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Músicas do 11 de setembro: descubra agora

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Músicas do 11 de setembro: descubra agora

Em crítica musical, volta e meia aparece algum crítico espertinho usando o termo “11 de setembro” para definir aquele momento em que a carreira de determinado artista chegou na baixa total. Ou quando é algum momento de ruína em que, a partir daí, nada mais será a mesma coisa.

O período mais recente da carreira de Britney Spears, em que a cantora passa por uma montanha de problemas pessoais, pode ser considerado um 11 de setembro. A época em que dois dos Titãs foram presos com heroína e a vida útil do disco Televisão (1985) chegou ao fim, foi um belo 11 de setembro para a banda – retrocedido após o disco Cabeça dinossauro (1986). Já a famosa partida Brasil 1–7 Alemanha, na Copa de 2014, foi mais do que um 11 de setembro para a seleção brasileira. Aqui no Brasil, você pode substituir o “11 de setembro” por “7 a 1” que, para bom entendedor, dá quase no mesmo.

Já o 11 de setembro de verdade aconteceu em 2001, e representou o ataque às torres gêmeas do complexo empresarial do World Trade Center, em Nova York. A tragédia completa 20 anos em poucos dias e você vai ter chances de sobra para ler a respeito disso em vários jornais (assim esperamos). Por enquanto, vale dizer que ele afetou bastante o mundo da música: inspirou canções, impediu shows, fez com que artistas modificassem clipes que estavam prontos para serem lançados, etc. Pega aí  alguns exemplos.

A ZICA DO EXPLOSIONS IN THE SKY. Uma das bandas mais afetadas com o 11 de setembro foi esse grupo de post-rock do Texas, de nome significativo. Uma semana antes do ataque, dia 4 de setembro, o grupo lançou seu segundo disco, que trazia um anjo iluminado por um avião na capa, e cujo título era (pode acreditar)  Those who tell the truth shall die, those who tell the truth shall live forever (nada menos que “os que falam a verdade devem morrer, os que falam a verdade devem viver para sempre”).

Por causa disso, o grupo teve que dividir seu tempo entre trabalhar o álbum e gastar saliva explicando que não tinham nada a ver com os ataques (!), e que o conceito do disco já estava pronto há um tempão. Para piorar um pouco, em plena turnê, o baixista Michael James decidiu pegar um avião portando uma guitarra com o adesivo “este avião cairá amanhã”. Foi detido na hora.

O ROLÊ DOS STROKES. O primeiro disco dos Strokes, Is this it, clássico indiscutível daqueles tempos, já estava preparadíssimo para lançamento em 25 de setembro nos EUA quando a banda achou que deveria tirar New York City cops da edição americana. Os Strokes viram a ação dos policiais no 11 de setembro e acharam que não pegaria bem lançar uma canção que falava que os tiras da capital “não são muito espertos”. When it started saiu no lugar.

O IMPACTO NO INDIE ROCK. Além dos Strokes, outras bandas da época sentiram o drama do 11 de setembro. Só que o transformaram em música. O Arcade Fire, no disco Neon bible (2007), apareceu com Antichrist television blues. O … And You Will Know Us By The Trail Of Dead (aliás que nome!) fez em 2005 Words apart, que trazia a infame frase “como eles riem enquanto jogamos as cinzas das Torres Gêmeas” na letra. Em 2007, o Bloc Party lançou Hunting for witches, cuja letra falava sobre a reação da mídia aos ataques. “E sobre como a mídia usa o medo para controlar as pessoas”, disse o cantor Kele Orekeke.

A DEPRÊ DO BIBLECODESUNDAY. Uma das canções mais mortalmente tristes a respeito do 11 de setembro é The boys of Queens, da banda londrina BibleCodeSunday, que costuma ser definida como folk ou “rock celta”. A letra, narrada em primeira pessoa, conta os dramas de um soldado que vem de uma família irlandesa da região do Queens, e que perdeu praticamente todos os parentes do sexo masculino no ataque – justamente porque sua família é cheia de bombeiros.

A ZONA DO STAR FUCKING HIPPIES. Banda anarco-punk de Nova York – e considerada um supergrupo do punk por incluir integrantes de outras bandas notáveis – o Star Fucking Hippies decidiu mexer em vespeiro com 9/11 was (An inside joke), (“o onze de setembro era uma piada interna”), lançada no disco Until we’re dead (2008, selo Fat Wreck Chords), e que esspalhava brasa para o então prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, em versos como “Giuliani fez o conserto/auxiliado pela máfia/pela força aérea e pela CIA”.

A GRITARIA DOS PROTESTOS. Não foram só os Star Fucking Hippies que decidiram ir além do que a mídia noticiava e protestar (em alto e bom som) no onze de setembro. O Minstry (veja lá quem!) pregou que “senhores, os convocamos para informá-los de que vamos derrubar o governo dos Estados Unidos/vocês ainda acham que o combustível de aviação derrubou o World Trade Center?” em Lies lies lies, que chegou a ser indicada para o Grammy na categoria “melhor performance de metal”. O rapper americano-indiano Heems lançou em 2015, uns bons anos depois do atentado, Flag shopping, sobre o racismo intensificado pelo onze de setembro.

O TRAMPO DE BRUCE SPRINGSTEEN. Andando de carro na rua, depois dos ataques, Bruce Springsteen teve a surpresa de ver um cidadão no carro ao lado abaixar a janela do veículo e gritar para ele: “Precisamos de você agora!”. Nasceu assim The rising, disco lançado em 30 de julho de 2002, cujo tema era o 11 de setembro. O repertório tinha canções como My city of ruins, Lonesome day, Mary’s place, Waitin’ on a sunny day e misturava canções novas com outras feitas antes de 11 de setembro de 2001. Foi direto para o 1º lugar do paradão da Billboard.

A ENCRENCA DAS RÁDIOS. Boa parte das rádios americanas parou de transmitir música para, 24 horas por dia, dar informações sobre onde conseguir ajuda, depoimentos de vítimas e outros assuntos afins. O Clear Channel, que comandava várias rádios no país (e hoje atende pelo nome de iHeart Media) fez um index de canções a serem evitadas para não darem gatilhos. A lista ia de Highway to hell, do AC/DC, a Aeroplane, do Red Hot Chili Peppers.

A ENCRENCA DOS CLIPES. No dia 11 de setembro, a banda alemã Rammstein iria estrear um clipe novo, Ich will. Estaria tudo bem se… o clipe, que mostrava os integrantes do grupo assaltando um banco, não trouxesse imagens de um bandido metido a homem-bomba. O vídeo foi lançado mas a continuidade dele na telinha foi abortada por motivos óbvios. Outro vídeo que sofreu por causa dos ataques foi o de Stay together for the kids, do Blink-182. A banda e o diretor Samuel Bayer tinham colocado uma destruição de prédio no vídeo e regravaram cenas para que tudo não ficasse parecido demais com o ataque às torres.

CONFUSÃO NA MÚSICA CLÁSSICA. Sabia que há uma série de composições de autores eruditos modernos que se inspiraram nos ataques às torres gêmeas? O minimalista Steve Reich fez WTC 9/11, John Corigliano fez One sweet morning no aniversário de dez anos dos ataques, o compositor e maestro John Adams fez On the transmigration of souls. Já o americano Michael Gordon fez The sad park para o Kronos Quartet tocar, usando gravações de comentários de colegas de escola de seu filho gravadas num sampler.

SUCESSO INESPERADO. Depois da tragédia, a cantora americana Kristy Jackson lançou um single, Little did she know (She’d kissed a hero). A canção, que falava sobre a tragédia do ponto de vista de um ocupante do voo 93, sequestrado por terroristas, fez tanto sucesso nas rádios americanas que, anos depois, Kristy se animou a compilar num livro os mais de 5 mil e-mails que recebeu por conta da música. O livro tem o mesmo nome da canção, complementado pelo subtítulo: Histórias em primeira pessoa sobre o 11 de setembro, e a canção que inspirou todas elas. Segundo um site da cantora que está fora do ar (mas está no Archive.org), ela rejeitou um contrato com uma gravadora grande e preferiu continuar independente, e não cobrava quando apresentava a música em eventos.

TEVE MICHAEL NA PARADA. Michael Jackson, no mesmo ano em que lançou seu último disco, Invincible, foi convidado a fazer uma canção em benefício das famílias dos sobreviventes da tragédia. Acabou fazendo um recapeamento numa canção inédita e antiga, What more can I give, feita nos anos 1990, após uma reunião com o Presidente da África do Sul Nelson Mandela. A música foi quase “não-lançada”: rolou um clipe com um time de artistas, a canção ficou disponível para download, mas o single, perdido em meio a brigas de Michael com a Sony, não foi lançado. Detalhe: a capa do CD físico seria feita por Romero Britto.

CANCELADO!! Numa época em que a palavra servia só para indicar eventos que não aconteceriam, rolaram vários cancelamentos por causa do ataque. O broadcasting do Grammy Latino foi suspenso, o primeiro show pela internet de Sting (transmitido da Itália) foi resumido a uma só canção (sintomaticamente Fragile) e o Blink-182, que iria começar uma turnê pela Europa para divulgar o disco Take off your pants and jackets, desistiu do giro.

DISCOS DE ONZE DE SETEMBRO. Quem lançou disco nessa data, claro, corria o risco real de passar em branco. Detalhe que muita gente lançou disco nesse dia. Bob Dylan soltou Love and theft, Mariah Carey mandou para as lojas a trilha do filme Glitter – O brilho de uma estrela, Ben Folds soltou o (excelente) disco solo Rockin’ the suburbs e (pasmem) o Slayer desovou o significativo God hates us all. Já Silver side up, um dos maiores sucessos do Nickelback (o do hit How you remind me), saiu também nesse mesmo dia.

TAMBÉM SAÍRAM EM ONZE DE SETEMBRO. The blueprint, sexto disco de Jay-Z, saiu em em 11 de setembro de 2001 (por sinal revelando o trabalho de um produtor chamado Kanye West). The glow pt.2, da banda de indie folk The Microphones, também. Uncivilization, do Biohazard, idem. O prêmio “disco que muita gente não sabe nem que existe” vai para Tomcats screaming outside, único disco solo do líder do Tears For Fears, Roland Orzabal, cuja edição americana chegou às lojas dos EUA neste dia.

O 11 DE SETEMBRO DE WILLIAM BASINSKI. O compositor experimental americano William Basinski encontrou em agosto de 2001 várias fitas antigas que havia guardado, algumas delas se desfazendo completamente. Ficava ouvindo os K7s com amigos. Teve a ideia de gravar loops com as fitas se desintegrando, o que começou a fazer.

Até que em 11 de setembro, William viu da janela do seu apartamento a derrubada das torres gêmeas – justamente no dia em que ele teria que ir ao World Trade Center fazer uma entrevista de emprego (!). Ele levou o gravador com as fitas para o terraço, fez vídeos e fotos do ataque e, usando as fitas, fez a série de discos The disintegration loops, quatro álbuns lançados após 2002. As imagens que ele clicou foram parar nas capas dos álbuns. A foto lá de cima é da capa do primeiro disco da série.

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Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

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The Coverups: Billie Joe recebe Bruce Dickinson (Foto: Reprodução Internet)

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.

Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.

O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.

Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.

Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.

Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.

De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.

Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.

Foto: Reprodução Internet

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Qual é a dos dois discos novos de Lana Del Rey?

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Lana Del Rey (Foto: reprodução YouTube)

Lana Del Rey passou tanto tempo adiando e reformulando o próximo álbum que já dava para imaginar que ele nunca chegaria. Primeiro era Lasso. Depois virou The right person will stay. Em seguida apareceu como Stove. Agora a cantora resolveu complicar um pouco mais o roteiro: além de Stove, ela diz que também está preparando um segundo álbum inédito.

A novidade surgiu em uma publicação no Instagram, onde Lana contou que o disco extra nasceu durante o mesmo processo criativo do sucessor de Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd. Segundo ela, o novo trabalho funciona como uma espécie de “companion album”, desenvolvido quase ao mesmo tempo que Stove.

  • Os bastidores do raro Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, que ganha lançamento oficial

A cantora também afirmou que esse segundo disco surgiu das transformações pessoais e criativas que viveu nos últimos quatro anos, funcionando como uma espécie de contraponto ao álbum principal. Se tudo correr como planejado — e essa ressalva é indispensável quando o assunto é cronograma de Lana Del Rey — os dois discos devem ficar prontos em cerca de um mês para seguir para a prensagem em vinil.

Ela também afirmou que ambos já têm capas prontas e descreveu os projetos como algumas das obras de que mais se orgulha. O álbum principal, Stove, continua reunindo os singles Henry, come on, Bluebird e White feather hawk tail deer hunter, além de outras músicas que ela vem mostrando ao vivo nos últimos meses. Tudo indica que First light, single lançado como single da trilha sonora do jogo 007 First Light, escrito em parceria com David Arnold, é só um projeto à parte e não estará no disco.

Embora Lana ainda não tenha confirmado um título para o álbum companheiro, fãs passaram a chamá-lo de Spyda após identificarem esse nome em uma das artes divulgadas pela cantora nas redes sociais (aliás, no Reddit, tem fãs reclamando que a imprensa tá caindo rapidamente numa suposição deles mesmos, os fãs)

Ainda não há datas de lançamento para nenhum dos dois discos. Mas, considerando o histórico recente da cantora, talvez seja prudente evitar tatuar qualquer título no braço até que eles realmente apareçam nas plataformas de streaming. Afinal, se um álbum já mudou de nome três vezes antes de nascer, nada impede que um quarto nome apareça antes do play.

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Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.

Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.

Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.

O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.

Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.

Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.

Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.

Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.

A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.

Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.

E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.

Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.

Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.

Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.

Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.

Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.

Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.

Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.

O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.

O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!

Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.

Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).

Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.

A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.

Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados ​​de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.

Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.

Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.

Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.

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