Cultura Pop
Um papo com Marília Neves, a criadora do @capasderevistas

A julgar pelas previsões que estão sendo feitas para o mercado de revistas, há notícias ruins para quem continua frequentando bancas de jornal. Só que as revistas – e derivados – continuam dando meia volta e invadindo a web, às vezes de maneira completamente torta, com títulos antigos sendo relembrados. Lá fora, a conta do Twitter @pulplibrarian, por exemplo, faz a alegria de seus seguidores com threads excelentes sobre livros pulp, revistas e publicações antigas. Também faz muitos posts sobre outros aspectos da cultura pop (discos, programas de TV, etc).
Fifth insight: sic transit gloria mundi. You don't pay for Twitter, and some day they will switch it off. All your content will be lost and your followers evaporate. Like the samurai you should think of the inevitability of death every day, then go and do something heroic. pic.twitter.com/mvkCdFHBJ6
— Pulp Librarian (@PulpLibrarian) September 1, 2018
Dá para descobrir muito sobre como as pessoas pensavam, numa determinada época – ou o que elas toleravam – por intermédio das capas das revistas vendidas nas bancas. Muitos questionamentos que nem são feitos em 2018 (felizmente ou infelizmente) estavam presentes em capas de publicações dos anos 1970, 1980, 1990, por aí.
Transforme sua agressividade em sucesso #1974 pic.twitter.com/zd8FkG5KU5
— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 20, 2018
Traduzindo: hoje, dificilmente algum editor deixaria passar uma manchete que pergunta algo como “devo bater no meu fllho?”. Ou: “A censura é necessária?” Há uns trinta anos, pode acreditar, você iria numa banca de jornal e acharia essas manchetes, além de outras que você jamais veria hoje. A Capricho já incentivou suas leitoras a escovar o cabelo para “agradar mais os garotos”. Quem tem entre 30 e 60 anos em 2018, é fruto de vários desses produtos jornalísticos.
No Brasil, um pouco do papel que cabe ao @pulplibrarian é feito pela conta @capasderevistas, que é atualizada por Marília Neves Viana, que tem 29 anos e mora em Brasília. Ela trabalha numa agência, tem acesso a publicações diariamente, mas boa parte do material que põe na conta vem de pesquisas pela web. Não apenas em sites especializados como também na maior fonte de material para malucos (as) por discos, livros e revistas antigas: o Mercado Livre. No dia em que proibirem a publicação de páginas inteiras por lá, muita gente vai deixar de movimentar o site.
Tem muitos posts lá que, com a ação do tempo, apontam para detalhes que hoje já devem ter sido esquecidos. Como o fato da revista O Cruzeiro ter perdurado por tanto tempo (até os anos 1980). Natália do Vale já esteve na capa da publicação em 1981, e foi definida como “tímida e agressiva”.
Vale a pena andar armado? #1981 pic.twitter.com/MwgtEDMmB2
— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 22, 2018
Seios à mostra (e “concurso de seios e bumbuns”) na capa de outro exemplar.
A verdade sobre a vida sexual dos índios #1981 pic.twitter.com/hnlUSewmeY
— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 22, 2018
Há capas que parecem ter sido feitas hoje. Mas não foram, não.
Como segurar seu emprego na crise #2008 pic.twitter.com/m6MlBNCghV
— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 24, 2018
O ator Juca de Oliveira (ou algum sósia) preocupado com o cara lá de baixo em 1973.
Quem tem medo da impotência? #1973 pic.twitter.com/U0441fdv1w
— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 20, 2018
Capricho impressa em 2013, com Anitta pós-teen falando em “garotos”.
Anitta
"Faço o que quero. O garoto que aceite." #2013 pic.twitter.com/9AmstZTbNG— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 20, 2018
Quando “sexo sem amor?” era um dilema cabeludo a ponto de ir para a capa de uma revista.
Sexo sem amor? Quase metade dos jovens aprovam #2002 pic.twitter.com/cgGEwyzS5o
— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 19, 2018
Não tem só capas. Se você mal lembrava que em 1993 teve plebiscito para escolher entre presidencialismo e parlamentarismo, saiba aqui a opinião de Alcione sobre o assunto.
Gugu Liberato: 5 perguntas para Alcione #1993 pic.twitter.com/AlH4FlhxbG
— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 17, 2018
Fomos bater um papo com Marília, criadora do @capasderevistas (que tem também uma toca no Facebook). Marilia sabe bastante da importância do seu trabalho e reconhece – o que é melhor ainda – semelhanças entre o que ela fez e o que o @pulplibrarian faz. E fala sobre como ela trabalha na conta.
Como você resolveu montar o Revistas Antigas?
Eu sou bem fã de história, principalmente da vida privada, política, celebridades e esportes e numa dessas buscas de Google da vida acabei me deparando com uns posts de revistas antigas e achei legal, porque acho incrível mesmo ver a história retratada no presente, sem que quem estivesse escrevendo aquilo pensasse no registro pro futuro (divaguei aqui hahaha). Enfim, volta e meia eu fazia essas buscas só por hobby mesmo e postava alguma coisa no meu Twitter pessoal. Calhou que um dia alguém comentou comigo por lá que eu era o @pulplibrarian brasileiro. Eu vi o perfil, gostei, percebi que não tinha nenhuma página específica sobre o tema no Facebook e comecei a postar.
Sempre colecionou revistas?
Meu gosto por revista começou com a assinatura de Veja que tinha na casa da minha avó, fora isso eu também acompanhava muito a Carta Capital que tinha na biblioteca da escola. Mas assinatura mesmo só tive de gibi da Panini e da Mundo Estranho quando era mais nova, hoje em dia é bem raro eu comprar.
Tinha alguma revista que você esperava chegar na banca, ansiosamente?
O Homem-Aranha Ultimate que meu amigo comprava e me emprestava mensalmente hahahaha.
Espera alguma hoje? Continua comprando?
Não, gosto muito da Piauí, mas ultimamente eu só tenho focado em revista antiga mesmo.
Você faz questão de informar que “nossos posts são feitos majoritariamente com buscas do Google e pesquisas em blogs especializados”. Rola muito pedido dos leitores? Ou de gente pedindo para comprar as revistas, achando que se vocês puseram as capas, elas estão à venda?
Sim! Muita gente pergunta se eu vendo revistas específicas, ou até se eu estou comprando alguma publicação antiga, daí eu resolvi colocar esse aviso pra sanar a dúvida do pessoal. Fora isso volta e meia alguém pede ajuda com trabalho de faculdade, mas quando eu sei como achar a informação eu sempre tento passar pra pessoa que pediu.
Tem muitas capas de revistas para garotas, como a Capricho, que hoje seriam consideradas machistas, com chamadas para reportagens do tipo “como agradar todos os garotos”, etc. Como enxerga esse tipo de coisa hoje?
Por um lado eu entendo isso como uma coisa de espírito da época mesmo, é até interessante ver pela ótica crítica que nós temos hoje, porque querendo ou não esse tipo de conteúdo moldou e acabou influenciando muitas meninas pra um lado ruim relacionado a padrão de beleza e não corresponder ao que a revista dizia que você devia ser impacta muito a autoestima. Ainda tem muita coisa pra melhorar, mas é bacana ver como já existe um estrato de representatividade na mídia.
Você lembra de alguma manchete (publicada no Twitter) que você achou particularmente distópica? Tem aquela capa da Realidade que tem a chamada “devo bater no meu filho?”…
Eu gosto muito das capas de revistas de tecnologia que tentavam adivinhar o futuro. E tem essa aqui com a Ana Paula Arósio adolescente, que eu só consigo seguir o meme e dizer que “caso as armas sejam liberadas, esse tipo de cena será normal”.
Pólvora Negra: o tiro do futuro #1988 pic.twitter.com/LVoU8OAKvN
— Revistas Antigas (@capasderevistas) August 30, 2018
Mas o que eu acho bem doido mesmo é propaganda, tem umas de cerveja que são incríveis, botam até criança no anúncio, dizem que é bom pro leite e etc. A Malzbier tem algumas das minhas favoritas.
Malzbier: excellente bebida para senhoras, crianças e pessoas fracas em geral #1933 pic.twitter.com/CFu9xZoNCz
— Revistas Antigas (@capasderevistas) April 27, 2018
"Virar" no trabalho só mesmo com Malzbier #1967 pic.twitter.com/6lqVz9rd6e
— Revistas Antigas (@capasderevistas) June 13, 2017
Malzbier – a cerveja doce para senhoras e crenças #Anos30 pic.twitter.com/nPh25sXA2Y
— Revistas Antigas (@capasderevistas) May 12, 2017
Você faz algum tipo de planejamento para os posts? Costuma seguir alguma ordem, do tipo “vou botar capa do tema tal porque ele está na moda”, etc?
Quando eu criei a página, normalmente eu tirava o domingo pra agendar os posts da semana inteira. Daí eu percebi que acompanhar o noticiário ou os temas do dia no Twitter geravam muito mais engajamento e comecei a publicar as capas de acordo com o que tá rolando na rede mesmo. Fora isso eu ainda faço planejamento pra algumas datas ou eventos específicos, foi o caso da Copa do Mundo, julgamento do Lula, dia dos Namorados. Se eu vejo que vai ter um dia que só vão falar do assunto tal já tento me antecipar.
Uma capa, mesmo que desacompanhada da reportagem que ela se destina a anunciar, tem peso histórico? Por que?
Claro. É um registro da época, né? Mostra o que era tão importante que virava o principal tema da publicação. E o que eu mais gosto em fazer esse trabalho e essas pesquisas é justamente isso, ver quem ou o quê chamava atenção, sei lá, em 1967, e que tipo de texto acompanhava essa pessoa ou tema.
Qual foi o post que teve mais repercussão até hoje?
No Facebook:
No Twitter:
Angélica em: o bolo pic.twitter.com/hUX8tqb0zz
— Revistas Antigas (@capasderevistas) May 16, 2017
E qual foi o que você gostou mais de ter publicado?
Em geral eu gosto muito de ver as propagandas, essa aqui é uma das minhas favoritas
Grave uma hot tape para a garota mais bonita da sua rua #1988 pic.twitter.com/oCpRR14SHQ
— Revistas Antigas (@capasderevistas) January 3, 2018
Também gosto muito das capas da Realidade, da Para Todos e da O Malho.
Tem ideia do que está fazendo mais sucesso hoje em dia no @capasderevistas?
Em geral propaganda dos anos 80 e revista de fofoca dos anos 90/2000 sempre repercutem bem, tanto no Twitter quanto no Facebook. Fora isso, quando eu consigo acompanhar as discussões do dia e posto alguma coisa acompanhando o timing vai muito bem.
Como você, que lida com revistas o tempo todo nas redes sociais, está encarando o fato do segmento “revista” estar enfrentando tantos problemas? Dá uma certa tristeza?
Com certeza, não só pela página, mas por apego afetivo também. Apesar de não comprar faz tempo, eu gosto muito de ler o material físico e sempre curti visitar banca e livraria. Torço muito pro mercado editorial conseguir se reinventar, as revistas contam um pedaço muito importante da história – e o mais importante aqui eu acho que é perceber o trabalho do ponto de vista de cada época.
Cultura Pop
Billy Corgan e Butch Vig juntos no estúdio de novo após 33 anos

RESUMO: Billy Corgan e Butch Vig retomam a parceria de Gish e Siamese dream em Black stars, faixa da trilha de Jogos vorazes. Um reencontro com o produtor que ajudou a criar o som do Smashing Pumpkins. Relembre o histórico.
Texto: Ricardo Schott – Fotos: Reprodução
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Imagine você entrar num estúdio com Billy Corgan, no começo dos anos 1990, e descobrir que ele quer gravar uma música com dezenas de guitarras. E que, se uma delas não soar exatamente como ele imaginou, vai ter que fazer tudo de novo. Agora imagine que o produtor, em vez de mandar o sujeito sossegar, acha a ideia ótima. Pois era mais ou menos assim que funcionava a parceria entre o Smashing Pumpkins e Butch Vig. E, 33 anos depois, os dois resolveram repetir a experiência.
A novidade é Black stars, música lançada nesta sexta-feira (16) e incluída na trilha sonora de Jogos vorazes: Amanhecer na colheita. A trilha completa sai em 13 de novembro, uma semana antes da estreia do filme. É a primeira gravação lançada pelo Smashing Pumpkins com produção de Vig desde o álbum Siamese dream, de 1993. A faixa também entrou no repertório da atual turnê Rats in the cage.
A história dos dois começou em 1990, quando o Smashing Pumpkins gravou Tristessa, compacto lançado pela Sub Pop, sob a produção dele. Isso foi antes de Vig produzir Nevermind, do Nirvana (1991). Corgan gostou do cara logo de primeira. Numa entrevista à Tape Op, contou que o produtor não tinha pose, trabalhava pra caramba e não se assustava com as ideias que ele e o baterista Jimmy Chamberlin levavam para o estúdio. Pelo contrário: parecia gostar da complicação.
Foi assim que chegaram a Gish (1991), álbum de estreia da banda, primeiro no qual trabalharam juntos. Corgan queria um disco com peso, psicodelia, melodias bonitas e guitarras aparecendo de todos os lados – um baita rock de arena, com ambiência, totalmente o oposto daquela onda da época, de simplesmente colocar quatro músicos numa sala e apertar o botão de gravar. Vig comprou a ideia e ajudou a organizar tudo aquilo. Dá para ouvir o resultado em Siva, Rhinoceros e Daydream, três músicas bem diferentes que parecem fazer parte do mesmo universo.
Só que os dois tinham um problema: não sabiam a hora de parar. Corgan contou à Rolling Stone italiana que Vig pegava pesado com afinação, ritmo e vocais. Fazia Billy cantar a mesma parte tantas vezes que ele começava a achar que não sabia cantar. O engraçado é que, olhando para trás, o vocalista reconhece que aquela cobrança fez toda a diferença.
Em Siamese dream (1993), o segundo disco, a situação ficou ainda mais complicada. A banda já tinha uma gravadora grande esperando resultados, Billy passava por uma fase emocional difícil e os integrantes não se entendiam nada bem. Foram gravar em Atlanta, mas os problemas viajaram com a banda nas malas.
Corgan acabou tocando praticamente todas as guitarras e boa parte dos baixos. Algumas músicas ganharam tantas camadas que Vig precisava descobrir como fazer tudo caber na mixagem. Era guitarra em cima de guitarra, com mais uma guitarra aparecendo quando você achava que já tinha acabado. E, se alguma coisa não estivesse perfeita, lá iam eles gravar de novo. O disco demorou, custou caro e deu um trabalhão. Só que saiu dali Siamese dream, com Cherub rock, Today, Disarm e vários clássicos.
Corgan nunca escondeu o quanto Vig foi importante. Nos textos da reedição de Siamese dream, em 2011, escreveu: “Butch me apoiou o tempo todo nessa visão maluca”. E completou: “Butch era a única pessoa que poderia ter feito aquele disco conosco, porque o respeitávamos tanto que queríamos estar à altura dos padrões elevados dele”.
Mas aí chegou a hora de fazer o duplo Mellon Collie And The Infinite Sadness (1995), e Billy resolveu mudar tudo. Chamou Flood e Alan Moulder para produzir, porque queria sair daquela maneira de trabalhar. Numa entrevista ao Grammy.com, explicou que Vig havia ajudado a construir uma versão quase idealizada do Smashing Pumpkins. Flood queria outra coisa: ouvir a banda como ela realmente soaria nos shows.
E não, a troca não aconteceu por causa de alguma briga. Em 2011, perguntaram a Corgan se ele toparia trabalhar novamente com Vig. “Eu amo Butch e temos uma relação muito boa. Adoraria. Ele provavelmente é uma das únicas pessoas com quem eu voltaria a entrar em estúdio”, respondeu. Vig também sempre pareceu adorar Corgan, embora já tenha declarado algumas vezes que o músico foi “um pentelho” no estúdio (quem conhece a história de Billy sabe que isso é um nome até carinhoso).
Pois bem: demorou 15 anos para aquela declaração virar realidade. Black stars coloca novamente os dois no estúdio, agora com décadas de experiência acumulada e sem a obrigação de repetir o que fizeram em 1993.
Ainda não há indicação de que a parceria vá render um álbum inteiro. Por enquanto, é uma música para uma trilha sonora. Mas já dá para imaginar a cena: Billy aparece com uma ideia complicada, Butch escuta, pensa um pouco e resolve que dá para melhorar. E lá vem outra guitarra…
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Cultura Pop
Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.
O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.
Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.
Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.
A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.
Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?
Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração
O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.
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Cultura Pop
Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.
Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.
Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.
A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.
No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.
Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.
Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.
Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.
Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.
Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.
No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.
Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.
Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.
Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.
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