Connect with us

Urgente

Aquela vez em que o Scritti Politti encontrou Miles Davis

Published

on

Aquela vez em que o Scritti Politti encontrou Miles Davis

RESUMO: O Scritti Politti foi do pós-punk ao pop tecnológico e gravou com Miles Davis. Agora, Provision, disco de 1988, ganha reedição em vinil e CD.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

O Scritti Politti começou como uma banda ligada ao pós-punk britânico, daquelas que surgiram no fim dos anos 1970 fazendo música experimental, com poucos recursos e bastante disposição para questionar as regras do mercado. Uma década depois, o grupo estava gravando discos de pop sofisticado, usando tecnologia de ponta e conseguindo até uma participação de Miles Davis. A lenda do jazz apareceu em Oh Patti (Don’t feel sorry for loverboy), uma das músicas de Provision, terceiro álbum da banda, lançado em 1988 e que agora vai ganhar uma reedição em vinil e CD.

A história dessa transformação é uma das mais curiosas do pop britânico dos anos 1980. Liderado pelo cantor e compositor galês Green Gartside, o Scritti Politti surgiu em Leeds, em 1977, num ambiente de ocupações estudantis, discussões políticas e experimentações musicais. O grupo tinha ligações com a esquerda radical (“scritti politti” era uma referência ao intelectual comunista italiano Antonio Gramsci) e com a cena independente que começava a se organizar em torno do pós-punk.

O primeiro álbum do SP, Songs to remember (1982), ainda misturava guitarras, reggae, funk e ideias pouco convencionais de composição. O disco surgiu com bastante atraso, por causa de uma crise de pânico de Gartside – que teve um desmaio após um show de abertura do grupo para o Gang of Four em Brighton, no início de 1980. O grupo precisou dar um tempo – e durante esse período, ele foi modificando algumas coisas no escopo do grupo.

A principal delas: Gartside começou a perceber que a ideia original do Scritti Politti (fazer pop “revolucionário” usando os princípios punk, com temas de esquerda) levava a banda a ficar presa num gueto intelectual. Outra: o músico passou se interessar cada vez mais pela música pop norte-americana, especialmente pelo soul, pelo R&B e pelas possibilidades abertas pelos sintetizadores e pela produção digital.

O resultado foi uma mudança e tanto, que levou ao sucesso comercial e à troca da indie Rough Trade pela grandona Virgin. Em Cupid & psyche 85 (1985), o Scritti Politti já parecia outra banda, com arranjos elaboradíssimos, vocais suaves e uma produção que aproveitava tudo o que os estúdios mais modernos daquela época podiam oferecer. A aspereza pós-punk havia dado lugar a um pop cheio de detalhes, mas nem por isso menos interessado em experimentar.

Provision, de 1988, levou essa transformação ainda mais longe. Gravado numa época em que samplers, sequenciadores e sintetizadores digitais estavam mudando a música comercial, o disco tem um som cuidadosamente construído, às vezes tão polido que parece não haver espaço para nenhum instrumento fora do lugar. O tecladista David Gamson, parceiro fundamental de Gartside nessa fase, ajudou a criar essa mistura de pop, funk e R&B eletrônico. O novaiorquino Fred Maher, que depois se tornaria produtor de Lou Reed, completava a banda unindo programações e percussões (essa formação estava de pé desde 1985).

E foi nesse universo que apareceu Miles Davis. O trompetista, que já vinha se aproximando do funk e da música pop em seus próprios discos, participou de Oh Patti, uma balada de arranjo delicado e melodia romântica. Sua presença não era apenas uma curiosidade para colocar na capa: combinava com o interesse do Scritti Politti por cruzar linguagens e aproximar músicos de origens diferentes.

A colaboração também dizia muito sobre Miles. Na segunda metade dos anos 1980, ele não estava exatamente preocupado em preservar uma imagem de jazzista tradicional. Gravava versões de músicas pop, trabalhava com instrumentos eletrônicos e buscava novos públicos. Tocar com o Scritti Politti fazia sentido dentro dessa fase.

Além de Oh Patti, Provision rendeu os singles First boy in this town (Lovesick) e Boom! There she was. O disco mostrava um grupo cada vez mais distante de suas origens, embora continuasse interessado em desmontar e reconstruir a música pop. A diferença é que, em vez de fazer isso com guitarras ásperas e gravações econômicas, Gartside e seus parceiros agora usavam recursos caros de estúdio. E além de Miles. havia outra participação pop dourada: Roger Troutman, da banda de funk Zapp, comparece com sua mitológica talk-box nas faixas Boom! There she was e Sugar and spice.

A nova edição de Provision chega em 11 de dezembro, pela Rough Trade, com textos inéditos de Green Gartside e David Gamson. O vinil mantém as nove faixas originais, enquanto o CD acrescenta uma versão dub de Boom! There she was e uma versão estendida de Oh Patti.

Se a saúde de Gartside andava tendo problemas antes de Provision, o durante-e-o-depois também não foram fáceis. Excesso de cocaína, mais crises de pânico, internações e um colapso que levou o músico a se isolar por alguns anos no interior do País de Gales – tudo isso levou o SP a outro hiato. O quarto álbum, Anomie & bonhomie, saiu só em 1999, e era basicamente um disco de hip hop e rock alternativo. O vanguardista e variado White bread, black beer (2006) seria o próximo disco – e de lá para cá o Scritti Politti não lançou mais nenhum outro álbum. O grupo ainda existe: após quatro anos parados, fizeram dois shows em julho num evento comemorativo de 50 anos da gravadora Rough Trade.

A reedição vem depois da volta de Songs to remember ao catálogo, também neste ano. Ouvir os dois discos em sequência é uma boa maneira de perceber o tamanho da mudança: em poucos anos, o Scritti Politti saiu do pós-punk politizado e experimental para um pop que parecia saído de um laboratório de tecnologia musical. E, no meio do caminho, ainda convenceu Miles Davis a entrar na história.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Urgente

Elephant Run solta seu monstro interior em “Little monster”

Published

on

Elephant Run - Foto: Rodrigo Erib / Divulgação

RESUMO: Em Little monster, a banda sueco-brasileira Elephant Run explora impulsos reprimidos em single teatral com clipe de terror que antecipa o álbum Infrared.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Rodrigo Erib / Divulgação

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

O pequeno monstro do Elephant Run está cansado de ficar preso dentro de alguém que considera comportado demais. Em Little monster, single da banda sueco-brasileira, é ele quem assume a voz e reclama da pessoa que o mantém escondido. Impulsivo, desinibido e pouco interessado nas regras da convivência, o personagem conduz uma música de origem teatral, que antecipa Infrared, álbum previsto para 2027 pelo selo +um HITS.

A ideia vem de uma composição antiga de Amanda Wahlström Plantin, vocalista e pianista do grupo. Ela tinha vinte e poucos anos quando começou a trabalhar na faixa, então mais próxima do cabaré e inspirada por The trial, aquela orquestral última faixa do disco duplo The wall, do Pink Floyd (1979). Nos ensaios, a música ganhou outros arranjos e uma nova letra. O humor caricato deu lugar a um incômodo mais pessoal: o que fazer com esse lado da gente que quer sair e não liga pra convenções sociais?

“A música de hoje é completamente diferente daquela versão antiga. O que ficou foi a ideia de um ‘little monster’ dentro da gente, que tentamos controlar ou manter escondido, mas que quer sair. Na versão nova, o monstro acabou virando um personagem, um lado mais impulsivo, desinibido, meio vulgar e pouco preocupado em se comportar. Ele é o protagonista e é ele quem conta a história. Está preso dentro de uma pessoa que considera chata e contida demais e passa boa parte da música reclamando disso”, conta Amanda.

Little monster é o segundo single do próximo disco. Além de Amanda, o Elephant Run reúne Fernando Coelho (guitarra e sintetizadores), Ladislau Kardos (bateria) e Renato Cortez (baixo). A banda levou o personagem para um clipe dirigido por Fábio Knoll e pelo próprio grupo, filmado no teatro Arka dos Anjos, em São Paulo.

Amanda interpreta uma criatura cuja mordida transforma humanos em monstros. As referências incluem A maldição da besta, de Paul Naschy, e Um lobisomem americano em Londres, de John Landis, num cenário gótico que aproveita o gosto da banda pelo cinema. Amanda e Ladislau também são atores, e ajudaram os colegas a entrar na brincadeira. Outras ideias surgiram nas conversas durante a filmagem.

Fernando, o guitarrista do grupo, idealizou e produziu o vídeo e assina a colagem da capa. O vermelho acompanha o que ele define como uma música quente, enquanto os pássaros representam entidades brasileiras protegendo a personagem de um olhar externo.

Confira abaixo a capa e o clipe de Little monster.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Continue Reading

Urgente

Solarski estreia com pós-punk tenso e crítica às guerras em “Do you need a riot?”

Published

on

Solarski - Foto: Shoot Me Again Webzine

RESUMO: O trio belga Solarski estreia com Do you need a riot?, single de pós-punk tenso e guitarras cortantes que critica guerras, interesses econômicos e manipulação.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Shoot Me Again Webzine

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

“Não nos ponha numa caixinha. Somos o Solarski”. É assim que o trio belga Solarski se apresenta, deixando claro que não está muito interessado em rótulos. Mas dá para começar pelo pós-punk, que aparece com bastante força no single Do you need a riot?, primeiro single da banda, formada na região de Namur, na Bélgica. O som é tenso, nervoso, com baixo pulsante, bateria insistente, guitarras cortantes e um vocal áspero, quase sempre no limite entre cantar e gritar.

O Solarski é formado por três músicos experientes, que dividem baixo, guitarra e bateria. Os integrantes já passaram por palcos importantes da Bélgica, como o Cirque Royal, o Botanique e o festival Dour, em projetos anteriores. Agora, apostam num som que mistura pós-punk e indie rock, mas com uma urgência que lembra mais uma banda tocando à beira de um ataque de nervos. Há pouco espaço para descanso: a música avança com uma tensão quase permanente, sustentada por uma cozinha pesada e guitarras que parecem querer aumentar ainda mais a pressão.

E o assunto não é dos mais tranquilos. Do you need a riot? (“Você precisa de uma revolta?”) fala de um mundo em que guerras e conflitos parecem cada vez menos ligados a ideais e cada vez mais aos interesses de quem controla petróleo, dinheiro e recursos naturais. A letra mistura referências a guerras econômicas e religiosas, manipulação de informações e uma ordem mundial que parece ter perdido qualquer regra. No refrão, a banda repete uma frase simples, quase como palavra de ordem: “Não precisamos de guerra”.

“Queríamos escrever uma música que não dissesse às pessoas o que pensar, mas que as obrigasse a perguntar quem tem interesse em ver o mundo pegar fogo”, explica o trio.

Gravada, mixada e masterizada pelos próprios integrantes, Do you need a riot? é a primeira amostra do álbum de estreia do Solarski, ainda sem data anunciada. A banda prefere não ser colocada numa caixinha, mas já dá para perceber que o pós-punk é sua arma para falar de um mundo que anda difícil de engolir.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

 

Continue Reading

Urgente

Smile: poesia falada e desespero punk em “Gotta run”

Published

on

Smile (Foto: Divulgação)

RESUMO: Em Gotta run, o Smile mistura punk, pós-punk e poesia falada numa música sobre traumas e sobrevivência. Single antecipa o álbum Gun-shy, de 2027.

Texto: Ricardo Schott – Foto: Divulgação

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

O Smile tem uma vocalista que diz preferir “entoar suas histórias poéticas, repletas de reflexões pessoais” em vez de simplesmente cantar. Mas é bom não se acostumar: no single Gotta run, Rubee True Fegan começa com uma voz blasé, quase falada, e depois solta o desespero. A banda acompanha com um som elegante e ruidoso, mais punk do que pós-punk (embora definam-se como pós-punk), até mudar de assunto no meio da música. Ou melhor: mudar a maneira de tratar o mesmo incômodo.

Formado por amigos durante a pandemia, o grupo reúne músicos dos Estados Unidos e da Alemanha, hoje espalhados por Amsterdã, Berlim e Colônia. Rubee, também artista performática, põe histórias e reflexões pessoais em letras que nem sempre precisam de uma melodia para funcionar. O EP I hate it here (2022) e o álbum Price of progress (2023) apresentaram esse encontro de poesia falada, guitarras e vontade de experimentar.

Gotta run antecipa Gun-shy, segundo álbum, que sai em 22 de janeiro de 2027 pela Siluh Records. A faixa começa correndo, com bateria rápida e uma urgência que combina com o título. Depois desacelera e vira quase outra música, mais arrastada e cheia de tensão. Rubee levanta a voz, e aquela aparente indiferença do começo vai para o espaço. A fuga ganha um peso que a velocidade inicial ainda permitia disfarçar.

A letra trata do que um sistema violento ensina ao corpo, inclusive depois que a pessoa consegue escapar. Sair de um lugar não resolve automaticamente o que ele fez com você: sobram reflexos de defesa, medos e hábitos que acabam entrando nas relações amorosas e familiares. Dá para desaprender o que foi necessário para sobreviver?

No clipe, Rubee circula por Albuquerque, sua cidade natal (no Novo México), vestida de poodle rosa. A figura absurda atravessa uma paisagem marcada por desigualdade, carros e ruas, com imagens de câmera de mão. O disco foi gravado com Olaf Opal em Colônia, aproveitando demos feitas também em Albuquerque e preservando algumas primeiras tomada. Tudo com uma boa dose de aspereza.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS