Qual foi o primeiro disco dado de graça na internet? In rainbows, do Radiohead, em 2007, correto? Nada disso: sete anos antes, os Smashing Pumpkins já tinham dado a seus fãs de graça (ok, em termos, mas o próprio disco do Radiohead também foi “em termos”) o álbum Machina II/The friends and enemies of modern music. Um álbum que você escuta inteirinho aí nessa playlist do YouTube.

Machina II, você deve saber, é a continuação de Machina/The machines of God (2000), o quinto disco dos Smashing Pumpkins. Um disco que até hoje dá pulga na cama do líder da banda, Billy Corgan, puto da vida com as baixas vendagens e com o desinteresse do público por um álbum que ele considera um dos mais fortes da banda. E que marcou a volta do baterista Jimmy Chamberlin ao grupo, após um afastamento por abuso de drogas.

2000 não era um ano comum para a música pop, com vários grupos de pop adolescente e de emo fazendo sucesso e um salto para a queda geral na venda de CDs se avizinhando. Os Smashing Pumpkins não haviam sequer conseguido impressionar sua própria gravadora, a Virgin, com Machina/The machines of God. Que é um disco que, na concepção de Corgan, deveria ter sido duplo e gerado uma espécie de musical. No roteiro, um astro do rock chamado Zero (uma espécie de alter-ego de Corgan) passa a se chamar Glass e nomeia sua banda como The Machines of God.

Adore (1998), o disco anterior, já havia feito pouco sucesso e a gravadora preferia que a banda voltasse (ora bolas) a vender discos. Se em Adore a banda resolvera cair dentro do rock eletrônico, no novo álbuns os sons artificiais apareciam misturados com guitarras e tons góticos. E geravam pelo menos uma música bizarra, fantasmagórica e complexa, Glass and the Ghost Children, de mais de nove minutos.

Ah, sim, teve Try try try, o grande hit do disco, com clipe feito por Jonas Akerlund em duas versões, contando as desventuras de um casal de junkies, Max e Linda, na cidade grande. Na versão mais popular, Linda, grávida e tendo uma overdose de heroína, é salva pelo gongo. O mesmo não acontece na versão short film, de quinze minutos.

A ideia original do megalomaníaco Corgan era que o projeto Machina fosse lançado todo num pacote só. A Virgin não quis. The machines of God pegou poeira nas lojas e a gravadora também não quis investir no volume 2. No dia 5 de setembro de 2000, a banda soltou o disco pelo próprio selo montado por Corgan, Constantinople Records.

Como tudo que envolvia os Pumpkins tinha que vir com um drama especial, lá vai: a banda soltou o disco na web e fez 25 cópias em vinil (!) dadas a amigos e a fãs que destacavam na comunidade online do grupo. Não houve lançamento oficial em CD. E em 2000, você talvez se recorde, vinil era quase piada de salão.

Você deve estar se perguntando: se The Machines of God gerou tanto problema, o que sobraria para uma simples continuação? Pois é: The friends and enemies até que conseguiu um resultado bem melhor de público. A Pitchfork, então engatinhando, fez uma resenha bem positiva, dizendo que a banda conseguiu colocar na continuação o que faltava no disco original (“o som de uma banda tocando”) e comparou o trabalho de Billy Corgan como produtor com o de Butch Vig (Nevermind, do Nirvana).

Ouvindo o disco hoje, dá pra conjecturar: as frustrações com a Virgin finalmente fizeram Billy Corgan e seus colegas (James Iha, guitarra; Jimmy Chamberlin, bateria; Melissa Auf Der Maur, baixo, substituindo a demissionária D’Arcy) meterem na cabeça que precisavam descontar todas as aporrinhações na música. Olha aí Dross, som bacana e pesado do disco.

Let me give the world to you, o, er, single do disco, também vale sua audição. Essa música foi gravada também nas sessões de Adore e chegou a sair num frelançamento do disco, mas numa versão bem mais levinha.

Em 2015, num bate-papo com os fãs, um bem-humorado Corgan respondeu algumas perguntas sobre Machina I e II. Só faltou fazer top top e falar “levei fumo” aos admiradores.

Um fã queria saber se havia a possibilidade de ver o conjunto Machina numa caixa só. Nada: Corgan estava numa disputa com a Virgin para conseguir isso, só que a gravadora havia trocado de mãos várias vezes e ele mal sabia a quem deveria se reportar. Fora que o selo havia parado com os relançamentos e ele queria fazer algo, er, de nível, com vários ensaios, shows, coisas que ele tinha guardadas, etc. E Corgan teria que tirar grana do bolso para fazer qualquer coisa.

“Isso tudo não me surpreende porque esse disco tem uma nuvem negra em volta dele”, disse, afirmando também que considerava o conjunto Machina um filme inacabado. “Na época, precisei decidir se queria continuar com aquilo, porque tudo indicava para: abandone a ilha, saia da banda e foda-se tudo. Tem momentos na vida em que seu sexto sentido está gritando: você tem um relacionamento ruim, um trabalho ruim, tá na hora de cair fora. Por algum motivo passei por cima disso e terminei o disco”.

Mais: Billy diz que fica bastante chateado quando vê que Machina/The machines of God não é popular nem entre os fãs de verdade da banda. E que, pouco antes de um fã começar uma campanha pelo relançamento do pacote Machina, um selo procurou Corgan com uma proposta de relançamento de todos os discos da banda. “Só que se você vê o e-mail, Machina não está citado lá!”, contou, rindo da desgraça. “Se até a gravadora que tem os direitos do disco não sabe que ele existe, isso é muito maluco”.

Machina II não está nem nos sistemas de streaming, mas enfim, aí em cima você encontra tudo no YouTube. E um fã da banda teve a trabalheira de colocar TODO O MATERIAL da pacoteira num só arquivo de YouTube, de quase três horas.

Com infos de Diffuser