A Austrália tinha histórico de país consumidor de novidades pop – tanto que o ABBA virou banda-mania por lá, a ponto de muita gente pensar que aqueles dois casais suecos eram australianos da gema. O Kiss experimentou bastante sucesso no país em 1980, numa época em que a situação da banda não andava das melhores, e ainda demoraria bastante para tudo mudar.

Hoje parece incrível, mas o Kiss não foi uma banda tão programada assim para estourar. O grupo demorou até conseguir sucesso de verdade, esteve na lista da degola da gravadora Casablanca (cujos maiores sucessos eram da disco music) e foi salvo pelas vendagens altíssimas do disco ao vivo Alive, de 1975.

Com as vendas altas, vieram grandes turnês, giros por vários países, muitos fãs e muita grana. Só que lá pelo fim dos anos 1970 tudo fazia água. Os relacionamentos internos se deterioravam, o Kiss achou que a solução para manter a relevância era adotar um som mais pop (no bom Dynasty, de 1979, que não foi aceito de cara pelos fãs, e que trazia a disco music I was made for loving you) e agradar a todo tipo de fã. O consenso geral era de que a iconografia do grupo era patética demais para adultos e esquisita demais para crianças.

Unmasked, disco de 1980, continuava numa base parecida. Com produção e coautoria do produtor Vini Poncia (parceiro de Ringo Starr desde o começo da carreira solo do ex-beatle), o Kiss voltava dividido entre hard rocks e músicas com sonoridade “radiofônica”. Logo após o lançamento, Peter Criss deixou o grupo (o batera de aluguel Anton Fig tocara no disco) e Eric Carr já tomou seu lugar para a nova tour.

A ótima Shandi, um dos principais hits, cujo clipe chegou a passar no Fantástico, lembrava até a fase quase disco dos Doobie Brothers. Ou Bachman Turner Overdrive. Deu mais ou menos certo: o Kiss teve demanda de outros países (Austrália, Áustria, Alemanha e Holanda adoraram o disco, diz a Wikipedia), mas só ficou na posição 35 na Billboard.

Shandi, por sinal, chegou em quinto lugar na parada da Austrália. O que motivou a banda a ir pela primeira vez para lá e dar shows para milhares de fãs (muitos deles fantasiados) em estádios lotados. A Vice chegou a falar com alguns admiradores que estiveram nos shows da Austrália – um deles tocava até numa banda cover do Kiss.

A turnê do ABBA pela Austrália causou brigas entre jornalistas por um furo e até corrida de helicópteros de imprensa (que seguiam o quarteto). A tour do Kiss não chegava nesse nível de loucura, mas o lance era sério: até mesmo os principais telejornais do país quiseram saber qual era a do grupo, e de seus fãs.

Olha eles aí no Countdown, um telejornal musical de lá.

Os ingressos dos shows do Kiss na Austrália iam esgotando rapidamente e a banda passou um bom tempo como “mania” no país. Em 8 de novembro de 1980, abriram uma temporada de quatro noites no Perth Entertainment Centre, que hoje não existe mais. Claro que o visual maluco do Kiss e a história de que o nome da banda vem de Knights In Satan’s Service deu caquinha por lá, tanto que houve um protesto contra o satanismo na porta do estádio. Só que o protesto era composto por uma só pessoa.

O Kiss sairia da turnê australiana com os bolsos cheios e uns dilemas para resolver, porque, na época de Unmasked, pela primeira vez o grupo não fez uma turnê pelos EUA. Os problemas de relacionamento levariam à saída do guitarrista Ace Frehley, após mais um disco controverso, Music from “The elder” (1981) – mas ainda viriam um retorno da fama, a vinda ao Brasil, a fase sem máscara, etc. Isso são outras histórias.