Lançamentos
Radar: Josyara e Martins, Synx, Clariá, Serafim, Elisa Maia, Rhamayana

Dessa vez o Radar nacional está voltado para sons bem brasileiros – a MPB pop e violeira de Josyara e Martins (que lembra Geraldo Azevedo), a ciranda de Clariá, a música alagoana de Serafim… Mas tem espaço para o rock ruidoso (feito em Goiás) do Synx, e para a união de rock, pop e MPB da amazonense Elisa Maia. Ouça em alto volume e passe adiante!
Texto: Ricardo Schott – Foto (Josyara e Martins): José de Holanda / Divulgação
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JOSYARA E MARTINS, “FLANANDO”. Primeiro lançamento de Josyara após o álbum Avia (resenhado pela gente aqui), o EP Deu match foi gravado ao lado do cantor e compositor Martins. Os dois se conheceram nos bastidores do festival RecBeat em 2023 e, por causa disso, surgiu um convite do próprio festival para estarem juntos na edição de Salvador. A amizade rendeu um show em dupla, intitulado também Deu match, que gerou uma turnê – e agora gerou um EP.
“A ideia era uma apresentação acústica, com nós dois no palco, cantando músicas autorais e algumas de nossas referências”, comentou Martins. Flanando, parceria de Martins e Josias, é a mais ouvida do trio de faixas do EP, que tem ainda Deu match, de Martins, e uma releitura de Sabor colorido, de Geraldo Azevedo. Mas Flanando é um bom exemplo de pop suingado e violeiro, feito do ponto de vista de alguém que ocupa o lugar de passatempo numa relação – e soa quase como um Geraldo Azevedo (olha ele aí de novo!), só que numa onda r&b e acústica.
SYNX, “CALMARIA”. Desaguar, novo EP dessa banda goiana, sai em breve. Calmaria, canção de vocais perdidos e guitarras com eco, soando entre o grunge e o shoegaze, sai agora como single e adianta o EP que vem por aí. Uma música que passou por várias transformações desde sua concepção inicial, já que havia vozes com efeitos, acordes abertos no violão, e tudo foi ganhando mais peso – a versão definitiva tem ate um baixo distorcido que marca a canção do começo ao fim. Renata Servato (voz, sintetizador e guitarra), Pedro Mendes (guitarra), Matheus Campos (baixo e voz) e Lucas Radí (bateria) costumam ser elogiados pelo som etéreo e quase hipnótico – e dessa vez não foi diferente. Lançamento da Monstro Discos.
CLARIÁ, “MARESIA”. No sábado (13), sai a primeira parte do álbum da cantora carioca – o mini-álbum Uma parte de mim, com três faixas. Astral e 21 já apareceram no Radar, e é a vez de Maresia, quase uma ciranda romântica, levada adiante por metais, violão e guitarra, com referências de Marisa Monte, Gal Costa, Clara Nunes e Djavan. Cada faixa do EP ganhou uma carta, como as de tarô, feitas pela pela artista plástica Lalin Witch. Lançamento da Caravela Records.
SERAFIM, “BEIJOS DE CAPOTE”. Cantor e compositor alagoano, Serafim prepara para 2026 o álbum Aqui pra nós. O folk nordestino Beijos de capote foi feito ao lado de Paulo Caldas, poeta e pintor também de Alagoas, e a ideia foi fazer um som bem minimalista, apenas com voz, violão e sanfona (esta, tocada pelo músico Alisson do Acordeom). Ao fazer a melodia, Serafim respeitou as métricas originais criadas por Paulo – um trabalho bem cuidadoso, já que se trata de uma poesia que lança mão de palavras pouco usuais (cachaço, salobríneo, emboscado) e tem rimas bastante ricas. “Nossa parceria representa a junção dos nossos mundos, a música, a poesia e esse amor pelas coisas da nossa terra”, conta Serafim.
ELISA MAIA, “RUÍDOS DA CASA”. A cantora, compositora e produtora cultural amazonense Elisa Maia já tinha aparecido aqui no Radar com o single Quando sai. Com um álbum completo previsto para os próximos meses, ela lança agora Ruídos da casa, união de rock, pop e MPB em que ela recorda a época em que dividia uma casa em Manaus com artistas do Coletivo Difusão – grupo do qual faz parte desde 2011. Daí, sons como os da máquina de lavar, do ventilador e do interruptor da làmpada acabam se transformando em parte integrante da música – e os objetos da casa acabaram inspirando também o clipe, um vídeo vertical dirigido por Victor Kaleb e Ramon Ítalo.
“Vinda da Amazônia, onde tudo pulsa e ao mesmo tempo pede fôlego, aprendi que a música também é um jeito de sobreviver. Ruídos da casa é a minha forma de transformar o que era peso em movimento – de lembrar que até os barulhos que nos atravessam podem virar caminho”, conta Elisa. O clipe foi patrocinado pelo projeto Natura Musical.
RHAMAYANA, “TOTALMENTE TUA”. “Eu acho que essa música fica na cabeça das pessoas, pois os versos ‘quando estou com você, tou nua e, mesmo sem você, sou tua’ ecoam de forma íntima e melódica entre o cantar e o sussurro com uma batida muito gostosa”, conta Rhamayana, cantora e compositora da Bahia – nasceu em Feira de Santana e é radicada em Salvador – sobre Totalmente tua, faixa que abre seu novo EP (que tem nome parecido com o do single: se chama Totalmente nua). Uma canção pop de beat latino, que ganhou também um remix no EP.
O EP representa uma mudança na história de Rhamayana. “Comecei minha carreira falando de maternidade e de assuntos mais filosóficos relacionados à vida, ao tempo e a como sinto o mundo. E agora e o assunto mais presente nesse EP é o amor e o desejo. Essa canção é muito sensual e eu confesso que quando a compus, fiz desejando que uma outra cantora gravasse, uma cantora que eu amo a voz e que eu acho super sensual”, conta ela, que acabou resolvendo gravar sua própria música.
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Crítica
Ouvimos: The Fall – “BBC Radio sessions” (EP) / The Wedding Present – “Maxi” (EP)

RESENHA: Dois clássicos do indie britânico voltam em EPs: sessões inéditas do The Fall na BBC e um Wedding Present revendo o passado com guitarras afiadas.
Texto: Ricardo Schott
Notas: 8 (The Fall) e 8,5 (The Wedding Present)
Gravadoras: Beggars Banquet (The Fall) e Scopitones (WP)
Lançamentos: 29 de outubro de 2025 (The Fall) e 5 de dezembro de 2025 (WP).
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Duas bandas do indie rock britânico clássico ressurgem em EPs novos. A primeira delas em caráter basicamente póstumo, já que se trata de um grupo (The Fall) que encerrou atividades após a morte de seu líder – Mark E. Smith, saído de cena em 2018. A outra (The Wedding Present) retornou em 2004 e vem fazendo uma torrente de lançamentos desde então, focando justamente em EPs.
BBC Radio sessions traz o segundo volume de gravações do Fall feitas na BBC – no caso, uma sessão gravada em 28 de abril de 1987 e transmitida pela primeira vez em 11 de maio daquele mesmo ano. O repertório focou em faixas de EPs e singles lançados naquele período, trazendo também a novidade de Athlete cured, faixa que sairia em 1988 no disco The frenz experiment. O curto repertório abre com Australians in Europe, pós-punk de poucos acordes, com ataque de guitarra surpreendentemente metálico lá pelas tantas. Twister, por sua vez, tem vibe krautrock, balanço cerimonial e uma abertura que adianta em alguns anos o som de Jon Spencer Blues Explosion.
O EP é complementado pelo clima boogie e sujo de Guest informant – no qual a voz de Mark lembra a de um Mick Jagger insociável. E por Athlete cured, soando como o encontro entre os beats da Motown e de Bo Diddley com a energia caótica da no wave. Já Maxi, do Wedding Present, é um disco novo que faz referência ao passado – mais detalhadamente ao EP Mini, de 1996. Ambos os discos têm músicas que falam sobre… dirigir.
Com uma formação recente turbinada pela guitarrista Rachael Wood, o WP surge variando entre a balada pós-punk e um clima próximo do rock pauleira nos quase sete minutos de Scream if you want to go faster – música que ainda ganha um clima meio psicodélico graças às guitarras e teclados do arranjo. Grand prix é meio jangle pop, mas faz lembrar bandas como XTC e Joy Division, nos vocais e no arranjo, Hot wheels, por sua vez, é punk e ágil, com ótimo trabalho nas guitarras.
Cruzamentos entre jangle pop e pós-punk aparecem também em Two for the road e na ágil e terna Silver shadow. E igualmente em Interceptor, canção que lá pelas tantas, ganha peso no estilo do Black Sabbath – voltando depois ao som comum do grupo.
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Crítica
Ouvimos: Cat Arcade – “Fragmentada”

RESENHA: Cat Arcade foge do shoegaze padrão em Fragmentada, misturando ruído, pós-punk e melodia, com vocal dramático e identidade própria.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 2 de dezembro de 2025
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Banda gaúcha formada em 2019, o Cat Arcade lança o segundo álbum, Fragmentada, e marca algumas diferenças em meio à onda shoegaze que assola o rock nacional (e o internacional). O grupo não mira em paredes ruidosas de guitarras: o foco é em climas ruidosos entre Sonic Youth e o pós-punk, como na base de guitarra e nos riffs com eco de Sem rumo e Labirintos, que abrem o novo álbum. O vocal de Nina Barcellos é agudo e dramático, nada da vibe etérea dos sons ruidosos.
O grupo surpreende mais ainda com Videomaker, canção que tem algo de pop adulto anos 1980 (Marina Lima, Claudio Zoli, Vinicius Cantuária), mas traduzido para a atmosfera gélida do pós-punk – vale citar que até o título da faixa lembra a década em que criadores de conteúdo eram conhecidos como “videomakers” mesmo. Interrompida tem dramaticidade lembrando The Cure, enquanto Teste de sanidade tem até um certo clima de MPB “roqueira” dissolvido em meio a uma cara college rock – abrindo com um tom meio hispânico, e ganhando mais peso e melodia na sequência.
No fim do disco, Asas dá uma cara mais simples e melódica a Fragmentada, com evocações de Smiths e The Cure, ótimas guitarras e riff que chama a atenção. Um álbum que encontra identidade própria no ruído, no drama e na melodia.
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Crítica
Ouvimos: Varanda – “Rebarba” (EP)

RESENHA: O Varanda retrabalha sobras do ótimo álbum Beirada no EP Rebarba, focando no lado mais ruidoso, experimental e multifacetado da banda mineira.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 14 de outubro de 2025
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A banda mineira Varanda lançou a ótima estreia Beirada em 2024, e agora, pouco mais de um ano depois, sai Rebarba, EP com quatro músicas que estavam nas demos do álbum, retrabalhadas agora para lançamento e produzidas pelo próprio grupo. Não é raro que bandas e artistas mexam em sobras de seus álbuns para trabalhar como singles e EPs – Nilüfer Yanya fez isso recentemente – ou até mesmo como edições deluxe, o que é até bem mais comum. O Varanda, uma banda bastante multifacetada, escolheu determinadas faces de seu som para focar no EP.
Rebarba começa com o jazz rock indie de Não me – música que ao final, vai ficando saturada, como numa gravação com defeitos, mas que depois volta ao normal, como se Mario Lorenzi, Amélia do Carmo, Augusto Vargas e Bernardo Merhy desejassem que a última mensagem da música ficasse na mente. Espelho é pós-punk-MPB, um som bonito e mágico, baseado num riff grave e numa letra imagética (“me faltou o Carnaval / mas rolaram as fantasias”), além de quebras rítmicas, como numa valsa pós-hardcore. Cores no céu soa como um ensaio gravado, mas ganha um som meio maquínico e um clima lembrando o pop adulto nacional dos anos 1980.
Já Sol ameaça um blues na abertura, mas vai mexendo com métricas pouco usuas e focando na experimentação rítmica. Ela já me ama encerra o disco de modo bem despojado, com efeitos de teclados e um resultado bem próximo do noise rock – com direito a vocais esgoelados, lembrando Pavement, Nirvana e Sonic Youth. A julgar pela Rebarba, tudo indica um futuro bem ruidoso e experimental pro Varanda nos próximos discos.
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