Crítica
Ouvimos: Butthole Surfers – “After the astronaut”

RESENHA: Butthole Surfers enfim lançam o engavetado After the astronaut, disco de 1998 que soa mais atual hoje do que na época. Ouça.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Sunset Blvd Records
Lançamento: 26 de junho de 2026
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A historia de After the astronaut, disco “novo” dos Butthole Surfers, a gente já contou aqui no Pop Fantasma antes. Resumindo: ele teria sido o disco de 1998 do grupo, lançado pela Capitol, e algumas cópias promo dele ja haviam até sido enviadas para jornalistas. Mas sem qualquer explicação, o álbum foi engavetado: uns dizem que por conta da Capitol, que não enxergou hit nenhum ali – mas há suspeitas de que a própria banda tenha odiado o resultado e cancelado o lançamento (!).
Em 2001, o grupo foi contratado pelo selo Hollywood Records, pegou o repertório de After e fez uma refação quase geral, regravando algumas músicas – saiu Weird revolution, disco que acabou não sendo muito curtido nem pelos fãs, nem pela banda. Paul Leary, guitarrista do grupo, conta que a banda puxou o repertório de After na nova casa, mas a Hollywood pediu uma série de modificações e assim o disco foi feito.
O fato é que a estranha loucura dos BS ficou parecendo um peido de Beck ou dos Beastie Boys, mais assemelhado ao rock mainstream “estranho” da virada dos anos 1990 para os 2000. Ou seja: Smash Mouth, Cake, a transformação dos anarcopunks do Chumbawamba em banda pop, Bloodhound Gang, etc. After the astronaut, que já vinha há anos sendo pirateado no Soulseek, sai só agora, em tempo de redescoberta dos Butthole Surfers, com direito a documentário sobre a banda.
E aí que, se After houvesse sido lançado pela Capitol naquela época, enfrentaria uma realidade bem louca: na segunda metade dos anos 1990 o mercado tinha virado e não era qualquer estranhice que poderia ser absorvida pelo “grande público”. Afinal, estamos falando de um disco que começa com uma pregação a favor dos excêntricos de todo o mundo (Weird revolution, narrada pelo líder Gibby Haynes em meio a beats eletrônicos e scratches), segue com um rap sinistro e industrial (Intelligent guy) e embica na psicodelia eletrônica (Jet fighter) e prossegue em climas dance-lisérgicos (Mexico, o drum’n bass Imbuya, o rap jazzy-indianista Venus).
Parecia um bombril meio radical sendo passado na história de uma banda tão ligada ao punk e ao hardcore, embora o som de After tivesse bastante a ver com o maior hit da história dos BS, que era a dançante Pepper (do disco Electriclarryland, de 1996). Dava para comparar o som do grupo lá por 1998 com Beck, com Happy Mondays, com Black Grape – que eram artistas ligados a selos bem menores que a Capitol.
O lance é que por uma manobra louca do destino, After the astronaut sai em 2026 a tempo de poder ser considerado um disco mais ligado aos tempos de hoje do que à música de 1998 ou 2001. Músicas como The last astronaut, as sombrias Yentel e Junkie Jenny in Gaytown e o rap-shoegaze They came in podem interessar muito a fãs de bandas como Mandy, Indiana e Scaler, ou a quem acompanha as inovações feitas hoje em dia por Kim Gordon. Ouça correndo.
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Crítica
Ouvimos: Bruno Berle – “Sem fronteiras”

RESENHA: Bruno Berle lança Sem fronteiras, terceiro álbum do cantor alagoano, produzido por Batata Boy. Em dez faixas, o disco cruza boogie, soul, MPB, afropop e psicodelia com uma estética lo-fi e sonoridade de fita.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Far Out Recordings
Lançamento: 10 de julho de 2026
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Existe uma cena musical nas Alagoas que vem se tornando uma verdadeira onda “sem fronteiras”, incluindo artistas como Batata Boy, Nyron Higor e… Bruno Berle, cujo terceiro disco dá contornos conceituais a isso tudo. Sem fronteiras, com dez faixas em menos de trinta minutos, tem a mesma concisão de No reino dos afetos (2022) e No reino dos afetos 2 (2024), os dois álbuns anteriores. Bruno e Batata Boy, seu produtor e fiel escudeiro, mantêm o clima de casualidade nos arranjos, marcados pela estileira lo-fi e por um som “de fita”, envelhecido como se o tape tivesse sido desencavado de alguma gaveta.
O som de Bruno vem de uma colagem musical baseada no boogie, no soul, na MPB feita entre os anos 1970 e 1980, e num certo clima sonhador que havia nos álbuns setentistas de Gal Costa, com o uso de uma bateria leve, synths analógicos, pianos elétricos. Gravado durante a turnê de No reino do afetos 2 (em diferentes cidades do Brasil e da Europa), Sem fronteiras soa como um mostruário atualizado do som de Bruno – ou como uma redução formatada do som dos discos anteriores.
Muita coisa se destaca em Sem fronteiras: a percussão eletrônica quase industrial de Não posso viver sem você (balada de vocal leve e efeitos musicais oníricos), o clima sombrio e venturoso de A noite de estrelas, a pegada Djavan lo-fi do instrumental Outra noite, o ritmo sinuoso de Você já sabe que eu te amo (com Nyron Hygor), o folk caseiro e contemplativo de Manhã, o afropop circular e altamente percussivo de Amor inteiro, a viagem olivettiana-psicodélica de Ideias mágicas… E de modo geral, parece que Bruno Berle vem descobrindo como soar mais acessível mantendo os valores dos primeiros discos.
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Crítica
Ouvimos: The Darling Buds – “Same sun / Same sky”

RESENHA: The Darling Buds celebram 40 anos com Same sun / Same sky, quarto álbum da banda galesa. Em 2026, Andrea Lewis Jarvis e o grupo retomam seu indie pop com jangle, punk, power pop e ecos dos anos 1960.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Cherry Red
Lançamento: 31 de julho de 2026
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Surgidos em 1986 no País de Gales, The Darling Buds completam 40 anos este ano, pelo menos em tese – o grupo havia terminado em 1993 após lançar o disco Erotica (1992, Epic Records), e de acordo com eles próprios, encerraram atividades porque não suportaram a pressão da mudança para Los Angeles, dos gastos financeiros, das turnês que deixavam a banda cada vez mais distante de casa, etc. Rolou uma volta breve em 2010, e um retorno “de vez” em 2013, que já rendeu um EP, algumas gravações extras e este Same sun / Same sky, que é o quarto álbum da banda.
Marcado pela voz da carismática Andrea Lewis Jarvis, os Darling Buds ressurgem em 2026 como uma banda britânica da virada dos anos 1980 para os 1990, com clima jangly, batidas sinuosas e algo que conversa tanto com o punk rock quanto com o som dos anos 1960. Uma vibe que já surge em Hey Saint Jude, a faixa de abertura, com seu refrão luminoso marcado por metais discretos – e ganha contornos mais distorcidos no punk misterioso e garageiro de Intruder, algo entre The Cure e Blondie.
- Howling Bells comemora 20 anos da estreia com relançamento em vinil e demos inéditas
São duas primeiras faixas que já respondem por boa parte do astral do disco, sempre com um pé no ruído e outro na beleza pop. Que marcam também, em doses diferentes, faixas como o bubblegum selvagem Oh no you don’t e Cast a stone, o power pop celestial Cut me dead (que lembra o estilo dos Primitives), o rockão 60’s de Jump in e Lost time – tudo balizado pela mesma disposição indie-pop que fez o DJ John Peel prestar atenção neles quando ainda eram uma banda independente.
Same sun / Same sky ainda brilha no folk brit pop de Giddy in a good way, no pós-punk quase beatle de Leaving the scene e Paper planes, na balada soul-punk Pollyanna says, e no punk estiloso e ágil de Pretenders (que lembra a onda da banda de Chrissie Hynde, até nos solos de guitarra). Ouça correndo.
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Crítica
Ouvimos: Pussy Miel – “Bee raged” (EP)

RESENHA: O Pussy Miel estreia com o EP Bee raged, seis faixas que cruzam grunge, stoner, garage e skate-punk. Entre Melvins, Kyuss, Black Sabbath e L7, a banda francesa transforma ruído, peso e fúria em linguagem.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: A Tant Rêver Du Roi Records
Lançamento: 13 de março de 2026
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O Pussy Miel é uma banda francesa formada por mulheres, cujo som fica entre estilos como grunge, stoner, garage e até skate-punk. O EP Bee raged tem seis faixas e encontra no ruído a melhor forma de expressão, cabendo até algo entre Melvins, Kyuss e Black Sabbath na faixa de abertura, Don’t know – que abre em tom sinistro e ganha ares punk-metal, antes de emendar em outras partes, bem mais psicodélicas.
A coisa fica bem mais sinistra em Covid, stoner selvagem que fala sobre a doença e recuperação de alguém – dos problemas para respirar até a sobrevivência. As letras seguem em clima quase marcial, com poucos versos e algumas anotações sobre situações estranhas da vida, como no punk rock Lack of understanding.
- Dééfait: banda francesa transforma improviso em tensão no novo single
E quase sempre o material aponta para a luta pessoal, como no renascimento de Wasted, próxima de um cruzamento entre Kyuss e L7. Don’t change me, por sua vez, é punk em tom de porrada noventista, na cola de Babes In Toyland, enquanto Dèlivré, no final, investe no punk demolidor e frio, com letra em francês.
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