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Cultura Pop

O “Deep Purple falso” de 1980

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O primeiro término do Deep Purple rolou de maneira, digamos, bastante triste e humilhante. Glenn Hughes, que por aqueles tempos era baixista do grupo (e passava maus bocados com as drogas), chegou a pedir desculpas à plateia do “último” show do grupo, em em 15 de março de 1976 no Liverpool Theatre, porque a banda “não estava tocando muito bem”.

David Coverdale, vocalista, chegou ao camarim puto da vida anunciando sua saída. Ouviu dos colegas que, naquele momento, nem sequer havia uma banda para ele abandonar. Em julho, o empresário anunciou que o grupo não se apresentaria mais usando o nome Deep Purple. Tommy Bolin, guitarrista dessa fase, morreria de overdose aos 25 anos, em dezembro de 1976. Fim.

Poderia ter representado um problemaço para todos os integrantes, mas vá lá. Longe do Deep Purple, cada músico teve oportunidade de brilhar sozinho, fazer discos solo (ou com bandas próprias, ou como integrante de bandas, etc). O grande problema que a banda teve naquele momento foi que um grupo de empresários espertalhões decidiu reavivar a marca “Deep Purple”. E criou um “Novo Deep Purple”. O trabalhão ia ser fazer com que algum ex-integrante topasse.

A turma resolveu procurar dois ex-integrantes da primeira formação que andavam sumidos: o baixista Nick Simper e o cantor Rod Evans. Simper sentiu cheiro de encrenca e não topou. Rod, que trabalhava num hospital e não tinha perspectivas de voltar a gravar desde que saiu de seu segundo projeto mais conhecido, o Captain Beyond, aceitou.

Sem ligar para o fato de que Deep Purple já era uma marca, a empresa por trás da empreitada registrou o nome à moda caralha e correu atrás de outros músicos para completar a roubada. Além de Evans, toparam Tony Flynn (guitarra), Tom de Rivera (baixo), Dick Jurgens III (bateria) e Geoff Emery (teclados). Os quatro tinham experiência no ramo e, por sinal, já haviam tocado num falso Steppenwolf, montado pela mesma empresa.

Acontece que a malandragem ficou séria. Essa formação estreou, após alguns ensaios, no dia 17 de maio de 1980, no Amarillo Civic Center, Texas. Aliás, no cartaz do show, nada de “new”: era Deep Purple mesmo.

Por alguns poucos meses, essa formação fez a, digamos, alegria dos fãs desinformados que não puderam ver o Deep Purple de verdade ao vivo. E ora bolas, o cantor dos três primeiros discos estava lá. Mas os fãs da banda que já sabiam da armação começaram a chamar a banda de Bogus Deep Purple (Deep Purple falso, enfim) e era questão de tempo para rolar caquinha. Enquanto isso, Rod Evans e colegas se divertiam fazendo shows por ginásios dos EUA e México. E, sem nenhum desconfiômetro, apareciam na TV.

O Deep Purple verdadeiro era uma banda que, em seus piores momentos, ainda assim era excepcional. O DP falso tocava mal, era liderado por um cantor bem mais vacilante que Ian Gillan e David Coverdale, e já estava começando a despertar a atenção dos advogados do grupo de verdade. Tanto que em 18 de agosto de 1980 ousaram colocar um anúncio no Los Angeles Times avisando de um show na Long Beach Arena, na Califórnia. O Deep Purple (o legítimo) soube, acionou advogados e ligou para a turma de vendas do jornal. E mandou colocar um anúncio logo acima, avisando que os integrantes e ex-integrantes mais conhecidos do grupo não tinham nada a ver com aquela armação.

O "Deep Purple falso" de 1980

O próprio Los Angeles Times resolveu ir lá conferir o show e fez uma resenha bem desfavorável, dizendo o quanto a banda era ruim. A lorota do “novo Deep Purple” começou a pegar mal para a banda, porque alguns fãs, achando que iriam encontrar Ritchie Blackmore, Ian Paice, Ian Gillan e outros no palco, ficavam extremamente decepcionados quando viam Rod e um bando de desconhecidos. Um fã jura que em uma apresentação em Nova York, o grupo foi recebido sob chuva de garrafas de cerveja.

Logo o longo braço da lei achou Rod e os integrantes. A armação foi montada por uma empresa e havia mais músicos, certamente, mas as contas moral e financeira ficaram apenas com o vocalista, único naquela história a receber royalties do verdadeiro grupo e a saber que “Deep Purple” não era bagunça. Rod foi processado em US$ 672.000. Sem grana, acabou perdendo todos os royalties de seus discos com o Deep Purple. O estrago nas contas (e na carreira musical) do vocalista foi tão imenso que ele ficaria devendo até mesmo o dinheiro que conseguisse em futuras apresentações e discos.

Rod sumiu no mundo e, dizem testemunhas, permaneceu trabalhando na área médica. Bobby Caldwell, baterista e co-fundador do Captain Beyond, declarou que tinha todo interesse do mundo em ter Rod em algum show da banda, mas que sabia que ele não tinha mais interesse no mundo da música. Em 2016, o Deep Purple foi indicado ao Rock And Roll Hall Of Fame. Rod recebeu a indução, mas não apareceu e ninguém foi buscar o prêmio. Curiosamente, Nick Simper foi esquecido e sequer indicado.

 

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Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

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O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).

“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.

Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.

Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.

“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.

“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.

E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.

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R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

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R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

No dia 31 de maio de 1982, a gravadora I.R.S. enviava um press release avisando que havia assinado com o R.E.M., “uma banda de Athens, Georgia, aclamada pela crítica”. E já anunciava que no dia 26 de agosto sairia o EP Chronic town, com as faixas 1,000,000, Stumble, Wolves, lower, Gardening at night e Carnival of sorts (Boxcars). A foto de imprensa, em preto e branco, trazia Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo), Bill Berry (bateria) e Michael Stipe (vocais) com visual pós-adolescente.

“O EP vai ser seguido por um álbum no ano que vem. O R.E.M. planeja fazer uma turnê pelo Oeste do país durante o verão, seguida pelos estados da Costa Leste e do Canadá durante o Outono”, avisava a gravadora, oferecendo também o contato da empresária Betsy Alexander, primeira pessoa a cuidar profissionalmente do grupo, ajudando em contatos, logística e gestão. O release só errava na ordem das músicas do EP, que possivelmente ainda não estava decidida (Chronic town também saiu dividido em duas partes, com lado A nomeado Chronic town e lado B com nome Poster torn)

O contrato era de longo prazo e previa cinco discos – ou seja, tudo que saiu do grupo até Life’s rich pageant, o quarto álbum, de 1986. Depois disso, o grupo renegociou e lançou o quinto disco, Document, de 1987 – mas acabou migrando para a Warner e terminando o contrato com a coletânea Eponymous (1988).

A I.R.S. tinha sido criada em 1979 por Miles Copeland III, irmão de Stewart Copeland, baterista do The Police. O selo vinha da cena punk/new wave britânica e funcionava como uma espécie de ponte entre o underground e uma estrutura profissional de distribuição via A&M (a gravadora do Police, por acaso).

Na época em que o R.E.M. assinou, a I.R.S. já tinha grupos como Wall of Voodoo, Oingo Boingo, The Go-Go’s e The English Beat. Era um selo muito ligado a college radio, pós-punk, new wave e à ideia de independência artística. Depois, virou praticamente sinônimo do rock universitário americano dos anos 1980 por causa do próprio R.E.M.

A entrada da banda na gravadora aconteceu muito por conexões da cena. O empresário/agente Ian Copeland, irmão de Miles e Stewart, já acompanhava o grupo desde os primeiros shows em Athens. O baterista Bill Berry tinha trabalhado para Ian em Macon como roadie e serviços-gerais, e mantinha contato com ele. Isso ajudou o R.E.M. a conseguir shows de abertura para bandas maiores, como The Police e Gang of Four, até chamar atenção da I.R.S.

E olha o post comemorativo do R.E.M. aí.

 

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Um post compartilhado por R.E.M. (@rem)

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Cultura Pop

George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

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George Harrison (Reprodução YouTube)

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)

Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube

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“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).

O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).

Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.

A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.

A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.

Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.

Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.

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