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Cultura Pop

Smiths em 1987: reggae, covers de Cilla Black, brigas e polêmicas

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Smiths em 1987: reggae, covers de Cilla Black, brigas e polêmicas
Smiths em 1987: reggae, covers de Cilla Black, brigas e polêmicas

Era dessa forma que os Smiths se apresentavam na época do lançamento de Strangeways, here we come, último disco da banda, de 1987. Trazendo uma foto de Elvis Presley na capa do single Shoplifters of the world, os quatro integrantes tinham adotado topetes curtos – o cantor Morrissey já era topetudo fazia tempo. Em nova fase, posaram para o New Musical Express, em 14 de fevereiro.

Tinha mais uma novidade, que não passou desatenta ao biógrafo do grupo, Tony Fletcher, que escreveu o livro A light that never goes out. Divididos, Morrissey e o guitarrista Johnny Marr deram entrevistas para veículos de status diferentes. O falastrão vocalista bateu papo com a Record Mirror, de porte médio, enquanto Marr encarou o microfone da própria New Musical Express, na matéria que sevtornou a capa acima. Fletcher lembra no livro que, por acaso, os dois responderam as mesmas perguntas (sobre mudança de gravadora, mercado fonográfico, o vício em drogas do baixista Andy Rourke), ainda que as entrevistas fossem dadas para veículos diferentes.

“Sobre a EMI (gravadora que recém-havia assinado com os Smiths, e na qual Morrissey permaneceu solo), Marr quase se desculpava no que dizia respeito ao incentivo financeiro: ‘Não vou ficar na defensiva nessa questão – por que deveria? Obviamente, o dinheiro é parte da razão pela qual assinamos…’ (…). Sobre o sucesso dos Housemartins, que tinha acabado de conseguir se tornar o single número 1 de Natal, o vocalista foi positivamente caridoso: ‘Prefiro que eles estejam naquela posição do que qualquer outro grupo’. Marr não deu muita importância a eles. ‘Se eles realmente são nossos rivais mais próximos, não é nenhuma surpresa eu estar tão confiante em relação aos Smiths’”.

No livro, Fletcher chama atenção para um detalhe básico. Pouco antes de Strangeways, Morrissey ganharia uma pecha de “racista” da qual demoraria demais para se livrar – o que talvez explique o fato do vocalista ter ficado de fora da entrevista para a NME.

Numa entrevista dada também ao NME, conduzida por Frank Owen pouco antes da tal capa de lançamento de Strangeways, Morrissey foi confrontado com uma acusação de racismo feita por Green Gartside, da politizada banda new wave britânica Scritti Politti. Num período bizarro em que – lembra Owen – a NME recebia cartas de leitores irados com a presença de artistas negros da capa, o cantor dos Smiths declarou que “reggae é a música mais racista em todo o mundo”. E reclamou da “música negra moderna” feita pelos descendentes da Motown.

“Nunca achei que Morrissey fosse racista. Sempre achei que era apenas uma grande fachada, que aquela era somente uma forma de chamar a atenção das pessoas, da mesma forma como punks usam suásticas”, defendeu/não defendeu Owen. Morrissey ameaçou processar o jornalista por ter inventado citações (as fitas da entrevista foram entregues a advogados e não se falou mais no assunto) e os temas “racismo” e “Smiths” viraram discussão de mesa de bar (e de seções de cartas de revistas) por um bom tempo, numa época em que – como acontece hoje – qualquer artista era cobrado para revelar de que lado estava, em relação aos mais diversos assuntos.

Strangeways, só para ilustrar, era o disco de músicas como Paint a vulgar picture e Stop me if you think you’ve heard this one before. E de Girlfriend in a coma, que curiosamente, vinha com uma levada meio reggae, que não passou despercebida a fãs e críticos.

A versão demo é ainda mais explícita no reggae.

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Fletcher diz que parecia que a banda estava tentando contrabalançar a tal declaração de Morrissey sobre reggae. Seja como for, Marr costumava dizer em entrevistas que a matriz de Girlfriend in a coma era Young, gifted and black, sucesso de Bob Andy e Marcia Griffiths.

Por acaso, a versão K7 de Girlfriend in a coma traz a última música de Morrissey e Marr a ser gravada, I keep mine hidden.

Tanto o K7 quanto o vinil vinham também com uma releitura de Work is a four letter word, sucesso de Cilla Black. Marr diz que essa versão foi a gota d’água que bastava para ele deixar a banda. “Odiei essa versão. Não montei uma banda pra ficar tocando covers de Cilla Black”.

E abaixo, você confere um trecho da apresentação dos Smiths em fevereiro de 1987 no festival italiano de San Remo – sim, eles tocaram lá, como você já leu aqui no POP FANTASMA. Foi um ano agitado.

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Cultura Pop

A chegada de David Bowie no século 21, no podcast do POP FANTASMA

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A chegada de David Bowie no século 21, no podcast do POP FANTASMA

David Bowie foi o homem que viu o futuro. Mas sempre de olho no que estava deixando para trás. E o que será que ele viu quando chegou no… futuro? Sim, porque afinal, imagina o cara que fez músicas como Starman e Space oddity chegando no século 21. No episódio 20 do Pop Fantasma Documento, nosso podcast, recordamos como andava a vida de Bowie na época do bug do milênio, da web 2.0 e de discos como Heathen (2002) e Reality (2003).

O Pop Fantasma Documento é o podcast semanal do site Pop Fantasma. Episódios novos todas as sextas-feiras. Roteiro, apresentação, edição, produção: Ricardo Schott. Músicas do BG tiradas do disco Jurassic rock, de Leandro Souto Maior. Arte: Aline Haluch.  Estamos no SpotifyDeezerCastbox Mixcloud: escute, siga e compartilhe! Ah, apoia a gente aí: catarse.me/popfantasma.

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Cinema

Versão checa de Alice no País das Maravilhas

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Versão checa de Alice no País das Maravilhas

O cineasta checo Jan Švankmajer (tido como grande influenciador até de nomes como Terry Gilliam, animador do Monty Python) tinha vontade de fazer uma versão de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, mas sem que o filme parecesse com um conto de fadas. Fez isso em 1988, quando lançou Alice, ou Něco z Alenky (o título original, que significa Algo de Alice). O filme de Jan mistura técnicas de stop motion (com os objetos que cercam Alice) e live action, e dá uma ideia bem louca do que acontecia no mundo de Alice. Mas é um filme para ser visto por crianças – nada a ver com aqueles dois pesadelos envolvendo o mundo da garota que o POP FANTASMA publicou certa vez (veja aqui e aqui).

“Alice é um dos livros mais importantes e surpreendentes produzidos por esta civilização”, afirmou certa vez Jan, que quis preservar a ideia original, de que o texto de Carroll havia sido escrito como um sonho. “Um conto de fadas tem um aspecto educativo: trabalha com a moral do dedo indicador levantado, o bem vence o mal. Já o sonho, como expressão do nosso inconsciente, persegue intransigentemente a realização dos nossos desejos mais secretos, sem considerar as inibições racionais e morais, porque é movido pelo princípio do prazer. Minha Alice é um sonho realizado”, afirmou.

Confira aí embaixo, com legendas em português.

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Cultura Pop

O primeiro disco do Blondie tá fazendo aniversário!

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Tinha muita gente, mas muita gente mesmo, que acreditava que o Blondie, lá por 1976/1977, seria a única banda a sair vitoriosa do CBGB’s – aquele clube de Nova York que na real, acabou revelando não apenas eles, mas também Ramones, Talking Heads, Television e muitas outras atrações. O Blondie era liderado por Debbie Harry (mulheres à frente de bandas eram caso raro naquele período) e, em plena era da cara feia punk, chamava a atenção por sorrir o tempo todo: os ensaios eram felizes, a música era alegre, o show era uma baita zona, o som era “divertido”.

Marty Thau, que contrataria inicialmente a banda para o pequeno selo Instant Records, achava que o grupo iria estourar no mundo todo. Bom, o livro Vidas paralelas, biografia do Blondie escrita por Dick Porter e Kris Needs, conta que Thau também havia falado o mesmo do New York Dolls – que, como é público e notório, não estourou tanto assim. Mas essa felicidade toda ajudou o Blondie a fazer um link musical que partiu do punk, chegou à new wave e atingiu até mesmo a disco music e o funk americano oitentista.

O epônimo primeiro disco do Blondie, que chega aos 45 anos no finzinho de 2021 (saiu em um dia qualquer de dezembro de 1976), foi meio “filho” de outra estreia epônima lançada havia pouco tempo – a dos Ramones. Craig Leon, que produziu o disco de Joey, Johnny, Dee Dee e Marky, fez os arranjos da estreia.

Craig ainda levou o Blondie para gravar no mesmo estúdio em que o Ramones gravaram sua estreia – o Plaza Sound Studios, no Radio City Music Hall, em Manhattan, onde big bands gravavam na época áurea do rádio. Richard Gottehrer, que ajudou a lançar Ramones e Talking Heads na Sire, e havia deixado o selo, produziu Debbie Harry (voz), Chris Stein (guitarra), Gary Valentine (baixo), Jimmy Destri (teclados) e Clem Burke (bateria).

Se você nunca ouviu Blondie, o álbum, vai descobrir um som que corria o risco de parecer deslocado em 1976. Mas felizmente não foi o que aconteceu. Se os Ramones recauchutavam a surf music da década anterior, Debbie e seus amigos, em várias faixas do debute, davam aquele trato punk no som dos girl groups dos anos 1960. X offender, a primeira faixa, parceria da cantora com o baixista Gary Valentine, poderia ser uma faixa antiga das Ronettes, ou de Nancy Sinatra. Ou das Shangri-Las, que por acaso voltavam naquela mesma época com formação diferente e um show no CBGB’s.

O vespeiro ficava por conta do título e do tema originais da música. A canção se chamava originalmente Sex offender, e a letra falava originalmente da vez em que o Gary quase foi preso, aos 18 anos, por fazer sexo com sua namorada pouco mais nova que ele. O selo Private Stock, que topou lançar o disco (Thau queria um selo maior que a Instant para lançá-lo), pediu que o nome fosse trocado. Além do título, Debbie trocou a letra para algo mais “suave” – bom, Debbie preferiu falar, na letra, sobre o romance de uma prostituta com o policial que a leva para a cadeia.

O Private Stock era um selinho humilde, montado por um executivo chamado Larry Uttal, que sobrevivia basicamente da venda de singles a preços módicos e trabalhava com artistas nostálgicos e desconhecidos. Na prática, era como se a Legião Urbana, no Brasil dos anos 1980, fosse contratada pela Chantecler, e não pela EMI. Uttal, de todo modo, quando finalmente viu o Blondie ao vivo, achou aquele som até parecido com grupos doo wop dos anos 1960, como Rosie & The Originals.

Só que esse selo, pode acreditar, a única esperança para o Blondie, que naquela época era considerado uma “porcaria” por todos os executivos de gravadoras – com direito a comentários do tipo “a banda é boa, mas a vocalista é ruim”, “a vocalista é ótima, mas a banda é horrível”. Ninguém entendia o Blondie, e olha que não era uma banda “cabeça”, como os Talking Heads ou o Television. Paralelo a isso, o próprio casal Debbie-Stein usava os New York Dolls como paradigma de “até onde a gente pode chegar”, já que não havia perspectiva de sucesso real.

Blondie, o disco, era uma zona – do bem, mas uma zona. O grupo gravou o álbum praticamente ao vivo, em agosto e setembro de 1976, com Goettherer se esforçando para manter a banda focada, já que o Blondie tinha várias influências e várias caras diferentes. O grupo passara por fases diversas até 1976: havia sido influenciado pelo glam rock, pelo rock britânico dos anos 1960, pelo começo da onda hard rock. E Debbie Harry ainda tinha passado por uma fase hippie que rendeu matérias na mídia e um disco com uma de suas primeiras bandas (você já leu sobre isso no POP FANTASMA).

No disco de estreia, o Blondie fazia surf music e proto-new wave (a animadaça In the sun), ameaçava uma mistura de krautrock e balada anos 60 (A shark in jets clothing) e encerrava o disco com uma microopereta punk de terror (The attack of the giant ants). Nomão do pop feminino dos anos 1960 e autora de canções para quase todos os girl groups da época, Ellie Greenwich fez vocais em Man overboard e In the flesh. Para a capa, a gravadora escolheu um clique de Shig Ikeida, com todo mundo sério na foto – mas era só aparência, estavam todos bêbados e Gary, em particular, estava quase caindo.

Com Blondie nas lojas, o grupo conquistou fama, e pouca grana – afinal a Private Stock era um selo pobre, mas logo logo o contrato da banda seria comprado pela Chrysalis, a gravadora de nomes como Jethro Tull. O grupo fechou 1976 com uma apresentação histórica no Max’s Kansas City, que chamou atenção não apenas pelo som, como pelo figurino dos integrantes: trajes na estica dos anos 1960 para os rapazes, e Debbie de vestido zebrado.

Por acaso, a partir daí, o Blondie brigaria diariamente para vender mais música do que imagem, e para não ser engolido pelo sexismo do mercado. Uma briga ao som de hits como One way or another, Hangin on the telephone, Call me, Heart of glass e vários outros.

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