Umano non umano não costuma ser citado quando se fala dos filmes dos Rolling Stones. É um filme experimental italiano de 1969, dirigido por Mario Schifano (1934-1998), que começou nas artes como pintor, teve contato com nomes de Nova York como Andy Warhol e Gerard Malanga, e, em meados dos anos 1960, se tornaria amigo dos Stones e de Anita Pallenberg, então mulher de Brian Jones (e depois de Keith Richards). Monkey man, lado-B dos Stones, foi dedicada a ele. E inspirada nele.

Schifano, que merecia um textinho só para ele no POP FANTASMA, era uma espécie de Andy Warhol da terra da bota, combinando símbolos da arte pop, da mídia, dos quadrinhos e da psicodelia (era usuário de maconha, peyote e LSD). Uma de suas obras mais conhecidas foi Propagande, que unia arte e publicidade, brincando com os símbolos das marcas Coca-Cola e Esso.

Numa época em que o cinema independente, feito às vezes em Super-8, era uma tendência, Schifano foi bastante prolífico. De 1964 a 1969 foram quase duas dezenas de filmes, e Umano non umano foi o 19º a ser produzido por ele, além de um dos mais ousados, já que envolvia várias participações em noventa e poucos minutos.

O filme também foi o primeiro a ser feito por uma empresa chamada Mount Street Film, montada por Anita Pallenberg, Mick Jagger e Keith Richards para fazer filmes malucões – e cujo nome foi tirado da rua onde morava o artista plástico Robert Fraser, cujo apartamento tinha sido alugado por Anita e Keith ao se casarem. A firma não teria ido muito para a frente justamente por causa dos desentendimentos com Schifano, mas o site da BFI indica mais duas produções, de 1973 e 1974, feitas pela empresa.

Umano non umano traz várias imagens costuradas por outras imagens do Vietnã, e pelo som do bater de um coração. Os convidados aparecem como eles mesmos. Mick Jagger, de visual comportado, dança ao som de Street fighting man, sucesso dos Rolling Stones na ocasião. Keith Richards faz uma jam-session-de-um-homem-só com seu sintetizador.

Um dos momentos mais tocantes são as imagens (tidas como raras) do poeta italiano Sandro Penna (1906-1977), solitário, queixando-se de problemas de saúde, e lendo um texto em seu (bagunçadíssimo) apartamento.

O ator Carmelo Bene e a mulher, meio perdidões no quarto.

O crítico de cinema Adriano Apra faz uma participação, e na sequência aparece uma manifestação de trabalhadores.

Para quem se interessou, Umano non umano não está inteiro no YouTube. Dá pra baixar por aqui.