandês M(h)aol, mistura fragilidade e ruído em canções sobre machismo, medo e violência, com pós-punk tenso, microfonias e vocal intenso.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Merge Records
Lançamento: 16 de maio de 2025

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É quase impossível você olhar para a capa de Something soft, segundo disco da banda dublinense M(h)aol, e não tomar um baita susto com a possibilidade daquele gato fugir ou se acidentar, por causa da janela sem telas – por outro lado, dá pra dar um sorriso justamente por causa da foto do gato. Essa mistura de fragilidade, peso e ansiedade é a cara da banda e do disco, que trabalha simultaneamente nessas três áreas.

Constance Keane, a baterista e vocalista, vai do sussurro sexy ao horror e ao desespero em poucos minutos. Enquanto isso, ela, ao lado de Jamie Hyland (baixo), Zoë Greenway (baixo) e Sean Nolan (guitarra), enchem as canções de microfonias, distorções e batidas que vão do peso punk ao beat seco, quase maquínico.

  • Ouvimos: Deadletter – Existence is bliss

O M(h)aol é uma banda aguerrida e feminista que fala sobre os riscos que as mulheres correm pelo simples fato de saírem na rua (Pursuit), sobre machos “brincalhões” e abusivos (DM: AM, que vai se tornando um monstro de microfonias), sobre o “legado” de pessoas mortas nas redes sociais (You are temporary, but internet is forever), sobre machismo e conservadorismo (no eletropunk Clementine, dos versos “Clementine, doce mãe divina / espere e reze para que encontre um marido / caso contrário, aos olhos da sociedade / você desaparecerá, um prêmio sem valor”).

I miss my dog, música de puro ruído guitarrístico, deve ser a música mais pesada e estridente já feita no mundo sobre a saudade de um cachorrinho falecido – você vai se entristecer com a letra e curtir o barulho. O grupo se atira também na no wave sufocante (E8/N16, as transmissões radiofônicas de Vin Diesel, e a curiosa IBS – a sigla significa irritable bowel syndrome, ou a popular “síndrome do intestino irritável”, em português).

Já em Snare, Constance recorda o chorrilho de babaquices que precisou ouvir por ter se tornado uma baterista (“por que não tocar algo suave como piano ou violino? / eu sei agora o que eu não sabia aos nove anos / você está falando besteira e perdendo seu próprio tempo / eu não consigo tocar um violino sem que ele quebre”).

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Ouvimos: Cris Braun – “Terno” (EP)

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O EP Terno, de Cris Braun, mistura rock, alt-pop e ecos de samba em quatro faixas. O disco passeia por lembranças de Jards Macalé, ecos de Itamar Assumpção e synthpop oitentista.

RESENHA: O EP Terno, de Cris Braun, mistura rock, alt-pop e ecos de samba em quatro faixas. O disco passeia por lembranças de Jards Macalé, ecos de Itamar Assumpção e synthpop oitentista.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Poliphonia / Lab 344
Lançamento: 16 de janeiro de 2026

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Cris Braun uniu vários lados de sua musicalidade num disco de duração bem curta. Terno é um EP de quatro faixas, que une rock, vibes alt-pop e muita coisa herdada do samba. Ela regrava um lado B de Jards Macalé, Meu amor, meu cansaço (do álbum Besta fera, lançado em 2019), numa versão que tem muito do próprio Macalé e de Marina Lima – com um piano lindo e ágil, que harmoniza bem a música. A voz de Cris soa incrível nessa música, por sinal.

  • Ouvimos: Mahmundi – Bem vindos de volta

O curioso é que quase tudo em Terno surge sob o signo de Macalé, mesmo quando o som não tem nada a ver com ele – poderiam ser músicas dele altamente retorcidas e modificadas, de certa forma. Olhamor, parceria dela com Fernando Fiuza, lembra não apenas Jards como também Itamar Assumpção – a letra é uma declaração de amor e sexo, valorizada pelo piano e pelas linhas vocais, que têm algo de samba pré-bossa.

Eu iria (uma canção bem humorada sobre a vontade de não ir a lugar nenhum) e o ambient instrumental Logun mi respondem pelo lado mais anos 1980 do disco – a primeira soa um pouco próxima da faceta synthpop do Ultravox, e a segunda, em vibe sombria, traz um pouco do começo do Human League.

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