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Várias coisas que você já sabia sobre Atom Heart Mother, do Pink Floyd

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Várias coisas que você já sabia sobre Atom Heart Mother, do Pink Floyd

Você pode tentar bastante, mas dificilmente vai enjoar de olhar para a capa de Atom heart mother, quinto disco do Pink Floyd (1970). Mais até do que a música em si, o visual do disco tem um apelo especial, que torna o álbum mais orquestral do grupo interessante como conceito, como projeto, como “coisa”. Junto com as cinco músicas (uma delas ocupando todo o lado A), acaba contando uma história e dando a entender que faz parte de um “espírito do tempo” hoje inalcançável, mas presumível.

Várias coisas que você já sabia sobre Atom Heart Mother, do Pink Floyd

O quinto disco de Roger Waters (voz, baixo), David Gilmour (guitarra, voz), Rick Wright (teclados, voz) e Nick Mason (bateria) abriu um precedente bem diferente na obra do Pink Floyd e deixou seguidores e detratores. Entre eles, os próprios integrantes da banda, que volta e meia eram vistos detonando o próprio disco.

UM INSTANTE, MAESTRO

Seja como for, há detalhes que humanizam Atom rapidamente e o tiram do status de “obra de vanguarda”. Primeiramente, na época, o Pink Floyd era visto como um dos mais pretensamente orquestrais nomes do rock progressivo, e lançar um disco acompanhado por cordas, metais e corais era questão de tempo. Segundo, a abertura de uma clareira erudita no rock era um “passo 2” no estilo naquele período, após as inovações de bandas como Beatles, Moody Blues e Beach Boys (e Mutantes).

Em busca de inovação, o Pink Floyd estava seguindo uma tendência, que seria levada adiante por vários outros grandes nomes do rock na época. Entre eles, Jimi Hendrix, que dizia a jornalistas, pouco antes de morrer (por sinal semanas antes de Atom heart mother ser distribuído às lojas), que seu sonho era montar uma “grande orquestra” – e falava bem de autores clássicos.

Atom heart mother completou 50 anos há poucas semanas, em silêncio. Pouca referência foi feita ao disco por aí e ele parece não ser o tipo de disco que os grandes fãs do Floyd preferem relembrar. Aliás, nem mesmo os ex-integrantes vivos parecem curtir muito recordar o disco. Mas a gente relembra e segue aí nosso relatório sobre ele. Ouça lendo e leia ouvindo. E se for o caso, dê uma segunda chance.

ANTES

QUANDO Atom heart mother começava a ser feito, o Pink Floyd ainda era uma banda insegura, fragmentada e assombrada pelo fantasma do ex-líder e principal compositor, Syd Barrett, a quem tinham demitido por causa de seu comportamento errático no palco e no estúdio (causado por excesso de LSD e esquizofrenia).

O GRUPO pensava alto: bolava espetáculos musicais e experimentais, e queria fazer discos em que abusavam dos efeitos de estúdio – mas ainda assim chamar a atenção das massas, vender discos e fazer dinheiro. Era um desejo que fazia sentido numa época em que uma das bandas mais bem sucedidas do rock, o The Who, fazia sucesso com uma ópera-rock, Tommy, e em que Hair virava franquia de sucesso nos palcos. Músicas enooormes como A saucerful of secrets, faixa-título do segundo disco (1968) foram pensadas para prender a atenção do público por mais de dez minutos e serem um enorme sucesso de palco. Da mesma forma, algumas experimentações do Pink Floyd viraram quase “obras em progresso”, sendo modificadas e ganhando outros nomes à medida em que eram executadas e ensaiadas.

AQUELA MERDA

ATÉ O TERCEIRO DISCO, Ummagumma (1969), o Pink Floyd era chamado pelas costas na EMI de “aquela nossa merda estranha”. O álbum trazia um lado ao vivo e outro de estúdio (com peças doidonas escritas cada uma por um membro da banda) e chegou à posição 5 no Reino Unido. E, vale dizer, fez a alegria de um tipo especial de audiófilo que comprava revistas de eletrônica (eram famosíssimas na época, na base do “monte você mesmo seu receiver”) e estava interessadíssimo em testar o som de seu novo equipamento. O grupo nadou de braçada nisso.

ENQUANTO ISSO, o Pink Floyd começava a se mostrar uma excelente opção para fazer trilhas de filmes, o que ajudava a equilibrar o caixa de uma banda cujo conceito de show era bem megalomaníaco. Fez a de More, estreia na direção do iraniano Barbet Schroeder (1969), além de vários filminhos pequenos. E foi contratado por Michelangelo Antonioni para fazer a trilha de Zabriskie Point, em 1969. Passaram alguns dias na Itália, comeram a pizza que o diabo amassou por causa do diretor (para ele, nunca nada estava bom) e voltaram desapontados porque só três músicas foram aproveitadas na trilha.

ALIÁS E A PROPÓSITO, o restante do material de Zabriskie Point viraria um banco de ideias da banda, com trechos sendo aproveitados em Atom heart mother e Dark side of the moon (falamos disso aqui).

O NOME DELES ERA TRABALHO

O PINK FLOYD nem sequer esperou o clima meio bizarro das gravações com Antonioni passar, e já foi logo se meter no estúdio da EMI para ensaiar o novo material que haviam composto em Roma – e que até o momento não havia sido aproveitado. Na época, a banda – graças ao trabalho que vinham desenvolvendo com trilhas sonoras e criações de paisagens musicais – já tinha a ideia de fazer uma peça grande, que talvez ocupasse todo o lado de um disco. Para se manterem na ativa, faziam show em qualquer palco que os recebesse.

UMA DAS músicas que a banda estava mexendo e remexendo era uma progressão de acordes criada pelo guitarrista David Gilmour, que ele chamara de Theme for an imaginary western. Isso porque Roger Waters, ao escutar os riffs, pensou que “lembrava um tema de um faroeste ruim qualquer, com as silhuetas dos cavalos correndo ao pôr do sol”.

ESSE RIFF de guitarra foi justamente o que deu origem a Atom heart mother, a música. Isso porque a banda, quando ouviu os acordes de Gilmour, já imaginou aquilo tudo coberto com cordas, metais, corais e tudo o que coubesse lá. “Ela soava como um filme bem pesado”, recordou o baixista e letrista.

AINDA TINHA O SYD BARRETT

UM DETALHE INTERESSANTE é que, enquanto o Pink Floyd continuava concebendo Atom heart mother, Syd Barrett ainda pairava sobre o dia a dia da banda. David Gilmour e Roger Waters estavam entre os que passaram pelo estúdio durante a elaboração do primeiro disco solo de Barrett, The madcap laughs, lançado em 3 de janeiro de 1970. Os dois chegaram a produzir coisas no álbum. Peter Jenner, ex-empresário do Pink Floyd, migrou para a carreira solo de Barrett e cuidou igualmente do disco do guitarrista.

DE CERTA FORMA, o disco de Barrett trouxe muito da “ética de trabalho” do Pink Floyd naquele período. A banda não costumava descartar músicas e reaproveitava muita coisa. Com exceção de uma música gravada em 1968, o material foi todo gravado entre abril e julho de 1969, em meio a instabilidades de Barrett. Aliás, havia quem chamasse nas internas o disco de “interminável”. Gilmour e Waters eram partidários da ideia de usar o disco para fotografar o momento do cantor e não jogar nada fora. “Quisemos explicar o que estava acontecendo”, conta Gilmour.

CONFUSÃO

POUCO TEMPO DEPOIS que The madcap foi lançado, Barrett já entrava em estúdio de novo para, mais do que gravar, manter-se ativo, com Gilmour no comando. Barrett, o segundo disco, saiu em 14 de novembro daquele ano, com Gilmour e Rick Wright na produção. As bases eram primeiramente gravadas com Syd cantando e tocando violão, e os outros músicos eram acrescentados depois. Isso porque o cantor não conseguia nem se adequar às bases, nem tocar com outros músicos.

O LIVRO Nos bastidores do Pink Floyd, de Mark Blake, explica que ainda havia certa confusão na cabeça do ex-integrante da banda sobre se ele ainda estava ou não no grupo. Pelo menos uma vez naquele período, ele apareceu na casa de Wright achando que ainda estava no Pink Floyd e que a banda teria um show para fazer naquela mesma noite.

MUSICÃO, HEIN?

O PINK FLOYD queria tudo naquela época, menos fazer músicas curtas, grudentas e radiofônicas. O idioma progressivo, que vigorava no pós-psicodelia, pedia tudo, menos canções pequenas. Tanto que no mesmo ano em que Atom heart mother chegava às lojas, o Soft Machine, banda de jazz-rock e progressivo de Canterbury (a 122 quilômetros de Cambridge), lançava um disco duplo, Third, com uma música de cada lado. Não chegou a ser um enorme sucesso, mas o Soft Machine manteve-se na grandalhona CBS até 1973 (lançando discos com nomes numerados, sempre). Em 1975, foi justamente para o selo que lançava o Pink Floyd, Harvest, e lançou o jazzístico Bundles.

ALIÁS E A PROPÓSITO, o Pink Floyd nunca amou loucamente singles. Em 1968 lançaram seu último single na Inglaterra por uma década, Point me at the sky. Mas ele fracassou, não entrou em nenhuma parada e foi imediatamente esquecido. “Decidimos que, se o público não queria comprar nossos singles, não os faríamos mais”, falou o baterista Nick Mason. Chegaram a sair singles nos EUA – entre eles um compactinho americano com Free four, do disco Obscured by clouds (1971) – mas foi tudo exceção.

“AUXI…” O QUE?

EM JUNHO DE 1969, animado pelo sucesso inesperado da trilha de More, o Pink Floyd já estava começando a investir em espetáculos enormes, iniciando com The final lunacy, no Royal Albert Hall de Londres. A banda vinha tocando uma suíte chamada The massed gadgets of the Auximines, dividida em dois segmentos (The man e The journey). Essa suíte só existe em LP pirata e não virou disco. Mas trechos dela aparecem espalhados em álbuns como More, Umagumma e até nas inéditas da coletânea Relics.

O SHOW NOVO utilizava o coordenador Azimuth para espalhar tanto o som da banda ao vivo quanto os vários efeitos sonoros gravados que o grupo havia levado para o palco. O produtor Norman Smith. que cuidara dos discos do grupo até então, entrava no palco para reger orquestra e coral durante a execução de A saucerful of secrets. Um integrante da banda apareceu vestido de gorila no palco, canhões foram disparados e, num determinado momento, integrantes da equipe da banda apareciam no palco tomando chá enquanto um rádio ligado transmitia sons para o público.

ERA DESSA FORMA que o Pink Floyd queria passar sua mensagem na época. E esse tipo de evento está na raiz não apenas de Atom heart mother, mas também de praticamente tudo o que a banda faria depois. Por acaso, o nome “massed gadgets” já vinha sendo tentado pelo PF há um tempinho. No comecinho, a música quilométrica A saucerful of secrets era apresentada em shows como Massed gadgets of Hercules.

VELHAS TENDÊNCIAS

SERGIO DIAS, guitarrista dos Mutantes, costuma dizer que o mundo no comecinho dos anos 1970 estava ficando progressivo. Era verdade: mesmo as bandas tidas hoje como protopunks faziam músicas enormes (caso de We will fall, dos Stooges, e Starship, do MC5). Em 1969, o Deep Purple causou uivos em roqueiros com o show/disco Concerto for group and orchestra – abrindo espaço para experimentos parecidos feitos por bandas como Procol Harum e alguns anos depois, por Rick Wakeman. Parecia que, em busca de uma pretensa seriedade, uma arte jovem (o rock) estava ficando cada vez mais vetusta.

O ROCK PROGRESSIVO NASCEU DOS BEATLES? Muita gente já se perguntou isso, então vamos lá: a maioria dos pesquisadores considera Days of future passed, segundo disco da banda britânica Moody Blues (1967), como o primeiro disco do prog. Mas tem quem diga que um certo disco, com um nome enorme, lançado por um quarteto de Liverpool naquele mesmo ano, foi o marco zero do progressivo.

O JORNALISTA Roberto Muggiati, no livro Rock: os anos da utopia e os anos da incerteza, deixa claro que não aposta nisso aí, não. “Os Beatles tinham muito humor (Sgt Pepper’s é uma festa) e o humor não se encontra entre as características básicas do rock progressivo”, escreveu. Mas de qualquer jeito, o Pink Floyd não era uma das bandas mais pretensamente sérias do mundo: fazia trilhas para filmes doidões, batizou um disco com uma gíria para sexo (Ummagumma) e falava de desencontros amorosos em algumas letras, como aconteceu até mesmo em Atom heart mother.

EU ERA POP

ALIÁS E A PROPÓSITO, e só para deixar claro para quem não tinha sequer nascido em 1970/1971: bandas como Yes, Pink Floyd, Genesis, Emerson, Lake & Palmer estavam longe de serem grupos marginais ou desaplaudidos. Quem vendia pouco disco eram bandas como Stooges e New York Dolls, ou David Bowie até 1972. Os grupos progressivos eram a bola da vez: vendiam milhares de cópias, davam shows para manadas de fãs e, passando longe da romantização bom-gostista daquele seu amigo prog-cabeça, eram formados por músicos que eram verdadeiros showmen no palco.

SHOWS do Pink Floyd ou do Genesis envolviam vários aparatos de palco, vídeos, fantasias, fogos de artifício, efeitos especiais e um número considerável de trocas de roupas em meio a uma música e outra. Os fãs esperavam por detalhes como os efeitos de luz do Pink Floyd, as máscaras de Peter Gabriel (Genesis) ou o casacão de lantejoulas de Rick Wakeman (já em carreira solo) quase como os fãs de Beyoncé esperam por um bate-cabelo ou por hits como Single ladies.

O ROCK PROGRESSIVO só foi entrar em declínio de verdade lá por meados dos anos 1970. Mas pelamor, a tese de que “o punk acabou com o rock progressivo” é sem sentido. Primeiro porque os dois estilos se fundiram em vários momentos (e já falamos sobre isso). Segundo porque o som prog teve um rebote sério lá pelo começo dos anos 1980, com o sucesso do Rush, a descoberta do Yes pela geração MTV (em 1983), o sucesso do próprio Pink Floyd com a ópera-rock The wall, a chegada de superbandas como Asia. Mas lá por 1971 já sentia o cheiro do esgotamento graças ao pré-punk, ao glam rock e ao começo do heavy metal. O desafio era manter o público interessado sem perder a integridade.

DOIDEIRA EM VINIL

O MERCADO, de certa forma, estava aberto para que bandas de rock fizessem experimentações malucas de estúdio. Ou mesmo que despejassem nas lojas coisas meio aleatórias, feitas até em casa, como foi o caso do par de discos Unfinished music, lançado pelo casal John Lennon e Yoko Ono. Ou mesmo a estreia de John Lennon com Plastic Ono Band (1970), que deixou Waters boquiaberto pela maneira como o ex-beatle se expôs nas letras, e que – já indo na contramão da exuberância do Pink Floyd – apontava para uma sonoridade minimalista e quase pré-punk.

NÃO QUE esse tipo de lançamento vendesse muitos discos ou rendesse muita grana para os envolvidos (ou então, vá lá, o Velvet Underground seria a banda mais pop do fim da década de 1960), mas rendia mídia e, dependendo do caso, certo escândalo. E no caso específico de John e Yoko, que gravaram o primeiro Unfinished music num dia de muito sexo, drogas e sons estranhos, MUITO escândalo.

ORQUESTRA

O FATO DE o Pink Floyd ter usado cordas e metais em The final lunacy acabou acendendo uma luzinha na cabeça de Roger Waters, que por aqueles tempos já andava super interessado em fazer “o que ninguém fazia” pelo Pink Floyd. Ou seja: dar um direcionamento, prestar atenção em tendências e dar um jeito de inserir a musicalidade inovadora e experimental da banda em algo que poderia ser entendido como zeitgeist. Que, como vimos, pedia certa elaboração no estúdio, já que bandas como Moody Blues e Deep Purple vinham tocando com orquestras em estúdio e ao vivo.

RON GEESIN. A entrada desse músico e poeta na história do Pink Floyd aconteceu em 1968, por intermédio de Nick Mason. Nascido na Escócia em 1943, ele havia tocado piano numa banda de jazz chamada The Original Downtown Syncopators e gravou, em 1967, um disco experimental chamado A raise of eyebrows. Com a mulher, virou parceiro de noitadas de Nick Mason e Rick Wright, além de suas respectivas. Encontro vai, encontro vem, acabaria sendo ele o responsável por acabar com o clima de “acho que tá faltando alguma coisa” que tomara conta da banda durante a elaboração da música Atom heart mother. E pôs cordas e metais ali.

O MÚSICO passou também a jogar golfe com Roger Waters, que era um jogador bem pior que ele, mas era lutador e competitivo. Mal conhecia a obra do Pink Floyd, mas logo percebeu que Waters era a força criativa da banda. “Nick Mason era um camarada muito legal e um bom amigo, mas não tinha aquele faro maníaco para fazer algo maluco e torná-lo uma peça de arte”, afirmou.

PSICODELIA FLATULENTA

A PRIMEIRA VEZ em que Waters e Geesin fizeram algo juntos foi em Music from The body, trilha sonora de um documentário britânico de 1970 que mostrava o corpo humano por dentro. Era narrado pelos atores Frank Finlay e Vanessa Redgrave a partir da pesquisa de biólogos. Geesin entrou nessa por indicação de seu amigo, o DJ John Peel. Ao ouvir do produtor do filme Tony Garrett que deveria compor canções incidentais, Geesin convidou Waters para dividir as tarefas.

ALIÁS E A PROPÓSITO, apesar das finalidades sérias, Music from The Body é um verdadeiro novelty record, aberto com a animadinha Our song, um jazzinho maluco ritmado por palmas, pelo bater de mãos no rosto, por peidos e arrotos. Saiu no Brasil em vinil.

A GENTE JÁ VOLTA

NO VERÃO britânico de 1970, o Pink Floyd deixou a Inglaterra rumo a uma turnê pelos EUA. Geesin se trancou de cuecas em seu estúdio calorento, num porão em Notting Hill, e foi fazer os arranjos de cordas e metais. Sua única fonte foi uma fita mal mixada e cheia de erros de execução que lhe foi entregue pela banda.

TUDO CAGADO. O grupo não usou metrônomo – o que garantiu disparos de execução no meio da música – e ainda por cima a EMI estava sob sérias restrições orçamentárias e racionando o uso de fitas, o que fez com que o Pink Floyd não pudesse regravar nada. Mas Geesin terminou o serviço a tempo da banda voltar dos EUA e a banda já encontrou datas agendadas para gravar em Abbey Road. Dessa vez sob sua própria produção, já que Norman Smith assinou apenas como “produtor executivo” e já havia avisado ao Pink Floyd que eles poderiam se virar sozinhos.

NO ESTÚDIO

PORRADARIA. Geesin era arranjador, mas não era maestro. Estava acostumado a lidar com músicos como os da New Philarmonic Orchestra, com os quais gravava comerciais de TV. Mas o relacionamento com os músicos da EMI Pops Orchestra – que gravaram a orquestração de Atom heart mother – foi péssimo do começo ao fim.

POR CAUSA de um erro na partitura entregue por ele, instrumentistas se recusaram a tocar determinadas passagens. Alguns responderam ao arranjador com grosserias como “você é quem devia saber!”, “o que você quer aqui?”. Quando perdeu a paciência e partiu para cima de um trompetista malcriado, Geesin foi tirado do comando da orquestra e substituído pelo experiente John Alldis.

VETERANO

ALLDIS era bem mais velho e experiente que o resto da turma. Havia nascido em 1929, tinha passado pela Universidade de Cambridge, e durante os anos 1960, dirigira a London Symphony Orchestra e o London Philharmonic Choir. Àquela altura, já estava em estúdio com o Pink Floyd gravando os corais da faixa, mas acabou pegando todo o serviço. Geesin curtiu o trabalho de Alldis, mas contou que se ele tivesse regido os músicos, o som da faixa ficaria mais jazzístico e percussivo.

ALIÁS E A PROPÓSITO, Geesin costumava dizer que era bastante significativo do interesse do Pink Floyd por música orquestral “o fato de eu ter levado todos da banda, exceto Roger, para assistir Parsifal, de Wagner, no Covent Garden, e eles terem caído no sono”.

‘ATOM HEART MOTHER’, UM NOME

QUATRO meses antes do disco sair, o Pink Floyd já vinha apresentando a música-título em shows, só que com o nome de The amazing pudding. Foi sob essa nomenclatura que a banda passeou pelos 24 minutos da música no bagunçado e desorganizado Bath Festival of Blues and Progressive Music, em Shepton Mallet, contando também com o John Alldis Choir e a Philip Jones Brass Ensemble no palco. Em julho, toparam tocar num festival grátis no Hyde Park, produzido por Jeff Griffin, da BBC, mas quase mataram o produtor de susto (e raiva, possivelmente), quando pediram um naipe de doze metais e um coral com vinte cantores, e um lugar pra ensaiar com essa multidão.

NESSA ÉPOCA, a banda já desistira de The amazing pudding e a música não tinha nome. Durante uma gravação para o DJ John Peel, Waters abriu o jornal Evening Standard e leu a história de uma mulher que tinha recebido um marca-passo movido a energia atômica. Não tinha nada a ver com a música, mas a banda curtiu a ideia e a faixa acabou batizada assim. Testemunhas dizem que o DJ John Peel insistiu que Waters lesse o jornal em busca de um título, mas Geesin diz que foi ele.

NO HYDE PARK, a música foi tocada na íntegra, com cordas e metais. Ron Geesin, na plateia, odiou o show e achou o som uma bosta. Atom prosseguiu, naquele começo, dando dores de cabeça para a banda, que tinha problemas para viajar com o equipamento, teve um caminhão roubado e ainda por cima precisava lidar com o entra e sai de músicos eruditos contratados.

CONCERTOS PARA A JUVENTUDE

O DISCO. Atom heart mother tinha duração extravagante para um LP em 1970. São 52 minutos, com uma faixa de quase 24 minutos no lado A, e quatro músicas no B – incluindo um minissuíte de doze minutos. Assim como em Ummagumma, as do lado B eram praticamente estudos ou esboços musicais, mas com tratamento mais radio friendly que as do LP duplo. Aliás, muitas pessoas acharam o lado B encheção de linguiça.

LADO A. Atom heart mother, a música, tinha seis movimentos. Father’s shout, diz Waters, “inspira a imagem de fumar um cigarro em amplas planícies ao som de cavalos relinchando”. Breasty milk une órgão, guitarra e coral. Funky dung é meio funky, mas arrastada e lisérgica, com coral. Mother fore põe um pouco mais de peso na historia, e é aquela parte em que o coral começa a falar expressões meio estranhas. A aterrorizante Mind your throats please adianta o Pink Floyd faria em Dark side of the moon e tem até uma colisão de carros. Remergence parece rebobinar a fita (opa, tem até partes rodadas ao contrário). Fim.

LADO B. A primeira é If, balada acústica, delicada e campestre de Waters, que (iniciando uma mania típica do Floyd) fala em loucura e isolamento. A terceira é a balada hipponga Fat old sun, de Gilmour. No fim, Alan’s psychedelic breakfast é outra suíte, de treze minutos, protagonizada pelo roadie da banda Alan Styles. Alan, mais velho que os integrantes da banda e com propensões a artista, durou na equipe do Floyd até 1973. Na música, ele é ouvido preparando o café com cereais, torradas, ovos e bacon, comendo, mastigando, acendendo um fósforo (cujo ruído é repetido várias vezes) e soltando frases. A música abre com o barulho de uma goteira na pia de Nick Mason.

GRANA

ALIÁS E A PROPÓSITO, a peça original de Atom heart mother era uma única música. Steve O’Rourke, novo empresário do Pink Floyd, avisou Geesin que devido ao contrato com a gravadora nos EUA, a faixa teria que ser dividia em seis – daí a criação dos nomes como Mind your throats please, Funky dung, etc. “Ou então eles só receberiam royalties de publicação por uma música”, lembrou O’Rourke a Geesin.

COMO a capa do disco já estava pronta e todo mundo sabia que seria a foto de uma vaca, nomes como Mother’s breast surgiram disso. Father’s shout foi uma sugestão de Geesin em homenagem a um de seus heróis, o pianista de jazz americano Earl ‘Fatha’ Hines.

PERA, E SUMMER ’68? ESQUECEU?

DE JEITO NENHUM. Segunda música do lado B, o maior hit do disco, apesar de nunca ter sido editado em single. E é tido como uma das músicas mais cantaroláveis do Pink Floyd. E, ah, é uma canção sobre amor livre e a vida na estrada. Rick Wright, tecladista do grupo e autor da faixa, narrou seu encontro com uma groupie numa festa e o relacionamento sexual fugaz que teve com ela (“dissemos até logo antes de dizermos alô”, diz a letra).

E AS NAMORADINHAS? Todo mundo no Pink Floyd já mantinha relacionamentos firmes em 1970, mas o assédio das fãs rondava a banda, digamos. O baterista Nick Mason cala sobre o assunto em seu livro de memórias Inside out (2004), mas o perigote Roger Waters diz que a mulherada corria atrás do grupo.

SAIU 

DE MODO GERAL, Atom heart mother poderia estar tranquilamente na nossa seção de Discos da discórdia, já que causa ranço em vários fãs, na mesma medida em que deixa muitos admiradores felizes. A maior discussão de mesa de bar sobre o disco era “isso é rock progressivo ou música clássica?”. Ou “isso é rock ou música orquestral?”. Ou, em outro patamar, “isso é bom mesmo ou é uma cafonice dos diabos?”.

SEJA COMO FOR, o disco saiu em 2 de outubro no Reino Unido e 10 de outubro nos EUA e se deu bem nos dois países (1º e 55 lugares, respectivamente). As lojas de discos ficavam repletas de pôsteres do disco (como os abaixo) ou mesmo da capa gatefold aberta. Virou mania em tudo quanto era lugar do mundo.

A EMI, sentindo que aquela banda era perfeita para todo mundo entrar de cabeça na nova mania de aparelhagens de som (aquele conjunto de LP, k7, rádio e até fita rolo) bancou uma edição quadrafônica de Atom heart mother, feita para ser escutada em aparelhos de quatro caixas de som. Até mesmo no Brasil o álbum ganhou uma edição quadrafônica. Aliás, outros discos do PF saíram por aqui no mesmo formato, bem como muita coisa da EMI, como o queridíssimo LP Western, do maestro francês Franck Pourcel, com clássicos do bangue-bangue como os temas de Bonanza e de O bom, o mau e o feio.

A CRÍTICA

AS REAÇÕES ao disco foram da adoração explícita à raiva desgarrada. Assim que o disco saiu, Alec Dubro, da Rolling Stone, disse que “se o Pink Floyd está procurando por algumas novas dimensões, eles não as encontraram aqui”. A Billboard limitou-se a dizer que “sons eletrônicos convivem com instrumentos de rock” no disco, e que “o Pink Floyd continua nos seus caminhos inventivos”.

Steve Wise, crítico do jornal underground Great Speckled Bird pisou no disco, classificando-o como “peça wagneriana de cafonice clássica” e dizendo que “as partes mais freaky ficaram arruinadas… e encapsuladas no lixo clássico”. Mas a Beat Instrumental chamou Atom heart mother de um “disco totalmente fantástico, que eleva o Floyd a outro patamar”.

UMA VACA AO REDOR DO MUNDO

A CAPA de Atom heart mother não foi tão criativamente modificada ao redor do planeta, ao contrário do que aconteceu com vários designs famosos. Não houve casos conhecidos em que a pobre vaca foi substituída por outro animal, ou em que alguma modificação foi feita especificamente na foto – mas em alguns países, a gravadora achou por bem colocar o nome da banda, do disco, ou o selo da EMI ou da Harvest na capa. Isso aconteceu em lugares como o México, por exemplo. Na Índia, o nome do disco e da banda foram acrescentados na mesma grafia em que aparece na capa dupla – na contra capa, colocaram uma foto interna. E nada da capa dupla. A mesma coisa foi feita na edição australiana.

NO BRASIL, o disco só saiu em 1972. O Globo publicou um artigo sobre a banda (veja só) numa seção dedicada à fotografia e a aparelhagens de som, Som maior, em 10 de maio de 1972. Dedicou algumas linhas a afirmar que o PF era um dos “conjuntos do underground” e soltou um histórico da banda, relembrando a saída de Syd, a entrada de Gilmour e as mudanças de sonoridade.

O SELO HARVEST só apareceu na edição brasileira de Atom heart mother lá pelo final dos anos 1970. O álbum foi lançado aqui inicialmente em versões estéreo e mono, com o selo “da estrela” da antiga Odeon. Depois foi reeditado com o selo “dourado” da gravadora, até mesmo em edição quadrafônica. O álbum foi reeditado diversas vezes em LP, K7 e CD.

BOA NOITE!

LEMBRA DO PINK FLOYD NA ABERTURA DO ‘JORNAL NACIONAL’? Ou pelo menos já ouviu falar porque seu pai, mãe, avô ou avó te falaram? Pode esquecer porque isso nunca aconteceu. Em 1972, Summer 68 tocou na verdade numa propaganda do Banco Nacional, que era patrocinador do telejornal, e surgia (aí sim) antes do programa começar. Mas o tema de abertura continuava sendo The fuzz, de Frank De Vol.

VEM PRO PINK FLOYD VOCÊ TAMBÉM

A INTENÇÃO do Banco Nacional, como você deve ter visto acima, era vender produtos como cartões e seguros. Tanto os cartões como as cadernetas de poupança eram itens queridos na época – estas, então, eram menina dos olhos do governo militar, para manter a inflação estabilizada.

AS CADERNETAS eram tão populares que bancos como Delfim e Patrimônio investiam até em chaveiros (no formato de cofrinho) e demais brindes para crianças, além de propagandas em revistas em quadrinhos no estilo “peça para o papai”. Em Você tem tempo?, tema da série infantil Linguinha (protagonizada por Chico Anysio), o cantor Betinho cantava “grana pra quê/se eu tenho o CDC?” (nome popular do cartão de crédito).

COM O TEMPO, várias cadernetas revelaram-se verdadeiras roubadas. Muitas empresas faliram, ou foram concentradas. Nos anos 1970, o Brasil pagou a conta do “milagre” e a inflação voltou a galopar. Até porque a mania do cartão de crédito gerou sonhos da casa própria, do carro do ano e… também gerou gente encalacrada financeiramente (e devendo pagamento de boletos), o que enterrava a lorota de “estabilização”.

A HISTÓRIA DO SEGURO no Brasil remonta ao ano de 1855, quando foi fundada no Rio a Companhia de Seguros Tranqüilidade, primeira a vender seguros de vida. Mas em 1970, após uma série de incêndios (um deles, supostamente criminoso, na TV Paulista), o presidente militar Emílio Garrastazu Médici indicou o advogadoJosé Lopes de Oliveira para a presidência do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB). A nova gestão acarretou mudanças, como a entrada de seguros de aviões e navios, entre outras coisas. Mas enfim, muita gente deve ter comprado cartão de crédito, apólice de seguros e outros produtos bancários ao som de um dos maiores clássicos do amor livre e da psicodelia.

MINHA VAQUINHA QUERIDA

AQUELA VACA indefesa e de olhar expressivo da capa de Atom heart mother tem nome (Lulubelle III) e foi clicada pela equipe da empresa de design Hipgnosis num campo em Hertfordshire. Storm Thorgerson, criador da capa, considerava o conteúdo do disco “animal” e estava brincando quando sugeriu uma vaca na capa. Mas a banda levou a sério.

A BANDA fincou pé num detalhe: o nome do disco e do Pink Floyd só apareceria nas internas da capa dupla. Storm disse certa vez que adoraria ter uma gravação da reunião em que mostrou a capa para um diretor da EMI. “Ele ficou absolutamente apoplético quando viu a capa”, afirmou.

VALE DIZER que a vaca do disco do Pink Floyd não foi o único bovídeo fêmea a provocar ruminações no mundo pop. Em 1975, o soulman baiano Hyldon foi à fazenda de um amigo tirar fotos para a capa do disco Na rua, na chuva, na fazenda. Dias depois recebeu um telefonema do amigo reclamando: “Pô, minha vaca foi parar na capa do disco do Gil!” (Refazenda, de Gilberto Gil, lançado no mesmo ano e na mesma gravadora, Philips). Já a capa de Get a grip (1993), do Aerosmith, causou polêmica por trazer uma vaca com piercing nos mamilos. Grupos de proteção aos animais chiaram, mas o fato é que o brinco era fruto de computação gráfica.

PARÓDIAS. O clima campestre da capa de Atom heart mother, invadiu a do álbum Chill out, do KLF (1990), repleto de samples de artistas como Van Halen, Fleetwood Mac e Elvis Presley. E nos anos 1970 saiu um pirata do Pink Floyd com uma vaca na capa e o nome de The dark side of the moo (!). Já falamos disso.

E DEPOIS?

O PINK FLOYD subiu de nível financeiro com Atom heart mother. A banda conseguia finalmente conseguiam lucrar com royalties, em vez de ter a grana enviada direto para o fundo que sustentava os shows do grupo. David Gilmour resumiu a história dizendo que “pela primeira vez ganhávamos mais do que nossos roadies”.

SAIU UM FERIDO DAS GRAVAÇÕES DO DISCO: Ron Geesin, que ficou bem puto de Atom não ter sido lançado como “Pink Floyd e Ron Geesin” (muito embora ele tenha recebido crédito de co-autoria na faixa). O músico foi se afastando da banda e especificamente de Waters quando percebeu que o amigo estava começando a abusar do autoritarismo e a “morder todo mundo” que lidava com ele. Ron diz que o clima dentro da banda não era nada hippie ou tranquilo: o Pink Floyd era pressionado pela gravadora e pelo empresário, e rolava muito muito bullying interno entre os músicos.

E NO PALCO? A música Atom heart mother virou uma peça querida dos shows do Pink Floyd até pelo menos 1972, mas as encrencas com o entra e sai de músicos clássicos e a dinheirama perdida com a contratação de músicos exclusivos (!) – e possivelmente a certeza de que um canção de 25 minutos comia o espaço de umas cinco músicas – fizeram o PF passar a apresentar uma versão reduzida da faixa, só com guitarra, baixo, bateria e teclado. A versão redux ficou no repertório de palco da banda até 1972.

FIM. Em 22 de maio de 1972 no Olympisch Stadion, Amsterdã, Holanda, o Pink Floyd tocou Atom heart mother pela última vez. Para a tristeza de uns e alegria de outros, diga-se.

E DEPOIS???

BOM, no começo de 1971 o Pink Floyd, fiel a seu conceito de experimentações de estúdio, começou a trabalhar nuns troços que deram em Meddle (1971), o sexto disco. A ideia de Dark side of the moon, que só sairia em 1973, já estava rondando as mentes de uns e outros na banda. Mas antes disso, ainda sairia Obscured by clouds (1972), trilha de La vallée, outro filme de Barbet Schroeder. Pela primeira vez na vida, o Pink Floyd fazia um disco que podia ser definido apenas como “rock”, com progressivismos dosados, baladas radiofônicas e sons mais pesados. E daí pra frente, é outra história (e aguarde bônus tracks desse texto no nosso Instagram @popfantasma_)

JÁ QUE VOCÊ CHEGOU ATÉ AQUI…

ENTÃO PEGA AÍ uma das paródias mais legais de Atom heart mother. A vaca do Pink Floyd foi sampleada na arte do disco da banda mineira The Junkie Jesus Freud Project, A cow called Floyd, lançado em 1993 pela Cogumelo.

Com informações de Loudersound e dos livros Nos bastidores do Pink Floyd, de Mark Blake, e Reinventing Pink Floyd: From Syd Barrett to the Dark Side of the Moon, de Bill Kopp.

VEJA TAMBÉM NO POP FANTASMA:

– Demos o mesmo tratamento a Physical graffiti (Led Zeppelin), ao primeiro disco do Black Sabbath, a End of the century (Ramones), ao rooftop concert, dos Beatles, a London calling (Clash), a Substance (New Order), a Fun house (Stooges), a New York (Lou Reed), aos primeiros shows de David Bowie no Brasil, a Electric ladyland (The Jimi Hendrix Experience), a Pleased to meet me (Replacements), a Dirty mind (Prince), a Paranoid (Black Sabbath), a Tango in the night (Fleetwood Mac) e a Mellon Collie and the infinite sadness (Smashing Pumpkins). E a The man who sold the world (David Bowie). E a L.A. woman (Doors). E Boy (U2). E The seeds of love (Tears For Fears).
– Além disso, demos uma mentidinha e oferecemos “coisas que você não sabe” ao falar de Rocket to Russia (Ramones) e Trompe le monde (Pixies).
– Mais Tears For Fears no POP FANTASMA aqui.

 

Cultura Pop

Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

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Peter Hook: "Roubamos muito o Kraftwerk"

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.

Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.

Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.

O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.

Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.

Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.

Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.

Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.

A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.

Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.

E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.

Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.

Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.

Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.

Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.

Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.

Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.

Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.

O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.

O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!

Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.

Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).

Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.

A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.

Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados ​​de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.

Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.

Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.

Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.

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Cultura Pop

“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

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“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.

Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.

Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.

O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.

Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.

Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.

Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.

Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.

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Cultura Pop

Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

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O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).

“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.

Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.

Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.

“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.

“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.

E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.

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