Crítica
Ouvimos: Idlewild – “Idlewild”

RESENHA: Com 25 anos de estrada, o Idlewild troca o pós-hardcore por um som maduro e esperançoso, entre britpop, melancolia e autodescoberta.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: V2 Records
Lançamento: 3 de outubro de 2025
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Banda escocesa quase tão clássica quanto seus conterrâneos do Teenage Fanclub, o Idlewild teve ter perdido vários fãs ao longo do tempo – mas a julgar pelo sucesso que passou a fazer, ganhou (muitos) outros. No fim dos anos 1990, eles eram uma banda que atuava no pós-hardcore quando o estilo ainda era uma pequena área, naturalmente referenciada em bandas como Black Flag e Fugazi, e sem medo de cair na geralzona da emo. Uma ótima introdução a essa época é o EP Captain, estreia do grupo (1998), com seis músicas de ataque, que passam voando.
Corta para 2025 e Idlewild, décimo disco da banda, soa como um relato do quanto o grupo mudou nos últimos 25 anos. Roddy Woomble (vocalista), Rod Jones (guitarra, backing vocal), Colin Newton (bateria), Andrew Mitchell (baixo) e Luciano Rossi (teclado), os cinco integrantes da banda, fazem hoje em dia uma música que dói de tão esperançosa e profunda – e que está bem mais próxima de estilos como britpop e pós-britpop. Nada de ruim nisso: na verdade o Idlewild nunca soou tão Idlewild, e passou por uma metamorfose que faz lembrar a de bandas como Hüsker Dü e o próprio Teenage. As letras acompanham o clima, falando de amadurecimento, aceitação, passagem do tempo e temas afins.
- Ouvimos: AFI – Silver bleeds the black sun…
Como numa carta deles para eles próprios, o grupo fala de sonhos valiosos em Like I head before (faixa que se comunica com Bruce Springsteen e Pretenders, em letra e melodia), lembra a época em que o U2 ainda era “idealista” em (I can’t help) Back then you found me, leva clima glam para o álbum em Make it happen e investe todo o tempo em músicas que grudam no ouvido. Writers of the present time é tema de filme da Sessão da tarde, enquanto a abertura com Stay out of place chega o mais próximo possível de uma revisão “intensa” do som de bandas como Oasis e Suede.
No final, as cordas e a melancolia de End with sunrise deixam entrever uma certa vontade de soar igual ao New Order – até mesmo na letra, que fala de idas, vindas e arrependimentos da vida, como quem deixa um sonho guardado na gaveta e só volta a ele décadas depois.
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Crítica
Ouvimos: School Drugs – “Funeral arrangements”

RESENHA: Hardcore sombrio e sem alívio: o School Drugs mistura punk, grunge e peso metálico em Funeral arrangements, disco de clima fúnebre.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Indecision Records
Lançamento: 24 de outubro de 2025
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A música do School Drugs não foi feita para os momentos, er, felizes da vida – pelo contrário, você talvez demore para escutar um punk rock que seja tão deprê, e que não se roce na estileira emo. O som varia entre hardcore e metal, mas não é “metalcore”: soa na maior parte do tempo como um posto avançado da berraria brutal e da consciência de classe do Exploited, já que o School Drugs tem evidentes influências de grunge e exibe outras referências.
Modern medicine (2019), a estreia do School Drugs, era até mais old-school em relação ao hardcore do que Funeral arrangements, que é o segundo álbum. O disco ficou sendo trabalhado em fragmentos por quatro anos, e começou a se organizar aos poucos em torno de uma paleta sombria, bastante inspirada pela pandemia (discos causados ou influenciados por ela vão sair até 2030, nem duvide disso).
- Ouvimos: Blackwater Holylight – Not here, not gone
Esse clima funéreo gerou faixas como Dead vine, hardcore gritado e desesperado, subindo pelas paredes, cuja letra fala sobre vidas perdidas e danos que jamais serão remediados. Can’t slow down vai na veia das ansiedades que brotaram com força em 2020 – e que permanecem vívidas. Plastic promise abre em clima quase metálico e ganha ares punk. Músicas como No taste, Cold hearted e Brave, repletas de peso e clima sinistro, tentam achar respostas em meio às babaquices e escrotidões do mundo.
De impressionar, tem Epicedum, tema instrumental que começa tremendo o chão, em vibe pós-punk e marcial, e migra pra um tom britpop. Tem também o fato do School Drugs ter resolvido incrementar seu som com cordas em faixas como Haunted, além do funeral musicado da faixa-título, que dura cinco minutos e soa como uma cerimônia punk-gótica. As ferozes Feel like shit e Work forever, por sua vez, falam do tratamento dispensado pelo mundo a uma pá de gente da classe trabalhadora.
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Crítica
Ouvimos: Morro Fuji – “Ainda nem doeu”

RESENHA: Morro Fuji estreia com sua MPBaze no álbum Ainda nem doeu: MPB, shoegaze e pop sonhador em canções melódicas, nostálgicas e cheias de boas guitarras.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: MoFu Records / Shake Music
Lançamento: 28 de maio de 2026
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O Morro Fuji vem do ABC paulista, surgiu no ano anterior à pandemia, e define seu som como MPBaze – uma mistura de MPB e shoegaze, mostrando que a onda de bandas referenciadas nas paredes e nuvens de guitarra é caso sério a ponto de haver misturas bem diferentes do trivial.
Ouvindo com atenção Ainda nem doeu, álbum de estreia do grupo, outras coisas entram em jogo. O Morro Fuji é basicamente uma banda saudosa da época em que o rock nacional não se prendia a padrões e privilegiava a melodia (por mais que a gente tenha Paralamas do Sucesso e Legião Urbana, grooves, beats e vibrações meio formulaicas acabam, muitas vezes, chegando na frente por serem mais fáceis de reproduzir ou de imitar – e isso acontece no mundo todo). O shoegaze entra mais como uma senha melódica, uma cláusula de introspecção – o som não é emparedado e denso, como num disco do My Bloody Valentine.
- Ouvimos: Graham Coxon – Castle Park
Um outro detalhe é que o som de Angela Destro (voz), Leonardo Pacheco (guitarra), Nícolas Farias (voz e guitarra), Natan Bertolino (bateria) e Pietro Demarchi (baixo) une o design melódico de Rita Lee e mumunhas sonoras herdadas de Lô Borges e dos Novos Baianos, às vibrações de bandas como The Sundays e Chapterhouse, além do Ride e o Blur do começo. Eram grupos que, mais do que fazerem “shoegaze”, eram especializados em música sonhadora, em canções que davam a real sensação de estar acima do chão.
O Morro Fuji une todos esses universos, além de guitarras que lembram bastante Smiths e Echo and The Bunnymen, em canções como as estradeiras Brisa e Ação e reação, o pop-rock adulto Agridoce, o soft rock Memorável, a balada voadora Nuvens espirais (Larara), a bossa pop Eu do futuro, o pop de câmara Asa de cera. Nas letras de Ainda nem doeu, o mesmo clima bittersweet de várias bandas dos anos 1980 e 1990 que caminhavam embaixo das nuvens e sentiam ruídos na mente e no coração. Uma música que alude a sonhos, mesmo que às vezes fale sobre como é duro acordar deles.
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Crítica
Ouvimos: Rivermind – “Rivermind” (EP)

RESENHA: Pós-punk suíço com ecos de stoner, indie e U2. O Rivermind lança EP com boas músicas, e cuidados nos arranjos – falta só mais originalidade
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 13 de junho de 2026
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O Rivermind vem da Suíça e engrossa as fileira dos revivalistas do pós-punk que investem em uma sujeira a mais, ou uma atmosfera a mais – as guitarras têm uma distorção ou outra herdada do stoner, os vocais têm aquela limpeza “climática” que vem de bandas como Muse, há uma onde indie-pop que surge em alguns momentos. Imagine, a faixa de abertura do EP Rivermind, traz climas mais pesados – e as duas seguintes, Nightlight e Honey, trazem um clima de pop alternativo confessional.
- Conheça também The Bad Actors, Absorbance, YHWH Nailgun, Crise e Arkells.
Em Honey, há guitarras que lembram o U2 e climas ligeiramente herdados do Royal Blood (o duo é citado na lista de influências do Rivermind). Nevermind, a melhor faixa do EP, soa como um pós-punk mais pop, e mais ligado aos climas indies dos anos 2000. O final, com Sunfire, é diretamente herdado do rock marcial do começo dos anos 1980 – e também dá pra lembrar do U2 ouvindo essa. Só um começo, em que ainda é preciso correr atrás de mais originalidade, mas já existe bastante cuidado com composições e arranjos.
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