Se você morava no Planeta Terra em 1982, deve lembrar o quanto foi difícil escapar de Play the game tonight. Essa praga marcou uma fase nova para a banda progressiva norte-americana Kansas. Tocava no rádio, apareceu em comercial de cigarro Hollywood, vendeu milhares de cópias (em single e no disco Vinyl confessions, o oitavo do Kansas, daquele ano). E trouxe uma voz nova para o grupo, a do cantor John Elefante.

O Kansas, aliás, era uma banda meio perdida naqueles tempos. Quem nasceu depois de 1990 pode não acreditar, mas em plena era do punk (1977, 1978) eles vendiam muitos discos e faziam sucesso (inclusive no Brasil) traduzindo a sonoridade do progressivo para o universo recém-nascido do rock de arena. Enfim, aquele som de grandes refrãos, que lotava estádios e conquistava fãs. E fazia crossover evidente com as paradas pop (e vá lá, com a veia country).

Olha aí Dust in the wind, outro daqueles hits que pegaram mais que praga de piolho em creche. Com direito aos fantasminhas dos integrantes no clipe oficial.

BONS GAROTOS

Antes da fama, o Kansas fazia um som bem mais progressivo e chegou a abrir shows para bandas como Mott The Hoople e Queen (“todos do Queen eram legais, menos o Freddie Mercury, que era um babaca ególatra”, chegou a afirmar o ex-tecladista Steve Walsh). Em 1978, o grupo, então um sexteto (Steve Walsh nos teclados e voz, Robby Steinhardt no violino e voz, Kerry Livgren na guitarra e teclados, Rich Williams na guitarra, Dave Hope no baixo e Phil Ehart na bateria) surfava uma onda enorme de popularidade por causa do hit que você escutou lá em cima, o tal do Dust in the wind. Tanto que em 28 de junho daquele ano, ganharam um posto nada usual para bandas de rock: o de Embaixadores da Boa Vontade da UNICEF.

O clima “bons rapazes” tinha dado um astral diferente para o Kansas, por sinal. Com direito à conversão de dois integrantes do grupo, Hope e Livgren, à fé evangélica. A banda passou a expressar suas novas crenças em hits como Hold on (1980). Steve Walsh preferiu cair fora porque não estava mais satisfeito com a banda, e o grupo preferiu abrir concurso para novo vocalista. Recusaram nomes como Sammy Hagar e se animaram com o derramado (e igualmente cristão) cantor John Elefante, vindo da Califórnia.

ELEFANTE NO KANSAS

John soltou à voz à frente de Play the game tonight, música composta por três integrantes do Kansas ao lado do compositor gospel Rob Frazier. E ainda levou para o grupo seu próprio repertório composto com o irmão Dino, com letras de raiz igualmente cristã. O grupo foi seguindo nessa linha meio evangelista e meio hard-pop até 1984, quando se separou. Depois voltou várias vezes e deu emprego a músicos como Steve Morse (então apenas o ex-guitarrista do Dixie Dreggs). Também trouxe de volta ex-integrantes (Steve Walsh voltou e caiu fora de novo). E aliás, o grupo tá aí até hoje.

Mas esse introito todo é só pra lembrar que John Elefante, depois de sair e voltar do Kansas algumas vezes, continua na ativa como compositor e cantor gospel. Chegou a montar uma gravadora com o irmão, a Pakaderm Records. E uma das ocupações recentes de Elefante é… músico da banda de rock de um dos advogados de Donald Trump. Por acaso, é a banda de ninguém menos que Jay Sekulow, cristão e conservador, e que se divide entre guitarra e bateria no grupo.

Se estiver com muito tempo livre, pega aí um show da Jay Sekulow Band com participação do ex-vocalista do Kansas. O repertório inclui clássicos de Eric Clapton, Beatles, James Gang e outros nomes. Entre as músicas, rola um ou outro clássico rock-gospel (o indefectível Jesus is just alright, gravado por uma porrada de gente). Tem também músicas próprias.

Não que o giro de Sekulow com seus amigos famosos seja unanimidade entre fãs e críticos do estilo. A Spin anunciou há um tempinho que “o advogado de Trump toca numa porcaria de banda” e o site gozador Daily Beast mandou logo um “não veja” e avisou que a banda do causídico de Trump é “terrível”. Vai encarar?