Lançamentos
Radar: Kneecap, Brittany Howard, Sprints, Ash, Bright Eyes, Manganista, Sombercascade

Terça-feira brilhando no Radar internacional com dois clipes memoráveis (o do Kneecap e o do Sprints), além da volta do Ash, um dos nomes mais bacanas do power pop dos anos 1990/2000, também com clipe novo – e com single duplo. Já aumentou o volume? Aumenta porque além dessa turma, tem outras novidades.
Texto: Ricardo Schott – Foto (Kneecap): Divulgação
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KNEECAP, “SAYONARA”. Vindo da Irlanda do Norte, o Kneecap é uma banda brigona e corajosa – um grupo de rap que adota uma postura abertamente pró-Palestina. A pesada Sayonara, single novo, já vem sendo tocada nos shows da banda desde a apresentação em Glastonbury. O som é uma porrada dance e distorcida – e o clipe, por sua vez, é um primor de hedonismo, com Jamie Lee O’Donnell (da série Derry Girls) interpretando uma funcionária de escritório entediada, oprimida e cheia de desejos. No vídeo, ela também dirige a Land Rover da capa do single, marcado com a pichação “free Mo Chara” – um grito de apoio a Liam Óg Ó hAnnaidh, integrante do grupo, julgado por ter apoiado o grupo libanês Hezbollah, condenado e depois libertado sob fiança.
BRITTANY HOWARD, “WE GOTTA GET OUT OF THIS PLACE”. Em meio ao retorno dos Alabama Shakes aos estúdios (com o single Another life, do qual já falamos aqui mesmo no Radar), Brittany regrava um clássico da banda The Animals para a trilha de Honey don’t, dirigido por Ethan Coen. O original dos Animals marcou época: ficou famoso entre soldados norte-americanos na Guerra do Vietnã e foi sinônimo de rebeldia no rock. Confira cover, original e trailer de Honey don’t ai embaixo.
SPRINTS, “BETTER”. “Eu gostava mais de você / eu gostava de você quimicamente / antes que o amargo tomasse conta de você / e seu mundo começasse a desmoronar (…) perdemos o controle e perdemos tudo, jogamos nossas moedas no poço / mas não estou desejando nada de bom para você”. A letra de Better, novo single do grupo irlandês, é esse poço de desilusão aí – e a melodia e o clipe se somam a isso, mostrando uma face mais melancólica do Sprints.
“Parece uma canção de amor, mas definitivamente não é”, diz a vocalista Karla Chubbs. “Ela explora a ideia não de gostar mais de alguém, mas de gostar apenas quando a pessoa está melhor. É dura, triste, mas honesta e franca”. Better serve de batedor para All that is over, próximo disco da banda, previsto para 26 de setembro.
ASH, “WHICH ONE DO YOU WANT?” / “FUN PEOPLE”. Se tem um nome que faz muitos fãs de rock dos anos 1990 irem à loucura é o Ash. Lendas do indie rock e do power pop, eles preparam para 3 de outubro o disco Ad astra e adiantam o trabalho com um single lado-A duplo, Which one do you want? / Fun people (essa última com participação de Graham Coxon (Blur, The Waeve). A primeira é power pop e jangle rock puramente unidos – a segunda tem peso, distorções e sonoridade próxima do punk.
O baterista do grupo, Rick McMurray, diz que Which, uma canção antiga que nunca havia sido gravada (simplesmente porque não combinava com os repertórios dos álbuns mais recentes), “é a música pop perfeita. Ela voa, voa alto, canta o desejo”. Já Fun people tem tantos riffs pesados que, diz o batera, não é uma canção comum do Ash. “E que melhor maneira de sublinhar isso do que fazer o mago da guitarra Graham Coxon ferver por toda parte?”, diz.
BRIGHT EYES feat ALYNDA SEGARRA, “DYSLEXIC PALINDROME”. Com uma bela capa imitando jogo de tabuleiro, Kids table, próximo EP da banda norte-americana Bright Eyes, sai em 26 de setembro pelo selo Dead Oceans. O folk Dyslexic palindrome, com participação de Alynda Segarra (Hurray For The Riff Raff) anuncia o disco, com uma letra dolorida e crítica, que expõe o cinismo do capitalismo e da sociedade estadunidense. Conor Oberst, cantor do grupo, harmoniza com Alynda na música e é só elogios. “Sempre me impressiono com a sua capacidade de canalizar o que é intangível e universal”, afirma.
MANGANISTA, “TALKING TO MYSELF”. Essa banda de San Diego, que já existe há duas décadas, tem referências de grupos como Devo, Oingo Boingo e The English Beat – e sua paixão pelos anos 1980 já os levou a dividir um palco com uma preciosidade da década, o A Flock Of Seagulls. Em meio a saxofones, sintetizadores brincalhões, guitarras, batidas dançantes e alegres, Talking to myself é um ótimo single sobre o caos que ronda nossas mentes. O Manganista já tem três álbuns lançados e recentemente, além do single novo, lançou uma box set com três compactos de vinil pelo selo Escape Hatch Records.
SOMBERCASCADE, “SOL FORGOTTEN”. Esse projeto experimental dos Estados Unidos provavelmente é coisa de um-músico-só – há poucas informações por aí. O som de Sol forgotten, o novo single do Sombercascade, tem beats intermitentes e clima bastante sombrio – mais do que gótico, é tudo bem fantasmagórico, cheio de ecos e de vocais que parecem ter sido gravados ao contrário. Dois minutos de terror, vamos dizer assim.
Crítica
Ouvimos: Jenny On Holiday – “Quicksand heart”

RESENHA: Entre luto e descobertas, Jenny On Holiday estreia com synthpop e dream pop oitentista em Quicksand heart, disco íntimo sobre vulnerabilidade e prazer.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Transgressive Records
Lançamento: 9 de janeiro de 2026
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“Coração de areia movediça” é uma boa metáfora para falar de profundidades sentimentais, ou de fragilidades, ou de perdas – e esses três temas surgem o tempo todo em Quicksand heart, estreia solo de Jenny Hollingworth, que faz parte da dupla de synthpop mutante Let’s Eat Grandma.
Jenny, usando hoje o alegre nome de Jenny On Holiday, passou por um acontecimento nada feliz em 2019: seu namorado morreu em 2019 de câncer ósseo. O luto chegou a fazer parte da lista de temas de Two ribbons, último álbum do Let’s Eat Grandma (2022), mas como ela própria disse num papo com o jornal The Independent, era preciso esperar até o momento em que o principal fosse se divertir fazendo música. Quicksand heart tem até um pouco de luto nas letras, mas boa parte do material fala de descobertas pessoais, tanto na vida quanto no sexo, no amor, no trabalho e em tudo que possa mexer com a vulnerabilidade.
- Ouvimos: Nastyjoe – The house
Musicalmente, Jenny abraçou tanto a mescla de synthpop e dream pop, com teclados cintilantes e vibe oitentista evidente, que é quase impossível não pensar em Kate Bush, Fleetwood Mac e The Cure ao ouvir o disco. Essa onda surge na abertura com Good intentions, dá as caras nos riffs de guitarra e baixo da faixa-título e na vibe saturada e sonhadora de Appetite – música que fala bem diretamente sobre apetite sexual feminino, culpa e autoestima.
Every ounce of me, Pacemaker e These streets I know usam teclados gelados para falar de um mundo gelado, em que o estresse acaba virando combustível e a melancolia pode inspirar atitudes e canções. O New Order mais baladeiro e tranquilo dos discos mais recentes dá as caras em faixas como a tristonha Dolphins, além das razoáveis Push e Groundskeeping.
Nem tudo funciona 100% em Quicksand heart e dá para dizer que a segunda metade do disco traz menos canções que conquistam de cara, mas Jenny compensa na ambiência das músicas e na verdade inserida nos vocais e nas letras. O “casamento consigo própria” da capa – e vale dizer que o Let’s Eat Grandma não acabou – vem funcionando.
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Crítica
Ouvimos: Julieta Social – “Julieta”

RESENHA: Entre caos e conforto, o Julieta Social estreia com um pop alternativo aberto a referências, letras afiadas e climas que vão do indie ao soul psicodélico.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Seloki Records
Lançamento: 30 de janeiro de 2026
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Tem muito caos, mas também tem muito conforto no som do Julieta Social – uma banda/mini-coletivo de quatro integrantes, que sempre chama convidados para participar das gravações e tenta fazer com que sua sonoridade seja a mais aberta possível. Tanto que Julieta, o primeiro álbum, pode ser definido tranquilamente apenas como música pop, ou até como pop alternativo, que aponta para várias referências e busca não facilitar tanto as coisas para quem ouve.
- Ouvimos: Vá – Pra domingo (EP)
Julieta é o disco do single Casos de Colômbia, que assume referências de Radiohead e Chico Buarque, mas também mistura emanações de Arctic Monkeys e guitarras em clima de blues pós-punk. A faixa tem participação de Mariana Estol nos vocais, e uma letra que mete o dedo na ferida das expectativas que, muitas vezes, não representam nada (“nunca que você vai encontrar dentro do armário / algo lendário, é tudo vestuário / sabe aquela luz que a gente vê de madrugada / é quase nada, mas satisfaz a alma”).
Abrindo o disco, Casos de Colômbia serve de balizador para faixas poéticas como o soul psicodélico de Nuvem nua, o easy listening esparso de Dorme pra ver se me esquece, o pop rock radicalmente brasileiro de Quem nunca quis demais e Um tempo pra pensar – estas duas lembrando um pouco o som praiano de Lulu Santos e Charlie Brown Jr. Também cede espaço para a vibe sixties de Ce la vie e para o clima alt-disco de Como te dizer, que traz lembranças de Arctic Monkeys, Khruangbin e Mamalarky.
Do meio pro fim do disco, o Julieta Social aposta numa vibe indie-pop que tem muito de Tim Maia (Rubbish shuffle), em climas sonhadores e existenciais (Astronauta, Fome) e num bloco dançante com guitarra base e baixo à frente (Poodle marciano), que serve como demonstração de possibilidades instrumentais do grupo. Em meio a tantas ideias, o Julieta Social faz de seu primeiro álbum uma celebração das incertezas – e da beleza que nasce delas.
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Crítica
Ouvimos: Just Mustard – “We were just here”

RESENHA: Shoegaze fantasmagórico e gótico: o irlandês Just Mustard mistura ruído, poesia e psicodelia em We were just here, disco que foge de rótulos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Partisan Records
Lançamento: 24 de outubro de 2025
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Shoegaze e rock gótico são primos bem próximos, mas em vários momentos, é comum que bandas curtam misturar nuvens de guitarras e climas ensolarados – como se o sol fosse sair a qualquer momento. O grupo irlandês Just Mustard, que tem na voz de Katie Ball uma de suas maiores armas e atrativos, opera numa onda de shoegaze fantasmagórico, como se as microfonias e saturações servissem mais para confundir do que para explicar.
A opção da banda vem dando tão certo que eles já foram escolhidos pelo The Cure para abrir shows, e em We were just here, seu terceiro disco, escapam completamente de qualquer rótulo musical unindo vários elementos. Pollyanna, na abertura, poderia até ser uma canção do The Cure ou até do Jesus and Mary Chain: tem início ruidoso, bateria maquínica, teclados, ruído de vento – como se algo cobrisse tudo – e vocal doce, quase bossanovístico. A letra dessa música, assim como de boa parte do disco, é um primor de poesia e contemplação: “quando você vai brincar / onde os pássaros mais doces choram? / estou vendo, não sonhando / estou vendo, não sonhando agora”.
- Ouvimos: Equipe de Foot – Small talk
Não é escapismo, já que parece um doce encontro com a realidade. E que surge também na viagem sonora fantasmagórica de Endless deathless, no quase trip hop + shoegaze de Silver (cuja letra absolutamente psicodélica diz: “luzes prateadas dançando ao redor do seu rosto / não consigo acompanhar o ritmo”) e no dream pop tranquilo de Dreamer. Já a faixa-título é quase hi-NRG, dançante, com início eletronificado e synthpopizado, só que tudo bastante sonhador e psicodélico – encerrando com uma rajada de microfonia daquelas.
Uma ouvida com atenção no Just Mustard revela que o som deles tem bastante a ver com uma certa onda que tomou conta do rock inglês e norte-americano nos anos 1980. Foi quando de uma hora para outra começaram a falar em neo-psicodelia e várias bandas apareciam unindo climas pós-punk a vibrações bem sixties – bandas como Primal Scream, The Pastels e até mesmo o Jesus and Mary Chain tinham a ver com isso.
Essa onda surge no clima enevoado, quase como se você tivesse dificuldade para enxergar na neblina, de Somewhere. Também está no drone, que chega a lembrar uma orquestra se aquecendo, que toma conta de The steps. Por outro lado, We were just here é inteirinho baseado numa espécie de som de ferro rangendo, que aparece em várias faixas, e ganha mais espaço em Out of heaven, a última faixa. Um lado pós-punk também vai surgindo em canções como Dandelion e That I might not see. Essas faces, juntas e equilibradas, formam o clima sonoro de uma das bandas mais legais da atualidade.
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