Crítica
Ouvimos: Paul McCartney e Wings, “One hand clapping”

One hand clapping era uma espécie de tesouro secreto-mas-nem-tanto da era Wings de Paul McCartney. Primeiro porque o material já vinha surgindo havia anos em gravações piratas, e muita coisa chegou a reaparecer como bônus de relançamentos de luxo. Gravado “ao vivo no estúdio” (em Abbey Road) entre os dias 16 e 30 de agosto de 1974, em áudio e filme, deu a entender que Paul estava disposto a viver com sua nova banda tudo o que não havia vivido com os Beatles.
Lançado finalmente agora em disco, traz um conjunto precioso de canções – muitas delas pertencendo a era Band on the run (1973) – executadas de maneira urgente e despojada, mas com o rigor que Paul sempre se impôs. Há arranjos de orquestra (a London Symphony Orchestra tocou com traje de gala), as músicas soam similares às gravações em disco e não há espaços desocupados. Vocais, guitarras e sintetizadores (além do saxofone de Jet) estão todos ali, tocados pelo núcleo duro dos Wings (Paul, Linda McCartney e Denny Laine), ao lado de Jimmy McCulloch (guitarra), Geoff Britton (bateria) e convidados.
O conceito original de One hand clapping era igualmente mais despojado ainda. Isso porque a ideia de Paul (conforme o exposto em biografias do cantor) variava entre duas ideias. A primeira: fazer uma espécie de Get back/Let it be dos Wings, com a banda sendo filmada 24 horas por dia durante um ensaio. A outra: apenas gravar uma sessão do grupo em videotape para saber como a banda completa, que ainda não havia excursionado, se sairia no palco.
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O cineasta era o então inexperiente David Litchfield, que trabalhava como designer gráfico e editor de uma revista de arte que estava quase falindo (David admitiria mais tarde que o trabalho com o cantor salvou o pagamento de seus boletos). Paul havia informado a ele que o documentário era apenas para uso interno – mas não parecia, já que o projeto ganhou um título, One hand clapping. E o beatle gostou tanto da brincadeira que estava despejando uma montoeira de grana naquilo, além de gravar depoimentos e uma narração em off. O diretor chegou a ver Paul entrando em ação para fazer um músico da orquestra parar de enrolar no estúdio: o beatle simplesmente cantou as notas de um solo de violoncelo como se fossem palavras, para orientar o violoncelista. Acabou aplaudido pela orquestra.
No fim das contas, o documentário One hand clapping quase foi vendido a canais de TV, mas foi saindo do radar de Paul, mais ocupado com as brigas judiciais com o ex-empresário Allen Klein e com as turnês. Só chegou a público num relançamento de luxo de Band on the run em 2010. Nos depoimentos do cantor no filme, Paul garantia que adorava fazer parte de um grupo e que os Wings eram uma banda livre, que qualquer um “podia sair e voltar” (mentira: o artista dava esporros trágicos em músicos de sua banda que se envolvessem em projetos paralelos, e agia mais como um déspota boa praça do que como um administrador de clima).
O que importa é: One hand clapping, inteirinho, tá longe de ser um filler, uma encheção de linguiça. Mesmo quando parece ser, já que Paul recorda músicas dos Beatles (Let it be, Lady Madonna e The long and winding road) em vinhetas e parece sem tanta vontade assim de tocar seu repertório sessentista. Uma olhada distraída na lista de músicas já dá uma ideia do que há de magistral no disco. Músicas como Band on the run, Let me roll it, Jet e Live and let die surgem com a ourivesaria do trabalho em estúdio, e a urgência do material ao vivo.
O mesmo acontece com Nineteen hundred and eighty-five (aberta com Paul cantando e tocando a música ao piano, sem acompanhamento) e com Junior’s farm. E baladas como Maybe I’m amazed e My love sempre vão emocionar todo mundo. A lista é complementada com algumas covers (Blue moon of Kentucky, gravada por Elvis Presley, aparece com sotaque country, por exemplo), canções esquecidas dos Wings (o reggae C moon, de 1972) e uma ou outra brincadeira de estúdio. Um presente para os fãs, ainda mais por trazer um gênio do rock jogando uma pelada como se fosse uma partida clássica.
Nota: 8,5
Gravadora: MPL
Crítica
Ouvimos: Blondshell – “Violins”

RESENHA: Em Violins, Blondshell transforma relações tóxicas e frustrações em guitar rock melancólico, misturando shoegaze, alt rock dos anos 1990 e um inesperado apelo de rádio adulta.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Partisan Records
Lançamento: 25 de setembro de 2026
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“Você não faz promessas que não pode cumprir / então você não faz promessas para mim”, cospe Sabrina Teitelbaum, a popular Blondshell, na faixa-título de seu segundo álbum, Violins – que vem num clima mais “profundo” e bem mais entristecido que o debute, If you asked for a picture (2025, resenhado aqui). Parece que Sabrina sentiu alguns baques e decidiu colocar isso em sua música de uma forma bem mais evidente, quase sempre aludindo ao alt rock dos anos 1990 e à tristeza da época.
As amarguras da estreia se transformaram num discurso em que as palavras servem de cura e de mudança – mesmo que ela não veja essa mudança acontecendo ao redor dela. Essa inatividade geral dá as caras no deboche de New age trojan horse, zoeira séria com homens que fingem que se importam com as mulheres. E no realismo de Heart has to work so hard (sobre amizades tóxicas), além da estranheza de Lucky, sobre coisas estranhas e boas das turnês.
Sabrina torna seu guitar rock com bases pop mais interessante quando ele soa bem mais nublado – como em Heart has to work so hard e em Stone fruit, músicas com lembranças de Smashing Pumpkins e Cranberries. Mas o ruído new wavizado de Lucky e o beat tranquilo da balada New shape e dos shoegazes New age trojan horse e Sea legs também são puro grude no ouvido. Assim como a introversão do soft rock Two fried e a onda quase Eurythmics + ABBA guitar rock de Fur Elise.
No geral, Violins é o som ruidoso e herdado dos anos 1990 pronto para atacar a Antena 1 e as demais rádios adultas. Se bobear, você ouviu Blondshell no Uber hoje.
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Crítica
Ouvimos: The Drin – “I lost my way for centuries”

RESENHA: No álbum duplo I lost my way for centuries, o The Drin mistura stoner, psicodelia, pós-punk, country e lo-fi num som distante e fantasmagórico, como uma festa estranha ouvida da casa ao lado.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Feel It Records
Lançamento: 18 de setembro de 2026
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The Drin parece brincadeira, mas é verdade: o criador do grupo é um músico de Cincinatti chamado Dylan McCartney (!). Só que o sujeito em questão está bem longe de ser um aproveitador qualquer, já que The Drin costuma receber bênçãos de todos os benzedores que esbarram com a banda. O som do grupo parece aquele momento em que você está dormindo e sonhando, mas já é capaz de perceber que tem algo errado com a cena que está vendo – e de repente acorda.
O álbum duplo I lost my way for centuries é basicamente stoner rock e psicodelia revistos por um filtro lo-fi, em que músicas como The sky has lost his smile, Haven’t lived it yet e Prophets of doom parecem gravadas à distância. Como numa festa no vizinho, ou como quando você chega no quintal de alguém e está rolando um ensaio. Detalhe que músicas como Moths to the light têm realmente uma vibe de quem passou a noite acordado ouvindo Beatles (John Lennon, em especial) e Dylan, além de discos do Dinosaur Jr, do Brian Jonestown Massacre e o Unplugged MTV do Nirvana.
Além de guitarras, violões e de um clima meio The Fall que dá a liga nisso tudo (especialmente nos vocais entediados de Dylan), há um saxofone dando um clima bem, digamos, peculiar ao som do The Drin. Especialmente quando ele surge em músicas desérticas como The port, uma espécie de country funéreo. Ou em Prophets of doom e Fatal charade, ambas exemplos de uma espécie de stoner rock em que The Drin parece se comportar como um estranho grupo de baile – mas um baile do fim do mundo.
I lost my way for centuries, mesmo com a longa duração, não é um disco duplo comum: Dylan e seus amigos não fazem jams e as canções são curtas a ponto de você ficar pensando que algumas poderiam ser maiores. A neopsicodelização do Public Image Ltd do Metal box (1979) em Cannery action poderia ter ganhado alguns minutos a mais, assim como o country + desert rock de Come and see V3 e o folk sombrio de … And they all strummed. Sem falar no country-blues loureediano de Body double, e no clima meio Arthur Lee + Love de Under magnolia.
Tem momentos em que a coisa fica próxima de algo tóinnnn demais até para uma banda referenciada nos anos 1960 – Bozo theatre, por exemplo, é como se Syd Barrett decidisse montar uma banda influenciada pelo krautrock lá por 1978. That kind of water é pós-punk psicodélico e fantasmagórico, um encontro entre Velvet Underground e Joy Division. Ward them off (Apotropaics) é como se um sujeito recluso e abatido existencialmente tentasse fazer um boogie a la T Rex.
Já a faixa-título é perdição total, como num passeio sobre duas rodas numa estrada, em clima de fuga de si próprio. Uma vibe que surge mais acentuada em música como a cerimônia espacial The call e a soturna Sweet sweet sickle music – esta, com uma só nota sendo esticada e adaptada por quatro minutos e meio. Uma beleza de som fantasma.
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Crítica
Ouvimos: Adult DVD – “Adult DVD”

RESENHA: Em seu primeiro álbum, o Adult DVD cruza pós-punk, Madchester e acid house com letras sobre chefes escrotos, conspiracionistas, egos gigantes e outros personagens ridículos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Fat Possum Records
Lançamento: 25 de setembro de 2026
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Demorou, mas o Adult DVD, vindo de Leeds, chega ao primeiro CD (opa, isso foi só pra combinar com o nome da banda). E chegou na hora certa, em que estileiras como dance-punk não parecem ter sido chupadas de alguma viagem new rave, e ganham cada vez mais vida própria, em geral num ambiente bem próximo dele mesmo, o punk.
Se Fcukers, outro peso pesado da dança punk, chama a atenção para a descaralhação noturna, Adult DVD é da zoeira: climas dançantes e pesados são unidos a doideiras como uma música sobre chefes escrotos e funcionários que subtraem material de escritório (World’s best boss, uma brincadeira tendo aparentemente a série The office como tema) e outra sobre pessoas que começam coisas, dão desculpas e não terminam (Jesus Christ supercar).
Já Coffin dodger fala de uma pessoa que tem tanto fear of missing out (FOMO) que não quer perder nem o próprio funeral (!). E Royal Tree Lee fala do sujeito ultramacho, paranoico e conspiracionista que se enfia demais nos cantos mais estapafúrdios da internet. Boa parte do álbum é tomada por faixas sobre figuras com egos gigantescos e comportamentos ridículos – a própria banda andou revelando isso.
Musicalmente, Adult DVD, o disco, é balizado pelo pós-punk: sons de Madchester e acid house dão a letra para faixas como Do as I please, Coffin dodger e os teclados voadores e zoeiros de Cold caller, além do riff poderoso de teclado de Jesus Christ supercar. Minimal criminal, Cowboy on aisle three e The steaks are high, curiosamente, dão a entender que bandas como Magazine (a do Howard Devoto, não a do Kid Vinil) rolam em playlists interrnas do Adult DVD.
A segunda metade do álbum chega a parecer mais experimental que a primeira, com beats frenéticos e climas acid dominando músicas como All I need (um Domingo Legal do demo) e a rapidaça Rolling face. Se você tem dúvida de que é diversão garantida… Olha, não tenha.
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