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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Boy, estreia do U2

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A audição de I will follow, faixa de abertura de Boy (1980) estreia do U2, já indicava que se tratava de uma banda especial. Mais ainda: o U2 mostrava-se uma daquelas bandas que, ame ou odeie, mexia com qualquer ouvinte. Não havia nada ali que não tinha sido colocado para mexer com parte específicas das emoções e da mente das pessoas. Tinha Bono gritando “i will follow!” na abertura, o tilintar no refrão, o rufar dos tambores logo na introdução, a guitarra econômica de The Edge, a boa cozinha de Larry Mullen Jr (bateria) e Adam Clayton (baixo).

Várias coisas que você já sabia sobre Boy, estreia do U2

Havia também em Boy religião como subtexto, como busca pessoal, não exatamente como fator de conversão do ouvinte. Isso já indicava que qualquer pessoa poderia se identificar com aquela proposta. E reforçava a ideia básica de que o U2, antes de qualquer coisa, queria mesmo era ser uma banda amada por todo mundo. Como, aliás, várias testemunhas do começo da banda afirmam. Isso, por mais que o U2 viesse de um país pouco afeito a paradas de sucesso, e ainda por cima, fizesse rock numa época em que o estilo não se misturava ao pop. Ainda assim, o quarteto construiu pontes que duram até hoje, e não são poucos os fãs que dizem que o melhor disco da banda saiu há quarenta anos.

E esse é o nosso relatório sobre Boy, que fez 40 anos mês passado. Leia ouvindo e ouça lendo.

ANTES DO U2

A IRLANDA não era um grande fornecedor de bandas para o universo pop, mas algumas bandas conseguiram furar o bloqueio. Entre elas, artistas mais ligados ao rock clássico, como Thin Lizzy e o guitarrista/cantor Rory Gallagher. Mais aparentado ao U2, teve o Boomtown Rats, de Bob Geldof, que fez sucesso pra burro, mas foi um fenômeno restrito à Europa. De qualquer jeito, Rat trap, hit single deles lançado em 1978, foi o primeiro número um de uma banda irlandesa na parada britânica e fez uma turma enorme de garotos sonhar com o mesmo destino.

O U2 surgiu em 1976 em Dublin, na antiga República Livre da Irlanda. E (surpresa!) inicialmente foi uma ideia do baterista Larry Mullen Jr. Em 1976, aos 14 anos, ele decidiu colocar um papel no quadro de avisos de sua escola recrutando músicos para uma nova banda. Seis pessoas apareceram na casa do baterista no dia 25 de setembro de 1976 e consta que a primeira delas foi o baixista Adam Clayton. Larry comenta que foi só Bono aparecer, que ele percebeu que não conseguiria mais ser líder da própria banda que criou.

MALANDRÃO. A entrada de Adam Clayton para a banda, que logo ganhou o nome de Feedback, tem lá seus lados obscuros. Bono disse certa vez que o baixista ganhou o posto porque era o único que tinha amplificador próprio e isso fez com que o grupo nem cogitasse dispensá-lo. Era também amigo de The Edge e de seu irmão. “Pensávamos: ‘Esse cara só pode ser músico, ele sabe do que está falando’. Ele usava palavras como ‘gig’, ‘ação’, ‘escala’. Só que um dia descobrimos que ele não estava tocando as notas certas e que ele nem sabia tocar”, contou Bono.

A ESCOLA

O COLÉGIO em que o U2 se conheceu foi a Mount Temple Comprehensive School, fundada em 1972, e que descendia de uma das mais antigas escolas de Dublin, a Hibernian Marine School, fundada em 1766. Todos os integrantes estudavam lá e se envolveram com vários assuntos – e turmas diferentes – por lá. Larry Mullen lembra que o “compreensivo” do nome da instituição não era só figura de linguagem. O local não separava alunos e alunas e talentos eram sempre incentivados. “Se uma pessoa era interessada em algum assunto, como esportes, não acontecia de ela ser desencorajada porque o assunto não era acadêmico”, recordou. Foi lá que Paul Hewson e Dave Evans viraram Bono e The Edge, respectivamente.

A MOUNT TEMPLE acabou gostando da ideia de ter uma banda formada lá dentro. Tanto que deu uma sala para os garotos ensaiarem e deixou um professor de história a disposição dos garotos, para conversar e tirar dúvidas. O grupo era bem querido na escola, apesar de Adam Clayton fazer coisas que mereciam um “bonito, hein?” dos mestres mais conservadores, como beber café na sala de aula (meu Deus!) e usar um kilt escocês no colégio.

PEGADOR. Bono lembra que no primeiro ensaio com Larry, na cozinha do baterista, choveram garotas para ver o músico tocando. O destruidor de corações Larry afugentou as meninas com uma mangueirada. “Ele não estava a fim, queria tocar bateria”, justificou o novo amigo.

MÚSICA, HUMANA MÚSICA

BONO, na adolescência, não pensava em ser músico. Aliás, seu maior interesse era jogar xadrez. Mas em junho de 1971, teve uma revelação: ligou a TV e viu o Middle Of The Road, sensação pop escocesa que muitos veem como um pré-ABBA, dublando seu pegajoso hit Chirpy cheep cheep no programa britânico Top of the pops. Um mundo novo se abriu. “Tinha uns 11 anos e pensei: ‘Wow, é pra isso que serve música pop. Você canta assim e ainda por cima é pago”, contou.

EM COMPENSAÇÃO, quando o U2 (já com esse nome) fez a primeira apresentação na Mount Temple no comecinho de 1978, o vocalista já tinha uma ideia claríssima a respeito do que queria com a banda. “Desde o começo queríamos algo com o poder do Who e com a sensibilidade de Neil Young. Mas nossas principais influências somos nós mesmos”, garantiu. Nomes como Marc Bolan (T. Rex), Leonard Cohen e David Bowie eram também referências do cantor, que foi bastante impactado por Live at Leeds, disco ao vivo do The Who de 1970.

CONCURSO

EM 1979, o U2 resolveu se meter no Harp And Guinness Talent Contest, uma batalha de bandas criada pela cervejeira Guinness, e realizada em Limerick, cidade a duas horas de Dublin. O grupo, que mal tocava três acordes, concorria com bandas de rock pesado e com uma galera que já se achava “profissional”. Mas decidiram apostar num som e numa postura mais frágeis, até para justificar um problema audível: Bono estava sem voz. No entanto, acabaram ganhando o concurso. Levaram 500 libras pra casa e ainda conseguiram a glória de gravar uma demo que seria ouvida pelo braço irlandês da Columbia.

ALIÁS E A PROPÓSITO, o U2 era um quinteto até pouco antes de tocar em Limerick, já que Dik Evans, irmão de The Edge, estava na banda como guitarrista. Mais velho que todo mundo na banda, ele já estava na faculdade quando o U2 dava os primeiros passos, e o conflito de gerações acabou por tirá-lo do grupo. Passou a se dedicar aos Virgin Prunes, banda que não fez muito sucesso e era bem mais experimental que o U2. Aliás, o VP volta e meia cedia músicos convidados para o U2 quando um dos quatro se enrolava e não podia tocar.

U2-3

JACKIE HAYDEN, representante da gravadora, já tinha gostado da banda assim que a viu tocando no tal concurso de Limerick, e produziu as gravações. Não havia projeto de disco ainda. A ideia era que a banda gravasse várias canções para que a CBS Ireland (nome local da firma) escolhesse o que havia de melhor, mas o U2 só conseguiu gravar uma faixa inteira, Inside out. A sessão de gravação foi interrompida por um motivo prosaico: o senhor Larry Mullen foi lá resgatar seu filho baterista, Larry Mullen Jr, porque aquela brincadeira ia varar a madrugada e o garoto precisava ir à escola no dia seguinte.

O U2 quase foi contratado pela CBS por artes de Hayden. Mas o quarteto deu pra trás quando leu o contrato e se assustou com o fato de que não haveria como negociar nada. A coisa melhorou quando a banda passou a ser empresariada por Paul McGuinness, que abordou um representante da CBS britânica, Chas de Whalley, e disse a ele que o U2 havia ganho o tal concurso. Após idas e vindas, e quase desistências, De Whalley, que não ficou fã da banda mas gostou de Bono, topou produzir o grupo no maior estúdio de Dublin, o Windmill Lane.

SAIU!

O EP de doze polegadas U2-3 foi lançado, finalmente, em 26 de setembro de 1979. A gravação foi uma zona, com o anti-produtor Whalley falhando em manter os músicos no tempo, e o trio de guitarra-baixo-bateria desesperado porque Bono gravava vocais longe deles. O disco tinha Boy/girl, escolhida numa enquete de rádio, mais os dois maiores hits de palco da banda, Stories for boys e Out of control. O disco vendeu todas as suas mil cópias rapidamente e acabou sendo um sucesso local. A CBS britânica cagou para o lançamento e Jackie Hayden até conseguiria recuperar as demos que havia enviado para o escritório na Inglaterra.

ALIÁS E A PROPÓSITO, as mil cópias do disco foram numeradas pessoalmente por Whalley e tem um fã do U2 que está querendo localizar onde foram parar todas as cópias. Fez até um site para conseguir isso (já falamos disso aqui no POP FANTASMA).

O EMPRESÁRIO

PAUL McGUINNESS, alemão criado na Irlanda, conheceu o U2 em um show em Dublin em 25 de maio de 1978, por intermédio do jornalista Bill Graham. Ele tinha pouca experiência no ramo, mas já havia se metido em muita coisa. Até mesmo na área de cinema, como assistente de direção. Também dirigira comerciais de TV.

O NOVO manager da banda tinha o mesmo topete dos quatro: vivia dizendo aos quatro cantos que o U2 ainda seria um enorme sucesso. “Mas nunca sabíamos por quanto tempo isso duraria”, contou. Foi com ele no comando que a banda fez sua primeira viagem de shows a Londres, em dezembro de 1979. Tocaram até mesmo no prestigioso clube Hope And Anchor, casa de bandas como Joy Division e Stranglers. Mas a apresentação teve como público a enormidade de nove pagantes (!).

DIFÍCIL É O NOME. Numa das noites londrinas, o U2 abriu para The Dolly Mixtures, banda punk feminina, no Rock Garden. Mark Williams, jornalista da Melody Maker, estava lá, cobriu o show, mas grafou o nome da banda como V2. Em vários pôsteres de shows do U2 na sua turnê pela Inglaterra, a banda aparecia com nome grafado como UR, U-2, U2s e The U2’S.

ALIÁS E A PROPÓSITO, o nome U2 não era unanimidade entre jornalistas e a banda precisou ouvir várias vezes que deveria trocá-lo. Muita gente chamava o grupo de “os U2’s” ou algo do tipo. O U2 surgiu de uma lista de nomes que a banda separou para escolher e, sim, veio do “avião espião” Lockheed U-2, conhecido como Dragon Lady, presença marcante na Guerra Fria.

O ESTÚDIO

DESDE U2-3, o U2 desenvolveu uma relação de carinho com o maior estúdio de gravação da Irlanda, o Windmill Lane. Vários discos da banda foram gravados inteira ou parcialmente lá. O estúdio havia sido fundado em 1978 pelo engenheiro de som Brian Masterson, num prédio que anteriormente abrigava uma fábrica de calçados. O nome da empresa veio do endereço do local, 22 Windmill Lane, rua localizada na área das docas. Em 1990, o estúdio mudou-se para o endereço onde está até hoje, 20 Ringsend Road.

A IDEIA DE gravar U2-3 lá surgiu como uma forma de baixar custos para o primeiro EP do grupo, numa época em que o contrato com a CBS e a gravação do disco pareciam obra de igreja. O interessante é que o WL jamais tinha abrigado bandas de rock e costumava servir de escoadouro para a cena de música folk irlandesa. Depois se tornou um lugar famoso a ponto de receber nomes como Def Leppard, Metallica, David Bowie, Spice Girls e Kate Bush.

SALA GRANDE. Uma das salas do Windmill Lane é imensa o suficiente para conseguir receber orquestras inteiras. Com a fama do U2 e o investimento dos donos do estúdio, montes de filmes tiveram suas trilhas gravadas lá, como Uma janela para o amor, Missão impossível, Meu pé esquerdo e O máscara. Em 2009, a casa foi vendida para a Dale Entertainments Ltd e o estúdio ganhou um banho de loja, com o que havia de mais moderno em tecnologia.

SEM CHIFRINHOS

APESAR DE nos anos 1990 Bono ter adotado um personagem (à moda das personas de David Bowie) chamado McPhisto, que usava chifrinhos de demônio, e de Adam Clayton ter mostrado as joias da família numa das fotos de Achtung baby (1991), o U2 sempre teve uma (justificada) fama de banda religiosa. Isso por causa do envolvimento de três deles (Bono, Larry e The Edge) com o cristianismo, desde a época da escola. Bono foi criado na Igreja Católica e o irmão, na Anglicana, por ideia dos pais.

UM ANO ANTES DO LEVANTE PUNK, em 1976, houve uma espécie de “levante espiritual”, que levou de roldão também o U2. Há testemunhas: T-Bone Burnett, músico de Bob Dylan, disse à biografia do cantor, Down on the highway, que a partir daquele ano vários roqueiros se converteram, inclusive ele e outros integrantes da banda de Dylan. “Aconteceu com Bono, Larry e The Edge na Irlanda, com Michael Hutchence na Austrália e aqui em Los Angeles: houve um movimento espiritual”.

O LIVRO Walk on – A jornada espiritual do U2, escrito pelo pastor presbiteriano irlandês Steve Stockman, lembra que Bono teve contato com o cristianismo desde criança, por intermédio de Derek Rowan, um vizinho, e dos pais dele. Bono começou a frequentar a Associação Cristã de Moços local. The Edge comenta que, na adolescência, ele, Larry e Bono viram um homem que lia uma Bíblia e estava sendo insultado por membros da religião Hare Krishna. Os três se aproximaram e conversaram com o cara – que convidou o trio para conhecer uma comunidade cristã não-denominativa chamada Shalom. Começava aí uma longa associação do trio com essa turma, que geraria até perrengues internos sérios.

RELIGIÃO NA ESCOLA

LEMBRA DA Mount Temple, a escola na qual o U2 havia estudado? Considerada um local progressista em Dublin (a capital de um país fruto de uma cisão vinda, entre outros detalhes, de questões religiosas), a escola passou a ter, lá pelo fim dos anos 1970, reuniões de orações e monitores cristãos. Há quem diga que, justamente por virem de um ambiente que investia na diferença, o U2 poderia se tornar uma banda mais radical e anti-católica se tivesse estudado numa instituição religiosa comum.

ISSO vai ao encontro da tese de que a origem em Dublin tornou o U2 o que ele é até hoje. O livro Walk on bate na tecla de que em qualquer outra cidade mais conhecida, o U2 teria na formação garotos que achariam o comportamento religioso careta e classe-média, e faria músicas no estilo “não à Igreja”. Em 1983, numa entrevista à Rolling Stone que ficou célebre, Bono disse que sua concepção de rebeldia não era jogar carrões em piscinas, mas “se recusar a comprometer crenças e valores”. Disse também que estava mais interessado na “política do amor”.

SEXO E DROGAS?

BOM, à exceção de Adam Clayton, que ficou solteiro até 2013 e chegou a namorar a Naomi Campbell, todo mundo da banda casou cedo. Até Larry Mullen Jr, o perigote das garotas, casou-se com a primeira namorada. O site Who’s dated who diz que Bono “não teve nenhum relacionamento que nós conhecemos”, mas já rolaram boatos de casos do cantor com supermodelos.

DESDE cedo, o grupo chamava a atenção de jornalistas por evitar drogas. Amigos contavam que Bono era visto tomando suco de laranja em festas, embora o vocalista esteja longe de ser um cara abstêmio. O livro Walk on explica que “para esta banda, era mais rebelde ler Bíblias no fundo do ônibus do que provar drogas”. Mas o mau garoto Adam Clayton (por acaso o único que não tinha saco para a arenga religiosa dos amigos) já foi preso por porte de maconha e fez tratamento contra o alcoolismo, após tomar umas doses a mais e deixar a banda na mão antes de um show em 1993.

ESSE LADO CRISTÃO começou a dar no saco até mesmo de antigos admiradores da banda. Especialmente quando, lá por meados dos anos 1980, parecia que toda a mídia havia ficado certinha e conservadora, com direito à volta da guerra contra as drogas e a reportagens cada vez mais paranoicas sobre a Aids. Quando a banda foi fazer shows em Belfast, na Irlanda do Norte, onde o povo já estava de saco cheio de qualquer papo católico, Bono teve que levar na cara uns “para de pregar e canta!”. Por sinal, quem estava na plateia desse show era uma turma de notáveis da futura gravadora do U2.

ISLAND

A GRAVADORA britânica, que tinha sucesso com um astro jamaicano (Bob Marley) vinha contratando desde os anos 1970 nomes importantes do rock, como Roxy Music, Sparks, Cat Stevens e Ultravox. Mas estava com poucos nomes realmente grandes em 1980. McGuinness conhecia o assessor de imprensa do selo desde 1977 e resolveu começar um ataque soviético à gravadora, mandando demos e fechando contrato de publicação com a editora musical do dono da empresa, Chris Blackwell.

ROB PARTRIDGE, chefe de comunicação da Island, se amarrou em especial na guitarra de The Edge, que para ele parecia a de Tom Verlaine (Television). Caciques da Island foram ver o U2 em Belfast e curtiram a postura da banda no palco, especialmente a “petulância” de Bono quando peitou a plateia anti-católica de Belfast.

TREMENDOS VACILÕES. O U2 era cristão mas não era santo. A banda resolveu roubar as chaves do gerente do hotel em Belfast e destruiu um quarto inteiro. Era uma brincadeirinha da banda, achando que McGuinness dormia lá – mas o quarto era de um outro hóspede. Depois, todo mundo encheu a cara e começou a jogar cerveja um no outro pelos corredores do hotel. O vacilão Adam Clayton achou que seria engraçado jogar cerveja em Annie Roseberry, uma das chefes de A&R da Island. A brincadeira acabou com McGuinness tendo que se desculpar com a executiva.

O CULPADO

UM DOS maiores responsáveis pela contratação do U2 foi o diretor de A&R da Island, Nick Stewart. Nick era um sujeito de costumes conservadores, ex-capitão do exército, jogador de críquete, e ouviu as indicações de seus colegas de que havia uma banda muito boa em Dublin. Acabou indo lá assistir a um show do U2 no National Boxing Stadium, para um público de 1.200 pessoas formado quase que totalmente por convidados. Deu tão certo que Nick saiu abraçando pessoas dizendo que estava diante do “Led Zeppelin dos anos 1980”.

DIFÍCIL É O DONO. Chris Blackwell, dono da Island, é que não via nada demais naquele grupo. Perguntou a Nick por que deveria contratar o U2 e ouviu do executivo que a banda tinha um grande cantor e um grande guitarrista. “Então contrate o cantor e o guitarrista”, retrucou. Blackwell tentou dissuadir Nick várias vezes, mas acabou consentindo. O U2 venceu uma corrida travada em sigilo com o Spandau Ballet (também visado pela Island, mas que acabou indo para a Chrysalis). Bono, The Edge, Larry e Adam foram contratados por quatro álbuns, com adiantamento de 50.000 libras, mais 50.000 em suporte para a turnê.

BLACKWELL só foi conhecer a banda pessoalmente em junho de 1980, durante o último show de Bob Marley no Reino Unido, ao qual o U2 foi. O encontro foi gentil e amistoso, e Blackwell pareceu gostar dos garotos. Também resolveu pessoalmente os dilemas que ainda haviam sobre o nome U2, dizendo que gostava dele. “Não, adoro o nome. É muito simples. Se você tem um nome simples e curto, pode realmente torná-lo maior com as luzes acima do Madison Square Garden”, contou.

QUASE PRODUTOR

O PRIMEIRO LP do U2 quase foi parar nas mãos de Martin Hannett, o cara por trás do som dos dois LPs do Joy Division, Unknown pleasures (1979) e Closer (1980). Isso porque Martin produzira o primeiro single do U2 pela Island, 11 o’clock tick tock. Fã do Joy, o U2 ficou animado e chegou a ir à Inglaterra ver a gravação do single Love will tear us apart.

MARTIN, você talvez saiba, era bem estranho: tinha um comportamento excêntrico que assustava músicos e usava métodos pouco ortodoxos de gravação. Mandou criar uma engenhoca de gravação, o AMS Digital Delay, que fazia todo tipo de som fantasmagórico. Graças a esse aparelho, rola aquele eco sombrio na bateria de Unknown pleasures. Ele também botou Ian Curtis, vocal do JD, para cantar no elevador do estúdio e Stephen Morris, baterista, para tocar as partes do instrumento uma por uma (e mixou tudo depois). E respondia às sugestões da banda com amorosos “vão se foder”.

A GRAVAÇÃO do single do U2 rolou dias 5 e 6 de abril de 1980 no (adivinhe só) Windmill Lane. Martin pirou tanto no trabalho que deixou o U2 suspeitando que ele usava ácido. Em compensação, fez coisas que todos adoraram: gravou as notas de baixo de Adam Clayton todas em separado (e mixou depois) e insistiu que cada som do disco fosse isolado e gravado separadamente. Mas o single, lançado em maio de 1980, ficou com som de radinho de pilha e não vendeu chongas.

NO FIM DAS CONTAS o U2 preferiu não repetir a vibe maníaca do single na gravação do LP. Mas por outro lado Martin teve uma crise nervosa por causa da morte de Ian Curtis e se pirulitou. E o U2 ficou sem produtor, mas não por muito tempo…

FACILITADOR

O INGLÊS Steve Lillywhite tinha começado a carreira em 1972 no estúdio da PolyGram. Uma de suas primeiras produções foi uma demo do Ultravox, que acabou contratado pela Island. Steve também acabou contratado como produtor pelo selo e cuidou de discos do próprio Ultravox, por exemplo. Também fez coisas para a Virgin, como o disco solo do ex-New York Dolls Johnny Thunders, So alone (1978) e álbuns do XTC e Peter Gabriel. Foi ele que chefiou as gravações de Boy no Windmill Lane.

TESTEMUNHAS lembram que o tranquilo Steve não era um cara excêntrico e fazia mais a figura do facilitador do que a do “gênio trabalhando”. Ainda assim, fez várias experimentações com o U2 em Boy. O produtor não acreditava muito no potencial do Windmill Lane para gravar rock e achava que as salas fossem mais próprias para folk e sons mais tranquilos. “Naquela época, eu gostava muito de sons 3D, que voltavam tanto para a esquerda quanto para a direita”, contou ele, que chegou a pensar em importar equipamento de Londres. Mas Steve adorou o som de uma sala de recepção do estúdio, com parede de pedra, e pôs Larry Mullen para gravar sua bateria lá.

ALIÁS E A PROPÓSITO, banda e produtor precisavam esperar a moça da recepção terminar o expediente para conseguir gravar na sala, porque o telefone do Windmill Lane tocava o dia inteiro. O problema é que às vezes, à noite, ele também tocava e atrapalhava as gravações (e ninguém se lembrava de tirá-lo do gancho).

ALÉM de adorar a sala de recepção do Windmill Lane, Steve deixou baixar um Martin Hannett rápido quando incentivou Larry Mullen a gravar bateria numa escada do estúdio, e pôs garrafas e latas para girar e fazer barulho numa roda de bicicleta (você escuta o resultado desse experimento em I will follow, lá pra 2:05). Também deu a ideia de usar um glockenspiel, instrumento de placas de metal semelhante ao xilofone, em I will follow, a faixa de abertura. Isso porque o mesmo instrumento havia aparecido em Hong Kong Garden, de Siouxsie And The Banshees, que ele havia produzido.

NÃO ANIMEI NÃO

LILLYWHITE, vale dizer, abriu os trabalhos com o U2 produzindo o segundo single da banda, A day without me. O produtor não conhecia o primeiro single e tinha recebido da Island uma cópia de U2-3, mas não se animou muito com o que ouviu no EP. Só foi convencido quando pegou um avião para a Costa Oeste da Irlanda e foi ver o U2 ao vivo num salão de escola. “Eles atacaram com I will follow e vi que tinha algo ali”, conta o produtor, que tinha em mente vários estereótipos sobre a Irlanda e achou que Paul McGuinness ia chegar “de trator, com palha atrás do ouvido” (palavras de Steve) para recebê-lo no aeroporto.

VALE DIZER QUE nem mesmo A day without me deixou Steve feliz, já que (adivinhe só) detestou o som da bateria. Daí a determinação em achar um canto em que pratos, caixas e bumbos soassem da maneira que o chefe queria.

ALIÁS E A PROPÓSITO, logo após receber Steve no aeroporto, Paul trancou-se com o produtor em seu carro e… pôs para rodar todas as demos do U2 que tinha nas mãos para o novo amigo. O problema era que o sistema de som de McGuinness era horroroso e as fitas eram péssimas, segundo Steve. O produtor quase se enfiou no primeiro avião de volta para a Inglaterra, mas sua ideia era mesmo conferir o show, já que a Island apostava muito na banda. Ainda assim, Steve diz ter boas lembranças desse primeiro encontro. “Paul era adorável, charmoso e um bom vendedor”, contou.

GENTE COMO A GENTE

UM DETALHE SOBRE O U2 que vira assunto sério quando se fala dos primeiros anos do grupo, é que Bono, The Edge, Larry e Adam eram pessoas comuns, gente do tipo que você poderia ser colega na escola ou na universidade. Nada do jeito intelectualizado e defensivo de bandas como Joy Division, Cabaret Voltaire e outras. Paolo Hewitt, que foi entrevistar a banda para a Melody Maker no Windmill Lane em plena gravação de Boy, lembra que “eles tinham uma verdadeira energia e paixão que você não estava recebendo desses grupos intelectuais”.

HEWITT e o fotógrafo Tom Sheehan foram pegos de carro no aeroporto por McGuinness e, ao chegarem no estúdio, chegaram a se assustar com o comportamento humilde da banda, num clima de “nossa, vocês vieram aqui para nos ver”. Sheehan avisou que seus pais eram de Dublin. “Então eles me levaram a um pub chamado Sheehan’s e tiraram uma foto minha do lado de fora”, contou. O fotógrafo saiu da entrevista convencido de que lidava com garotos de 20 anos que agiam e pensavam como se tivessem uns 25, e que fariam de tudo para serem a maior banda do mundo.

IMPRENSA, AMIGA IMPRENSA

OS PRIMEIROS REPÓRTERES QUE entrevistaram o U2 na época de Boy tinham uma convivência, digamos, privilegiada com o dia a dia da banda. Alguns deles conheceram até mesmo os pais dos integrantes. Aliás, muitos desses jornalistas têm lembranças especiais do pai de Bono, que assumira a tarefa de criar os dois filhos após a morte da esposa. “O pai dele era um cara legal também, muito tranquilo. Ele só queria que seu filho fizesse o que ele queria. Quer dizer, Bono não tinha nenhuma porra de dinheiro, mas ele não tinha nada de mão beijada de seu pai”, contou Paul Slattery, da revista britânica Sounds, que aliás ficou hospedado na casa de Bono em abril de 1980 para entrevistar a banda.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Bono abrigou o repórter lá durante as entrevistas de Boy porque durante uma turnê do U2 pela Inglaterra, Slattery fez tráfico de sanduíches de bacon para a banda, que estava sem grana.

PRA QUE SERVIA ‘BOY’?

O PRIMEIRO LP do U2, conforme a própria crítica notou depois, era um verdadeiro tratado sobre amadurecimento e perda da inocência, com pitadas de religião em vários momentos das letras. I will follow era uma homenagem à mãe de Bono, morta quando ele tinha 14 anos – a letra foi escrita da perspectiva dela. Twilight, a segunda faixa de Boy, era, segundo Bono, sobre “a zona de crepúsculo onde o menino que se foi confronta o homem que caminha para as sombras”. Stories for boys, primeira do lado B, fala sobre a vida de uma criança que lê uma revista de aventuras e descobre que a vida dela não é assim.

A DOBRADINHA An cat dubh (termo irlandês que significa “um gato preto”) e Into the heart, com sua enorme introdução instrumental, fala de sexo, relacionamentos e ingenuidade. Já A day without me, primeiro single com repertório de Boy, via o mundo da perspectiva de uma pessoa que se afastava de seu círculo social.

ALIÁS E A PROPÓSITO, o single de A day without me saiu em agosto de 1980. Por sinal, alguns meses depois do suicídio de Ian Curtis, do Joy Division (ocorrido em maio). Uma chuva de jornalistas ligou para o telefone da Island querendo saber se a música era uma homenagem ao cantor. Não era, já que em fevereiro de 1980 ela já tinha essa mesma letra.

The electric co. não faz referência a nenhuma companhia de energia elétrica de Dublin. Uma das canções mais fortes de Boy, a penúltima faixa do disco é uma homenagem a um amigo de Bono que sofreu terapia eletroconvulsiva. No fim, a banda emenda com Shadows and tall trees, letra inspirada no livro Senhor das moscas, de William Golding, que falava de uma sociedade de meninos britânicos numa ilha. Logo após essa faixa, vinha uma vinheta anônima de trinta segundos. Essa vinheta estava apenas nos primeiros LPs e não aparecia nas primeiras edições em CD. Depois retornou com o nome de Saturday matinee.

A CAPA DO DISCO

O GAROTO da capa do álbum já havia aparecido na capa de U2-3 e era um velho conhecido de Bono. Peter Rowan, sete anos em 1980, é irmão de Derek Rowan, ou Guggi, o cara que apresentou o cristianismo ao cantor (e que depois tocaria na Virgin Prunes). Peter apareceu também na capa de War, o terceiro disco (1982) e em vários outros singles. Hoje é fotógrafo e já clicou o U2 algumas vezes.

Várias coisas que você já sabia sobre Boy, estreia do U2

NA ÉPOCA, Peter foi pago com uma caixa de chocolates. “Eles não eram uma banda rica”, justificou. Ele ainda é fã do U2 e lembra de fotos bem legais dele, ao ar livre, que nunca foram usadas pela banda.

O FATO DE ter um garotinho indefeso na capa de Boy colocou o U2 em encrenca. Para começar a Island ficou com medo de a banda ser associada à pedofilia. A Island botou a fotógrafa Sandy Porter para bolar uma capa nova para o lançamento americano. Sem verba, ela pegou as fotos de divulgação e distorceu para fazer a nova capa (que depois foi reeditada também em CD).

‘BOY’ PELO MUNDO

A CAPA original do disco trazia Boy e U2 escritos em letras prateadas de leitura difícil. Por conta disso, a edição francesa posicionou nome da banda e do disco num canto mais acessível. Na Grécia, o LP saiu com tons tão estourados de branco na capa que o menino virou um fantasminha. Mas afora a mudança da capa nos EUA e Canadá, não houve muitas modificações ao redor do mundo.

ALIÁS E A PROPÓSITO, o disco também ganhou várias remasterizações diferentes. A edição mais recente, que está nas plataformas, tem vários bônus, inclusive as músicas de U2-3.

APESAR DE muita gente achar que Boy foi lançado no Brasil apenas em 1986, quando U2 já tocava nas rádios brasileiras, o álbum ganhou uma edição nacional em 1981 pela Ariola, que por aqueles tempos lançava os discos da Island no país.

E ‘BOY’ DEU CERTO, AFINAL?

MAIS OU MENOS. Boy saiu em 20 de outubro de 1980 e vendeu 200 mil cópias. Era um resultado animador, mas não a salvação da lavoura – pelo menos não no sentido de transformar o U2 em banda mainstream. Chegou às 13ª posição na Irlanda, à posição 63 na Billboard 200 nos EUA e ao número 52 no Reino Unido. A crítica de modo geral recebeu bem o disco. Betty Page, da Sounds, disse que o U2 era os “jovens poetas do ano”. A irlandesa Hot Press disse que “era impossível reagir negativamente” ao disco. Uma voz discordante foi o irônico Robert Christgau, que no Village Voice disse que “temia o pior” de um mundo influenciado pela postura clean do U2.

A SOLUÇÃO que todos viram foi apresentar o U2 ao público americano.  Testemunhas lembram que a banda era grande demais para a Irlanda. Mas até a BBC via o U2 com underground demais e não tocava o grupo. Em 5 de dezembro de 1980, o U2 fez um showcase para executivos em Nova York. Em seguida, fechou contrato com a Premier Talent, que agenciava Bruce Springsteen e The Who nos EUA. E rolou uma pequena turnê pelos EUA.

A ISLAND não tinha operação nos EUA e tudo que rolava lá vinha do conglomerado Warner. Mas o nome do selo era grande o suficiente para servir como carta de recomendação para a banda. Decidiram fazer trabalho de formiguinha, tocando para plateias de 200 pessoas. Mas a tal “postura clean” que causou tristeza em Christgau também deu salvo-conduto à banda. Afinal, pouco antes de David Bowie, Eric Clapton e Lou Reed voltarem ao mercado com ar yuppie, o U2 era uma banda de subtexto cristão desbravando os EUA.

E DEPOIS?

DEPOIS viria October, segundo disco do U2, lançado em (adivinhe) 12 de outubro de 1981, numa época de profundo envolvimento do grupo com temas cristãos. O disco quase se chamou Scarlet, nome de uma das faixas. Aliás, Bono perdeu uma pasta cheia de letras que aproveitaria no disco. Em decorrência disso, precisou virar noites reescrevendo o material e gravou os vocais na pressão.

O TRIO religioso Bono-The Edge-Larry, ainda muito ligado à comunidade Shalom (lembra?) passava horas e horas a fio discutindo a Bíblia, causando tédio no baixista Adam Clayton. Pouco depois do lançamento do disco, considerado de modo geral como mais fraco que Boy, a banda chegou a pensar em largar o rock, achando que o estilo e o cristianismo se chocavam. Mas aí é uma outra história.

E JÁ QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI…

SEI LÁ, achamos as linhas vocais da introdução de Another time another place, uma das mais bonitas músicas de Boy, um tanto quanto parecidas com os metais de Miragem, canção de J.T. Meirelles gravada pelo super-baterista Edison Machado no disco É samba novo (1964). Provavelmente o U2 nunca ouviu Edison, mas é melhor que a semelhança entre Vanusa e Black Sabbath, não?

Com informações dos livros Walk on – A jornada espiritual do U2, de Steve Stockman, e Stories for boys, de Dave Thomas.

VEJA TAMBÉM NO POP FANTASMA:

– Demos o mesmo tratamento a Physical graffiti (Led Zeppelin), ao primeiro disco do Black Sabbath, a End of the century (Ramones), ao rooftop concert, dos Beatles, a London calling (Clash), a Substance (New Order), a Fun house (Stooges), a New York (Lou Reed), aos primeiros shows de David Bowie no Brasil, a Electric ladyland (The Jimi Hendrix Experience), a Pleased to meet me (Replacements), a Dirty mind (Prince), a Paranoid (Black Sabbath), a Tango in the night (Fleetwood Mac) e a Mellon Collie and the infinite sadness (Smashing Pumpkins). E a The man who sold the world (David Bowie). E a L.A. woman (Doors).
– Além disso, demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).
– Mais U2 no POP FANTASMA aqui.

Cultura Pop

Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.

Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.

Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.

O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.

Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.

Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.

Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.

Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.

A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.

Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.

E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.

Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.

Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.

Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.

Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.

Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.

Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.

Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.

O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.

O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!

Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.

Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).

Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.

A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.

Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados ​​de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.

Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.

Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.

Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.

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Cultura Pop

“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.

Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.

Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.

O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.

Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.

Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.

Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.

Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.

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Cultura Pop

Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

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O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).

“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.

Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.

Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.

“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.

“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.

E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.

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