Em 2010, a esperança venceu o medo. Calma que não estamos falando da eleição de político nenhum: o assunto aqui é o passeio de moto que o já saudoso Neil Peart, baterista do Rush, fez naquele ano, aproveitando uma turnê que a banda faria no Brasil (a Time machine tour, na qual tocaria o repertório do LP Moving pictures). Peart, que escreveu uma crônica enorme sobre o passeio em seu site (em inglês), chamada O Poder do pemsamento positivo, iria circular de moto pelo trajeto que sua turnê faria na América Latina, ao lado de Brutus, seu companheiro de aventuras motociclísticas.

O músico decidiu aproveitar quatro dias de folga entre os shows em São Paulo e Rio para fazer o tal trajeto com sua BMW R1200 GS. Seguiria pilotando até Argentina e Chile, onde a banda também tinha datas, e precisava tomar o máximo de cuidado para não se embrenhar em qualquer canto e perder os shows. Como tudo que pode dar errado dá, a dupla não se entendeu muito bem com o GPS e errou o caminho.

“À medida que as datas na América do Sul se aproximavam, admito que fiquei cada vez mais nervoso com isso, definindo meus sentimentos como ‘antecipação e apreensão – em igual medida'”, escreveu. “Esperança e medo, em outras palavras. Na van do aeroporto para o primeiro hotel, em Campinas, perto de São Paulo, sendo conduzida (e vigiada por armas) pela estrada escura, senti até um pouco de pavor. Após o primeiro show, em São Paulo, quando Brutus e eu começamos a andar, parecia que eu estava com um nó no estômago, e carregava essa ansiedade comigo o tempo todo. Houve muitas ocasiões em que pensei: ‘Foi uma péssima ideia'”, admitiu.

Neil foi desencorajado por praticamente todo mundo naquela época, inclusive sua mulher, sua mãe e amigos próximos. Alex Lifeson e Geddy Lee, já sabendo que o amigo não iria desistir da ideia, nem abriram as bocas. Não era a primeira vez que ele e Brutus viajavam juntos e poderia dar certo – até porque todo o trabalho teve seis meses de planejamento. Só que após passarem por lugares como Petrópolis (RJ), Campinas (SP) e Curitiba (PR), prosseguindo para o sul do país, fodeu. O GPS parou de funcionar, não havia sinal de nada, nem pessoas por perto e os mapas não serviam de mais nada porque a dupla mal sabia onde estava. “O nó no estômago foi crescendo, e eu disse a mim mesmo, mais ou menos nessas palavras: ‘Nos fodemos'”, escreveu.

O único jeito era aproveitar o passeio de fim de tarde e prosseguir, mesmo sem saber onde estavam. A dupla conseguiu ver placas e descobriu que seguia para uma cidade chamada Itapiranga (SC). Hospedaram-se num hotel chamado Mauá, Peart e Brutus assistiram a um show no local (Peart pediu ao garçom que anotasse os nomes dos músicos), dormiram, pegaram uma balsa, ficaram perdidos novamente (saíram pedindo informações às poucas pessoas que encontravam pelo caminho) e depois – final feliz – conseguiram colocar-se na estrada prontos para que Peart continuasse a turnê com o Rush, indo para Argentina.

Agora, se você está com tempo de ler o texto inteiro, prepare-se: Neil Peart decidiu fazer nesse texto uma mescla de “diários de motocicleta” com trechos reflexivos sobre o sentido da vida (dá pra perceber só pelo título), incluindo detalhes sobre os lugares pelos quais ele passou com Brutus, e como cada lugar alterou bastante sua percepção das coisas. Vá em frente e tire um tempo para ler.

E olha aí o Rush em 2010 no Rio. R.I.P. Neil Peart.

(na foto lá em cima, Brutus e Neil Peart numa vinícola da Argentina)