Connect with us

Cultura Pop

Várias coisas que você já sabia sobre Blonde On Blonde, de Bob Dylan

Published

on

Várias coisas que você já sabia sobre Blonde On Blonde, de Bob Dylan

No começo de 1966, ano em que os Beatles se preparavam para dar uma guinada mais significativa com Revolver, o nome do meio de Bob Dylan era trabalho. Já devidamente convertido à música elétrica após as vaias no Festival Folk de Newport, o cantor estava em uma estafante turnê montada por seu empresário Albert Grossman, na qual era acompanhado pela banda canadense The Hawks – que depois passaria a se chamar simplesmente The Band. Também arrumava tempo para encarar o estúdio e gravar seu sétimo disco, que seria duplo. E se chamaria Blonde on blonde.

Blonde on blonde representava a virada definitiva de Dylan para o universo pop como ele era conhecido na segunda metade dos anos 1960, época em que Beatles e Rolling Stones disputavam a atenção dos jovens. E começava a haver, no universo do rock, maior demanda por uma música política – se não nas letras, pelo menos na atitude, na poética escolhida. O temperamental Dylan parecia obcecado em dar continuidade à sua carreira combinando ironia, elaboração, poesia, romantismo e sonoridades energéticas. Mas mesmo com as mudanças sonoras, havia um ar de encontro com as raízes no disco novo: lá pelas tantas, Dylan não ficou satisfeito com as sessões iniciais em Nova York e se transferiu para a capital do country, Nashville.

>>> Veja também no POP FANTASMA: Quando os fãs malucos de Woodstock meteram medo em Bob Dylan

Entre crises criativas, soluções de mestre, uma certa ajuda dos amigos (Al Kooper, o tecladista, em especial), Blonde on blonde saiu, revelando músicas como Rainy day women nº 12 & 35, I want you, Just like a woman e outras. O disco representou também uma vírgula na carreira de Dylan, já que o cantor sofreria um misteriosíssimo acidente de moto quase um mês após seu lançamento, interrompendo turnês e demais compromissos. A qualidade das canções, o mistério e a capa enigmática (apenas uma foto desfocada, sem nome do artista ou do disco) ajudaram na mística.

Várias coisas que você já sabia sobre Blonde On Blonde, de Bob Dylan

E segue aí nosso relatório sobre Blonde on blonde. Ouça lendo, leia ouvindo, essas coisas.

Advertisement

PRIMEIRO DISCO DUPLO? De jeito nenhum: quando Blonde on blonde saiu, o formato de LPs duplos, triplos e até caixas com 4 ou 5 LPs já era largamente utilizado no jazz e na música clássica – especialmente na hora de colocar óperas em vinil. Blonde on blonde é considerado o primeiro LP duplo da história do rock, e por pouco não perdeu o posto. Isso porque Frank Zappa e seus Mothers Of Invention já estavam gravando a estreia Freak out!, e o disco deles saiu uma semana depois do de Dylan.

>>> Veja também no POP FANTASMA: MC Bob Dylan

ALIÁS E A PROPÓSITO, a Playboy, em abril de 1993, perguntou a Zappa o que ele achava de Dylan, Jimi Hendrix e Rolling Stones. O bigodudo soltou um veneninho justamente para cima de qual disco? “Highway 61 revisited foi muito bom. Então pegamos Blonde on blonde e o som começou a soar como música de cowboy, e você sabe o que eu acho de música de cowboy”, desabou.

TAVA DANDO MERDA. Dylan, lá pelo comecinho de 1966, estava começando a querer ficar livre de seu empresário, o poderoso Albert Grossman, sujeito importantíssimo na consolidação do folk-rock enquanto música “jovem”, e que depois cuidaria da carreira de Janis Joplin. Grossman havia criado com Dylan uma editora chamada Dwarf Music, para publicar as canções de Bob. O cantor, totalmente cabeça-de-vento no que dizia respeito a contratos, nem sequer leu nada que assinou. Depois descobriu que o empresário teria direito a 50% de tudo que ele fizesse em dez anos.

SEMPRE NA ESTRADA. A partir de meados de 1965, Dylan consolidaria sua faceta de drop-out estradeiro, partindo para uma turnê estafante. Grossman agendara a turnê pelos próximos nove meses, para aproveitar a excelente maré de sucesso do cantor, que encontraria datas por todos os EUA. Dylan tinha companhia no novo giro: uma banda canadense chamada The Hawks, composta pelos músicos Levon Helm (bateria), Robbie Robertson (guitarra), Rick Danko (baixo), Richard Manuel (piano, órgão) e Garth Hudson (sax, teclados).

>>> Veja também no POP FANTASMA: Discos da discórdia 7: Bob Dylan, com Empire burlesque

THE HAWKS. Essa formação, que depois mudaria de nome para The Band, tinha esse nome por uma razão básica: havia sido criada para acompanhar o roqueiro americano Ronnie Hawkins. Ronnie era tão pioneiro do rock quanto Jerry Lee Lewis, Chuck Berry e Carl Perkins, mas havia se mudado para o Canadá no começo da carreira e estabelecera-se por lá. Em 1975, foi convocado por Dylan para interpretar o próprio cantor de Blowin’ in the wind no filme Renaldo and Clara.

Advertisement

LÁ EM NOVA YORK. Num intervalinho de turnê, no fim de 1965, Dylan foi visitar ninguém menos que Andy Warhol. Concordou em fazer um dos famosos screen tests do esteta pop mas, depois, dando um passeio pelo multi-ateliê de Warhol, deparou com um dos retratos de Elvis Presley feitos por Warhol. Bob insistiu tanto que acabou ganhando uma das serigrafias.

MAS, curiosamente, Dylan zoava a imagem na frente de todo mundo que o visitava em sua mansão em Woodstock, e acabou dando a pintura para a família Grossman. Warhol detestou descobrir isso, mas seria vingado com o tempo: Sally Grossman, mulher de Albert, vendeu o quadro num leilão por 720 mil dólares em 1988.

E OLHA AÍ o teste de Dylan.

>>> Veja também no POP FANTASMA: Quando Mick Ronson foi tocar com Bob Dylan

DEMOROU PARA ABALAR. Ainda que o segundo disco de Dylan, The freewheelin’ Bob Dylan (1963) tenha sido feito em várias etapas e com produtores diferentes – um pouco pelas indecisões do artista, um pouco pelos embates entre Grossman e a equipe – Blonde on blonde é tido como o primeiro disco do cantor a ser marcado por regravações, trocas de músicos, mudanças de rota, rasga-rasga de músicas e abandono de originais quando as coisas começavam a não andar.

Advertisement

DEMOROU MESMO. Dylan começou, com produção de Bob Johnston, a gravar Blonde on blonde em outubro de 1965 no estúdio da Columbia em Nova York. Só que as primeiras gravações com The Hawks deixaram o cantor insatisfeito. Após ouvir uma sugestão do produtor, Dylan decidiu fazer as gravações do disco no estúdio da gravadora em Nashville, contra a vontade de Grossman (que ameaçou Johnston com o olho da rua por causa disso).

DYLAN levou apenas Al Kooper (teclados) e Robbie Robertson (guitarra) para a gravação em Nashville. A turma que gravou com ele por lá era liderada pelo experiente guitarrista e gaitista Charlie McCoy. Ele recordou que Dylan queria gravar com músicos de country que não fossem da velha guarda e conhecessem rock.

>>> Veja também no POP FANTASMA: O documentário quase secreto de Bob Dylan

O ESTÚDIO em Nashville era um daqueles espaços antigos, amplos, cheios de divisórias. Dylan queria todo mundo junto na sala de gravação, como se fosse um palco. Johnston conta que mandou um dos zeladores arrancar todos os biombos que separavam os músicos “e tacar fogo”.

O QUEBRA-QUEBRA de divisórias no estúdio era, vá lá, uma demonstração de que Dylan tinha poder na Columbia e que a gravadora iria apoiá-lo para que ele fizesse o disco que bem entendesse. Numa época em que qualquer firma grande contava moedas e tentava conseguir mais por menos, a Columbia liberou um disco duplo, e pagou um time de músicos de estúdio para que acompanhasse Dylan até que Blonde on blonde ficasse pronto.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Dylan abusou da paciência da Columbia e dos músicos o quanto pôde: chegou no estúdio sem ter músicas prontas e precisou pedir a eles que circulassem pelo local enquanto ele terminava de escrever. Todos haviam sido convocados para ir lá na madrugada, lutavam contra o sono e foram chamados de volta à sala para aprender uma canção nova de Dylan. Era a quilométrica Sad-eyed lady of the lowlands, de onze minutos, que fez Charlie McCoy e seus colegas, todos exaustos, entrarem em estado de aflição.

Advertisement

ESSA MÚSICA, que ocupou todo o quarto lado do disco, “acaba sendo um dos raros momentos de serenidade num álbum que respira a energia nervosa da anfetamina”, escreveu Ana Maria Bahiana num texto sobre Blonde on blonde publicado na Discoteca Básica da Bizz, em agosto de 1986. A musa da canção geralmente é tida como Sara, a esposa quase secreta do cantor – Dylan havia casado quase escondido de seus amigos e alguns deles mal sabiam do relacionamento, que já gerara um filho, Jesse.

>>> Veja também no POP FANTASMA: Aquela vez que Bob Dylan gravou com músicos do Sex Pistols e do Clash

OUTRAS musas possíveis do álbum são a atriz da turma de Andy Warhol, Edie Sedgwick, que teria inspirado Just like a woman e Leopard-skin pill-box hat. E Joan Baez já disse acreditar que Visions of Johanna foi feita para ela. “Muitos veem tanto em “Sad-eyed lady… quanto em Visions of Johanna as primeiras manifestações de sentimento realmente religioso em Dylan, a busca de uma dimensão metafísica, espiritual, para a existência”, continua Ana Maria.

Advertisement

ALIÁS E A PROPÓSITO, Edie é tida como a loura inspiradora do nome do disco, Blonde on blonde. Mas é improvável: testemunhas dizem que os títulos das músicas e o nome do álbum foram dados quase que automaticamente por Dylan, e que alguns foram dados quando Johnston perguntou ao cantor “como você quer chamar essa música?”.

MAS Oliver Trager, que escreveu enciclopédias do cantor, acredita que o nome venha da peça Brecht on Brecht, espécie de retrato no palco do dramaturgo Bertolt Brecht.

DOIDEIRA. Rainy day women, que se tornaria uma das faixas mais queridas de Blonde on blonde, era a música do verso “todo mundo tem que ficar chapado”. Dylan se recusou a gravar a música com todo mundo “careta” e foi logo querendo saber o que é que todo mundo fazia ali pra ficar doidão. Um zelador do estúdio foi comprar coquetéis para a turma num bar e, estranhamente, voltou com a bebida dentro de embalagens longa-vida. Foi o que ajudou a dar o clima maluco da gravação, além de eventuais baseados.

Advertisement
>>> Veja também no POP FANTASMA: Joan Baez imitando Bob Dylan em 1972

DYLAN queria dar um clima de charanga, de banda de inauguração de farmácia, para a música. Além da turma permanecer doidona na gravação, os músicos trocaram de instrumentos: Al Kooper foi para a percussão, por exemplo. Henry Strzelecki, originalmente guitarrista e baixista, ficou com os teclados. Existe uma discordância sobre a turma fumou maconha no estúdio ou não. Strzelecki e o tecladista Hargus “Pig” Robbins juram terem fumado bastante. Mas McCoy e Kooper dizem que Grossman não permitiria maconha ou bebidas no estúdio.

APARENTEMENTE, Dylan foi fazendo o disco sem se dar conta de que tinha um excedente de material, e só viu que aquilo tudo rendia um disco duplo na hora da mixagem. Por acaso, a equipe que trabalhava em Blonde on blonde preferiu dar mais atenção à versão mono do que à estéreo, na mixagem – a primeira demorou vários dias para ser concluída.

CABOU. Blonde on blonde foi gravado enquanto Dylan fazia show atrás de show, experimentava drogas (LSD, haxixe e bolinhas variadas) e se divertia, à sua maneira, com os Hawks, que estavam no ponto de assobiar e chupar cana por causa das substâncias lícitas e ilícitas. A heroína começava a fazer parte do dia a dia de Levon Helm, por exemplo. Dylan creditava ao uso de drogas o fato de se manter acordado e ativo em meio a uma bateria nervosa de shows, mas dizia que elas não inspiravam músicas. E por outro lado, Rainy day women 12 & 35 estava sendo banida de algumas rádios por causa das referências a “ficar chapado”.

>>> Veja também no POP FANTASMA: Masked Marauders: “Bob Dylan”, “John Lennon” e “Mick Jagger” em supergrupo

A CAPA. Desde o primeiro disco, uma coisa era certa em relação aos álbuns de Dylan: as fotos de capa precisavam ser sensacionais. O estilo de Dylan (boinas, jaquetas transadas, camisetas com estampas cool) era copiado pela juventude dos anos 1960, e as imagens de capa precisavam seguir essa linha. Na foto de Blonde on blonde, clicada em fevereiro de 1966, Dylan usou uma jaqueta de estimação (com a qual ele apareceria nas capas de John Wesley harding, de 1967, e Nashville skyline, de 1969) e posou para o fotógrafo Jerry Schatzberg, que colaborava com revistas como Vogue e Esquire.

PRÉDIO DE TIJOLINHOS. Dylan e Schatzberg, que estavam em Nova York, preferiram não fazem as fotos no estúdio da Columbia. Foram até o Meatpacking District, bairro de Manhattan que na época era um centro de comércio lotado de frigoríficos e já estava bastante decadente. A região passou a abrigar butiques e galerias de arte nos anos 1990. Os dois foram para a frente de um prédio de tijolinhos (que, de acordo com pesquisadores, ficava na 375 West Street) e fizeram as fotos.

Advertisement

Várias coisas que você já sabia sobre Blonde On Blonde, de Bob Dylan

FOI O FRIO. A razão pela qual a imagem de Blonde on blonde saiu meio desfocada é bem simples: no dia da foto, estava fazendo um frio desgraçado e Schatzberg estava tremendo. De qualquer jeito, a sessão ainda rendeu outras fotos nítidas e em foco, como a daí de cima, mas Dylan preferiu a que foi para a capa, e assim rolou. Outras fotos da sessão apareceram na capa do single I want you (com Dylan fotografado nas cercanias) e na do CD Bob Dylan 1965-1966 – The cutting edge. Aqui você vê todas as fotos “perdidas” da sessão.

>>> Várias coisas que você já sabia sobre The Who Sell Out, do Who

ALIÁS E A PROPÓSITO, pega aí Schatzberg contando histórias da capa de Blonde on blonde e tentando achar o prédio em que ela foi tirada (a região passou por várias reformas ao longo das décadas).

PROIBIDÃO. A primeira edição americana de Blonde on blonde, nas mãos de vendedores mais careiros, pode chegar a passar dos R$ 5 mil. Tudo porque Schatzberg decidiu incluir na arte interna uma foto da atriz Claudia Cardinale, que ele havia tirado. Só que não pediu autorização a ela para isso. De qualquer jeito, Claudia foi mantida nas edições ao redor do mundo (em tempo: Blonde on blonde nunca saiu no Brasil).

DIFÍCIL É A DATA. Oficialmente, Blonde on blonde sempre foi considerado um disco lançado em 16 de maio de 1966. Só que pesquisas feitas posteriormente nas anotações da Columbia puseram a data em xeque. Clinton Heylin, escritor inglês que pesquisa a obra de Dylan, descobriu que a data de lançamento foi, na verdade, 20 de junho de 1966. Em tempo: Freak out, de Frank Zappa, saiu em 27 de junho.

Advertisement
>>> Várias coisas que você já sabia sobre Sticky fingers, dos Rolling Stones

E AÍ, FICOU LEGAL? Ficou: assim que Blonde on blonde saiu, foi raro ler algo desfavorável sobre ele. Paul Williams, editor da Crawdaddy!, disse que o álbum era “um esconderijo de emoção, um pacote bem tratado de excelente música e melhor poesia”. Em um texto sobre Dylan, Ana Maria Bahiana afirmou que o cantor, em Blonde on blonde e em outros álbuns, “ensinava como expressar e como omitir, como transformar raiva e desprezo em algo bem mais complicado, ou como desenhar amor e paixão com todas as suas ambiguidades”. O disco foi logo para o Top 10 nos EUA e Reino Unido. I want you e Just like a woman viraram hinos.

A TURNÊ 1965/1966 de Dylan foi acompanhada de perto por críticos musicais (alguns deles estavam bastante descontentes com a nova fase da carreira do cantor) e por um público cada vez mais passional. No Free Trade Hall, em Manchester, um fã puto da vida com a eletrificação do repertório acústico do cantor, chamou-o em alto e bom som de “Judas”. A cena aparece até no documentário semi-inédito Eat the document (sobre o qual já falamos). Em Paris, a demora de Dylan para afinar seu violão causou vaias.

>>> Várias coisas que você já sabia sobre L. A. Woman, dos Doors

EAT THE DOCUMENT era um documentário que DA Pennebaker, o mesmo diretor de Don’t look back, estava fazendo com a turnê de 1966. Dylan, que andava numa fase em que não se importava em ser agradável nem com amigos, decidiu cortar cenas inteiras e fazer ele mesmo o corte final do filme. A emissora ABC, que queria o filme para exibir, achou que o resultado tinha ficado maluco demais e desistiu dele. Dylan ainda tinha outras coisas para se preocupar: um disco novo que a Columbia exigia, o término de seu livro de poesias Tarantula (que ele quis modificar assim que viu as provas da editora) e as encrencas com Grossman, que tentava renegociar seu contrato com a gravadora.

SÓ QUE o destino se encarregou de colocar uma vírgula nos planos de Dylan. O cantor, em 29 de julho de 1966, sofreu um sério acidente com sua motocicleta, uma Triumph Tiger 100, perto de sua casa em Woodstock, Nova York. O acidente ocorreu em situações meio misteriosas até hoje: Dylan diz que quebrou várias vértebras mas nenhuma ambulância foi chamada ao local. Seja como for, um momento bom para descansar, colocar a cabeça em ordem e fugir do assédio. “Eu tinha sofrido um acidente de motocicleta e me machucado, mas me recuperei. A verdade é que eu queria sair da corrida de ratos”, afirmou em sua biografia Crônicas.

>>> Várias coisas que você já sabia sobre Atom Heart Mother, do Pink Floyd

DYLAN sumiu dos palcos e se enfiou no estúdio de sua casa com a turma da The Band (os ex-Hawks), para gravar uma série de músicas. Varias delas ele estava compondo para outros cantores. O material de estúdio só apareceria em disco em 1975, no LP duplo The basement tapes. Após Blonde on blonde, viria John Wesley Harding (1967), mais um álbum gravado em Nashville, com lembranças do Velho Oeste nas letras. Em 1969, foi a vez do elogiado e bem sucedido Nashville skyline, do hit Lay lady lay, e de Girl from the North Country, gravada ao lado de Johnny Cash.

Advertisement

E é isso. Pega aí Dylan em seu primeiro grande show após o acidente de moto, na Ilha de Wight, em 1969.

>>> Saiba como apoiar o POP FANTASMA aqui. O site é independente e financiado pelos leitores, e dá acesso gratuito a todos os textos e podcasts. Você define a quantia, mas sugerimos R$ 10 por mês.

Ricardo Schott é jornalista, radialista, editor e principal colaborador do POP FANTASMA.

Cultura Pop

Jimi Hendrix, Moebius, “Voodoo soup”, uma briga e um livro (?)

Published

on

Voodoo soup é um (vamos dizer assim) lançamento bem discutível da obra de Jimi Hendrix. Saiu em 1995, já na era do CD, e foi a segunda tentativa de montar o que seria o quarto disco do músico, que teria saido duplo e repleto de faixas novas se o guitarrista não fosse convocado para aquela grande gig no céu. Bruce Gary, baterista veterano que, entre idas e vindas na carreira, acabou indo parar na sensação punk-power pop The Knack, foi convocado para gravar overdubs (!) em duas músicas do disco, o que já bastou para (com razão) tirar o humor de vários hendrixmaníacos.

Após a obra de Hendrix passar para o controle total de sua família, o material todo do tal “quarto disco” (que ainda incluía o bom The cry of love, de 1971) foi compilado no disco First rays of the new rising sun (1997) e Voodoo soup foi esquecido. Mas o disco tinha lá um grande atrativo: pelo menos tinha a famosa ilustração do monstro francês dos quadrinhos Moebius, na capa. No desenho que ilustrava o álbum, o guitarrista aparecia tomando um espécie de sopa psicodélica (é a foto lá de cima). Se você queria saber de algum caso em que a capa se tornou bem mais importante que um disco, tá aí.

Moebius, pseudônimo do francês Jean Giraud (1938-2012), tinha se notabilizado por seus desenhos cheios de paisagens psicodélicas e espaciais, publicados em revistas como a Métal hurlant. E esse desenho que ele fez de Hendrix tem história. Foi feito por ele a partir de uma foto tirada pelo jornalista Jean-Nöel Coghe em 6 de março de 1967, de Hendrix tomando uma sopa num restaurante na França. O desenho de Moebius ainda era maior do que a capa de Voodoo soup faz supor, e foi publicado originalmente na capa de uma edição francesa dupla dos álbuns Are you experienced? e Electric ladyland, lançada em 1975 pela Barclay.

Coghe, ao que parece, se chateou muito – e com razão – por não ter recebido crédito como autor-da-foto-que-inspirou-o-desenho. Não apenas se chateou: ele processou Moebius, pediu um milhão de francos de indenização pelo plágio, mas acabou perdendo.

Advertisement

Bom, em 1999, poucos anos depois de Voodoo soup, eles se conheceram pessoalmente (isso nunca havia acontecido, incrivelmente), enterraram suas diferenças e Moebius ilustrou um livro de Coghe em que o fotógrafo relatou justamente suas experiências como cicerone de Hendrix na França na época da foto. O livro se chama Emotions électriques e traz Hendrix habitando as mesmas paisagens futuristas e psicodélicas das histórias de Moebius (que sempre foi fã do guitarrista). Olha aí alguns dos desenhos.

Via Open Culture.

Continue Reading

Cultura Pop

Ronnie Spector: descubra agora!

Published

on

Ronnie Spector: descubra agora!

Após alguns anos de sucesso com as Ronettes, Ronnie Spector (que saiu de cena no dia 12 de janeiro) tentou por vários anos voltar ao mainstream. Primeiramente, não deu certo, por causa de um fator bastante complicado: ela era casada com o produtor Phil Spector, um sujeito que sempre deu outras dimensões a palavras como “maluco” e “mau-caráter”.

A partir de 1968, Ronnie tornou-se prisioneira do próprio marido. A cantora de hits como Be my baby ficava trancafiada numa casa com arame farpado e cães de guarda. Cada vez que tentava sair, era ameaçada de morte. Por mais que o próprio Phil se concentrasse em tentar reavivar a carreira dela, o dia a dia era de prisão domiciliar e maus tratos – interrompidos apenas quando Ronnie decidiu fugir de casa, no começo dos anos 1970, e pôs fim ao relacionamento.

Até essa fuga rolar acontecer, gravou com George Harrison, teve um lance platônico com John Lennon (“eu tinha um crush nele”, disse ao Telegraph) e fez algumas gravações. Depois disso, os retornos de Ronnie foram gradativos e incluíram um EP produzido pelo fã Joey Ramone, She talks to rainbows (1999) e um último álbum, English heart (2006), cheio de regravações clássicas.

O POP FANTASMA poderia fazer uma playlist, mas a gente é da antiga e preferiu escolher oito canções solo de Ronnie para você procurar, e escrevemos sobre elas. Pega aí.

Advertisement

“TRY SOME, BUY SOME” (1971). A estreia solo de Ronnie surgiu das sobras de All things must pass, disco triplo de George Harrison, que havia sido produzido justamente pelo maridão desgraçado Phil. Se as Ronettes estavam acostumadas a narrar encontros e desencontros amorosos, dessa vez sobrou para Ronnie cantar na primeira pessoa as desventuras de uma pessoa que “tentava de tudo” e encontrava deus – o que deixou a cantora bem contrariada, já que ela admitiu ter ficado “perplexa” quando escutou a música. Try some saiu pela Apple, não fez muito sucesso e não rendeu o esperado primeiro álbum para Ronnie.

“YOU’D BE GOOD FOR ME” (1975). Ronnie, já separada de Phil, fez uma tentativa de reativar as Ronettes em 1973, gravando alguns singles de pouca repercussão pelo selo Buddah. Em 1975, foi contratada solo pela gravadora Tom Cat, responsável por lançamentos curiosos como a banda austríaca King Size e a carreira solo de Nancy Nevins, vocalista do Stillwater, a famigerada primeira banda a tocar no festival de Woodstock. O único single de Spector pela gravadora, segundo a própria cantora, “foi um segredo entre ela e o selo”.

“SAY GOODBYE TO HOLLYWOOD” (1977). Num contrato rápido com a Epic, Ronnie gravou duas faixas com a E Street Band, de Bruce Springsteen. Uma delas foi essa versão de Billy Joel. Apesar do single trazer a inscrição “tirada do LP Epic PE: 34683”, o disco inteiro nunca foi completado ou lançado.

Advertisement

“ITS A HEARTACHE” (1978). Em 1977, Bonnie Tyler, a do Total eclipse of the heart, lançou seu primeiro single, It’s a heartache, composto por Ronnie Scott e Steve Wolfe. A canção demorou alguns meses para sair nos EUA e, quando saiu, a versão de Bonnie disputava espaço com mais duas, a de Juice Newton e a de Ronnie Spector – que saiu por um selinho de Miami chamado Alston Records.

“HERE TODAY GONE TOMORROW” (1980). Finalmente em 1980 saiu o esperadíssimo primeiro LP de Ronnie, Siren. A faixa de abertura era aquela dos Ramones, do disco Rocket to Russia, em versao punk-girl group. O disco é daqueles que você tem que ouvir em alto volume – mas infelizmente está fora das plataformas digitais.

Advertisement

“LOVE ON A ROOFTOP” (1987). Após reaparecer como vocalista convidada num hit de Eddie Money, Ronnie foi convidada a voltar para a Epic e gravar um segundo disco, Unfinished business. O álbum tinha canções de Gregory Abbott, Don Dixon, David Palmer e o principal single, Love on a rooftop, era de dois top selles do pop: Diane Warren e Desmond Child. Mas não deu certo.

“YOU CAN’T PUT YOUR ARMS AROUND A MEMORY” (1999). O hino de Johnny Thunders  – um dos primeiros hits do ex-New York Dolls em carreira solo – surgiu numa bela versão de Ronnie no EP She talks to rainbows, produção de Joey Ramone e Daniel Rey. “Joey era o artista mais altruísta que eu conhecia. Era uma alma pura, tímido, inocente, apaixonado pela música, e nós dois acreditávamos que uma música nunca precisava se arrastar: dois minutos era o suficiente!”, disse Ronnie ao LA Weekly.

“BACK TO BLACK” (2011). Ronnie gravou a canção imortalizada por Amy Winehouse pouco após a morte da cantora – que se inspirou bastante nela. A gravação foi feita em benefício do centro de reabilitação Daytop Village, com sede em Nova York.

Advertisement

 

 

 

Advertisement
Continue Reading

Cultura Pop

Coletânea dupla relembra os “discos de ginástica” de Frank Hatchett

Published

on

Coletânea dupla relembra os "discos de ginástica" de Frank Hatchett

Diagnosticado com um tumor cerebral em 2008, o coreógrafo e professor de dança Frank Hatchett morreu em 23 de dezembro de 2013, aos 78 anos de idade. O cara que ajudou a revolucionar o ensino da dança (mais apropriadamente aquele estilo de dança conhecido como jazz, que era bastante famoso nos anos 1980) deu aulas em Nova York para alunas como Madonna, Naomi Campbell e Brooke Shields. E foi um dos fundadores do Broadway Dance Center, em 1984.

Até a fama (e a segurança financeira) baterem na porta de Hatchett, ele se apresentou em diversos clubes, e dividiu palcos com nomes como Sammy Davis Jr e Frank Sinatra. Anos depois, já conhecido, chegou a ser chamado de “o doutor do jazz” pelo programa Good morning America. Os ensinamentos de Hatchett não se limitavam à dança, vale dizer. Uma de suas alunas lembrou num obituário que o professor, no contato com os alunos, “lhe diria para ficar em pé, olhar as pessoas nos olhos e mostrar que você é digno. Ele fez isso por milhares de pessoas e foi muito amado”.

Aliás, Hatchett também tinha uma discografia, paralela à carreira de professor e coreógrafo. Foram vários LPs, lançados desde 1973, pelo selo Statler Records, especializado em discos de instrução para aulas de dança. Dá para acompanhar tudo pelo Discogs.

Hoje, os discos de Hatchett estão sumidos até mesmo do YouTube – dá para achar uma faixa ou outra. O mais louco é que Frank não era um cantor, ou mantinha uma carreira como músico ou algo do tipo. Em quase todos os discos “dele”, a voz de Hatchett nem sequer aparecia, o material era em sua maioria instrumental e muitas faixas eram covers. E quem ia para o estúdio era um time de músicos liderados por nomes como o diretor musical Don Tipton ou o arranjador Zane Mark.

Advertisement
Veja também:
E os discos de ginástica de Jane Fonda, que estão nas plataformas?
Quer ficar com um corpinho igual ao do Arnold Schwarzenegger?

Da ficha técnica de Dance explosion, o disco de 1975, constam nomes como Eric Thomas (baixo), Dennis Byrd (trumpete), Danny Krutzer (teclados) e o próprio Don tocando guitarra. Mas basicamente, ele era mais um cara que colocava a marca dele em discos de música feita para dançar do que qualquer outra coisa. Muita coisa que saía com o nome de Hatchett na capa era ligada ao jazz instrumental ou à música afro-cubana. O objetivo era que as pessoas usassem as músicas na hora do treino.

Isso aí é a versão de Getaway, do Earth, Wind & Fire, lançada num disco de Hatchett.

Wishing on a star, do Rose Royce, ganhou uma versão meio maluca num dos discos de Hatchett, encerrada com ruídos de teremin.

Advertisement

E a novidade para fãs e para pessoas que acabaram de conhecer Hatchett é que saiu uma coletânea com algumas faixas dos álbuns dele. Sensational! foi lançada em novembro por um selo chamado Telephone Explosion e traz 22 músicas pinçadas direto dos vinis antigos (literalmente, dá pra ouvir o chiado) do coreógrafo. O repertório vai do soul-jazz a coisas do comecinho da onda da dance music, nos anos 1980. Alguns sons mais recentes são bem na batuta do freestyle (caso de Break out, com bateria eletrônica e teclados). E as canções em sua maioria eram bem curtas – o suficiente para serem usadas em treinos e exibições de dança.

Sensational! saiu em LP duplo (arrisque aqui) mas as músicas podem ser encontradas nas plataformas digitais (aliás, são dos poucos discos do coreógrafo que estão nelas). Uma boa oportunidade para recordar Hatchett e relembrar uma época bem louca e variada do mercado fonográfico.

Advertisement

 

Continue Reading
Advertisement

Trending