Crítica
Ouvimos: Benson Boone – “American heart”

RESENHA: Benson Boone junta ideias pop em American heart, mas o disco soa como colagem apressada, com altos, baixos e pouca direção.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 5
Gravadora: Night Street/Warner
Lançamento: 20 de junho de 2025
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“Meu disco é uma colagem das minhas referências”, “meu disco é uma colcha de retalhos”, “meu disco é um relato das minhas influências” e outras frases-padrão. Sei lá se alguma delas foi dita pelo norte-americano Benson Boone em alguma das entrevistas que deu para divulgar seu segundo disco, American heart, mas poderia ter sido. O novo álbum de Benson parece uma lista de coisas que geralmente dão certo no universo pop, unida com cola-tudo.
Justiça seja feita: Benson tem boa estampa, um vozeirão, é bom performer de palco, e faz (muito) sucesso. Young american heart, a quase-faixa-título, é boa: une soul, r&b e pop grandiloquente das antigas. E é um das raras faixas que soam coesas em American heart, um disco no qual Benson e sua turma levaram a sério a ideia de colagem sonora. Tanto que quase todo o álbum é formado por faixas que soam como filmes divididos entre bons momentos, partes enfadonhas e forçações de barra.
O padrão em American heart é: 1) abertura com teclados em vibe de flashback (numa lista de recordações que vai de Electric Light Orchestra a Kraftwerk, passando por Giorgio Moroder e Supertramp); 2) linhas vocais que variam entre emo, r&b, pop romantiquinho na onda do Maroon 5, gospel (Benson vem de família mórmon) e alguns scats para dar uma cláusula de “antiguidade”; 3) letras com vibração romântica, resvalando na pieguice.
Em faixas como Sorry I’m here for someone else, Man in me e Mystical magic, a coisa até que anda. Mas músicas como Mr. Electric Blue, I wanna be the one you call, Take me home e Momma song, dá a impressão de que prompts mal escritos geraram a musicalidade do álbum, além das atuações de Benson – um cantor cuja voz parece muito mal aproveitada e mal dirigida. Parece música feita não por compositores, mas por coaches de empreendedorismo musical.
Pode ser a turma com quem ele anda, pode ser uma certa falta de maturidade de quem ainda está no começo, mas algo em American heart diz que o próprio Benson já deve ter feito uma lista do que deu errado em seu segundo disco. Só vendo se fez mesmo, ou se o sucesso fácil tá bom pra ele.
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Crítica
Ouvimos: John Densmore + Chuck D – “Do + PE: No country for old men”

RESENHA: John Densmore e Chuck D unem rock, rap, funk e spoken word em álbum criativo que reflete sobre envelhecer sem perder a liberdade.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Org Music
Lançamento: 22 de maio de 2026
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Você sabia que John Densmore, baterista do Doors, e Chuck D, do Public Enemy, tinham uma ligação? Se não sabia, relaxe: muita gente não sabia, e Do + PE: No country for old men, é uma surpresa daquelas. Mais do que um disco que mistura rock e rap, é um disco que exibe o lado funky de Densmore, largamente explorado na época dos Doors – o último álbum da banda, L.A. woman (1971), não teria sido feito sem isso.
- Ouvimos: Public Enemy – Black sky over the projects: Apartment 2025 / Chuck D – Chuck D presents Enemy Radio: Radio Armageddon
Every tick tick tick tem até guitarras num clima bem 70’s (da pra lembrar de bandas como Traffic), e No country for old men, vai para uma onda reggae-rock brincalhona – emoldurando uma letra, rappeada pela dupla, que fala sobre envelhecer sem submissão (“a estrada longa tem uma vista maior / já tive a sua idade / procure as pegadas”), mas reconhece que as mudanças não são as mesmas para todos (“todo mundo envelhece / mas nem todo mundo amadurece”). Doomsay é rap com blues-rock à J.J, Cale, enquanto The bones of my father relembra o texto do poeta afro-americano Etheridge Knight, narrado e percutido por Densmore (com Alan Bruggeman completando a percussão).
O material de Do + PE também transforma Chuck D num artista de spoken word, mais até do que um sujeito do hip hop, graças à narração minuciosa e poética de faixas como o jazz soul autoafirmativo Love that I don’t love e a psicodélica People are strangers – nessa de referências aos Doors, o álbum tem ainda o samba-rap sinistro Breakthru, em que John reproduz a bateria do hit Break on through, mas com outra melodia. Vibes mais próximas do Public Enemy, por sua vez, surgem em faixas como Ops3ssion, enquanto Everybody dies fala sobre envelhecer, viver e morrer na estrada, com trechos de The end, dos Doors, narrados por Densmore. Um disco muito, mas muito especial.
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Crítica
Ouvimos: Clau Aniz – “Mácula”

RESENHA: Em Mácula, Clau Aniz mistura MPB experimental, krautrock, ambient e post rock em um disco visual, intenso e repleto de invenções sonoras.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Mercúrio Música
Lançamento: 1 de junho de 2026
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Classificar o segundo álbum da cearense Clau Aniz como “MPB” é deixar de lado boa parte da diversão. Mácula é um disco de música experimental brasileira e nordestina, na maior parte do tempo. Só que ele vai chegando perto de estilos como krautrock e post rock, e de viagens sonoras que parecem mais coisa do Faust e do Neu!.
Autora de trilhas para o cinema, Clau Aniz criou basicamente um cinema musicado em Mácula, já que se trata de uma música bastante visual, com letras em que a insegurança e a toxicidade são arrancadas à força. Como em Ressaca, som voador, eletrônico e experimental em que Clau avisa que “a aspereza da tua presença não me comove mas / eu matei minhas crenças pra ser teu cais (…) / afoguei cada pedaço meu que te amava”. Palavra une flautas e beats, Minha casa ardendo em mim é post rock abrasileirado, e Rubra, pedra e cal é uma valsa nativa e pesada, com guitarras, percussões, bateria circular e imagens fortes na letra.
Mácula tem pelo menos uma faixa, Harsh, em que o ritmo parece dançar em torno da música, como algo criado no momento. E olhar de longe as brasas que dançam na superfícies é ambient brasileiro, com guitarras com saturação, synths, ruídos de fita, percussões, sopros e várias lembranças envolvidas. A faixa-título migra para o synth-não-pop, enquanto Iuá uru une efeitos especiais orgânicos e eletrônicos, com Clau falando sobre uma solidão criativa, da qual ninguém precisa ser salva. Uru iuá, a continuação, tem drone apitando e clima de kraut blues.
No geral, Mácula traz uma música que dá mostras de ter sido vivida antes de ser composta. E que precisa ser sentida enquanto é ouvida.
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Crítica
Ouvimos: Swallow – “Blow” (relançamento)

RESENHA: Swallow: estreia cult marcada por conflitos com a 4AD ganha reedição e revela um som entre shoegaze, psicodelia e melodia refinada.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: 4AD
Lançamento: 5 de junho de 2026
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Poucos discos excelentes foram marcados por mais insatisfação do que Blow (1992), estreia do duo Swallow, formado por Mike Mason e pela angelical vocalista Louise Trehy. Um papo recente dos dois com a newsletter First Revival mostra que nem sempre a união de artistas novos com selos indies resulta em felicidade: a dupla foi contratada pela 4AD assim que já tinha uma demo pronta, gravou Blow pensando numa estética próxima do que seria chamado de shoegaze (climas etéreos, guitarras ruidosas, clima sonhador) mas acabaram se chateando com a direção dada pelo produtor John Fryer (Depeche Mode, Cocteau Twins, Nine Inch Nails) e com as ideias de Ivo Watts-Russell (chefão da 4AD).
Para começar, Mike e Louise trabalhavam juntos há apenas quatro meses (!) antes de gravar o álbum – a experiência de estúdio dos dois “enquanto banda” era gravar tudo em máquinas caseiras e olhe lá. A direção dada pela 4AD aumentou músicas, mudou andamentos, tirou boa parte da vibe lo-fi das demos e pôs baixos no que antes era só guitarra e bateria eletrônica. Houve quem achasse o Swallow uma mistura de Cocteau Twins e My Bloody Valentine e nada mais do que isso – mas tem uma turma enorme que cultua a beleza atmosférica de músicas como Lovesleep, Tastes like honey, Mensurral e Oceans and blue skies até hoje. Na época, a revista Select fez piada com a suposta conotação sexual do nome da banda e do disco.
- Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”
Era cedo demais para o Swallow gravar, mas talvez fosse complexo demais para a 4AD aceitar que ali havia informação nova demais até para o selo que tinha lançado Throwing Muses, Dead Can Dance, Cocteau Twins e Pixies. Tem muita banda hoje em dia que faz exatamente o que o Swallow fazia em 1992, e que se bobear nunca nem escutou o som deles – assim como muita gente tenta fazer, mas não tem o domínio melódico que eles sempre tiveram. Seja como for, a insatisfação foi tamanha que, poucos meses após a estreia, a 4AD deixou que eles remixassem algumas músicas do álbum, que saíram num disco chamado Blowback.
A história do Swallow inclui ainda um EP pela Rough Trade em 1994, além de uma promessa de álbum pelo selo, que não foi concretizada porque a gravadora estava sem grana. Blow, assim como o disco de remixes Blowback, acabaram de ser reeditados com novas mixagens e alguns acréscimos (além de um pacote em vinil com os dois discos, Blown). E mostram que muita coisa que a banda tinha feito nos álbuns era até mais herdeira do Jesus and Mary Chain do que do Cocteau Twins – a própria Louise, por sinal, diz que não cantava igual ao clima “voz de anjo” que agradava à 4AD, e possivelmente a gravadora se deixou levar por um viés de percepção. A misteriosa Cherry stars collide, por exemplo, tem mais a ver com os vocais sofridos de Bjork.
Muita coisa no Swallow, por sinal, era bem mais psicodélica do que propriamente dream pop, como dá para perceber em faixas como Follow me down e Head in a cave, mais próximas da lascação pré-shoegaze do Ride. Complementando, Blow ganhou uma faixa-título, que tinha sido começada em 1992 e foi finalizada só agora, com um estranho clima progressivo na melodia, além de inclinações para o dub. Tudo muito lindo e pronto para ser descoberto, ou redescoberto.
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