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Crítica

Ouvimos: Kneecap – “Fenian”

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Resenha: Kneecap – “Fenian”

RESENHA: Fenian, do Kneecap, mistura rap militante e som hipnótico para tratar de política, humor ácido e crises pessoais num disco envolvente.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Heavenly Recordings
Lançamento: 1 de maio de 2026

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“A história se lembrará de vocês, seus merdas, e vocês nunca serão perdoados”. Se você em algum momento da vida se sentiu oprimida / oprimido e sonhou em gritar isso a plenos pulmões, provavelmente o novo disco do Kneecap, Fenian, vai te interessar, e muito.

O grupo da Irlanda do Norte insere essa frase na música Carnival, faixa que encena o julgamento de Mo Chara, integrante da banda que foi acusado de exibir uma bandeira do Hezbollah no palco em um show em Londres, em novembro de 2024 (o caso acabou sendo arquivado).

Mesmo tendo vibe guerrilheira em letras e imagem, o Kneecap age nas sombras sonoras. Fenian, o segundo disco, lembra uma curiosa mistura de Cypress Hill e Massive Attack: músicas militantes, som que vai se insinuando aos poucos e crescendo no ouvido, de forma quase hipnótica e experimental.

É o que rola na turbulência de Smugglers & scholars e Palestine (de versos certeiros como “vire-se, não olhe, siga em frente / seja surdo, seja quieto, seja cego / mais uma luta, não apenas cultural / e já passou da hora”), nas falas coladas de Éire go deo, no rap sinuoso da própria Carnival. Fenian, gravada com os Casiokids, tem uma certa cara de hit oitentista zoeiro – o tipo de música que poderia virar novelty record lá por 1985 – mas só pra quem se recusou a prestar atenção na letra.

Há momentos de peso eletrônico, quase na onda de grupos como Front 242, em Liars tale, cuja letra prega que “você acha que a gente ia superar e esquecer o que aconteceu? / que nada, que se dane o Keir Starmer / o capacho do Netanyahu e o genocida / melhor ele virar adubo para os fazendeiros”. Big bad Mo é um big beat das antigas cuja letra festeja as vitórias recentes do Kneecap. O jungle toma conta de Headcase. Gael phonics é um boombap quase hipnótico.

E o principal é que o Kneecap não é um grupo que faz cara de mau. Pra muita gente, um disco como Fenian já é a mais pura maldade: a ideologia do grupo (provocação política contra o establishment britânico que domina a Irlanda do Norte) já é demonizada por uma turma enorme. Tão demonizada, enfim, que dá até para usar o humor, fazer dançar e zoar com classe, como no batidão An ra (“assassinato de menores e mineração na África / esta é a terra que nos deu os Pet Shop Boys / sem eles no Natal, não teríamos brinquedos fabricados em fábricas exploradoras / crianças pequenas na China não teriam emprego”) ou no cansaço da fama de Cold at the top.

O fim de Fenian mostra que há um subtexto no disco. E que esse subtexto une temas como vícios, insônia, frustrações, porradas emocionais – e como isso tudo surge de contornos políticos, da depressão e do estresse como males dos tempos atuais. O reggae rock Cocaine hill fala sobre isso em versos como “mas isso me viciou, conecta direto nas minhas veias / fico acordado a noite inteira contando estrelas e aviões / isso vai me fazer dormir ou vai me deixar louco?” (além do “você já ouviu a história da Cocaine Lil? / ela tinha uma biqueira na Colina da Cocaína”, cantado por Radie Peat, do Lankum).

A desolada e tecladeira Irish goodbye encerra o álbum em clima tristonho e simples: o integrante Móglaí Bap fala sobre o suicídio de sua mãe. É basicamente uma faixa “sobre as coisas comuns que eu e minha mãe fazíamos juntos”, num clima quase oitentista, em que teclados soam quase como um ambiente à parte. A faixa ganhou inclusive um curta-metragem de doze minutos (veja abaixo),

O Kneecap quer ser mais entendido e sentido do que temido, ou considerado “a banda de protesto que usa máscaras”. Nessa vibe, Fenian é um disco que vai fazer cabeças.

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Crítica

Ouvimos: DIIV – “ZIRP!”

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Resenha: DIIV – "ZIRP!"

RESENHA: Em ZIRP!, quinto álbum do DIIV, a banda mistura shoegaze, eletrônica e pop sob produção de A. G. Cook, com letras sobre algoritmos, IA e capitalismo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Fantasy Records
Lançamento: 30 de outubro de 2026

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O DIIV continua sendo uma das bandas que melhor sabem misturar doçura e ruído, especialmente quando juntam as guitarras carregadas de efeitos aos vocais quase sussurrados de Zachary Cole Smith. Só que ZIRP!, quinto disco do grupo nova-iorquino, amplia bastante essa receita. Depois do slowcore + grunge de Deceiver (2019) e do shoegaze sem sombra de dúvida de Frog in boiling water (2024, resenhado aqui), o quarteto resolve abrir espaço para melodias mais pop, eletrônicos e até alguma diversão. Tudo isso sem perder a identidade.

A presença de A. G. Cook na produção poderia indicar uma guinada radical. Colaborador de Charli XCX e Caroline Polachek, ele acabou preferindo trabalhar com baterias reais e guitarras cheias de pedais, deixando os computadores para intervenções pontuais. Em The fountain, que abre o álbum, até a guitarra parece sair de uma máquina, entre ruídos de transmissão e interferências eletrônicas. When the glow came for us segue pelo mesmo caminho, num eletroshoegaze que tem algo de alt-pop, mas não economiza na barulheira.

O lado mais acessível aparece em Kid, uma das músicas mais delicadas já gravadas pelo DIIV (cuja letra fala basicamente sobre bichos-papões e homens do saco do mundo adulto), e na ótima Dare me, que lembra o desvio eletrorock do Jesus and Mary Chain no álbum Honey’s dead (1992). Trillions é outra surpresa: rock quase solar, com algo de Kraftwerk e um auto-tune que funciona muito bem. Já Evangelizer parece uma canção de pop eletrônico que resolveu se apresentar como rock. E funciona.

Há momentos em que o DIIV prefere bagunçar tudo. The crash é uma pancada pós-punk, com guitarras mecânicas e vocais misteriosos. Us against you começa quase como trip hop e vai ganhando peso, enquanto Underground mistura esse mesmo gênero com The Cure fase Disintegration (1989) e guitarras ruidosas. My star acrescenta uma psicodelia distorcida à história, e Idiot in the sky encerra o disco com uma beleza quase espacial, chegando perto do emo antes de mergulhar nos efeitos de guitarra.

As letras continuam pouco otimistas, agora olhando para algoritmos, inteligência artificial e os absurdos do capitalismo tecnológico. O curioso é que *ZIRP!* soa mais leve justamente quando seus assuntos parecem ainda mais complicados. Nem todas as experiências têm o mesmo impacto, mas o DIIV consegue fazer um disco bastante variado sem parecer uma banda tentando se reinventar à força. E mostra que ainda há muita coisa a explorar nessa combinação de guitarras, eletrônicos e boas canções.

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Crítica

Ouvimos: Partido da Classe Perigosa – “Você, eu e a FEBRABAN pegando fogo”

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Resenha: Partido da Classe Perigosa – “Você, eu e a FEBRABAN pegando fogo”

RESENHA: Em Você, eu e a FEBRABAN pegando fogo, o Partido da Classe Perigosa mistura rap, funk e eletrônica para criticar bancos, exploração e violência policial.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 7 de setembro de 2026

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A Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN) podia dormir sem essa – aliás, o mundo nada mágico do capitalismo à brasileira ganha comentários à altura das maiores sandices já cometidas na história do Brasil, com o novo álbum da banda carioca Partido da Classe Perigosa. Você, eu e a FEBRABAN pegando fogo serve como trilha sonora para os últimos minutos de tensão no caldeirão antes do segundo turno – o som do neo-fascismo sendo defenestrado, e dos suspiros de alívio, ainda que não se saiba bem o que tá vindo aí.

Dá pra resumir Você, eu e a FEBRABAN pegando fogo numa ideia: dinheiro, poder, armas, patronato, PM, bets – tudo isso está do mesmo lado, que não é nunca o de quem mais sofre com as injustiças. Contos do crypto, rap de melodia bacana e batidão que lembra um drum’n bass alterado, abre o disco falando das bets (“proibir ninguém se atreve”, antes da proibição), mas inclui também a menção dos elogios à tortura (as homenagens a Brilhante Ustra feitas por você-sabe-quem, etc), e uma frase lapidar: “bota o patrão para trabalhar / onze horas de labuta, quero ver ele aguentar”.

Direito de reposta e Mutação da escravidão (essa um synthpop com baixo na cara a la Talking Heads, que depois vira paródia de funk melody) falam de direitos trabalhistas vistos como papel higiênico usado e de “negociações com o patrão”. O carro do ovo fala de comida dada como esmola, num som entre funk carioca anos 1980 e Depeche Mode – com citação de Strangelove, no verso “vem tomar o poder / parar de sofrer / vem”. O PCP ainda envereda pelo jazz-rap em Minha bolação, e pelo misto rap + metal em Sobre outro assunto, com Disstantes – cuja letra aconselha aos mais jovens: “não pega em arma pra ganhar teu pão / não faz sua mãe chorar, não veste essa farda / não entra pra corporação”.

Mata vibe, com Leticia Camaleão e Daniel Paiva, une jazz, funk e rap numa cruzada contra os inimigos da felicidade – que vão do colega de trabalho péla-saco aos metidos a coach. Te vi no baile, com 808 Punks, soa com uma visitinha de Nik Fiend ao Cassino Bangu. E em Dança da farda, Inimigos do povo (com Miçanga) e Ciclo (com God Pussy) bases pesadas e climas realistas apresentam todo mundo a um dia a dia bem sombrio. Aquela realidade que poucos aguentariam enfrentar diariamente, e que no fim de Ciclo, é complementada por uma explosão sonora – uma torrente de microfonias e ruídos, como se tudo estivesse prestes a ir para os ares, como na capa do disco.

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Ouvimos: Engelbert Humperdinck – “Faithfully”

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Resenha: Engelbert Humperdinck – “Faithfully”

RESENHA: Em Faithfully, Engelbert Humperdinck, aos 90 anos, transforma clássicos de Kiss, Journey, Beatles e Ozzy Osbourne em baladas com arranjos de crooner.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Cleopatra Records
Lançamento: 28 de agosto de 2026

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Para as novas gerações, o noventão (chegou à idade no dia 2 de maio) Engelbert Humperdinck é um sujeito que voltou a ser comentado nos anos 1990, quando teve início uma moda do revival do lounge – foi bem naquela época em que Tony Bennett gravou um Unplugged MTV, e em que bandas como Stereolab mostravam mais do que apenas algumas referências do estilo. Engelbert surgiu cantando o tema Lesbian seagull (composto pelo cantor e ativista LGBTQIAP+ Tom Wilson Weinberg) no filme Beavis and Buthead do America (1996) e permaneceu gravando e excursionando.

Faithfully, seu novo álbum, é um lançamento endereçado a quem quer conhecer, digamos, o lado Fabio Jr de Engelbert. O britânico exercita seu lado de crooner romântico, quase sempre acompanhado por cordas – e sempre com convidados – num repertório formado quase inteiramente por clássicos do rock e do pop adulto. Se você não se deixar levar pela capa estilo meu-sobrinho-fez (com uma arte de IA em que Engelbert pilota uma moto) vai se divertir bastante e vai ficar bem feliz com o bom gosto dos arranjos e das escolhas de repertório.

Engelbert poderia ter feito uma versão brega de Faithfully, do Journey – mas chamou o tecladista do grupo, Jonathan Cain, para fazer a música ir além do rockão de FM. Take my breath away (aquela) ganhou a guitarra de Al Di Meola e um toque quase blues-latino. Se você abomina More than words, a balada do Extreme, prepare-se para a versão definitiva dela – saiu meio dançante, meio beatle, com a guitarra de Eric Gales. E falando em Beatles, tem Something, de George Harrison, em versão quase britpop.

Engelbert, com Harvey Mandel na guitarra, dá a I was made for loving you (Kiss) um ar de pop clássico, mais para anos 1980 do que para 1970 – e ainda tem Beth, outra dos mascarados, com Rick Wakeman no piano. Always my love, única autoral do disco, ganha clima meio Righteous Brothers. Mama I’m coming home, aquela do Ozzy Osbourne (!), fica linda com clima acústico e com cordas. Tem até o inacreditável encontro de Humperdinck, Ian Anderson (o do Jethro Tull, na flauta) e o superbaixista Bob Daisley numa versão turbinada e quase progressiva de Feel like makin’ love, do Bad Company. Um disco com várias surpresas.

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