Lançamentos
Hyporadar: punk-jazz-funk de baixo, voz e bateria

Imagine a situação: você passa a infância e a adolescência querendo fazer parte de uma banda de rock. Quando finalmente consegue, já na universidade, desentendimentos levam a banda a terminar depois de dois anos. Foi o que aconteceu com Shane Duquette, norte-americano de uma cidadezinha do Maine “com pouca ou nenhuma cena musical” – e cujo projeto pessoal hoje atende pelo nome de Hyporadar.
Baixista desde cedo, Shane decidiu começar um grupo-do-eu-sozinho assim que a tal banda (que se chamava Mr. Citrus) terminou. Sem muito saco para correr atrás de novos companheiros, decidiu criar o Hyporadar e apostar em um som que usasse só baixo, vocal e um drum beat, influenciado por rock, soul, jazz, grunge, e por bandas como Morphine, Faith No More e Cake. “Já músicos de jazz como Victor Wooten e Marcus Miller forneceram um modelo para uma abordagem centrada no baixo sem guitarra elétrica”, conta ele.
O material do Hyporadar começou a ser gravado no começo de 2023 no porão de Duquette, que compôs, produziu, tocou e gravou tudo ele mesmo. A ideia inicial era encontrar um vocalista, mas ele resolveu também encarar a tarefa. “A ideia era combinar os estilos vocais de Mark Sandman, do Morphine e John McCrea, do Cake, um estilo vocal obscuro que beira a palavra falada”, diz. Tudo isso numa abordagem punk que permite erros e ruídos no som.
O Hyporadar já tem um álbum epônimo lançado em 2023 – destaque para o rock meio Lou Reed, com baixo, bateria e percussão, de This ain’t the day I die, e a balada Road to nowhere, além da hipnótica Forever (The one). Em 2024, já saíram os singles Lucifer (um simplíssimo jazz-rock-funk) e o punk rock Rain today. Ouça aí embaixo.
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Crítica
Ouvimos: Bemti – “Adeus Atlântico”

RESENHA: Bemti mistura MPB, alt-pop e alt-folk em Adeus Atlântico, disco moderno, arejado e criativo, com viola turbinada e pop sofisticado.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Independente
Lançamento: 22 de janeiro de 2026
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Discos de música pop saem aos borbotões por aí, inclusive no Brasil – mas parece que Bemti, mineiro mais ligado ao universo da MPB, é um dos raros nomes brasileiros que resolveram entender o que é que artistas ligados a estilos como alt-pop e alt-folk andam fazendo lá fora. Isso porque Adeus Atlântico, seu terceiro álbum, é antes de tudo um disco atualizado musicalmente. Além de ser um grande disco, claro.
Com músicas feitas entre Brasil, Portugal e Inglaterra, Adeus Atlântico responde de modo mineiro à onda de artistas jovens influenciados por soft rock, sons oitentistas, folk e country – quem curte nomes como Juanita Stein, Soccer Mommy e Blondshell não vai se arrepender se der uma ouvida no álbum. Conhecido por fazer músicas a partir da viola caipira, ele turbinou o instrumento com pedais, fazendo com que ele soe também como guitarra, como violão de 12 cordas, e como central de efeitos sonoros.
O lance é que Adeus Atlântico não é só resposta – é criação de estilo, a partir do encontro de gêneros e ritmos. Faixas como Nenhum tempo a perder, Lua em libra (com os vocais de Marissol Mwaba) e Só pra ter você (com os vocais da cantora Thu e do britânico Fyfe Dangerfield, vocalista dos Guillemots) arrumam soluções novas para a fusão alt-pop de estilos como soft rock, country e alt-folk, acrescentando percussões mineiras, beats ligados ao amapiano (da África do Sul) e detalhes sonoros que fazem lembrar Lô Borges e Sá & Guabaryra – ouvidos também em Quase sertão, parceria com Haroldo Bontempo, e no dream folk da faixa-título.
Ainda que, às vezes, a viola de Bemti – combinada com o piano ouvido no disco – aponte para um Radiohead do sertão mineiro, introspectivo, viajante e cheio de efeitos, Adeus Atlântico é um disco arejado. Euforia, single com os vocais de Luar e o rap de FBC, é soft rock oitentista numa estileira que lembra Paralamas do Sucesso. Miragem (com o luandense Alex D’Alva), a belíssima Metal (que tem uma surpresa melódica no fim) e o single Melhor de três põem Bemti no mapa do pop sofisticado, unindo detalhes de blues e country a experimentação com beats. Já as letras são uma verdadeira travessia emocional-existencial, falando de viagens, amores e corres. Pop para ouvir em alto volume.
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Crítica
Ouvimos: Westside Cowboy – “So much country till we get there” (EP)

RESENHA: Westside Cowboy mistura country, punk e indie no EP So much country till we get there, reforçando a onda “britainicana” com clima ruidoso, psicodélico e imprevisível.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Adventure
Lançamento: 16 de janeiro de 2026
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Isso é assunto para o Clima de Época, a seção exclusiva para assinantes do nosso Apoia.se, mas lá vai: outro dia a Dazed falou sobre um gênero chamado britainicana, defendido pela banda Westside Cowboy. Vamos combinar que “britainicana” é um nome tão maluco quanto “forró universitário”, mas é essa mistura saudável de country norte-americano e punk + indie rock britânico que vem marcando os discos desses ingleses de Manchester. E esse termo vem igualmente dando um sentido de coletividade ao som de bandas como Black Country, New Road e Geese (vale comentar que até o Dry Cleaning, sombrio e pós-punk até a medula, deixou entrar ares country em seu novo disco Secret love).
So much country till we get there, o novo EP do Westside Cowboy, põe mais algumas pedras no caminho dessa discussão. This better be something great, EP anterior (resenhei aqui), deixava entrever mais o lado slacker, herdado do Pavement, desse quarteto. Dessa vez abrem o disco com um country funéreo, Strange taxidermy, que faz lembrar a união de Johnny Cash e Velvet Underground – uma estranha viagem punk, ruidosa, country e psicodélica, como se cada estilo fosse uma porca ou um parafuso adicionado na máquina. A letra é pura marginália country, seguida pelo clima misterioso de Can’t see, pós-punk + country, com peso, abertura maníaca e versos de pura estranheza (“é como se tivéssemos sido forçados a ficar juntos / e você tenta me matar / o vento estava forte quando você virou as costas”) e pelo clima aventureiro de Don’t throw rocks, faixa que acha um lugar definitivo para a slide guitar no som indie.
Mesmo com dois bons EPs lançados, ainda fica meio complexo definir se o Westside Cowboy criou um estilo ou não – na verdade, talvez a vibe de “aqui tudo pode acontecer” do som deles, ou a esquina entre country e noise rock que marca uma parte boa do repertório, já formem um estilo. Essa onda toma conta do EP de vez nas duas últimas faixas: o belo e ruidoso pós-punk The wahs, com emanações de Pixies e Sonic Youth, e a caseira In the morning, música de voz, violão, percussões, e guitarra, gravada de modo despojado, como numa viagem de amigos – e cuja letra lembra uma canção tradicional de escárnio.
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Crítica
Ouvimos: Lemondaze – “Subtext” (EP)

RESENHA: Lemondaze cruza pós-punk e post-rock em Subtext: faixas hipnóticas, guitarras em nuvem, peso crescente e climas cerebrais à la Brian Eno.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Venn Records
Lançamento: 5 de dezembro de 2025
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Um dos orgulhos do selo britânico Venn Records (especializado em eletrônicos e noise rock), o Lemondaze vem de Cambridge, tem base em Londres e é basicamente uma união de post-rock e pós-punk. Subtext sai quatro anos após o EP de estreia, Celestial bodies, e investe no cruzamento de vibes cerebrais e emocionais em poucos segundos.
Polari, faixa de abertura, é som hipnótico que poderia até parecer shoegaze, graças às guitarras e ao vocal, ambos em meio a nuvens – mas tem um peso diferente, que vai crescendo ao longo da audição. C=bain, na sequência, é a maior faixa do disco (quase seis minutos) – uma faixa lenta, marcada por guitarras que vêm lá de longe e por um vocal mântrico, quase indianista.
Já O (type) e Gravemind são músicas quase espaciais, cheias de ruídos de guitarras e com uma arquitetura quase progressiva. O mesmo rola na lindíssima Terra (o nome da faixa é esse mesmo), que encerra o EP: nuvens de guitarra, saturações musicadas e um clima de música produzida por Brian Eno. Uma beleza para se curtir no último andar, e no último volume.
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