2008 foi um ano sem filmes na vida de David Lynch, mas mesmo assim o cineasta, escritor e compositor estava numa “turnê” que chegou a passar pelo (ora vejam só!) Brasil. Em agosto daquele ano, Lynch passou por Rio, São Paulo, Brasília e Porto Alegre, mas veio na verdade dar palestras para lançar seu livro de meditação, Em águas profundas – criatividade e meditação.

Pois é, Lynch pratica meditação transcendental desde os anos 1970 e credita a ela as ideias de seus filmes – enfim, aqueles produções perturbadoras que você bem conhece, como O homem elefante, Cidade dos sonhos e Império dos sonhos. “Se você quer pegar um peixinho, pode ficar em águas rasas. Mas se quer um peixe grande, terá de entrar em águas profundas. A primeira coisa de que você precisa é o desejo. Eu nunca tenho a ideia para um filme de uma vez, elas vêm em fragmentos”, chegou a afirmar em entrevista ao site G1.

No Brasil existe inclusive um braço nacional do seu Instituto David Lynch, com vídeos, textos sobre o guru da meditação transcendental (o mesmo Maharishi que foi guru dos Beatles por alguns tempos) e outras coisas. E foi esse assunto que, além de trazer Lynch ao Brasil, ainda levou o cineasta ao centro do Roda Viva, o programa da TV Cultura.

SEM BIZARRICE

No programa, exibido em 3 de novembro de 2008, Lynch possivelmente impôs que o tema do papo fosse meditação (bom, Lilian Witte Fibe, que apresentava o programa por aqueles tempos, abre dizendo “vamos começar com o tema meditação, até para não contrariá-lo”). Bem no comecinho, ele responde que não há diferença entre o cineasta dos filmes bizarros e o apaixonado por meditação.

“Não há diferença. Eu me apaixono por ideias, e vou me apaixonar por ideias diferentes daquelas que você vai se apaixonar. Uma coisa sobre os artistas é que quanto maior o sofrimento, a angústia, o estresse, mais alimento existe para o trabalho”, disse, afirmando também que as histórias são cheias de contrastes. “O artista não tem que sofrer para falar de sofrimento, nem morrer para filmar uma cena de morte. Basta compreendê-la”.

FIM DE TUDO

Bom, Lynch fala de cinema também e lança uma previsão/praga de madrinha sobre a indústria, que acabou se concretizando: os cinemas estavam ficando cada vez mais vazios, a internet estava ficando cada vez mais rápida e tudo migraria para a web. “O filme, ainda que em celuloide, é grande, pesado e lento, o que me lembra os dinossauros desaparecendo lentamente”, contou.

VEJA TAMBÉM NO POP FANTASMA:

– Os comerciais dirigidos por David Lynch
On The Air: a outra série de David Lynch dos anos 1990
O que faz de um filme de David Lynch um filme de David Lynch
– Vocês têm noção de que o tema do Roda Viva de 1985 a 1994 era… The Cure?

Tem conteúdo extra desta e de outras matérias do POP FANTASMA em nosso Instagram.