Crítica
Ouvimos: Lambrini Girls, “Who let the dogs out”

- Who let the dogs out é o primeiro álbum da banda britânica Lambrini Girls. Elas são Phoebe Lunny, vocalista e guitarrista, e Lilly Macieira, baixista. O grupo era um trio, mas a baterista Catt Jack saiu da banda após o primeiro EP, You’re welcome.
- “O álbum rasga uma longa lista de males sociais. Sirenes soam sobre um baixo distorcido pesado e um breakbeat de bateria ao vivo. A banda dança entre pop punk otimista, tons grunge sujos e pós-punk discordante”, diz o texto de lançamento.
- Excelente definição dada pelas duas para o som do grupo: “Imagine que sua avó está no porta-malas do seu carro com um croissant na boca e ouve bikini kill pela primeira vez. Pode ser você. Nunca seremos nós, pois não somos bikini kill e não somos sua avó. Somos Lambrini Girls”.
- Num papo com a DIY em 2024, Phoebe falou sobre algumas coisas que estão por trás do som das Lambrini Girls. “Acho que é constrangedor ser da Inglaterra. Somos extremamente racistas; somos extremamente xenófobos; nosso governo é fascista. Não entendo por que alguém teria orgulho de fazer parte disso”, contou.
No começo de 2025, você vai encontrar poucas coisas mais legais, pesadas e atuais do que o som das Lambrini Girls. O duo de Phoebe Lunny e Lilly Macieira-Boşgelmez é para quem tem fraco por música e emoções fortes. Who let the dogs out é um Blondie de péssimo humor, um Devo em dia de fúria, ou uma Babes In Toyland 1% mais feliz, você escolhe. O som traz riff atrás de riff, numa costura filtrada pelo pós-punk, e que em determinados momentos, lembra simultaneamente bandas como Wire, Dead Kennedys, Public Image Ltd e Black Sabbath.
As três primeiras faixas (Bad apple, Company culture e Big dick energy) falam de um mundo consumido pelo racismo, pela misoginia, pelo preconceito social, pelo capitalismo, e pelo machismo disfarçado do dia a dia. “Sim, você age igual à sua mãe e ao seu terapeuta/isso não é tão ‘grande’ assim/energia de pau grande, não te devo nada/sua personalidade woke é completamente aterrorizante”, diz Big dick energy, olho no olho de algum esquerdomacho que abusa da cara de inocente, mas faz mais atrocidades do que muito opressor assumido. “Loiras se divertem mais/na cultura da empresa/finjo que sei usar um computador/assediada no local de trabalho”, diz a realista (e triste) letra de Company culture.
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Os vocais de Phoebe são fortes e quase falados, e o clima de todas as letras e músicas de Who let the dogs out é de enfrentamento e ironia, uma na sequência da outra. No homo volta ao som de bandas como Au Pairs, Gang Of Four e Modern Lovers para falar de uma paixão sáfica pessimamente mal-disfarçada. O punk rock Nothing tastes as good as it feels é um papo brabo sobre vícios, excessos e cobranças em relação ao corpo. You’re not from around here é skate punk infernal sobre gentrificação, aluguéis altos e gente tendo que se mudar rapidamente. Special different, que mais parece uma música do D.R.I., luta pela quebra de padrões. Love, punk com alma de black metal, fala de amor romântico, estelionato sentimental e gaslighting (“amor verdadeiro é nada mais do que a colina errada para se morrer/trauma de vínculo com ex com as melhores intenções”).
Já em Filthy rich nepo babies a porrada come. Nessa faixa, as Lambrini Girls espalham brasa para filhos de figurões da indústria musical que circulam pelo meio indie disfarçados de “gente como a gente”, e fazem sucesso. “Hugo quer ser um grande rockstar/quebrando cinco grandes guitarras/seu pai trabalha para a Sony/se você quer que seu sucesso dure/fetichize a classe operária/direto de sua casa de cinco quartos em Surrey”. Pensou em alguém do mundo da música?
Nota: 9
Gravadora: City Slang.
Lançamento: 10 de janeiro de 2025.
Crítica
Ouvimos: Catïça – “Cereja de xuxu”

RESENHA: Em Cereja de xuxu, a banda Catïça, de Londrina, mistura punk, crossover e grunge em dez faixas rápidas, com humor ácido e críticas sociais.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Deck
Lançamento: 23 de outubro de 2026
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Tinha uma lenda de que algumas sorveterias e lojas de doces, sem grana pra comprar cerejas, usavam o chuchu para produzir uma imitação horrenda da iguaria, que servia apenas de enfeite. Vindo de Londrina, o Catïça decidiu partir para a zoeira chamando seu segundo disco de Cereja de xuxu (e não “chuchu”). Mas não tem só gozação – ou melhor, ela vem filtrada em temas como cena underground, política e até playboyzices do dia a dia (devidamente sacaneadas no pós-punk Petit comité).
O disco do Catïça tem lá suas semelhanças com Magia, estreia do Budang – a saber: união de várias vertentes do punk em torno do crossover, uso de expressões locais (embora o disco dos catarinenses do Budang seja cantado quase em dialeto), porrada sonora destacando o baixo, músicas rápidas (são dez faixas em 15 minutos). O grupo fala do amor à música e à estrada em Sofá cubista e Em todos esses anos nessa indústria vital, essa é a primeira vez que isso me acontece (sim, o título foi tirado daquele desenho do Pica-Pau), lembra histórias de sua terra em Pé vermei e avisa que a taxação de grande fortunas vai rolar nem que seja na porrada (em Surpresinha).
O crossover bate mais forte em faixas como Chosen e Sofá cubista, além da sacanagem religiosa Crente canibal. A curiosidade aqui é Vixvéi, grunjão da massa em que o Catïça soa como uma banda fanática por Alice In Chains (!).
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Crítica
Ouvimos: Sophia Stel – “The greatest album of all time”

RESENHA: Em The greatest album of all time, a canadense Sophia Stel mistura electropop, trip-hop e dream pop para falar de solidão, insegurança e vida noturna.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: A42 Music
Lançamento: 16 de outubro de 2026
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Nem tudo na música eletrônica é feito pra dançar, e nem tudo que é feito pra dançar é alegre e eufórico. Mais: estilos como electropop muitas vezes falam mais de tristezas e porradas da vida – ou são perfeitos para falar daquele momento em que a festa acaba e só resta você, suas circunstâncias e questões para resolver.
The greatest album of all time, estreia em álbum da canadense Sophia Stel, de 27 anos, vai bastante por esse caminho. Sophia cresceu numa família religiosa de 11 filhos, já lançou dois EPs e gravou quase todo o disco sozinha, em hotéis e apartamentos alugados durante turnês. O título começou como uma brincadeira e acabou virando uma maneira de espantar a síndrome da impostora.
O som é indietronica com estiileiras trip-hop, electropop, dream pop … Sophia canta como se estivesse meio entorpecida, alternando sussurros, falas melódicas e uma espécie de rap arrastado. Em vários momentos, a voz soa quase robótica, como se tivesse sido programada para cantar daquele jeito – e o auto-tune ajuda bastante nisso. Mesmo quando fala de sentimentos intensos, ela parece não estar nem aí.
O disco fica melhor quando Sophia consegue fazer música sombria e dançante ao mesmo tempo. On my dick, cuja letra soa como uma confissão de autoconfiança bastante exagerada e sarcástica, abre com um pop eletrônico quase psicodélico e escuro. Molly in the club, sobre a solidão e a confusão emocional provocadas pela vida noturna. tem algo de trip-hop, mas a viagem fica por conta dos vocais cheios de eco. Em Like a kite, uma batida que lembra um relógio vai ganhando teclados que mudam completamente o clima da música. Já I’ll walk começa com cordas tensas e piano grave, antes de cair num trip-hop tranquilo, cheio de teclados.
Tem ainda a dance music discreta de Better believe it, o dream pop de 15 hours away e o canto quase falado de Now I’ve got a lot you know, que depois ganha até uma batida próxima do reggaeton. O problema é que, com 12 faixas, o álbum acaba ficando um pouco inchado, e nem todas as ideias funcionam tão bem.
Mas quando Sophia acerta, faz uma eletrônica ótima para dançar com a cabeça cheia de problemas. O final, com o batidão tímido de Burn, é a conclusão positiva e sarcástica do disco: Sophia fala que quer viver intensamente – só faz questão de lembrar que na idade dela (27), uma renca de gente partiu.
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Crítica
Ouvimos: Jardim Depressa – “O pequeno deus do sol” (EP)

RESENHA: No EP O pequeno deus do sol, a banda paulista Jardim Depressa mistura pós-punk, shoegaze e psicodelia em quatro faixas de tensão e angústia existencial.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 29 de setembro de 2026
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Pós-punk e psicodelia já se encontraram muitas vezes. E já tiveram um casamento consumado por estilos como o shoegaze. No EP O pequeno deus do sol, a banda paulista Jardim Depressa celebra a união em clima de tensão sonora, sombras e experimentalismo, como no spoken word percussivo da faixa-título e no clima soturno, quase post-rock, de Em seu lugar – música que depois vai ganhando uma onda venturosa.
Curto, o disco tem quatro faixas separadas por uma vinheta, Vênus, com dedilhados e clima sonhador. Diabo, lançada em single, é ágil, melancólica e tensa, com uma gravação meio lo-fi (você pode achar que se trata de uma banda dos anos 1980) e uma parede simples de guitarra que encobre os vocais. Quando comentamos sobre essa faixa, vimos referências de bandas como Kitchens Of Distinction e House Of Love.
No final, Tempestade vem com clima angustiado e acústico. Na letra, pensamentos sobre o mal, o tempo, e a maldade que nunca dorme. Sonzeira existencial e perturbadora.
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