A banda americana Dickless (dispensa traduções) formou-se em Seattle, dividiu palcos com os Screaming Trees e com outros grupos, e trouxe algumas novidades para a cena local. Para começar, era uma banda feminina, que tocava extremamente alto, e ainda por cima durante boa parte de sua carreira teve uma vocalista que fazia vocais guturais e berrados.

O grupo nasceu em 1989, foi logo contratado pela Sub Pop, principal gravadora de Seattle, e teve em sua formação por vários anos Lisa Buckner (bateria), Kelly Canary (voz), Jana McCall (baixo) e Kerry Green (guitarra).

Um outro detalhe curioso sobre as Dickless é que a banda investia em canções bem curtas – coisa de um ou dois minutos e nada mais. Apesar de terem existido por nove anos, as garotas gravaram relativamente pouco. Foram quatro singles e algumas faixas em coletâneas. Um dos singles saiu creditado a Thee Dickless All-Stars e tinha participação de Mark Arm, do Mudhoney, nos vocais. Quem era fã delas era o DJ inglês John Peel, que tocou bastante o som das garotas.

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Olha aí o primeiro single das garotas, Saddle tramp. Essa barulheira maravilhosa saiu em 1990.

No lado B desse single tinha, ironicamente, uma releitura de I’m a man, de Bo Diddley. Essa versão é maiorzinha do que o normal das canções delas.

A Sub Pop incluiu uma música da Dickless, justamente Saddle tramp, numa coletânea, a fenomenal The grunge years (da qual falamos uma vez no nosso Instagram). E chegou a programar uma coletânea só delas, Dickless anthology, para 1998, mas o disco nunca saiu. E após alguns anos de Dickless, Kelly Canary saiu do grupo e quem entrou lá para rasgar a garganta foi Megan Jasper.

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Megan, aliás, tinha sido funcionária da Sub Pop. Em 1992, estava trabalhando em outro selo, a Caroline Records, quando seu ex-patrão Jonathan Poneman, dono da Sub Pop, lhe pediu um favor: atender um jornalista do The New York Times que estava fazendo uma matéria de comportamento sobre a popularização da cultura grunge. Sendo que o repórter, ainda por cima, queria fazer uma espécie de “glossário grunge” para a matéria.

Sobrou para Megan a tarefa de inventar um monte de expressões idiotas para satisfazer o repórter: coisas como “lamestain” (pessoa não muito legal) e “rock on” (um adeus feliz). O tal glossário se popularizou bastante e virou até estampa de camiseta.

Das meninas do Dickless, quem volta e meia dá entrevistas sobre a banda é a baixista Jana McCall. Após deixar o grupo, ela gravou dois discos solo (chegou a gravar uma versão de Echoes, do Pink Floyd). E passou a trabalhar também como artista visual e arte-terapeuta.

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Olha aí um papo enorme com ela na rádio KBCS. Na conversa, ela recorda que cresceu no Arizona, passou a tocar punk na escola e, em Seattle, quando conheceu as garotas do Dickless, a banda ainda nem tinha instrumentos nem sabia o que cada uma ia tocar. Sobrou para ela o baixo, e ela passou a ter lições com um amigo. “Primeira lição: seu baixo está ao contrário”, brinca.

Uma história que ela conta é que pouco antes da entrevista (em 2019), ela foi conselheira num acampamento para a juventude trans. E que ao falar que já havia tocado numa banda, se deu conta de que o nome Dickless poderia soar ofensivo para a plateia. “Mas elas absolutamente amaram o nome”, contou. Quando a banda surgiu, a ideia era zoar o machismo no rock, e o dilema era ver se os futuros fãs iriam achar Dickless um nome de mau gosto. “Na maior parte das vezes (quando a banda existia), as pessoas gostavam do nome e achavam que era engraçado”.

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