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Crítica

Ouvimos: L’Rain, “I killed your dog”

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L'Rain: indie rock perturbador e psicodélico em single novo, "Pet rock"
  • I killed your dog é o terceiro disco da cantora, compositora e multi-instrumentista norte-americana Taja Cheek, conhecida como L’Rain. O disco sai pelo selo Mexican Summer e, afirma ela, é um álbum “anti-separação”. Ela afirmou que com o álbum pretende mostrar “um lado mais ousado, mais malcriado e mais diabólico” de seu pseudônimo, um “mergulho na escuridão”.
  • Sobre o título do álbum, L’Rain admite: “É horrível, horrível”, disse em uma entrevista. “Mas também evoca tantas coisas nas quais estou pensando ao mesmo tempo. Tipo, é empoderamento? É como se você me injustiçasse e eu vou errar com você? Eu sinto muito por isso? Não sinto muito por isso? Eu sou má? Eu não sou? Foi um erro?”.

I killed your dog é um disco bem louco, aliás talvez bem mais louco que os álbuns anteriores de L’Rain. O terceiro álbum, mais do que ser um disco de estilo próprio, é um disco de universo próprio, unindo indie rock, soul, uma ou outra guitarra que poderia estar num disco de Milton Nascimento nos anos 1970, e sons “derretendo” que soam parecidos com os Beach Boys do renegado Smiley smile, ou com King Gizzard & the Lizard Wizard, ou com o Funkadelic de Free your mind… and your ass will follow. Além de tons bem mais sombrios do que especificamente confessionais – como não poderia ser diferente no caso de um disco chamado “eu matei seu cachorro”.

O disco de L’Rain traz faixas “comuns” entremeadas com vinhetas, e corre o risco de ser entendido como uma só faixa, acrescida de vários novos elementos – um tom meio barroco e “progressivo” (vá lá) que se comunica direto com os anos 1960, mas com experimentalismos que só poderiam ser feitos com facilidade em 2023. Um dos melhores exemplos de como o disco soa é 5 to 8 hours (WWwaG), riff folk colado e programado em meio a ruídos, samples e vocais quase declamados. Em uma das vinhetas mais alucinadas, What’s that song?, ela cantarola um tema de jazz para o ouvinte lembrar (com direito a metais).

O single Pet rock é perturbador e psicodélico. Sometimes é a “coisa” soul-gospel do disco, com palmas e percussões lembrando um culto, e vocais superpostos. O soul Uncertainly principle é dançante, mas não como uma canção “dançante” comum – lembra mais uma canção de um grupo gospel que ouviu Mutantes, Stooges, o Miles Davis de Bitches brew, o Jimi Hendrix Experience de Electric ladyland, alguém disposto a fazer barulho e a confundir. Knead bee lembra o Cassiano de Apresentamos nosso Cassiano (1973), só que ainda mais psicodélico, se é que isso é possível.

Já as letras são importantes para dar um clima sombrio e meio esquisito ao disco – I hate my best friends, por exemplo, fala em “eu odeio meus melhores amigos/porque eles querem me consertar/eu não posso ser consertada, você vê/porque eu não sei o que há de errado comigo”. Se você quiser ouvir um disco que venha para te confundir, em que mesmo o que parece como canção tem algo de inacabado, como se fossem lacunas para você preencher, é o melhor do dia.

Nota: 9
Gravadora: Mexican Summer

Foto: Reprodução da capa do single Pet rock.

Crítica

Ouvimos: BaianaSystem – “Línguas e léguas” (EP)

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Línguas e léguas, a opereta do BaianaSystem para a série Cangaço novo, mistura dub, forró e funk, com ecos de Grace Jones e Sly & Robbie e forte clima sertanejo.

RESENHA: Línguas e léguas, a opereta do BaianaSystem para a série Cangaço novo, mistura dub, forró e funk, com ecos de Grace Jones e Sly & Robbie e forte clima sertanejo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Máquina de Louco / Universal
Lançamento: 27 de março de 2026

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O BaianaSystem tem muito ver com Gilberto Gil, e não apenas musicalmente: a voracidade na hora de criar e lançar coisas é a mesma. Só nos últimos tempos, dois lançamentos deles (aqui e aqui) já vieram parar aqui no Pop Fantasma – e dessa vez o grupo lança uma opereta, Línguas e léguas, como trilha da segunda temporada da série Cangaço novo.

A ideia da opereta veio de referências ultrapop, como a música de Grace Jones e a gravações dela para o reggae I’ve seen that face before, e para Libertango, de Astor Piazzolla. Mas de modo geral, dá para dizer que Línguas e léguas é um tributo enorme à musicalidade de Sly & Robbie, dupla de reis do dub. Os vapores psicodélicos do estilo surgem nas quatro faixas, lado a lado com referências fortes de forró, tocado na sanfona por Cicinho de Assis, e levado adiante por guitarra, baixo, bateria e efeitos sonoros.

  • Ouvimos: Ivyo – Frequência tropical

Essa onda surge no curto instrumental Línguas, e ganha mais espaço ainda nos beats de funk de Léguas, cantada por Alice Carvalho e Nadja Meirelles, e com beleza dada pela sanfona e por violinos em pizzicatto. Tributo sertanejo a Grace Jones traz a letra de Léguas narrada e depois cantada por Nadja. Russo Passapusso, por sua vez, recorda a vida no sertão baiano, em meio às lembranças que ainda restavam do cangaço, em Engolindo fogo e cuspindo aço, com o rapper Vandal.

“Eu venho das guerras de espada, engolindo fogo e cuspindo aço. Na minha infância, quando alguém roubava uma fazenda no sertão e era pego pelos donos, acontecia um processo meio cangaço. Era comum machucarem a pessoa para que ela nem ninguém mais tomasse coragem de repetir aquilo”, lembrou Russo no texto de lançamento.
Engolindo fogo tem rap literalmente engolido por uma sonzeira baseada na música. E valoriza mais o instrumental do que as vozes, embora ainda ganhe um rap-repente, inspirado em embolada e coco, com guitarra ponteando como viola. Tudo em Línguas e léguas é uma beleza de mistura musical.

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Ouvimos: Microwaves – “Temporal shifter”

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Noise rock extremo e calculado: Microwaves mistura riffs pesados, ritmos quebrados e caos preciso, entre grunge, metal e experimentalismo.

RESENHA: Noise rock extremo e calculado: Microwaves mistura riffs pesados, ritmos quebrados e caos preciso, entre grunge, metal e experimentalismo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Decoherence
Lançamento: 27 de março de 2026

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O som desse trio norte-americano mal pode ser chamado de noise-rock. É ruidoso, mas é tudo tão milimetricamente realizado que não tem como falar que é só barulho. David Kuzy (guitarra, voz), Zach Moore (baixo, voz) e John Roman (bateria), os três do Microwaves, não gastam ruído, e fazem uma mistura de riffs pesados e ritmos quebrados que não é feita ao acaso. Temporal shifter, o terceiro álbum, soa como uma mistura de The Fall, Public Image Ltd e Wire com vibes metálicas. E, sim, tem algo de grunge e até de bandas como Ministry e Swans ali, tudo misturado.

  • Ouvimos: Chicago Underground Duo – Hyperglyph

Essa mescla rende pelo menos uma canção bem rápida (os 57 segundos de Son of the Central Office, que abrem o disco), e um épico pesado (a porrada experimental, lenta e circular de Bedtime for treats). Nessa e no restante, solos de baixo que conduzem a melodia vão se combinando a verdadeiros tiros de guerra na bateria e na guitarra, como em All direct hits, no enfrentamento sonoro de Stress capsule e Strange earwork e no pára e começa de A plane made of bricks.

Já que falei de grunge ali no primeiro parágrafo, fãs de bandas como Melvins vão curtir o experimentalismo violento de faixas como Watcher e Let them eat space, tudo bem voltado para som cru e insociável, mas com riqueza de detalhes e som funcionando como um reloginho. Há até uma aproximação com o punk free jazz a la Stooges em Decalcomania – na qual se utilizam dos serviços de Ben Opie, saxofonista do jazzístico Thoth Trio.

No release, aliás, a gravadora indica a banda para fãs de grupos como Chaser e The Locust. Mas eu recomendaria o Microwaves para quem gosta de som calculado, mas feito com emoção. Ouça alto.

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Ouvimos: Malammore – “Aurora”

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Rapper lisboeta Malammore estreia com Aurora: soul, funk e trap para narrar identidade negra, pertencimento e racismo em tom íntimo e político.

RESENHA: Rapper lisboeta Malammore estreia com Aurora: soul, funk e trap para narrar identidade negra, pertencimento e racismo em tom íntimo e político.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 23 de janeiro de 2026

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Malammore é o codinome de Sandro Feliciano, rapper, cantor, compositor e produtor nascido em Lisboa. E em especial, um artista negro nascido e criado em Portugal – uma pessoa cuja identidade artística vem da total resistência, e da dificuldade de pertencimento num país com 6,1% de afrodescendentes (números aqui). Se há quem fale de “separar a obra do autor”, Aurora, seu disco de estreia, é basicamente Malammore e sua história expostos ao público.

Em Aurora, Sandro / Malammore reconta muita coisa que viu no mundo por outra ótica – uma ótica em que há um “buraco branco”, que define identidades que não são as dele. O som de Aurora é bastante melódico, tem a ver com o soul e o funk voadores e contemplativos, mas ganha ares sombrios em alguns momentos, como a faixa-título. E chega na onda do trap em elementos de faixas como Raging bull, Musa e Olhar assim.

  • Ouvimos: Femme Falafel – Dói-dói proibido

Nas letras de Aurora, o tom político vem por herança assumida de Malcolm X, Muhammad Ali, Angela Davis e Fela Kuti. Mas a contação de histórias também lembra nomes como Emicida, nas experiências pessoais de 2008 (música na qual ele recorda ter sido uma criança adotada), Tudo passa, o soul lento Bela Cinderela e o clima etéreo de Inter – um vinhetão que serve de interlúdio e no qual ele fala do que o tornou artista.

Já em NQQC (ou “não quero que chores”), Malammore conta ter sido blindado pelos pais adotivos de sofrer mais racismo ainda. Mas relata quando percebeu de que a negritude definia suas experiências, em frases como “a nossa história não se apaga com borracha”, “a cor da nossa pele não nos faz menores”, “sou português e preto, esse é meu fardo”. Versos para ouvir e imaginar.

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