Cultura Pop
Um papo com Marília Neves, a criadora do @capasderevistas

A julgar pelas previsões que estão sendo feitas para o mercado de revistas, há notícias ruins para quem continua frequentando bancas de jornal. Só que as revistas – e derivados – continuam dando meia volta e invadindo a web, às vezes de maneira completamente torta, com títulos antigos sendo relembrados. Lá fora, a conta do Twitter @pulplibrarian, por exemplo, faz a alegria de seus seguidores com threads excelentes sobre livros pulp, revistas e publicações antigas. Também faz muitos posts sobre outros aspectos da cultura pop (discos, programas de TV, etc).
Fifth insight: sic transit gloria mundi. You don't pay for Twitter, and some day they will switch it off. All your content will be lost and your followers evaporate. Like the samurai you should think of the inevitability of death every day, then go and do something heroic. pic.twitter.com/mvkCdFHBJ6
— Pulp Librarian (@PulpLibrarian) September 1, 2018
Dá para descobrir muito sobre como as pessoas pensavam, numa determinada época – ou o que elas toleravam – por intermédio das capas das revistas vendidas nas bancas. Muitos questionamentos que nem são feitos em 2018 (felizmente ou infelizmente) estavam presentes em capas de publicações dos anos 1970, 1980, 1990, por aí.
Transforme sua agressividade em sucesso #1974 pic.twitter.com/zd8FkG5KU5
— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 20, 2018
Traduzindo: hoje, dificilmente algum editor deixaria passar uma manchete que pergunta algo como “devo bater no meu fllho?”. Ou: “A censura é necessária?” Há uns trinta anos, pode acreditar, você iria numa banca de jornal e acharia essas manchetes, além de outras que você jamais veria hoje. A Capricho já incentivou suas leitoras a escovar o cabelo para “agradar mais os garotos”. Quem tem entre 30 e 60 anos em 2018, é fruto de vários desses produtos jornalísticos.
No Brasil, um pouco do papel que cabe ao @pulplibrarian é feito pela conta @capasderevistas, que é atualizada por Marília Neves Viana, que tem 29 anos e mora em Brasília. Ela trabalha numa agência, tem acesso a publicações diariamente, mas boa parte do material que põe na conta vem de pesquisas pela web. Não apenas em sites especializados como também na maior fonte de material para malucos (as) por discos, livros e revistas antigas: o Mercado Livre. No dia em que proibirem a publicação de páginas inteiras por lá, muita gente vai deixar de movimentar o site.
Tem muitos posts lá que, com a ação do tempo, apontam para detalhes que hoje já devem ter sido esquecidos. Como o fato da revista O Cruzeiro ter perdurado por tanto tempo (até os anos 1980). Natália do Vale já esteve na capa da publicação em 1981, e foi definida como “tímida e agressiva”.
Vale a pena andar armado? #1981 pic.twitter.com/MwgtEDMmB2
— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 22, 2018
Seios à mostra (e “concurso de seios e bumbuns”) na capa de outro exemplar.
A verdade sobre a vida sexual dos índios #1981 pic.twitter.com/hnlUSewmeY
— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 22, 2018
Há capas que parecem ter sido feitas hoje. Mas não foram, não.
Como segurar seu emprego na crise #2008 pic.twitter.com/m6MlBNCghV
— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 24, 2018
O ator Juca de Oliveira (ou algum sósia) preocupado com o cara lá de baixo em 1973.
Quem tem medo da impotência? #1973 pic.twitter.com/U0441fdv1w
— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 20, 2018
Capricho impressa em 2013, com Anitta pós-teen falando em “garotos”.
Anitta
"Faço o que quero. O garoto que aceite." #2013 pic.twitter.com/9AmstZTbNG— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 20, 2018
Quando “sexo sem amor?” era um dilema cabeludo a ponto de ir para a capa de uma revista.
Sexo sem amor? Quase metade dos jovens aprovam #2002 pic.twitter.com/cgGEwyzS5o
— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 19, 2018
Não tem só capas. Se você mal lembrava que em 1993 teve plebiscito para escolher entre presidencialismo e parlamentarismo, saiba aqui a opinião de Alcione sobre o assunto.
Gugu Liberato: 5 perguntas para Alcione #1993 pic.twitter.com/AlH4FlhxbG
— Revistas Antigas (@capasderevistas) September 17, 2018
Fomos bater um papo com Marília, criadora do @capasderevistas (que tem também uma toca no Facebook). Marilia sabe bastante da importância do seu trabalho e reconhece – o que é melhor ainda – semelhanças entre o que ela fez e o que o @pulplibrarian faz. E fala sobre como ela trabalha na conta.
Como você resolveu montar o Revistas Antigas?
Eu sou bem fã de história, principalmente da vida privada, política, celebridades e esportes e numa dessas buscas de Google da vida acabei me deparando com uns posts de revistas antigas e achei legal, porque acho incrível mesmo ver a história retratada no presente, sem que quem estivesse escrevendo aquilo pensasse no registro pro futuro (divaguei aqui hahaha). Enfim, volta e meia eu fazia essas buscas só por hobby mesmo e postava alguma coisa no meu Twitter pessoal. Calhou que um dia alguém comentou comigo por lá que eu era o @pulplibrarian brasileiro. Eu vi o perfil, gostei, percebi que não tinha nenhuma página específica sobre o tema no Facebook e comecei a postar.
Sempre colecionou revistas?
Meu gosto por revista começou com a assinatura de Veja que tinha na casa da minha avó, fora isso eu também acompanhava muito a Carta Capital que tinha na biblioteca da escola. Mas assinatura mesmo só tive de gibi da Panini e da Mundo Estranho quando era mais nova, hoje em dia é bem raro eu comprar.
Tinha alguma revista que você esperava chegar na banca, ansiosamente?
O Homem-Aranha Ultimate que meu amigo comprava e me emprestava mensalmente hahahaha.
Espera alguma hoje? Continua comprando?
Não, gosto muito da Piauí, mas ultimamente eu só tenho focado em revista antiga mesmo.
Você faz questão de informar que “nossos posts são feitos majoritariamente com buscas do Google e pesquisas em blogs especializados”. Rola muito pedido dos leitores? Ou de gente pedindo para comprar as revistas, achando que se vocês puseram as capas, elas estão à venda?
Sim! Muita gente pergunta se eu vendo revistas específicas, ou até se eu estou comprando alguma publicação antiga, daí eu resolvi colocar esse aviso pra sanar a dúvida do pessoal. Fora isso volta e meia alguém pede ajuda com trabalho de faculdade, mas quando eu sei como achar a informação eu sempre tento passar pra pessoa que pediu.
Tem muitas capas de revistas para garotas, como a Capricho, que hoje seriam consideradas machistas, com chamadas para reportagens do tipo “como agradar todos os garotos”, etc. Como enxerga esse tipo de coisa hoje?
Por um lado eu entendo isso como uma coisa de espírito da época mesmo, é até interessante ver pela ótica crítica que nós temos hoje, porque querendo ou não esse tipo de conteúdo moldou e acabou influenciando muitas meninas pra um lado ruim relacionado a padrão de beleza e não corresponder ao que a revista dizia que você devia ser impacta muito a autoestima. Ainda tem muita coisa pra melhorar, mas é bacana ver como já existe um estrato de representatividade na mídia.
Você lembra de alguma manchete (publicada no Twitter) que você achou particularmente distópica? Tem aquela capa da Realidade que tem a chamada “devo bater no meu filho?”…
Eu gosto muito das capas de revistas de tecnologia que tentavam adivinhar o futuro. E tem essa aqui com a Ana Paula Arósio adolescente, que eu só consigo seguir o meme e dizer que “caso as armas sejam liberadas, esse tipo de cena será normal”.
Pólvora Negra: o tiro do futuro #1988 pic.twitter.com/LVoU8OAKvN
— Revistas Antigas (@capasderevistas) August 30, 2018
Mas o que eu acho bem doido mesmo é propaganda, tem umas de cerveja que são incríveis, botam até criança no anúncio, dizem que é bom pro leite e etc. A Malzbier tem algumas das minhas favoritas.
Malzbier: excellente bebida para senhoras, crianças e pessoas fracas em geral #1933 pic.twitter.com/CFu9xZoNCz
— Revistas Antigas (@capasderevistas) April 27, 2018
"Virar" no trabalho só mesmo com Malzbier #1967 pic.twitter.com/6lqVz9rd6e
— Revistas Antigas (@capasderevistas) June 13, 2017
Malzbier – a cerveja doce para senhoras e crenças #Anos30 pic.twitter.com/nPh25sXA2Y
— Revistas Antigas (@capasderevistas) May 12, 2017
Você faz algum tipo de planejamento para os posts? Costuma seguir alguma ordem, do tipo “vou botar capa do tema tal porque ele está na moda”, etc?
Quando eu criei a página, normalmente eu tirava o domingo pra agendar os posts da semana inteira. Daí eu percebi que acompanhar o noticiário ou os temas do dia no Twitter geravam muito mais engajamento e comecei a publicar as capas de acordo com o que tá rolando na rede mesmo. Fora isso eu ainda faço planejamento pra algumas datas ou eventos específicos, foi o caso da Copa do Mundo, julgamento do Lula, dia dos Namorados. Se eu vejo que vai ter um dia que só vão falar do assunto tal já tento me antecipar.
Uma capa, mesmo que desacompanhada da reportagem que ela se destina a anunciar, tem peso histórico? Por que?
Claro. É um registro da época, né? Mostra o que era tão importante que virava o principal tema da publicação. E o que eu mais gosto em fazer esse trabalho e essas pesquisas é justamente isso, ver quem ou o quê chamava atenção, sei lá, em 1967, e que tipo de texto acompanhava essa pessoa ou tema.
Qual foi o post que teve mais repercussão até hoje?
No Facebook:
No Twitter:
Angélica em: o bolo pic.twitter.com/hUX8tqb0zz
— Revistas Antigas (@capasderevistas) May 16, 2017
E qual foi o que você gostou mais de ter publicado?
Em geral eu gosto muito de ver as propagandas, essa aqui é uma das minhas favoritas
Grave uma hot tape para a garota mais bonita da sua rua #1988 pic.twitter.com/oCpRR14SHQ
— Revistas Antigas (@capasderevistas) January 3, 2018
Também gosto muito das capas da Realidade, da Para Todos e da O Malho.
Tem ideia do que está fazendo mais sucesso hoje em dia no @capasderevistas?
Em geral propaganda dos anos 80 e revista de fofoca dos anos 90/2000 sempre repercutem bem, tanto no Twitter quanto no Facebook. Fora isso, quando eu consigo acompanhar as discussões do dia e posto alguma coisa acompanhando o timing vai muito bem.
Como você, que lida com revistas o tempo todo nas redes sociais, está encarando o fato do segmento “revista” estar enfrentando tantos problemas? Dá uma certa tristeza?
Com certeza, não só pela página, mas por apego afetivo também. Apesar de não comprar faz tempo, eu gosto muito de ler o material físico e sempre curti visitar banca e livraria. Torço muito pro mercado editorial conseguir se reinventar, as revistas contam um pedaço muito importante da história – e o mais importante aqui eu acho que é perceber o trabalho do ponto de vista de cada época.
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.


































