Crítica
Ouvimos: Shakira, “Las mujeres ya no lloran”

- Las mujeres ya no lloran é o décimo-segundo disco de Shakira, o primeiro dela em sete anos, com letras primordialmente em espanhol. A própia Shakira fez a produção ao lado de mais de uma dezena de nomes. O produtor Bizarrap, o grupo mexicano Frontera, o porto-riquenao Rauw Alejandro e a rapper Cardi B estão entre os convidados.
- Shakira, você deve saber, inspirou-se nos últimos lances de seu casamento com o futebolista Gerard Piqué, de quem se separou após descobrir que estava sendo traída. O álbum vem sendo apresentado aos fãs há quase dois anos – em 21 de abril de 2022 saiu o primeiro single, Te felicito.
Existem milhões de “discos de separação” feitos por aí afora – quase todos, vale dizer, feitos por artistas homens, como Marvin Gaye, Arnaldo Baptista, Bob Dylan. Shakira decidiu fazer o seu álbum de fim de relacionamento com Las mujeres ya no lloran. O conceito do álbum é aparentemente bem mais heroico do que o de, por exemplo, Blood on the tracks, de Bob Dylan, já que Shakira decidiu botar o rancor e a raiva em suas novas músicas, mas transformar em diamantes (note a capa) tudo o que viveu de ruim em seu casamento.
Nas letras, Shakira cumprimenta o ex-marido por suas atuações dignas de um palco de terceira categoria (Te felicito), põe a culpa do fim do relacionamento na monotonia, mas faz questão de ressaltar que o ex estava “sempre em busca de destaque” e “esqueceu o que já fomos” (Monotonía), fala sobre um relacionamento tóxico em que os problemas são resolvidos na cama (Puntería, com Cardi B), mistura orgulho e saudades em La fuerte. Em Entre paréntesis, um quase-sertanejão com participação do Grupo Frontera, lança mão de um diálogo homem-mulher como o de Siga seu rumo, sucesso da dupla Pimpinela. TQG é provocação: Shakira avisa à nova namorada de seu ex-amor que ainda vem sendo procurada por ele.
Boa parte do material faz sentido quando colocado ao lado da recente declaração da cantora apelando para que a cultura pop “empodere as mulheres sem tirar dos homens a possibilidade de serem homens, de também proteger e prover” – o que significa que Gerard Piqué, jogador de futebol e o ex em questão, sai de Las mujeres ya no lloran mais chamuscado do que execrado, se você esperava por fofocas de quebrar o comércio e por um rancor de dar medo. Nessa área, tem Shakira: Bzrp Music Sessions, Vol. 53, aquela mesma música que quebrou recordes na internet e teve influência até no mercado de ações por causa de versos como “você trocou uma Ferrari por um Twingo” e “você trocou um Rolex por um Casio”.
Musicalmente, Las mujeres ya no lloran é uma mistura de batidões no estilo “só as melhores da Pan” nos anos 1990, sons lembrando house music, reggaeton, trap, um pouco de regional mexicano e até uma lembrança de We wiil rock you, do Queen, em Cómo dónde y cuando. Lá pelo final, uma violada latina e quase punk, El jefe, com a banda mexicana Fuerza Regida, fala mais do dia a dia do “colaborador” ferrado do que da ex-mulher traída, em versos como “tenho um chefe de merda que não me paga bem/chego andando e ele numa Mercedes-Benz/me tem como recruta/o filho da puta”. É uma das músicas de Las mujeres ya no lloran que você vai querer ouvir de novo.
Nota: 6,5
Gravadora: Sony Latina.
Crítica
Ouvimos: Papangu – “Celestial”

RESENHA: Papangu retorna ao rock progressivo dos anos 1970 em Celestial, terceiro álbum da banda paraibana, misturando Magma, King Crimson, música nordestina, jazz fusion, metal e referências brasileiras em um disco imprevisível.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Deck
Lançamento: 7 de agosto de 2026
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
Celestial, terceiro disco da banda parabana Papangu é… Bom, já deve ser o maior clichê dizer que ele faz jus ao nome, mas errado não tá. O quinteto provou que as bandas dos anos 1970 e 1980 que continuavam investindo no rock progressivo e nas viagens sonoras estavam certas, mas que nem sempre o tempo está do lado de quem faz música. Celestial volta no passado, traz lembranças de bandas como Magma, King Crimson, Gentle Giant, Terreno Baldio, O Terço, e cruza tudo isso com as ideias e referências próprias dos integrantes, gerando um som mais do que imprevisível.
Uma das marcas de Celestial é a junção de climas quase espaciais a vibes pesadas, sombrias ou simplesmente terrenas. É o que rola no trecho quase black metal de Taxidermia, uma música que passa pelo jazz fusion, por guitarras a la Mahavishnu Orchestra e demais voos sonoros, enquanto a porrada come solta e o vocal fica gutural. As benzeduras de Mau-olhado também unem partes ágeis e metalizadas a evocações de bandas como Focus.
- Ouvimos: Steven Wilson – The overview
Bode expiatório é outra surpresa, enveredando pelos ritmos nordestinos, pelo progressivo “brasileiro” dos anos 1970 e por uma musicalidade aparentada de bandas como A Cor do Som e de Hermeto Pascoal. Celeste põe Clube da Esquina e jazz-prog no mesmo terreno, sempre mirando o espaço sideral. Fechamento de corpo enxerta baião num riff de teclado que é pura repetição ambient. Calado (de olho) migra para a MPB apocalíptica herdada do progressivo – e para sons mais turbulentos e pesados na sequência. Já Iamanakaru e a viagem de Afirmação dão um ar quase cerimonial ao disco.
O fechamento curto de Outro faz lembrar uma antiga trilha de telejornal – como aquelas músicas que a Globo e a Band usavam como trilha sonora e ficava todo mundo querendo saber qual era a banda. Em Celestial, ela é quase um rolar de créditos, encerrando um disco que não deixa a imaginação do ouvinte descansar.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Crítica
Ouvimos: Ceremony – “Tell me your dream”

RESENHA: O Ceremony retorna com Tell me your dream, álbum que mistura punk, hardcore, pós-punk, new wave e psicodelia, aproximando Hives, Wire, Gang of Four e Stranglers em um som variado e corrosivo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Relapse Records
Lançamento: 7 de agosto de 2026
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
O Ceremony existe há umas duas décadas e funciona para o punk-hardcore como uma espécie de posto avançado: há uma fidelidade a algumas, digamos, tradições, mas o som é bastante imaginativo e variado. A ponto de In the spirit world now, disco anterior (lançado no distante ano de 2019) ter mais a ver com uma new wave maldita do que com punk. Tell me your dream, novo álbum, vai pra várias ondas ao mesmo tempo: punk abrasivo estilo Hives, punk experimental na onda do Wire, hardcore típico, pós-hardcore, um pouco de psicodelia – tudo junto e misturado, com letras corrosivas e de estranhamento.
O começo, com o introspectivo pós-punk Prograde (aberta com baixo tomando conta e demolindo) e com as diferentes partes de Other hells, já demonstra isso. O punk psicodélico, gelado e funkeado de Madness, que parece um combo Gang Of Four + Black Sabbath (sério!) representa todas essas variações. Já o jangle rock do demo Dark summer põe o Ceremony próximo do rock britânico oitentista, como se um espírito ligado à Rough Trade tivesse baixado ali. E tem ainda o clima meio 60’s, meio punk de Deep down where I belong, numa estranha onda que pega de Hives a Stranglers.
- Ouvimos: Taxi Girls – Static
Falando em Stranglers, prepare-se para o clima “estranho” de Antenna, com riffs simples e um teclado “sujo” fazendo outro riff, e para o punk elegante e de pista de Justify – ambas com um vocal falado-cantado que é a cara de Hugh Cornwell. Essa influência da galera que iniciou os três acordes na Inglaterra vai ficando cada vez mais clara conforme Tell me your dream vai se seguindo, cabendo nessa onda também o som guerreiro de Death destruction mayhem.
Ao final, a contenção meio garage rock, meio pós-punk de 10 planets (tranquilizada pelas notas vindas de um piano Rhodes) e o ritmo marcial de Paradise, com teclados que vão do drone puro à psicodelia, e algo a ver com bandas como The Sound. Uma ótima volta aos estúdios.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Crítica
Ouvimos: Baby Queen – “I hope you don’t remember me”

RESENHA: Bella Latham, ou Baby Queen, transforma confusão amorosa em pop sombrio em I hope you don’t remember me, seu segundo álbum, que mistura dream pop, synthpop, R&B e distorções em histórias de desejo, obsessão e desilusão.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Insanity
Lançamento: 24 de julho de 2026
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
Baby Queen é o codinome de Bella Latham, uma cantora de vibe bem pop, mas de clima trevoso. A ponto de I hope you don’t remember me, seu segundo disco abrir com uma canção triste, Abigail, narrando um amor & sexo perdido no tempo e nas ruas de Londres – só que lá pelas tantas a música ganha barulho, peso, caos e distorções, para narrar que tudo deu errado.
Esse é mais ou menos o clima de I hope, basicamente um disco de pop nebuloso sobre amor e confusão. Por exemplo: aquela transa que para um dos envolvidos foi um baita envolvimento, e para a outra pessoa foi só um passa-tempo – e que é basicamente o tema do dream pop suingado de Feel something. Ou aquela situação em que o ser humano só consegue se sentir atraído quando a coisa vira obsessão (o r&b melancólico Permanently obsessed fala sinceramente sobre isso).
Na real, a história contada por I hope you don’t remember me é a dos momentos em que a narradora-personagem das letras, além de não conseguir se relacionar com ninguém que esteja disposto a retribuir, também não está em condições de ser (hum) a melhor versão de si própria. Baby Queen canta dando uma vibe meio “caraca, não creio…” a situações como a de That’s fine, pop-rock no estilo do Paramore em que ela se despede de um amor cagado cantando: “você vive em outro planeta / onde parece que eu não sou a pessoa certa para você”.
- Ouvimos: Girlsweetvoiced – Lovesweet
Já Word vomit, pop dançante e celestial com cadência de hip hop nos vocais, conta uma história de azar, decepção e bebedeira em que ela jura: “engoli meu orgulho / tem gosto de merda” (bom verso, por sinal). A distorcida e noturna Spite (a melhor do disco) disfarça uma baita dor de cotovelo com bundalelê total: “te vejo na internet, toda arrumada / mas juro que você ficava melhor com as minhas marcas de chupão (… ) / eu ainda estou aqui no Soho / estou dançando sozinha / voltei para aquele lugar onde você escondia a cocaína / agora os bares estão todos vazios, mas eu estou tão acordada”.
De sério ao extremo, tem o egoísmo e o narcisismo de gelo na contemplativa The protagonist – além da tristeza sem muitos disfarces do synthpop Tongue-tied (“eu nunca cresço, eu só regrido / eu nunca mudo, eu só esqueço / então a solidão é o que me resta”). E tem a faixa-título, um folkzinho triste que ganha beat festeiro e clima derretido – mas cuja letra fala de um amor tão cagado que a gente torce pelo sumiço da tal pessoa (“esquecerei o quanto doeu quando você / voltou porque estava sozinha / procurando uma maneira de se drogar”). Se o pop em 2026 tem servido para dar conforto, I hope you don’t remember me é a maior expressão disso.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.








































