Crítica
Ouvimos: Girl Ray, “Prestige”

- O Girl Ray é um trio londrino formado por Poppy Hankin (voz, guitarra), Iris McConnell (bateria, backing vocals), Sophie Moss (baixo, backing vocals). Já lançou três discos – o mais recente é Prestige.
- O trio vem sendo apontado como uma releitura indie da disco music e do r&b dos anos 1970, mas detalhes musicais e noturnos da cena queer dos anos 1980 também influenciaram o grupo.
- O nome Prestige vem de uma piada interna do grupo para definir coisas cool, bacanas e descoladas. A mãe de Poppy Hankin gostou do título e disse que “lembrava os nomes de alguns clubes idiotas que eu frequentava nos anos 1980”, o que animou as musicistas.
- Ben H. Allen (MIA, Christina Aguilera) produziu o álbum.
No que depender de nomes como Jessie Ware, a disco music – mesmo que seja apenas como um comentário, um recado musical, e não apenas como um estilo levado a ferro e fogo – está de volta na praça. Dua Lipa também foi responsável por fazer a onda dance dos anos 1970 voltar. No Brasil, Bárbara Eugênia (e seu projeto Djane Fonda) faz parte da mesma tribo.
Vindo de Londres, o trio Girl Ray não faz literalmente disco. O estilo musical é uma chave de entendimento para seu trabalho, e em especial para as músicas de seu disco Prestige, repleto de batidas dançantes, arranjos de cordas com cara seventies, guitarras e baixos que poderiam estar em discos do Chic, sonoridades achegadas do boogie oitentista… mas que não teriam sido resgatados se não tivessem sido processados via pós-punk, e via recrudescimento indie do glacê dance dos anos 1970. Da mesma forma, sem a Madonna de músicas como La isla bonita, e sem as colaborações de Nile Rodgers em seu trabalho, não haveria músicas como True love, Up, Everybody’s sayin that e quase todo esse Prestige.
O disco vai para uns lados curiosos e inimagináveis: Hold tight une bases de violão que lembram as bandas de rock dos anos 1970/1980 que tentavam se bandear para a disco music (Doobie Brothers, Rita Lee & Tutti-Frutti, etc), e guitarrinhas que focam no lado mais caribenho da dance music antiga. Easy é som dançante levado por violões. Prestige dá a impressão de um disco que envolveu muita criatividade e a audição de muitos outros álbuns e músicas, como fonte.
Gravadora: Moshi Moshi
Nota: 7
Foto: reprodução da capa do álbum
Crítica
Ouvimos: FBC – “Tambores, cafezais, fuzis, guaranás e outras brasilidades”

RESENHA: FBC mistura metal, hardcore, funk e samba em Tambores, cafezais, fuzis, guaranás e outras brasilidades, seu álbum de rock: um disco político, pesado e feroz sobre o Brasil de hoje.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Xeque Mate Estúdios
Lançamento: 1 de maio de 2026
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Tambores, cafezais, fuzis, guaranás e outras brasilidades é o disco de rock de FBC, um cara cuja carreira já foi do funk ao jazz, passando pelo rap e pelo pop nacional histórico. Só que FBC jamais faria um disco de rock “comum”, tanto que Tambores é um álbum pesado que abre com versões de duas músicas de João Bosco: Gênesis, que virou uma vinheta narrada, e O ronco da cuíca – no original, um samba psicodélico, e aqui, um afro-hardcore de respeito.
O disco de FBC já saiu há alguns dias, mas parece ter sido feito, gravado e lançado hoje mesmo. Sai inclusive a tempo de pegar as discussões sobre escala 6×1 (não por acaso, foi lançado no 1º de maio, dia do trabalhador). Oscilando entre Motörhead e Ramones, Sorriso capitalista zoa os abusos, disfarçados ou não, do dia a dia do trabalhador. O metal funkeado de Homo sacer, com Djonga, une lembranças de Funkadelic, Body Count e Black Sabbath para falar de chacinas, milionários e moedores de carne da vida no Brasil (“conheço mais cemitério do que maternidade”, diz Djonga na música).
O hardcore-funk-samba Não vote em ninguém assusta pelo niilismo político do título – mas a letra revela tudo: “não vote em crente e nem humorista / não caia na história do ‘deus, pátria e família’ / não vote em milicos se for votar em fascista (…) / se for votar em fascista não vote em ninguém” (com direito a um heroico “não vote em políticos do PL”). Lesa pátria, chutando a bunda do inominável – e citando nomes – leva o som de Tambores para o metal oitentista, e para o clima tr00zão do Judas Priest. Quinta coluna, esporro musical em quem idolatra líderes falsos e toscos, é hardcore com a vibe maquínica do Ministry, mas com certa onda psicodélica no arranjo. Os porcos vêm aí investe no rap-metal à Body Count e pergunta: “qual vizinho seu / tem um irmão ou teve um primo, um conhecido / mortos pelo estado?”.
Evidente que muita coisa do FBC roqueiro lembra bandas como Planet Hemp e Pavilhão 9 – nem poderia ser diferente, já que a norma culta da união rap + rock foi dada no Brasil por eles. O grupo liderado por Rho$$i ganha um quase tributo em Bandido bom, costurada por gritos de “sem anistia!” e lembranças do hit Mandando bronca, do Pavilhão. O balanço de Guilhotina tem muito de Planet e de Nação Zumbi, com FBC guiando o timão para a era em que milionários transformam-se em ídolos e coaches ganham espaço político (“até quando o povo aguenta calado / pobre de direita defendendo bilionário / quem pôs o país nesse buraco? / a direita macabra ou a esquerda do meio?”). O mesmo rola em Ódio social, metal funk que abre citando nomes como Antonio Conselheiro e Marielle Franco.
Tem verdades em Tambores que são complicadas de ouvir, especialmente para quem se amedronta com o resultado das eleições no fim do ano – há críticas ao governo atual em vários momentos, por exemplo. No final, FBC e MC Taya lembram da Guerra de Canudos como o primeiro terror do Estado (em Canudos). E Tiro de misericórdia, outra de João Bosco (e Aldir Blanc, parceiro nas outras duas faixas que FBC regravou) transmuta-se em metal + afrobeat + big beat orgânico.
Nessa música, gravada por João em 1977 no álbum Tiro de misericórdia, Aldir fez uma letra que narra o nascimento de Cristo como a concepção de uma criança abandonada, perdida em meio à guerra nos morros – mas cercada pelos orixás, mostrados como uma legião de reis magos. FBC manteve a letra intocada e mostrou que no Brasil, certas coisas talvez nunca mudem de verdade.
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Crítica
Ouvimos: Rancore – “Brio”

RESENHA: Após 15 anos, o Rancore volta forte em Brio: pós-hardcore, noise rock e reflexão existencial em ótimo disco ruidoso e inventivo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Balaclava Records
Lançamento: 30 de abril de 2026
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O hiato de 15 anos fez bem pro Rancore. Em vez de voltar limitado ao punk simples, ao shoegaze ou ao emo, a banda voltou em Brio, seu quarto disco, unindo pós-hardcore, psicodelia, vibe emocore + hardcore, e ruído assemelhado ao das gerações mais recentes do noise rock (Robber Robber, The Murder Capital). E seguindo uma cartilha em que uma boa ideia para composição, arranjo e produção vale mais do que barulho gasto à toa.
Brio começa circulando beats e criando ritmos com cadência própria na existencial Teoria do caos, e parte depois para o punk deprê de Eu quero viver (um chamado para a observação do “brilho da luz que não se apaga”, que soa como uma canção de adeus à fossa), e para o som motorik, com efeitos nas guitarras e vocais, de Preciosas cores – uma música cujo arranjo contrasta com a letra romântica e contemplativa.
A nascente envereda pelo pós-punk misterioso, com letra falando sobre celebrações da vida e perspectiva da morte – o mesmo som, com vibe noise rock, invade Sexo selvagem em meio a versos sobre contrastes entre joio e trigo, bem e mal. No punk Cara de louco, o tema são as máscaras e preconceitos do dia a dia. Valsa do imprevisível, que trata da vida como a eterna impermanência (citando o “wu wei” do taoísmo), soa como o Weezer do Blue album (1994), só que mais sorumbático.
Essa mescla de ruído, reflexão e alquimia ganha contornos math rock em Unhas e dentes – que cita o “é verdade sem mentira certo muito verdadeiro” que marcou A tábua de esmeralda, disco de 1974 de Jorge Ben. O final de Brio oscila entre emo e pós-hardcore gritado, na bela Cordão de ouro e na intensa Expansão. No geral, um ótimo disco de rock que ainda por cima leva para o gênero temas que só haviam aparecido em discos de MPB – da Tábua de Jorge ao Quanta de Gilberto Gil (1997).
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Crítica
Ouvimos: Hiqpy – “Slow death of a good girl”

RESENHA: Estreia do Hiqpy, Slow death of a good girl mistura shoegaze, dream pop e pós-punk com clima etéreo e ecos 90/2000. A vocalista Abir Hamam guia faixas entre emo, countrygaze e indie pop.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Sony Music
Lançamento: 10 de abril de 2026
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Slow death of a good girl, esse disco de título instigante, é a estreia da banda holandesa Hiqpy – um grupo liderado por uma cantora de ascendência tunisiana, Abir Hamam, que estudou no Conservatório de Amsterdã, e conheceu seus futuros colegas de banda por lá. O som de Slow death tá mais para uma música shoegazery do que para um shoegaze propriamente dito, em que clima etéreos e paredes de guitarras unem-se a firulas vocais que fazem lembrar Dolores O’Riordan (Cranberries) e Elizabeth Fraser (Cocteau Twins), e a um certo molho pop.
O disco abre com um emo gelado (Something), e vai partindo para sons quase countrygaze (Youman, que tem muito de Pretenders), para a área do pós-punk etéreo e sonhador (a smithiana Girl in red e o dream pop de Everything) e para uma onda bem oitentista, mas aquele típico oitentismo que as bandas de nu-metal entendem (Hedgehug).
- Conheça também The Spoiled, Weird Nightmare, Dusty Lucite, My First Time e Webb Chapel.
Tem bem pouca info sobre o Hiqpy na internet – e quando tem, vem escrito em holandês – mas parecem ser músicos novos que têm o som dos anos 1990 e 2000 como música de infância, e para os quais o shoegaze e o pós-punk já são “clássicos”. Isso tudo surge no som deles, já que a banda promove misturas sonoras em que o indie rock anos 1990 ganha um ar ligeiramente dream pop (Vibes under arrest), e varia entre emo e pós-punk em poucos minutos (Side piece, Cruel code, o dream pop + country Nothing).
Slow death of a good girl também é o disco de The building, música com sons bem misteriosos de guitarra, e que vai ganhando clima tranquilo. E de Red flag magician, canção de quase seis minutos em que o dream pop vai ganhando contornos pesados – e em que a letra parece falar sobre como as mulheres ainda são recebidas na indústria musical. “Parece que tenho todos os selos de aprovação bregas / atrás de todas as suas bandeiras vermelhas / validação é uma coisa estranha / mas você é um mágico nisso”, canta Abir.
Uma curiosidade no disco é Bowie’s pressure, new wave modernizada em que Abir fala do peso de ter David Bowie como referência, mas saber que ninguém pode ser igual a ele. “Se eu não posso ser uma heroína, então deixe-me ser uma tola / posso ser o que eu quiser, e acho que hoje serei grosseira / posso ser egoísta, sem pensar em você / vou me livrar da pressão do Bowie como você deveria ter feito também”. Olha… Até que faz sentido.
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