Connect with us

Crítica

Ouvimos: Rod Krieger, “A assembleia extraordinária”

Published

on

Ouvimos: Rod Krieger, "A assembleia extraordinária"
  • A assembleia extraordinária é o segundo disco solo do músico gaúcho Rod Krieger, definido pelo músico como “obra artesanal”: ele tocou praticamente todos os instrumentos e fez a gravação de forma solitária em Sobral do Parelhão, no interior de Portugal. Em 2025 sai um filme do disco, que está sendo feito igualmente pelo próprio Rod, com imagens do fotógrafo Daryan Dornelles captadas em diferentes lugares e situações.
  • Os poucos convidados do disco são os músicos João Nogueira (piano em Cai o sol e sobe a luz), João Mello (flauta na mesma faixa) e Fabio Kidesh (tempura, sitar, vocais adicionais).
  • “Esse foi o primeiro trabalho em que fiz praticamente tudo sozinho, então tive momentos em que eu precisava me acertar comigo mesmo e decidir as coisas para poder ir para a próxima etapa do processo. Foi um aprendizado técnico e pessoal, porque ao mesmo tempo atuei como músico, produtor, compositor e engenheiro de áudio e não ter alguém para decidir as coisas do lado foi uma experiência nova”, conta Rod.

Popularizado inicialmente pelo rock básico da Cachorro Grande (banda gaúcha da qual foi baixista), Rod Krieger volta em clima de space rock em seu segundo disco solo, A assembleia extraordinária. Mais que isso: volta atualizando a psicodelia nacional dos anos 1970 e o som de artistas como Syd Barrett e Arnaldo Baptista para uma onda meditativa e eletrônica, unindo teclados a solos de flauta, e violões a climas espaciais, num álbum praticamente do-eu-sozinho (Rod tocou praticamente tudo em A assembleia, cuidou de quase toda a logística e ainda dirige um filme que está sendo feito, e que vem como complemento do álbum).

O tom psicodélico e eletrônico surge na vinheta-título, que abre o disco. Cai o sol e sobe a lua, na sequência, leva o idioma lisérgico para uma espécie de synth-pop orgânico, com programações e órgão hammond, cabendo lembranças até de Massive Attack (e de Prince, graças à aparição de uma flauta). Era, por sua vez, é rock dançante unindo anos 1960 e 1990, seguindo uma linha do tempo que vai de Pink Floyd a Primal Scream – o mesmo rolando em Fluxo das coisas, quase som de Madchester renascido em 2024. No final, A loucura do habitual vem quase como É fácil no Lóki? de Arnaldo Baptista, fechando com clima acústico.

O lado MPBístico do disco, herdado da modernização do rock nacional dos anos 1970, surge com força no balanço de Em qualquer lugar que existir, e na releitura folk-indianista de Cabelos longos, de Alceu Valença, originalmente um protesto contra a banalização do protesto jovem. Uma curiosidade é o tema instrumental Esse comboio não passa em Arroios, soando como uma versão mais simplificada do som do King Crimson, ou uma versão mais pós-punk de Lô Borges e Beto Guedes (você escolhe).

Nota: 8
Gravadora: Café8 Music

  • Apoie a gente e mantenha nosso trabalho (site, podcast e futuros projetos) funcionando diariamente.

Crítica

Ouvimos: Olivia Yells – “To the core” (EP)

Published

on

Resenha: Olivia Yells – “To the core” (EP)

RESENHA: No EP To the core, a curitibana Olivia Yells reúne demos e singles sobre amadurecimento, culpa católica e conflitos pessoais, cruzando grunge, punk, stoner e ecos de PJ Harvey.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 28 de agosto de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

A curitibana Olivia Yells faz de seu EP novo, To the core, uma espécie de “coletânea amarga”, com demos e canções já lançadas em singles – todas tratando de seu crescimento, da criação católica que recebeu de sua família, e de tudo que foi observando em si própria ao longo de seu amadurecimento. O material começou a chegar ao público de 2023 para cá e, reunido no EP, vem acompanhado de encucações bem interessantes que ela posta no Instagram: “diante de tudo que me aconteceu, de tudo que eu vivi, de tudo que me fizeram… será que é suficiente o que sobrou de mim?”, escreveu ela.

Olivia abre o EP evocando PJ Harvey na versão demo de Rotten, registrada em clima grave, com voz e violão, mas ganhando riff distorcido depois. Guilty, sobre culpa católica, e Sedate me, vêm entre grunge, punk e toques de stoner – com a diferença de que a segunda ganha vocais mais doces, e clima esparso. Curtinha, Clean tem algo de Hole, enquanto o final, com Dumb, evoca punk e metal cobrindo ambos com frieza, para falar sobre “essa ferida de ter internalizado que eu era burra” em meio a um mundo onde quem geralmente se sente com autoridade para ensinar são os homens.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Paura – “Primitive chaos”

Published

on

Resenha Paura – “Primitive chaos”

RESENHA: No nono disco, Primitive chaos, o Paura mistura hardcore, punk e metal em músicas sobre ego, ressentimento, xenofobia e machismo, recuperando o espírito das fusões entre punk e metal dos anos 1980 e 1990.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 31 de agosto de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

O Paura faz hardcore e punk com uma nada ligeira queda para o metal em seu nono disco, Primitive chaos – e fazem de suas músicas uma plataforma de observação do ser humano e das podridões do mundo, sem deixar de lado o senso de coletividade mais ligado às noções iniciais do hardcore.

A banda diz que se trata de um disco “primitivo” e feito com “amor e raiva”. Faz sentido diante de pancadarias curtas como Primitive chaos, The deepest evil (sobre as amarguras internalizadas ao longo da vida) e Sarcastic sadistic. Master your hate e King of yourself falam de temas como ego, coletivo e ressentimento virando ação em prol de algo.

O som do Paura em Primitive chaos tem muito do Sepultura – mas aponta sempre para o clima da banda nos discos Arise (1991) e Chaos AD (1993), quando os flertes com o punk eram maiores, em meio às criações groove metal do grupo. É uma referência audível nos vocais, no namoro hardcore + metal, e na construção de atmosferas pesadas e frias para acompanhar letras de protesto como Who’s the brave, a anti-xenófoba Immigrants are beautiful e a anti-machista (com início quase marcial) Their story still bleeds.

De certa forma, Primitive chaos remete a um som bem anos 1980/1990, com lembranças de um hardcore que ainda era uma novidade, e de um metal que, ao se misturar com elementos do punk, também era novidade. As várias partes de Serpent’s nest têm ate algo do grindcore do Napalm Death, banda cujo som também é filho dessas fusões.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Foglights – “Nous deux” (EP)

Published

on

Resenha: Foglights – “Nous deux” (EP)

RESENHA: No EP Nous deux, Eva Cord e Archie Ingram (os dois do Foglights) criam psicodelia etérea sem bateria, cruzando Velvet Underground, Spacemen 3 e folk com guitarras, teclados e vocais fantasmagóricos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Slumberland Records
Lançamento: 21 de agosto de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Eva Cord e Archie Ingram, os dois do Foglights, pertencem a projetos originais ligados a estilos como indie-pop e psicodelia (Eva é da banda The Cords, e Archie usa o codinome Stone Anthem). No EP Nous deux, o clima é voador e psicodélico, assumidamente inspirado em bandas como Velvet Underground, Spacemen 3, Opal e Spiritualized – eles recomendam o disquinho inclusive para fãs desses nomes -, com vocais, arranjos e letras que parecem vir do espaço. O som é preenchido por guitarra, teclados, alguns sons de cordas, e nada de bateria.

Tipo na abertura, com The rain felt kind, preenchida por versos como “deixe a janela bem aberta / deixe a manhã entrar / deixe-a ficar comigo por um tempo / até a chuva ficou gentil” – nessa faixa, uma guitarra tremida e um som de órgão de igreja acabam servindo como “cara própria” do duo ao longo do EP. Rola também no jogo de luzes e sombras da balada nostálgica I don’t know, com melodia lembrando nada discretamente a de Rollercoaster, do The Jesus and Mary Chain. Mas com clima tranquilo e cerimonial, bem diferente da faixa do Jesus.

The day the light stayed (Longer than us), aberta com um “ba ba ba ba”, tipicamente sixties, daria um bom jangle pop se tivesse bateria – aqui surge como um folk ultratexturizado, em que vozes e guitarras fantasmagorizam o arranjo. A brighter kind of almost, no fim, é tão romântica e esperançosa (com direito ao chilrear de pássaros no fundo) que mal dá pra ser classificada como dream pop, shoegaze, nada disso – parece um som dos Everly Brothers levado para o idioma do rock etéreo e da neopsicodelia.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS