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Cultura Pop

Debate sobre música na Alemanha interrompido a machadadas

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Debate sobre música na Alemanha interrompido a machadadas

Nos anos 1970, a discussão sobre música pop e sobre rock fervilhava na Alemanha, país que criou uma vertente bastante experimental do estilo (o chamado krautrock). O código musical dessas bandas incluía sonoridades que, poucos anos depois, fariam sucesso entre artistas do punk e do pós-punk. Mas que, na época, eram consideradas como passos além do rock progressivo.

Alguns desses grupos são até hoje considerados pioneiros do rock espacial. E um deles foi uma espécie de grande farsa do rock alemão. O Cosmic Jokers teve cinco álbuns lançados em 1974, lançados por um selo novo chamado Ohr. Aliás, quem montou essa gravadora foi um produtor independente chamado Rolf-Ulrich Kaiser, que tinha atuado como jornalista e escrevera até mesmo a primeira biografia de Frank Zappa, em 1971.

Na Ohr, Kaiser pôs nas lojas grupos alemães como Guru Guru, Tangerine Dream, Ash Ra Tempel, Embryo, Birth Control e vários outros. Mas enfrentou problemas sérios: segundo uma entrevista que ele deu para a Mojo em abril de 2003, o negócio da música na Alemanha era controlado por grupos britânicos e americanos. E ele estava se metendo onde não podia, lançando apenas grupos nacionais, numa época em que se acreditava que nem havia público para as bandas alemãs. Por causa disso, foi ameaçado com uma multa de trinta mil marcos.

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Mas ainda assim Kaiser continuou – e vale citar que o culto às bandas da Alemanha tornou-se bem grande naquela época, inclusive no Brasil. O produtor ganhou fama de visionário e virou um daqueles homens-de-gravadora que dão uma estampa própria a tudo que lançam. Já o Cosmic Jokers tornou-se uma enorme surpresa no rock alemão da época, não apenas por trazer as tais características espaciais, como também por ser uma armação de estúdio da qual nem mesmo seus integrantes sabiam que faziam parte.

Kaiser, que usava LSD adoidado, já tinha a essa altura lançado na Ohr o selo Cosmic Couriers, para fazer lançamentos nessa mesma seara “espacial”. Resolveu promover festas no estúdio do músico Dieter Dierks, onde rolava ácido de graça e a galera tinha instrumentos à disposição. Safadão que só ele, Kaiser gravou todas as sessões de improvisos, juntou tudo e produziu um disco dos Cosmic Jokers em 1974, epônimo. Tá até nas plataformas.

Músicos que participaram das sessões, quando viram o disco nas lojas, nem sabiam que haviam participado daquilo. Kaiser podia correr até risco de processos, mas não quis nem saber: saiu lançando discos com as fitas que tinha das sessões. Chegou a sair um álbum, Gilles Zeitschiff, com gravações das festas, todas cobertas por gravações da namorada do produtor, Gille Lettmann, recitando textos. Conta-se por aí que esse disco foi o que deixou os músicos mais putos da vida.

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Errado ou não, usando métodos pouco ortodoxos ou não, Kaiser tem fama de herói do rock alemão. E aliás fez lançamentos de valor histórico inestimável. Seja como for, tinha muita gente BEM puta da vida com o produtor e com o que classificavam de exploração do trabalho alheio. Um deles foi um cara chamado Nikel Pallat, músico e empresário da banda Ton Steine ??Scherben, que participou de uma espécie de Sem Censura amalucado da estação alemã WDR, sob o tema Pop & Co – Entre a música e os negócios.

Numa época em que assuntos políticos pegavam fogo na Alemanha Ocidental (voltada para o capitalismo, oposta ao comunismo da Oriental), o debate virou um bate-papo bem acalorado entre o esquerdista Pallat e o moderado Kaiser. O produtor afirmou que “a mudança social virá em um processo evolutivo” e “não é algo que vai acontecer amanhã, mas um desenvolvimento que levará provavelmente cem anos”.

Só que Pallat ficou bem puto quando ouviu isso, e acusou Kaiser de trabalhar a favor da opressão. O criador dos Cosmic Jokers responde que Pallat também trabalha em prol do capitalismo. “Quem você acha que representa aqui? Você não acha que a TV também não é um órgão capitalista?”, reclama (um dos apresentadores do programa interrompe e diz que Kaiser não representa o canal).

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Já Pallat levanta, chama o programa de “liberal de merda”, diz que “não devemos falar sobre evolução, mas revolução, certo?”, acusa a TV de ser “uma ferramenta de opressão da sociedade em geral” e avisa que vai destruir a mesa de debates. Tira um machado (!!) de dentro do casaco e começa a quebrar a mesa. Depois pega os microfones da estação e enfia tudo no bolso do casaco. Aliás, também diz que “podemos continuar o debate” (!!?!).

Parte desse debate que terminou em depredação tá aí embaixo. Aliás, o engraçado é que, com todo mundo sentado perto de uma mesa de trabalho comum, o bate-papo parece mais com uma reunião de empresa do que qualquer outra coisa. Detalhe engraçado: todo mundo se assustou mas ninguém saiu exatamente correndo. Só que não deu para continuar com o debate, por razões óbvias.

Infos tiradas daqui, daqui e daqui.

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Relembrando: Built To Spill e Caustic Resin, “Built to spill caustic resin” (1995)

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Relembrando: "Built to spill caustic resin", Built To Spill e Caustic Resin

Built To Spill e Caustic Resin são duas bandas bem desafiadoras do rock independente norte-americano, ambas vindas de um local pouco usual em se tratando da história do rock (a cidade de Boise, em Idaho), e que permaneceram ligadas por um bom tempo. A primeira, uma multi-formação liderada eternamente pelo músico Doug Martsch, caminhou entre o guitar rock, o punk e o slacker rock (aquele estilo despojado, geralmente usado para classificar o Pavement). A segunda, contando com relativamente poucas mudanças de line-up, dedicou-se a um “metal alternativo” mais próximo de Neil Young, do Grateful Dead e do Velvet Underground do que das noções comuns de música pesada.

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Como costuma acontecer com bandas-irmãs, uma delas foi para cantos um tanto quanto diferentes da outra. O BTP, que, durante shows recentes na América Latina, chegou a contar com dois músicos brasileiros (o baixista João Casaes e o baterista Lê Almeida), foi contratado da grandalhona Warner por duas décadas e fez turnês extensas. O Caustic Resin, que não grava desde 2003 e em tese, está em hiato, passou boa parte do tempo contratado do selo indie californiano Alias.

Em 1995, pouco antes do Built To Spill partir rumo a Warner e deixar o selo Up Records, de Seattle (por onde o Caustic Resin também havia passado), as duas bandas se juntaram num EP igualmente lançado pela Up. A junção dos nomes das duas bandas no título fez o EP se chamar literalmente Built to spill caustic resin (“construído para derramar resina cáustica”, em português), o que já dava uma imagem do aspecto corrosivo que a música poderia ter. Na formação, Doug (voz e guitarra) ao lado de dois integrantes do Caustic, James Dillion (bateria) e Tom Romich (baixo), além de um membro comum às duas bandas (Brett Nelson, voz e guitarra).

O EP reúne em quatro faixas as características das duas bandas: os ganchos musicais do Built e as viagens sonoras pesadas do Caustic. Duas das faixas, a irônica When not being stupid is not enough e She’s real, são bem extensas. Na prática, boa parte do material tem até mais a ver com o som que o Built vinha fazendo em sua primeira fase, de discos como a estreia Ultimate alternative wavers (1993), que tinha músicas repletas de partes diferentes. Mesmo quando surge uma música creditada ao Caustic e que tem bastante a cara deles, a psicodélica e gritada Shit brown eyes. O longo power pop She’s real, que encerra o disquinho lembrando uma versão zoada do Weezer, é creditado ao músico e artista visual Tae Won Yu, e foi composto quando ele fazia parte da banda indie Kicking Giant, liderada pela musicista Rachel Carns.

Mesmo sendo um EPzinho independente e, de certa forma, restrito, Built to spill caustic resin teve lá sua cota de problemas. A foto da capa, trazendo ovos de peixe e duas simpáticas larvinhas, teve que ser mudada assim que o autor da imagem descobriu o disco. Já a história da Up Records, que lançou discos de artistas como Quasi, Tad e Modest Mouse, durou até o licenciamento de seu catálogo para a Sub Pop, em 2018.

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Relembrando: Interpol, “Turn on the bright lights” (2002)

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E os 20 anos de Turn On The Bright Lights, estreia do Interpol?

Mal dá para crer que a banda novaiorquina Interpol não chegou a ter problemas com a organização policial americana. Mais inacreditável ainda é a lembrança de que o grupo fazia shows concorridíssimos no começo da carreira, quando eram estudantes universitários, mas não tinha um nome. Ao optarem por Interpol, justamente no comecinho da web 2.0, Paul Banks (voz, guitarra, hoje baixista), Sam Fogarino (bateria), Daniel Kessler (guitarra solo, voz) e Carlos D (baixo) não escaparam de receber várias mensagens por engano, de gente que pensava mesmo estar falando com a polícia americana, e não com uma banda iniciante (há um tempinho, isso rolou de novo, e no Brasil).

“Recebi alguns e-mails sérios sobre pessoas que se perderam, que outras pessoas estavam tentando encontrar, ou e-mails sobre golpes em que as pessoas caíram”, contou Kessler ao Pitchfork em janeiro de 2003, poucos meses após lançarem a estreia Turn on the bright lights (de 20 de agosto de 2002). “Um dos e-mails foi ‘meu carro foi roubado’”, contou.

A estreia do Interpol devolvia ao cenário novaiorquino muitas das influências que bandas como Velvet Underground tiveram sob os grupos ingleses. Em pleno retorno da sonoridade do pós-punk, marcada pela chegada ao mercado americano de bandas como Strokes, o Interpol assemelhava-se a bandas como Joy Division, Echo and The Bunnymen e nomes mais recentes como Ride.

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Os vocais de Banks, mesmo sendo mais empostados, são até hoje bastante comparados aos de Ian Curtis, e no disco do Interpol havia Obstacle 1 e Obstacle 2 como havia Exercise one na obra do JD. A canção da banda inglesa era bem mais assustadora do que o pós-punk marcial e volumoso do Interpol, claro, mas a letra de Obstacle 1 é igualmente sombria (“você vai se esfaquear no pescoço/mas é diferente agora que estou pobre e envelhecendo/nunca mais verei esse lugar”).

Havia muito ali também de bandas geralmente pouco comentadas, como The Sound (o clima cavernoso dos vocais e das melodias era herdeiro direto deles). A paixão de alguns integrantes do Interpol por música eletrônica fazia com que Turn on the bright lights fosse um disco cheio de climas diferentes, e que funcionasse como um relógio. embora a estreia da banda fosse bastante orgânica, maturada pelo uso do estúdio como um instrumento musical,  durante seis semanas de isolamento.

Untitled surgia em tom de abertura de filme, preparando o ouvinte para músicas como Obstacle 1, NYC (uma balada shoegaze que mostra o lado sombrio da “cidade que nunca dorme” e que cita o título do disco), PDA (a canção mais ligada ao rock de Manchester já produzida por uma banda americana), Stella was a diver and she was always down (essa poderia estar no Heaven up here, segundo LP do Echo and The Bunnymen). Tudo em Turn on tinha um certo ar de desilusão com as luzes de Nova York, um sentimento que fazia todo sentido no pós-11 de setembro.

Há quem defenda que Turn on the bright lights acaba na nona faixa, a ágil e meio punk Roland, com letra sanguinolenta falando sobre um açougueiro polonês que seccionava pessoas – um personagem aparentemente de ficção, mas que dizem ter sido inspirado no assassino americano Richard Kuklinski, morto em 2006. Os próprios integrantes viam The new e Leif Erikson, as duas verdadeiras últimas músicas, como separadas do disco – a última, em particular, soa como um pop sessentista sombrio, herdado do Velvet Underground e de Nico, encerrado por uma parede de guitarra e voz.

A estreia do Interpol foi um excelente exercício, que gerou imediatamente um grande prosseguimento, Antics (2004), e um disco mais controverso e um tanto mais sombrio, Our love to admire (2007). E a história do Interpol continua, com a banda reduzida ao trio Paul Banks, Daniel Kessler e Sam Fogarino. Rolou inclusive uma vinda há algumas semanas ao Brasil.

Ah, sim: quando o disco completou 20 anos, a banda pôs no YouTube o vídeo de divulgação do álbum, lançado na época apenas como um EPK para a imprensa. Pode ser visto abaixo.

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No nosso podcast, o começo dos Stone Temple Pilots

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No nosso podcast, o começo dos Stone Temple Pilots

Não era nada fácil ser integrante dos Stone Temple Pilots nos anos 1990. Os discos vendiam e os shows lotavam, mas não havia muito respeito da crítica, e a cada disco parecia sempre que uma nova chance estava sendo dada ao grupo de Scott Weiland, Dean DeLeo, Robert DeLeo e Eric Kretz. Pior: de tempos em tempos, as turnês eram canceladas e a banda tinha que parar tudo, já que Scott volta e meia precisava encarar uma internação para reabilitação.

Hoje a gente dá uma volta no tempo e faz um sobrevoo no começo do STP. Falamos de tudo (ou quase tudo) que estava acontecendo na vida deles, e damos uma olhada por trás dos discos Core (1992), Purple (1994) e Tiny music: Songs from the Vatican gift shop (1996). E encerramos essa temporada do nosso podcast, o Pop Fantasma Documento, falando de uma das nossas bandas preferidas.

Século 21 no podcast: Billy Tibbals e A Última Gangue.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: Divulgação). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.

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