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Crítica

Ouvimos: Lola Kirke, “Trailblazer”

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Ouvimos: Lola Kirke, “Trailblazer”

Londrina naturalizada norte-americana, e moradora de Nova York, Lola Kirke é atriz e cantora. Ela fez papéis em produções como Hora de vencer (série da HBO que conta a história dos Los Angeles Lakers) e já tem cinco discos. Nos últimos lançamentos, Lola – que é filha de Simon Kirke, baterista e um dos fundadores da banda de rock Bad Company – vem enveredando pelo country, caminho que aparentemente seria bem inusitado para ela.

Vem dando certo, com direito a bênçãos de benzedores importantes: ela já se apresentou no mitológico Grande Ole Opry, em Nashville; Rosanne Cash, filha de Johnny Cash e cantora, participou de um single dela; e Lola já passou até pela gravadora de Jack White, a Third Man Records. O novo álbum, Trailblazer, é trilhado no mesmo corredor country e bate com uma frase que Lola falou numa entrevista, de que durante vários anos “sentia que era muito country para fazer rock e muito roqueira para fazer country”. Enfim: é basicamente é um disco de country feito por uma pessoa que tem muitas informações de rock – e essa honestidade dá uma boa valorizada em tudo que tem no álbum.

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Easy on you, por exemplo, é country com batidão roqueiro enxertado – soa como um soft rock reprocessado para hard a partir de remixagens. A faixa-título, que abre o álbum, deixa entrever uma certa intenção de soar familiar para fãs de alt-country. Mas no geral, Trailblazer é um disco de country rock e de rock adulto, em faixas como Marlboro lights & Madonna (música que, diz Lola, fala sobre o que mais vem à mente dela quando ela lembra da mãe), Raised by wolves, 2 damn sexy e quase o álbum inteiro. Os sons mais voltados para as raízes do estilo estão em 241s, Hungover thinkin e Mississippi, my sister, Elvis & me.

Como Lola acaba de lançar um livro de memórias, Wild west village, Trailblazer acaba sendo quase uma sessão de terapia nas letras. Ela fala de sua mãe, de sua infância, de sua vida como garota urbana (o álbum encerra com uma faixa chamada Bury me in NYC) e reserva algumas linhas para o relacionamento pra lá de enrolado com seu pai, no soft rock Zeppelin III, cujo título faz referência ao terceiro disco do Led Zeppelin, que ela conheceu com Simon (“ele me mostrou o Zeppelin III, me ensinou a dirigir / me ensinou como fazer algém rir ate chorar / aposto que ele deu o melhor de si, posso acreditar / ele teria me ensinado como amar / mas tudo que ele sabia era ir embora”).

Nota: 8,5
Gravadora: One Riot Records
Lançamento: 21 de março de 2025.

Crítica

Ouvimos: Pussy Riot – “CYKA”

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RESENHA: Pussy Riot mistura punk, trap e EDM em CYKA, mantendo a fúria anti-Putin e anti-ICE em canções sombrias e explosivas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 12 de junho de 2026

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O lado mais perturbador do som do Pussy Riot sempre vai ser o mais interessante – quando a cofundadora Nadya Tolokonnikova sobe o tom e manda bala em algo bem mais parecido com a vibe punk associada à banda, tudo fica melhor. CYKA, o primeiro álbum do grupo depois de uma década de carreira (durante a qual fizeram protestos de peso e lançaram singles desafiadores), une essa vibe punk com algo próximo do trap em Gods left, a faixa de abertura – e migra pro drum’n bass em Pain, uma das duas faixas do álbum a terem “participação involuntária” do presidente russo Vladmir Putin.

Os vocais melódicos, a categoria EDM e os refrãos bacanas que surgem aqui e ali em CYKA fazem do Pussy Riot quase um ABBA demoníaco, ou um Ace Of Base que soltaria bombas na embaixada estadunidense. “Então quer dizer que a mensagem delas surge com menos força?”, você pode perguntar.

  • Ouvimos: Starly Kind – Inferno (xe/xem)

Não, de jeito nenhum. Na real porradas anti-ICE e anti-Putin ganham um clima pop que, às vezes, pode soar meio como paródia – como no trance de Nothing to lose, quase um protesto pró-Ucrânia em clima de Domingo Legal, e no poperô de Utopia, com Salam Ilese. Não carecia era o Pussy Riot cair no nu-metal com o Avenged Sevenfold em Candy dopamine. B-Real, do Cypress Hill, é um convidado bem mais legal e adiciona intensidade à fúria do grupo em Gore, relato da prisão e da perseguição que Nadya e Maria Alyokhina sofreram (“escrituras rasgadas e bordadas em vermelho, costuradas entre as coisas que eu disse / todos os meus pensamentos foram gravados e lidos”).

A faixa-título, a outra a incluir Putin como “parceiro”, é um reggaezinho (olha o Ace Of Base aí de novo!) com vocal ASMR e onda sombria, que senta a vara no ultranacionalismo da Rússia e na perseguição a artistas (diz o Google Translator que parte da letra é: “’dedo-duro leva surra’, mas não na Rússia / aqui os idiotas enlouqueceram com a histeria das denúncias / a espiritualidade nos sufoca, quase como violência / ‘bem-aventurados os imbecis’, diz a nova Bíblia”). Esse lado sombrio da banda, por sinal, rende momentos bem legais, como na ameaçadora Murka e no horrorcore de God loves the fierce e Blizzard.

Já o lado mais eminentemente punk do grupo surge também na oi! music de Faceless pigs e no hardcore guerreiro Disobey. E os batidões Cancel me (“cancele-me, reescreva a história / estou quebrada, mas ainda estou eufórica / eu sorrio através das minhas cicatrizes”) e Outro (“mais um ano se passou, eu vou me divertir com a minha vida / em casas estranhas, cidades e países”) fazem o relato das perdas entre processos, exílios e inimigos poderosos. Nem precisa ouvir em alto volume: CYKA já vem no volume máximo.

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Crítica

Ouvimos: Crise – “Por favor, me perdoe, as más notícias finalmente chegaram”

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Resenha: Crise – “Por favor, me perdoe, as más notícias finalmente chegaram”

RESENHA: Entre emo caipira, shoegaze e noise rock, o Crise estreia com um disco intenso, ruidoso e cheio de vontade de seguir lutando.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Lastro Musical
Lançamento: 31 de março de 2026

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O Crise vem de Sorocaba (SP) e destaca por um som que não pode ser definido de forma 100% tranquila. É “emo caipira”, mas está longe de ser apenas isso – as distorções e as paredes sonoras são do shoegaze, várias melodias soam como um power pop observado em negativo, e o noise rock é bem mais presente no som do quinteto do que qualquer outra coisa.

Essa facilidade de se espalhar por estilos que, na prática, são primos, tem sido uma tendência em bandas jovens, assim como é algo observável até mesmo na turma pós-Midwest Emo lá de fora (ou em bandas que retornam após um tempo, com mais detalhes acrescentados na sonoridade, como rolou recentemente com o American Football).

Daí Por favor, me perdoe, as más notícias finalmente chegaram se divide em vários lados. Só na primeira metade do álbum, tem o ruído tranquilo de Robofoot, a cara quase pos-punk de Insisto / Desisto (que tem uma guitarra com cara U2 no começo), o mistério noise-rock de Quanto tempo e a psicodelia em alto volume de Elefante – faixa de quase dez minutos, com vibe experimental, final lisérgico e caótico, e lembranças de bandas como The Murder Capital.

Por favor, me perdoe migra para a balada blues tristonha em Tempos impossíveis e Ofensa (esta, com guitarras em clima ruidoso e lisérgico). A curta Ao seu lado é bonita, ruidosa, mais perto do pós-punk – enquanto Quixote, no final, abre quase em clima de valsa acústica, mas vai se tornando uma balada sofrida e viajante.

Nas letras, por sua vez, tudo surge depois de percepções e insights – que talvez tenham demorado a chegar, como no título do álbum. A falta de mudanças de Tempos impossíveis e a decepção com quem se esconde de Quixote mostram mais desejo de lutar do que de se omitir.

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Ouvimos: Ju Dorotea – “Oh nóis aqui”

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Resenha: Ju Dorotea – “Oh nóis aqui”

RESENHA: Ju Dorotea lança Oh nóis aqui, álbum unindo rap, funk e resistência, falando de história, crítica social e autoafirmação em letras futuristas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: YB Music
Lançamento: 24 de abril de 2026

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Frenético em São Paulo e em Minas, o rap feminino, autoafirmativo e cheio de imagens de resistência, surge certeiro no álbum da carioca Ju Dorotea. Oh nóis aqui fica entre o flow do rap e o batidão do funk, e traz letras que valem por uma aula de história e futurismo. Agoji, primeira faixa, abre com a frase “não me interrompe!”, e usa a lembrança de Agoji, unidade militar de elite composta exclusivamente por mulheres, na África Ocidental, para falar do machismo e do apagamento da luta feminina através dos tempos.

  • Ouvimos: Mac Júlia – Segue o baile

Mira el fuego é o capitalismo como um dragão “que foi engolindo um por um dos meus parentes” (a inspiração foi a fumaça industrial de Volta Redonda, no Rio, onde ela morou). Os beats misteriosos e as imagens que lembram quadrinhos aumentam a tensão e gera também a virada de jogo de Raven (“só quero ser uma senhora preta que vai se aposentar”), e os dias de luta de Wall Street, rap que abre na tranquilidade, mas entra na guerra, com frases como “quem se parece comigo em Wall Street?” e “você não sabe qual a sensação de fazer o dobro pra ter metade”.

Lembranças da pandemia, depressões do dia a dia e contrastes entre flows tranquilos e batidões tomam conta de faixas como Vou ficar bem e Maquinista (do verso “todas as pessoas que eu amo são alvo”, lembrando do peso que é ser preta num país racista e machista). Pique negona, rap + funk com início sombrio, avisa ao homem-padrão (hétero, branco, classe média) que a luta não acabou: “eu sei muito bem onde você imagina a gente”.

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