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Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Blonde On Blonde, de Bob Dylan

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Várias coisas que você já sabia sobre Blonde On Blonde, de Bob Dylan

No começo de 1966, ano em que os Beatles se preparavam para dar uma guinada mais significativa com Revolver, o nome do meio de Bob Dylan era trabalho. Já devidamente convertido à música elétrica após as vaias no Festival Folk de Newport, o cantor estava em uma estafante turnê montada por seu empresário Albert Grossman, na qual era acompanhado pela banda canadense The Hawks – que depois passaria a se chamar simplesmente The Band. Também arrumava tempo para encarar o estúdio e gravar seu sétimo disco, que seria duplo. E se chamaria Blonde on blonde.

Blonde on blonde representava a virada definitiva de Dylan para o universo pop como ele era conhecido na segunda metade dos anos 1960, época em que Beatles e Rolling Stones disputavam a atenção dos jovens. E começava a haver, no universo do rock, maior demanda por uma música política – se não nas letras, pelo menos na atitude, na poética escolhida. O temperamental Dylan parecia obcecado em dar continuidade à sua carreira combinando ironia, elaboração, poesia, romantismo e sonoridades energéticas. Mas mesmo com as mudanças sonoras, havia um ar de encontro com as raízes no disco novo: lá pelas tantas, Dylan não ficou satisfeito com as sessões iniciais em Nova York e se transferiu para a capital do country, Nashville.

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Entre crises criativas, soluções de mestre, uma certa ajuda dos amigos (Al Kooper, o tecladista, em especial), Blonde on blonde saiu, revelando músicas como Rainy day women nº 12 & 35, I want you, Just like a woman e outras. O disco representou também uma vírgula na carreira de Dylan, já que o cantor sofreria um misteriosíssimo acidente de moto quase um mês após seu lançamento, interrompendo turnês e demais compromissos. A qualidade das canções, o mistério e a capa enigmática (apenas uma foto desfocada, sem nome do artista ou do disco) ajudaram na mística.

Várias coisas que você já sabia sobre Blonde On Blonde, de Bob Dylan

E segue aí nosso relatório sobre Blonde on blonde. Ouça lendo, leia ouvindo, essas coisas.

PRIMEIRO DISCO DUPLO? De jeito nenhum: quando Blonde on blonde saiu, o formato de LPs duplos, triplos e até caixas com 4 ou 5 LPs já era largamente utilizado no jazz e na música clássica – especialmente na hora de colocar óperas em vinil. Blonde on blonde é considerado o primeiro LP duplo da história do rock, e por pouco não perdeu o posto. Isso porque Frank Zappa e seus Mothers Of Invention já estavam gravando a estreia Freak out!, e o disco deles saiu uma semana depois do de Dylan.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, a Playboy, em abril de 1993, perguntou a Zappa o que ele achava de Dylan, Jimi Hendrix e Rolling Stones. O bigodudo soltou um veneninho justamente para cima de qual disco? “Highway 61 revisited foi muito bom. Então pegamos Blonde on blonde e o som começou a soar como música de cowboy, e você sabe o que eu acho de música de cowboy”, desabou.

TAVA DANDO MERDA. Dylan, lá pelo comecinho de 1966, estava começando a querer ficar livre de seu empresário, o poderoso Albert Grossman, sujeito importantíssimo na consolidação do folk-rock enquanto música “jovem”, e que depois cuidaria da carreira de Janis Joplin. Grossman havia criado com Dylan uma editora chamada Dwarf Music, para publicar as canções de Bob. O cantor, totalmente cabeça-de-vento no que dizia respeito a contratos, nem sequer leu nada que assinou. Depois descobriu que o empresário teria direito a 50% de tudo que ele fizesse em dez anos.

SEMPRE NA ESTRADA. A partir de meados de 1965, Dylan consolidaria sua faceta de drop-out estradeiro, partindo para uma turnê estafante. Grossman agendara a turnê pelos próximos nove meses, para aproveitar a excelente maré de sucesso do cantor, que encontraria datas por todos os EUA. Dylan tinha companhia no novo giro: uma banda canadense chamada The Hawks, composta pelos músicos Levon Helm (bateria), Robbie Robertson (guitarra), Rick Danko (baixo), Richard Manuel (piano, órgão) e Garth Hudson (sax, teclados).

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THE HAWKS. Essa formação, que depois mudaria de nome para The Band, tinha esse nome por uma razão básica: havia sido criada para acompanhar o roqueiro americano Ronnie Hawkins. Ronnie era tão pioneiro do rock quanto Jerry Lee Lewis, Chuck Berry e Carl Perkins, mas havia se mudado para o Canadá no começo da carreira e estabelecera-se por lá. Em 1975, foi convocado por Dylan para interpretar o próprio cantor de Blowin’ in the wind no filme Renaldo and Clara.

LÁ EM NOVA YORK. Num intervalinho de turnê, no fim de 1965, Dylan foi visitar ninguém menos que Andy Warhol. Concordou em fazer um dos famosos screen tests do esteta pop mas, depois, dando um passeio pelo multi-ateliê de Warhol, deparou com um dos retratos de Elvis Presley feitos por Warhol. Bob insistiu tanto que acabou ganhando uma das serigrafias.

MAS, curiosamente, Dylan zoava a imagem na frente de todo mundo que o visitava em sua mansão em Woodstock, e acabou dando a pintura para a família Grossman. Warhol detestou descobrir isso, mas seria vingado com o tempo: Sally Grossman, mulher de Albert, vendeu o quadro num leilão por 720 mil dólares em 1988.

E OLHA AÍ o teste de Dylan.

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DEMOROU PARA ABALAR. Ainda que o segundo disco de Dylan, The freewheelin’ Bob Dylan (1963) tenha sido feito em várias etapas e com produtores diferentes – um pouco pelas indecisões do artista, um pouco pelos embates entre Grossman e a equipe – Blonde on blonde é tido como o primeiro disco do cantor a ser marcado por regravações, trocas de músicos, mudanças de rota, rasga-rasga de músicas e abandono de originais quando as coisas começavam a não andar.

DEMOROU MESMO. Dylan começou, com produção de Bob Johnston, a gravar Blonde on blonde em outubro de 1965 no estúdio da Columbia em Nova York. Só que as primeiras gravações com The Hawks deixaram o cantor insatisfeito. Após ouvir uma sugestão do produtor, Dylan decidiu fazer as gravações do disco no estúdio da gravadora em Nashville, contra a vontade de Grossman (que ameaçou Johnston com o olho da rua por causa disso).

DYLAN levou apenas Al Kooper (teclados) e Robbie Robertson (guitarra) para a gravação em Nashville. A turma que gravou com ele por lá era liderada pelo experiente guitarrista e gaitista Charlie McCoy. Ele recordou que Dylan queria gravar com músicos de country que não fossem da velha guarda e conhecessem rock.

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O ESTÚDIO em Nashville era um daqueles espaços antigos, amplos, cheios de divisórias. Dylan queria todo mundo junto na sala de gravação, como se fosse um palco. Johnston conta que mandou um dos zeladores arrancar todos os biombos que separavam os músicos “e tacar fogo”.

O QUEBRA-QUEBRA de divisórias no estúdio era, vá lá, uma demonstração de que Dylan tinha poder na Columbia e que a gravadora iria apoiá-lo para que ele fizesse o disco que bem entendesse. Numa época em que qualquer firma grande contava moedas e tentava conseguir mais por menos, a Columbia liberou um disco duplo, e pagou um time de músicos de estúdio para que acompanhasse Dylan até que Blonde on blonde ficasse pronto.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Dylan abusou da paciência da Columbia e dos músicos o quanto pôde: chegou no estúdio sem ter músicas prontas e precisou pedir a eles que circulassem pelo local enquanto ele terminava de escrever. Todos haviam sido convocados para ir lá na madrugada, lutavam contra o sono e foram chamados de volta à sala para aprender uma canção nova de Dylan. Era a quilométrica Sad-eyed lady of the lowlands, de onze minutos, que fez Charlie McCoy e seus colegas, todos exaustos, entrarem em estado de aflição.

ESSA MÚSICA, que ocupou todo o quarto lado do disco, “acaba sendo um dos raros momentos de serenidade num álbum que respira a energia nervosa da anfetamina”, escreveu Ana Maria Bahiana num texto sobre Blonde on blonde publicado na Discoteca Básica da Bizz, em agosto de 1986. A musa da canção geralmente é tida como Sara, a esposa quase secreta do cantor – Dylan havia casado quase escondido de seus amigos e alguns deles mal sabiam do relacionamento, que já gerara um filho, Jesse.

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OUTRAS musas possíveis do álbum são a atriz da turma de Andy Warhol, Edie Sedgwick, que teria inspirado Just like a woman e Leopard-skin pill-box hat. E Joan Baez já disse acreditar que Visions of Johanna foi feita para ela. “Muitos veem tanto em “Sad-eyed lady… quanto em Visions of Johanna as primeiras manifestações de sentimento realmente religioso em Dylan, a busca de uma dimensão metafísica, espiritual, para a existência”, continua Ana Maria.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Edie é tida como a loura inspiradora do nome do disco, Blonde on blonde. Mas é improvável: testemunhas dizem que os títulos das músicas e o nome do álbum foram dados quase que automaticamente por Dylan, e que alguns foram dados quando Johnston perguntou ao cantor “como você quer chamar essa música?”.

MAS Oliver Trager, que escreveu enciclopédias do cantor, acredita que o nome venha da peça Brecht on Brecht, espécie de retrato no palco do dramaturgo Bertolt Brecht.

DOIDEIRA. Rainy day women, que se tornaria uma das faixas mais queridas de Blonde on blonde, era a música do verso “todo mundo tem que ficar chapado”. Dylan se recusou a gravar a música com todo mundo “careta” e foi logo querendo saber o que é que todo mundo fazia ali pra ficar doidão. Um zelador do estúdio foi comprar coquetéis para a turma num bar e, estranhamente, voltou com a bebida dentro de embalagens longa-vida. Foi o que ajudou a dar o clima maluco da gravação, além de eventuais baseados.

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DYLAN queria dar um clima de charanga, de banda de inauguração de farmácia, para a música. Além da turma permanecer doidona na gravação, os músicos trocaram de instrumentos: Al Kooper foi para a percussão, por exemplo. Henry Strzelecki, originalmente guitarrista e baixista, ficou com os teclados. Existe uma discordância sobre a turma fumou maconha no estúdio ou não. Strzelecki e o tecladista Hargus “Pig” Robbins juram terem fumado bastante. Mas McCoy e Kooper dizem que Grossman não permitiria maconha ou bebidas no estúdio.

APARENTEMENTE, Dylan foi fazendo o disco sem se dar conta de que tinha um excedente de material, e só viu que aquilo tudo rendia um disco duplo na hora da mixagem. Por acaso, a equipe que trabalhava em Blonde on blonde preferiu dar mais atenção à versão mono do que à estéreo, na mixagem – a primeira demorou vários dias para ser concluída.

CABOU. Blonde on blonde foi gravado enquanto Dylan fazia show atrás de show, experimentava drogas (LSD, haxixe e bolinhas variadas) e se divertia, à sua maneira, com os Hawks, que estavam no ponto de assobiar e chupar cana por causa das substâncias lícitas e ilícitas. A heroína começava a fazer parte do dia a dia de Levon Helm, por exemplo. Dylan creditava ao uso de drogas o fato de se manter acordado e ativo em meio a uma bateria nervosa de shows, mas dizia que elas não inspiravam músicas. E por outro lado, Rainy day women 12 & 35 estava sendo banida de algumas rádios por causa das referências a “ficar chapado”.

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A CAPA. Desde o primeiro disco, uma coisa era certa em relação aos álbuns de Dylan: as fotos de capa precisavam ser sensacionais. O estilo de Dylan (boinas, jaquetas transadas, camisetas com estampas cool) era copiado pela juventude dos anos 1960, e as imagens de capa precisavam seguir essa linha. Na foto de Blonde on blonde, clicada em fevereiro de 1966, Dylan usou uma jaqueta de estimação (com a qual ele apareceria nas capas de John Wesley harding, de 1967, e Nashville skyline, de 1969) e posou para o fotógrafo Jerry Schatzberg, que colaborava com revistas como Vogue e Esquire.

PRÉDIO DE TIJOLINHOS. Dylan e Schatzberg, que estavam em Nova York, preferiram não fazem as fotos no estúdio da Columbia. Foram até o Meatpacking District, bairro de Manhattan que na época era um centro de comércio lotado de frigoríficos e já estava bastante decadente. A região passou a abrigar butiques e galerias de arte nos anos 1990. Os dois foram para a frente de um prédio de tijolinhos (que, de acordo com pesquisadores, ficava na 375 West Street) e fizeram as fotos.

Várias coisas que você já sabia sobre Blonde On Blonde, de Bob Dylan

FOI O FRIO. A razão pela qual a imagem de Blonde on blonde saiu meio desfocada é bem simples: no dia da foto, estava fazendo um frio desgraçado e Schatzberg estava tremendo. De qualquer jeito, a sessão ainda rendeu outras fotos nítidas e em foco, como a daí de cima, mas Dylan preferiu a que foi para a capa, e assim rolou. Outras fotos da sessão apareceram na capa do single I want you (com Dylan fotografado nas cercanias) e na do CD Bob Dylan 1965-1966 – The cutting edge. Aqui você vê todas as fotos “perdidas” da sessão.

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ALIÁS E A PROPÓSITO, pega aí Schatzberg contando histórias da capa de Blonde on blonde e tentando achar o prédio em que ela foi tirada (a região passou por várias reformas ao longo das décadas).

PROIBIDÃO. A primeira edição americana de Blonde on blonde, nas mãos de vendedores mais careiros, pode chegar a passar dos R$ 5 mil. Tudo porque Schatzberg decidiu incluir na arte interna uma foto da atriz Claudia Cardinale, que ele havia tirado. Só que não pediu autorização a ela para isso. De qualquer jeito, Claudia foi mantida nas edições ao redor do mundo (em tempo: Blonde on blonde nunca saiu no Brasil).

DIFÍCIL É A DATA. Oficialmente, Blonde on blonde sempre foi considerado um disco lançado em 16 de maio de 1966. Só que pesquisas feitas posteriormente nas anotações da Columbia puseram a data em xeque. Clinton Heylin, escritor inglês que pesquisa a obra de Dylan, descobriu que a data de lançamento foi, na verdade, 20 de junho de 1966. Em tempo: Freak out, de Frank Zappa, saiu em 27 de junho.

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E AÍ, FICOU LEGAL? Ficou: assim que Blonde on blonde saiu, foi raro ler algo desfavorável sobre ele. Paul Williams, editor da Crawdaddy!, disse que o álbum era “um esconderijo de emoção, um pacote bem tratado de excelente música e melhor poesia”. Em um texto sobre Dylan, Ana Maria Bahiana afirmou que o cantor, em Blonde on blonde e em outros álbuns, “ensinava como expressar e como omitir, como transformar raiva e desprezo em algo bem mais complicado, ou como desenhar amor e paixão com todas as suas ambiguidades”. O disco foi logo para o Top 10 nos EUA e Reino Unido. I want you e Just like a woman viraram hinos.

A TURNÊ 1965/1966 de Dylan foi acompanhada de perto por críticos musicais (alguns deles estavam bastante descontentes com a nova fase da carreira do cantor) e por um público cada vez mais passional. No Free Trade Hall, em Manchester, um fã puto da vida com a eletrificação do repertório acústico do cantor, chamou-o em alto e bom som de “Judas”. A cena aparece até no documentário semi-inédito Eat the document (sobre o qual já falamos). Em Paris, a demora de Dylan para afinar seu violão causou vaias.

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EAT THE DOCUMENT era um documentário que DA Pennebaker, o mesmo diretor de Don’t look back, estava fazendo com a turnê de 1966. Dylan, que andava numa fase em que não se importava em ser agradável nem com amigos, decidiu cortar cenas inteiras e fazer ele mesmo o corte final do filme. A emissora ABC, que queria o filme para exibir, achou que o resultado tinha ficado maluco demais e desistiu dele. Dylan ainda tinha outras coisas para se preocupar: um disco novo que a Columbia exigia, o término de seu livro de poesias Tarantula (que ele quis modificar assim que viu as provas da editora) e as encrencas com Grossman, que tentava renegociar seu contrato com a gravadora.

SÓ QUE o destino se encarregou de colocar uma vírgula nos planos de Dylan. O cantor, em 29 de julho de 1966, sofreu um sério acidente com sua motocicleta, uma Triumph Tiger 100, perto de sua casa em Woodstock, Nova York. O acidente ocorreu em situações meio misteriosas até hoje: Dylan diz que quebrou várias vértebras mas nenhuma ambulância foi chamada ao local. Seja como for, um momento bom para descansar, colocar a cabeça em ordem e fugir do assédio. “Eu tinha sofrido um acidente de motocicleta e me machucado, mas me recuperei. A verdade é que eu queria sair da corrida de ratos”, afirmou em sua biografia Crônicas.

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DYLAN sumiu dos palcos e se enfiou no estúdio de sua casa com a turma da The Band (os ex-Hawks), para gravar uma série de músicas. Varias delas ele estava compondo para outros cantores. O material de estúdio só apareceria em disco em 1975, no LP duplo The basement tapes. Após Blonde on blonde, viria John Wesley Harding (1967), mais um álbum gravado em Nashville, com lembranças do Velho Oeste nas letras. Em 1969, foi a vez do elogiado e bem sucedido Nashville skyline, do hit Lay lady lay, e de Girl from the North Country, gravada ao lado de Johnny Cash.

E é isso. Pega aí Dylan em seu primeiro grande show após o acidente de moto, na Ilha de Wight, em 1969.

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Ricardo Schott é jornalista, radialista, editor e principal colaborador do POP FANTASMA.

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Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

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Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.

O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.

Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.

Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.

A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.

Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?

Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração

O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.

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Cultura Pop

Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

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Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.

Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.

Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.

A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.

No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.

Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.

Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.

Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.

Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.

Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.

No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.

Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.

Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.

Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.

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Cultura Pop

Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

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The Coverups: Billie Joe recebe Bruce Dickinson (Foto: Reprodução Internet)

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.

Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.

O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.

Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.

Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.

Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.

De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.

Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.

Foto: Reprodução Internet

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