Connect with us

Crítica

Ouvimos: Suede – “Antidepressants”

Published

on

Em Antidepressants, o Suede faz um pós-punk sombrio e elegante, evocando David Bowie, Roxy Music, Joy Division e The Cure em faixas intensas.

RESENHA: Em Antidepressants, o Suede faz um pós-punk sombrio e elegante, evocando David Bowie, Roxy Music, Joy Division e The Cure em faixas intensas.

  • Apoie a gente e mantenha nosso trabalho (site, podcast e futuros projetos) funcionando diariamente.
  • E assine a newsletter do Pop Fantasma para receber todos os nossos posts por e-mail e não perder nada.

Quinto álbum do Suede desde o retorno da banda em 2013, Antidepressants chega a confundir as coisas. Você pode ouvir as onze faixas do álbum e ter a impressão de que o grupo de Brett Anderson veio do começo dos anos 1980 e é uma joia rediviva do pós-punk e do indie rock britânico da época. E pode acabar esquecendo de que se trata do novo álbum de uma pérola do britpop, uma banda que costuma ser meio deixada de lado pelos fãs de Oasis, Blur e Stone Roses. Brett não estava brincando quando disse que Autofictions, de 2022 era um disco “punk” e esse disco novo era o desdobre pós-punk.

O som de Antidepressants, graças às batidas marciais, às linhas de baixo cruas e às guitarras cevadas na economia e na beleza, está bem mais próximo de uma geração anterior à deles. Mas isso já era algo preconizado pelo Suede desde os primeiros anos. Na real Brett e seus companheiros soavam mais como o último grito do glam rock, uma banda punk que nunca tinha deixado de ouvir David Bowie para adorar Sex Pistols, um grupo que conseguia curtir crueza sonora e drama – mais ou menos na tradição dos momentos mais lascados do The Cure, banda que volta e meia surge como citação na estrutura das faixas de Antidepressants.

  • Ouvimos: Pulp – More
  • Quem é quem (e o que é o que) na ficha técnica de Ziggy Stardust, de David Bowie
  • O comecinho do Roxy Music no nosso podcast

Antidepressants faz o Suede funcionar como um bloco sólido de som – destacando baixo, bateria e guitarra na mesma proporção, e dando uma vibe climática para os teclados. Também faz os antigos fãs lembrarem do Suede como um grupo amigo, que provoca identificação imediata com a vulnerabilidade de quem ouve. Unindo quase sempre a elegância de David Bowie e Roxy Music à crueza existencial do Joy Division, eles criam cenários doloridos em faixas como Disintegrate (“seu medo e sua frustração / são como armas em suas mãos”, “desça e se desintegre comigo / somos cortados como as margaridas, como as papoulas altas”), a sombria e ágil faixa-título (“há tantas maneiras de definir / nossos estados infinitos / tribos adolescentes no banheiro de novo / cale a boca ou eles nunca mencionarão seu nome”) e o pós-punk sessentista e beatle Broken music for broken people (“são pessoas partidas que salvarão o mundo”).

Há também Sweet kid, música melancólica e adolescente, com uma letra para acompanhar o/a fã (“todas as maneiras que você mudará então / com cada pele que você troca”). E o clima bowieófilo de Somewhere between an atom and a star, balada blues com herança de discos como David Bowie (o de Space oddity, 1969) e The man who sold the world (1971). De uma forma ou de outra, Brett sempre forjou o Suede como uma banda que fala ao rockstar perdido em cada pessoa, aos sonhos deixados de lado em meio à máquina de moer carne da vida. Um estado de espírito que surge igualmente na vibe viajante e apocalíptica de Life is endless, life is a moment e no peso solar de The sound and the summer. E na atmosfera hipnotizante do single Trance state, repleta de emanações de The Cure e Killing Joke.

Antidepressants escapa da nota 10 por pouco, por causa de um detalhe básico: em busca de um disco conciso, o Suede deixou de esticar e aproveitar as belezas de algumas faixas. Somewhere between an atom and a star encerra tão abruptamente que chega a causar um estado de “ué, só isso?”. O mesmo acontecendo até com o jangle rock certeiro do single Dancing with the europeans, que aposta numa mescla Byrds+ Joy Division, e até com Criminal ways, punk classudo que cita o balanço de London calling, do Clash. Pequenos detalhes, já que o Suede volta com disposição.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: BMG
Lançamento: 5 de setembro de 2025

Crítica

Ouvimos: Swallow – “Blow” (relançamento)

Published

on

Resenha: Swallow – “Blow” (relançamento)

RESENHA: Swallow: estreia cult marcada por conflitos com a 4AD ganha reedição e revela um som entre shoegaze, psicodelia e melodia refinada.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: 4AD
Lançamento: 5 de junho de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Poucos discos excelentes foram marcados por mais insatisfação do que Blow (1992), estreia do duo Swallow, formado por Mike Mason e pela angelical vocalista Louise Trehy. Um papo recente dos dois com a newsletter First Revival mostra que nem sempre a união de artistas novos com selos indies resulta em felicidade: a dupla foi contratada pela 4AD assim que já tinha uma demo pronta, gravou Blow pensando numa estética próxima do que seria chamado de shoegaze (climas etéreos, guitarras ruidosas, clima sonhador) mas acabaram se chateando com a direção dada pelo produtor John Fryer (Depeche Mode, Cocteau Twins, Nine Inch Nails) e com as ideias de Ivo Watts-Russell (chefão da 4AD).

Para começar, Mike e Louise trabalhavam juntos há apenas quatro meses (!) antes de gravar o álbum – a experiência de estúdio dos dois “enquanto banda” era gravar tudo em máquinas caseiras e olhe lá. A direção dada pela 4AD aumentou músicas, mudou andamentos, tirou boa parte da vibe lo-fi das demos e pôs baixos no que antes era só guitarra e bateria eletrônica. Houve quem achasse o Swallow uma mistura de Cocteau Twins e My Bloody Valentine e nada mais do que isso – mas tem uma turma enorme que cultua a beleza atmosférica de músicas como Lovesleep, Tastes like honey, Mensurral e Oceans and blue skies até hoje. Na época, a revista Select fez piada com a suposta conotação sexual do nome da banda e do disco.

Era cedo demais para o Swallow gravar, mas talvez fosse complexo demais para a 4AD aceitar que ali havia informação nova demais até para o selo que tinha lançado Throwing Muses, Dead Can Dance, Cocteau Twins e Pixies. Tem muita banda hoje em dia que faz exatamente o que o Swallow fazia em 1992, e que se bobear nunca nem escutou o som deles – assim como muita gente tenta fazer, mas não tem o domínio melódico que eles sempre tiveram. Seja como for, a insatisfação foi tamanha que, poucos meses após a estreia, a 4AD deixou que eles remixassem algumas músicas do álbum, que saíram num disco chamado Blowback.

A história do Swallow inclui ainda um EP pela Rough Trade em 1994, além de uma promessa de álbum pelo selo, que não foi concretizada porque a gravadora estava sem grana. Blow, assim como o disco de remixes Blowback, acabaram de ser reeditados com novas mixagens e alguns acréscimos (além de um pacote em vinil com os dois discos, Blown). E mostram que muita coisa que a banda tinha feito nos álbuns era até mais herdeira do Jesus and Mary Chain do que do Cocteau Twins – a própria Louise, por sinal, diz que não cantava igual ao clima “voz de anjo” que agradava à 4AD, e possivelmente a gravadora se deixou levar por um viés de percepção. A misteriosa Cherry stars collide, por exemplo, tem mais a ver com os vocais sofridos de Bjork.

Muita coisa no Swallow, por sinal, era bem mais psicodélica do que propriamente dream pop, como dá para perceber em faixas como Follow me down e Head in a cave, mais próximas da lascação pré-shoegaze do Ride. Complementando, Blow ganhou uma faixa-título, que tinha sido começada em 1992 e foi finalizada só agora, com um estranho clima progressivo na melodia, além de inclinações para o dub. Tudo muito lindo e pronto para ser descoberto, ou redescoberto.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Arkells – “Between us”

Published

on

Resenha: Arkells – “Between us”

RESENHA: Pop rock adulto e melódico: Arkells unem indie, new wave e ecos dos anos 1980 em um disco cheio de refrãos e referências, Between us.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Virgin
Lançamento: 17 de abril de 2026.

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Conhecido por inserir um som com respiração própria nos discos que produz, John Congleton casou bastante com o clima meio rock, meio indie pop da banda canadense Arkells. Between us, o novo disco, recorre a uma biblioteca pop que faz com que o som do grupo possa interessar até aos fãs do Squeeze – em faixas de alto teor pop e clima roqueiro, como What good? e Ride (gravada ao lado do Grouplove). Além da onda solar de Next summer, cujo som tem muito da fase anos 1990 + 2000 do New Order – uma época que aliás, parece ter virado modelo para grupos e artistas que oscilam entre “pop” e “rock” como universos sonoros.

Esse pêndulo musical gera muita coisa que faz lembrar o som “adulto” dos anos 1980. Como por exemplo Money, faixa com participação de Portugal. The Man, e que tem muito de Talking Heads, ou a balada melancólica Desire’s got some questions. Imagine Barcelona, música ótima de alto potencial de grude, tem muito de Joe Jackson, e abre com um piano bem pop e sacolejado. Universe talking tem ar blues-reggae e uma guitarra que lembra Keith Richards, enquanto What’s on your mind tem muito de Simple Minds e Bryan Ferry.

  • Ouvimos: Modern Woman – Johnny’s dreamworld

Tudo isso, na real, surge na música dos Arkells sem criar conflito com os sons de 2026 ou de tempos mais recentes – fãs de bandas como Bleachers, por exemplo, vão achar bastante diversão aqui. Rumours tem clima pós-disco e algo que se aproxima de The Killers, enquanto Two hearts, faixa que tem o melhor refrão do álbum, tem muito do indie dos anos 2000. Os Arkells têm até certo lado beatle, que surge no final com Escape door, uma balada com algumas lembranças de Across the universe.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Endlesss – “Late reflections” (EP)

Published

on

Resenha: Endlesss – “Late reflections” (EP)

RESENHA: Neopsicodelia e shoegaze do México: Endlesss mistura britpop, ruído e psicodelia em um EP que vai do punk ao dream pop.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Shore Dive Records
Lançamento: 5 de junho de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Neopsicodelia e shoegaze vindo de Mexico City: o Endlesss é criação de um compositor e músico chamado Javier Arturo Mendoza Contreras, e o som do EP Late reflections acrescenta algumas novidades à onda de bandas ruidosas. O som dele quase sempre lembra uma espécie de britpop enevoado, com ondas psicodélicas permeando músicas com Evil eyes e Retroceder, que fazem lembrar bastante o comecinho do Ride.

  • Sugar World soa como uma fita VHS derretendo em Terra incognita

Dejar atrás já é uma espécie de punk rock saturado, estourado como aqueles antigos VHS em que as cores saltam na frente de todo mundo. E há até um flerte entre powerpop e darkwave em We will be alright – são estilos que mal se misturam na vida real, e que aqui parecem se juntar sem problemas.

O final, com o instrumental Void, é ruído puro, formado por um paredão de guitarras, e por uma ambiência em que ruído vira sonho. Bem legal.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS