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Crítica

Ouvimos: Riachão, “Onde eu cheguei, está chegado”

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Ouvimos: Riachão, "Onde eu cheguei, está chegado"

Onde eu cheguei, está chegado é um disco póstumo do sambista baiano Clementino Rodrigues, mais conhecido como Riachão (1921-2020). Por sinal, um disco quase sem a presença dele, cuja voz aparece em apenas quatro faixas. A situação lembra Erasmo Esteves, o primeiro álbum post-mortem de Erasmo Carlos, com uma grande diferença: Riachão estava ativamente trabalhando no disco antes de sua morte, e há mais registros. A equipe de produção concluiu o álbum após seu falecimento, reunindo diversos convidados — alguns assumindo faixas inteiras.

O título original seria Se deus quiser, vou chegar aos 100, mas não foi possível: Riachão partiu aos 98 anos, deixando uma discografia enxuta e um legado que passou mais por ciclos de redescoberta, do que por uma presença constante na mídia. De qualquer jeito, o álbum transpira vitalidade, especialmente nas faixas que trazem sua voz, como Sou da Bahia (com a guitarra de Roberto Barreto) e Saudade (com Criolo, em um design musical mais moderno).

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Entre os destaques, Tintim traz um clima irreverente, com Riachão e seu neto Taian Paim brincando com gírias baianas e histórias familiares. Já Sonho do mar, o encontro com Martinho da Vila, surpreende ao optar por um samba abolerado e discreto, em vez de algo mais explosivo. Das faixas sem Riachão, brilham a parceria de Nega Duda e Clarindo Silva em Homenagem a Claudete Macedo, e a fusão de vozes de Enio Bernardes, Fred Dantas e Juliana Ribeiro em Morro do Garcia.

Nota: 7,5
Gravadora: Ori Records
Lançamento: 24 de janeiro de 2025.

Crítica

Ouvimos: Ulrika Spacek – “Expo”

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Ulrika Spacek mistura rock, eletrônica e estranhamento digital em Expo, disco denso sobre tecnologia, solidão e experimentação sonora

RESENHA: Ulrika Spacek mistura rock, eletrônica e estranhamento digital em Expo, disco denso sobre tecnologia, solidão e experimentação sonora.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Full Time Hobby Music
Lançamento: 6 de fevereiro de 2026

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Li por aí que os integrantes da banda londrina de art rock Ulrika Spacek gravam discos, fazem shows mas ainda mantém seus empregos em áreas que não necessariamente têm a ver com música. Normal em se tratando de uma banda tão peculiar: nem sempre a música serve para pagar os boletos e ficar em dia com as contas. E Expo, o quarto disco, torna as coisas mais complexas até mesmo para quem tem na mente uma noção comum de “rock” (ainda que seja um rock artístico, psicodélico).

Se Expo vai garantir o pagamento do aluguel dos músicos, sabe deus. Mas já garante um lugar espaçoso para o Ulrika no meio da turma que, antes de qualquer coisa, vem usando a tecnologia para pensar – em tempos de IA, quando parece que a solução mais fácil é sapecar informações num chatbot, e em que até o pedreiro que faz obra na sua casa corre o risco de ser substituído por algum software. O repertório põe pra fora todo tipo de estranhamento com o mundo digital e com a puta solidão que vai enredando as pessoas.

Por outro lado, Rhys Edwards, Callum Brown, Joseph Stone, Syd Kemp e Rhys Jenkins, os cinco do grupo, estão bem longe de brigarem com a tecnologia (cá pra nós, dá pra perceber isso na história da banda). Expo é definido como “um diálogo entre o eletrônico e o analógico” e foi todo colado a partir de um arquivo de samples feito pelo próprio Ulrika Spacek. Vêm daí o stoner eletrônico e espacial de Picto, o loop de piano (que vai sendo acrescido de uma cadência entre o rock e o jazz) de I could just do it, a beleza tecnodélica de Build a box then break it e a marcha-rock (lembrando a cadência do Aphrodite’s Child) de This time I’m present. O clima é esse.

No decorrer do disco, o Ulrika faz jazz slacker (!) em Incomplete symphony, grunge viajante em Showroom poetry e soa como um Lou Reed robótico em Square root of none – sem falar na viagem sonora completa de A modern low. Já as tais letras do disco abordam esse tal isolamento por um viés bem humanista, como na quase auto-explicativa Build a box then break it, ou no desejo pelo mais puro mindfullness em This time I’m present – música que encerra com a frase “desta vez a soma de todas as partes será tudo”.

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Crítica

Ouvimos: Jonnata Doll e os Garotos Solventes + YMA – “Residência Risco #1” (EP)

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Residência Risco une Yma e Jonnata Doll em EP onírico e urbano, com pop mutante, clima cinematográfico e letras fortes entre violência e poesia crua.

RESENHA: Residência Risco une Yma e Jonnata Doll em EP onírico e urbano, com pop mutante, clima cinematográfico e letras fortes entre violência e poesia crua.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Risco
Lançamento: 10 de março de 2026

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Residência Risco é um projeto criado pelo selo independente RISCO para unir um / uma  artista do elenco com algum outro nome com quem ele não havia feito nenhum trabalho colaborativo ainda. A estreia rolou com duas usinas de invenção do pop-rock nacional: Yma soa quase como uma mescla de Kate Bush, Cate Le Bon e Rita Lee. E Jonnata Doll, com sua banda Garotos Solventes, é quase como uma mescla de fases diferentes de David Bowie: as sombras da era The man who sold the world (1970), a vibe rocker da era Spider From Mars e o clima experimental da fase Berlim.

  • Ouvimos: YMA – Sentimental palace

O EP que abre a série, gravado no Estúdio Canoa (SP), parece ter sido registrado num espaço grande e cheio de profundidades, para registrar uma música onírica e urbana simultaneamente. Tudo parece uma HQ cheia de histórias de sangue, violência e solidão, que se transforma em música no som marcial e psicodélico de Cuidado; no pop elegante e mutante, com ares de rock francês, de Domingo; e na vibe de trilha sonora, com emanações de Arctic Monkeys e The Last Shadow Puppets, de Calçadas.

Com títulos simples, as letras são ricas em imagens fortes e meio sangrentas – Domingo fala em “teu gosto / é chiclete de gilete”, enquanto Calçadas é violência do dia a dia, naturalizada (“a multidão se aglomerou / para ver as cinzas / disseram que conheciam / mas depois foram almoçar”). Uma parceria crua e elaborada, simultaneamente.

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Crítica

Ouvimos: Motorists – “Never sing alone”

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No disco Never sing alone, Motorists mistura jangle e power pop à la anos 70/80, com guitarras ganchudas e clima nostálgico em músicas atemporais.

RESENHA: No disco Never sing alone, Motorists mistura jangle e power pop à la anos 70/80, com guitarras ganchudas e clima nostálgico em músicas atemporais.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: We Are Time
Lançamento: 6 de março de 2026

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Essa banda canadense faz jangle pop como se fazia a uma dada altura dos anos 1980 – e faz power pop seguindo a receita do Big Star em quase todos os momentos. A ideia do Motorists é fazer uma música que doa no coração, mesmo em momentos mais alegres e tranquilos, como na enérgica Cristobal e na balada beatle Scattered white horses, que abrem este Never sing alone.

O terceiro álbum do Motorists, de certa forma, não entrega muito a época em que foi feito – mais ou menos como rola com o Fangus, banda de acid rock da qual falamos outro dia aqui no site. Never sing alone parece imune às referências do punk, e quase todo o material poderia ter sido composto e gravado em 1972 ou 1973 – e a partir disso, poderia ter influenciado estilos como punk e glam rock. Tem algumas exceções, como Diogenes, som bem oitentista, que poderia ter sido lançado pela Rough Trade em 1984, e que combina synths e percussões eletrônicas. E a vibe quase The Clash + The Jam de PCSD.

Quando rola mais intensidade sonora, dá para lembrar de bandas como Be Bop De Luxe e até dos Kinks no começo dos anos 1970. É o que rola nos dedilhados de músicas como The damage (meio parecida com o começo do Teenage Fanclub também, e com uma ótima cadência de guitarra solo e bateria no final) e no encontro entre guitarra e piano que rola no riff de Stander. Criadores do estilo jangly como os Byrds ressoam, cobertos por um despojamento musical aparente, em faixas como Frogman, Reprise e a belíssima e sombria Anomaniacs – essa última, uma outra faixa que se comunica com os anos 1980, especificamente com a turma jangle pop da fitinha C-86.

Apostando em vocais bem tramados, bases ganchudas de guitarra e em solos de guitarra que trazem outras belezas para as músicas – e que soam mais como descobertas musicais do que apenas como solos – os Motorists ainda têm tempo de fazer lembrar bandas como The Who (a curtinha The man in the circular window, com som de cítara) e The Hollies (Next blue kings). Uma beleza do começo ao fim, para cantar junto com eles.

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