Crítica
Ouvimos: Céu, “Novela”

- Novela é o nono disco da cantora paulistana Céu, gravado no estúdio Linear Labs, em Los Angeles, nos Estados Unidos, com produção da própria cantora em parceria com Pupilo e o americano Adrian Younge.
- O disco foi gravado totalmente em fita e ao vivo no estúdio – Adrian, diz a cantora, tem uma premissa de trabalho que é o não-uso de computadores na gravação.
- “Novela é uma coisa brasileira interessante. Na verdade, não é brasileira, é uma coisa antiquíssima, mas que tem bastante esse lugar da latinidade, da dramaticidade da América Central e da América Latina, turca também”, contou a cantora à Rolling Stone.
O trabalho de Céu é tão marcado pela mistura que fica complicado não classificar seu som como reggae – estilo musical que, quando foge da caricatura, costuma se apresentar como uma obra em progresso, repleta de referências e detalhes. Novela, novo álbum da cantora, segue na mesma onda de misturas e experimentações musicais, mas com várias diferenças. Se você já gostava da cantora e compositora de discos como Tropix (2016) e Vagarosa (2009) – os dois melhores dela, em nossa modesta opinião – prepare-se para conferir o quanto tudo em Novela soa amadurecido, sem o conformismo ligado aos trabalhos costumeiramente rotulados como “maduros”.
Para começar, uma parte boa do material de Novela soa como se fossem músicas de Caetano Veloso pra Roberto Carlos gravar, ou de Roberto e Erasmo Carlos pra Gal Costa gravar. O álbum segue uma trilha de grandiloquência musical que já aparecia no disco anterior, Um gosto de sol, composto apenas por releituras e cheio de rodopios em torno do samba e de uma MPB mais formal. Gravado ao vivo e em fita (e aberto com um “alright” e uma contagem, o que já dá a noção da espontaneidade) Novela abre com um samba-soul tropicalista, Raiou, seguindo com o afrobeat de Cremosa, e um samba-reggae com cara de Jorge Ben, até mesmo na interpretação de Céu (Gerando na alta, com Anaiis).
O lado “pop de luxo” surge forte na balada Crushinho, e num soul cantado em inglês, e repleto de ganchos pop que vão de Marvin Gaye a Sullivan & Massadas (Into my novela, do bom verso em português “eu sou a protagonista da minha novela”). E também numa balada aberta por um “meu bem” (sim, lembramos do RC), Mucho ôro, além do encerramento com Corpo e colo, um dos maiores candidatos a hit. O lado psicodélico que gerou músicas como Minhas bic (do Tropix), gerou em Novela o ska lento sessentista Lustrando estrela e o reggae relaxante High na cachu. Um disco para ouvir, reouvir e colocar todos os outros de Céu em perspectiva, como se a partir de agora uma outra história fosse começar.
Nota: 9
Gravadora: Urban Jungle
Crítica
Ouvimos: Pulp – “Live!” (ao vivo)

RESENHA: Em Live!, o Pulp revisita clássicos e faixas recentes em um registro ao vivo que reafirma o olhar de Jarvis Cocker sobre classe, desejo, fracasso e pequenas humilhações.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Rough Trade
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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Como me disse não me lembro quem: as verdadeiras bandas vencedoras da “batalha do britpop” são as que não tiveram briga nenhuma por causa de nada. Ainda mais numa época tão explosiva e bacana da música britânica. Grupos como Suede, Placebo, Bush (vá lá) e Pulp deixaram o Oasis e o Blur brigando pelo pódio, e foram tratar de suas vidas. Aliás até o próprio Blur deixou o Oasis brigando consigo próprio e batalhando com seus próprios demônios pela liderança no rock britânico noventista.
Acabou que o Pulp se tornou “líder”, só que de uma maneira bem diferente da do Oasis. Banda veteraníssima formada em Sheffield no distante ano de 1978 (!), por um então adolescente Jarvis Cocker, acabou se tornando especialista em desmontar conceitos: igualdade social, vida justa, estilo de vida “alternativo”, classe trabalhadora britânica, refinamento, anti-refinamento, e todos os carros alegóricos do Carnaval do rock alternativo britânico.
Explicando mais ou menos bem: se os irmãos Gallagher eram os trabalhadores broncos e brigões, Jarvis era a “classe operária” com cultura, vida boêmia e algum refinamento, mas incapaz de performar sofisticação, justamente por não se enquadrar em nada. Desde o começo, e mais ainda em álbuns como o clássico Different class (1995), o Pulp tá aí, olhando a vida social britânica de baixo para cima: quem está dentro, quem está fora, quem finge pertencer e quem nunca vai pertencer de verdade, por mais que siga tentando.
Essa turma toda tá nos versos dos grandes sucessos do Pulp, que reaparecem em versões emocionantes em Live!, disco ao vivo que serve de trilha para o documentário What do you do for an encore?, dirigido por Garth Jennings, que passou pelos cinemas lá fora e surge na plataforma Mubi no dia 25 de setembro. Acalentando fãs interessados em histórias nada heroicas (fracasso, desejo, sexo, dinheiro, festas ruins, relações desiguais e pequenas humilhações do cotidiano disputam espaço nas músicas do grupo), Jarvis e seus cometas fazem um disco que, acima de tudo, embeleza a vida, ainda mais em tempos duvidosos.
Com um terço do repertório tirado do disco mais recente do grupo (o excelente More, de 2025, primeiro álbum de inéditas desde 2001), Live! abre com a voz da atriz Kelly McDonald falando “esta apresentação é um bis; um bis acontece porque o público quer mais” e garantindo a conexão bizarra que o Pulp sempre teve com seus fãs. Com várias canções clássicas reunidas, sempre é tempo de perceber a relação que o Pulp tem com estilos como o sophisti-pop, e com a vontade de ser uma espécie de anti-Roxy Music.
O Pulp lembra uma curiosa mescla de Abba, Smiths e Elton John (com citação direta de Saturday night’s alright) em Disco 2000, e impressiona pelo sarcarsmo e pela fineza de faixas como Help the aged, Sorted for E’s & wizz (música que desmonta a fantasia comunitária da raves) e Common people. E dá uma bela animada em faixas como Farmers market, This is hardcore e Do you remember the first time?. Algumas das músicas mais bonitas do britpop estão aqui.
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Crítica
Ouvimos: Jonabug – “Torpor” (EP)

RESENHA: No EP Torpor, o Jonabug deixa o “emo caipira” em segundo plano e se aproxima do shoegaze para falar de amadurecimento, relações tóxicas, escolhas e descobertas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: + um Hits
Lançamento: 11 de setembro de 2026
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O Jonabug é bem produtivo – volta e meia a banda chega com novidades, e dessa vez a parada do momento é o EP Torpor, segundo lançamento mais ou menos “cheio” da banda após o álbum Três tigres tristes (2025, resenhado pela gente aqui). Marilia Jonas (guitarra e voz), Dennis Felipe (baixo), Samuel Berardo (bateria) e Thales Leite (guitarra) voltam fechando a porta para a toxicidade do mundo em Rascunho, primeiro single do EP, e isso já resume o disco. Nas quatro faixas, o EP trata de amadurecimento, reflexões, crescimento e limites dados a gente que já se aproveitou demais.
Marília canta sobre “por pouco” não ter impedido alguém bem tóxico de entrar na vida dela (Rascunho) – e também sobre um amor que não tinha como se realizar (I can’t be with you), escolhas cagadas da vida (a sombria e funkeada Entre o certo e o errado, gravada com a banda sergipana Cidade Dormitório) e fugas e descobertas (Is this the end?). Acompanhando as mudanças internas, o repertório fica bem mais próximo do shoegaze que marcou a história da banda do que do “emo caipira”.
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Crítica
Ouvimos: João Jardel – “megaPOP” (EP)

RESENHA: Em megaPOP, João Jardel encerra sua trilogia afro-diaspórica com eletrônica, ambient, funk e jungle para falar de decadência, falsidade no meio artístico e rejeição à mediocridade.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: HC REC
Lançamento: 2 de setembro de 2026
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Vindo de Itabira, interior de Minas Gerais, João Jardel é daqueles músicos para quem o pop significa muito – desde que seja possível tratá-lo meio mal de vez em quando. Nos últimos anos, ele tem se dedicado a uma trilogia afro-diaspórica que abriu com o EP Pop (2024), seguiu com o álbum Anti-POP (2025) e agora encerra com megaPOP, EP cujas melodias e letras falam de tudo, menos de uma vida “pop”.
Muito pelo contrário: entre melodias eletrônicas, sombrias e de clima afro-não-pop, os personagens das letras de João Jardel são uma pessoa que basicamente definha (em megaPOP1, música que pode ser definida como um ambient no qual você não gostaria de viver), um sujeito que adoraria um laudo médico que justificasse sua fuga da mediocridade performática alheia (megaPOP 2, com clima de Suicide), além do próprio desencanto com a falsidade do meio artístico (o funk EDM megaPOP 4, do verso gritado “eu vou fazer um ebó e vou pedir pra Xangô pra cuspir fogo na cara dos inimigos”).
MegaPOP traz também o “sou preto inteiris, cumpadi!” de Mussum sampleado em Mussum interlúdio e um jungle (o megaPOP 3) cuja letra é repleta de maneiras cool de xingar alguém. Quem ficar chocado com esse disco tá precisando ouvir umas verdades.
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