Espécie de irmão mais novo de uma turma que incluía vários roqueiros trintões (Ringo Starr, Harry Nilsson e Keith Moon, entre eles), Marc Bolan, líder do T. Rex, costumava procurar Ringo durante um período em que o ex-baterista dos Beatles estava por trás de um dos projetos fracassados da banda, a Apple Films. “Marc costumava dizer para a gente o quanto ia vender de discos, ou em qual posição ele ficaria nas paradas”, recordou Ringo no livro Ringo: A história do baterista mais famoso do mundo antes e depois dos Beatles, de Michael Seth Starr.

Em 1971, quando o grupo de Liverpool não existia mais, a Apple ainda tocava projetos em várias áreas. Para ativar o departamento audiovisual, o baterista decidiu criar uma série de documentários sobre as superestrelas da época – gente como os atores como Richard Burton e Elizabeth Taylor e o jogador de futebol, George Best. Na época, Ringo já tinha atuado numa série de filmes – entre eles uma espécie de pornochanchada gringa, Candy (1968) e o gozador Um Beatle no paraíso (1969). Ringo soube que Marc pretendia filmar os shows do Wembley’s Empire Pool (hoje Wembley Arena) marcados para março de 1972, e ofereceu a estrutura da Apple ao amigo, além de seus préstimos como diretor.

Como ex-integrante de uma banda que provocou uma verdadeira mania no mundo todo, Ringo entendia muito bem a febre de T. Rex que estava acontecendo na Inglaterra. A exemplo da beatlemania, a nova onda tinha até nome, dado pela imprensa britânica (T.Rexstasy). Num país que sempre havia vivido à base de ídolos pop, a chegada dos novos astros do glam rock (Bolan, Bowie e bandas como Sweet e Slade) havia provocado uma troca de guarda radical nas paradas.

Nessa época, ainda que Paul McCartney e John Lennon tivessem seus lançamentos esperados e vendessem muitos discos (e no caso de Paul, o sucesso acontecia também em turnês concorridíssimas), nomes dos anos 1960 já eram vistos como artistas que falavam para um outro público, mais velho e menos afeito a novidades – e menos perto “da moda”. E Bolan, à frente de sua banda, ganhara ares de novo grande ídolo da juventude. Um período que duraria pouco tempo, já que imediatamente o cantor seria suplantado no cargo pelo próprio Bowie com Ziggy Stardust, em 1972.

O filme de Ringo sobre Bolan (e, vale dizer, a ideia de fazer vários documentários sobre celebridades foi abandonada) começava com imagens bem legais de Bolan liderando o T. Rex no show da Arena – no palco, o cantor era quase uma mescla de Chuck Berry, Syd Barrett e Elvis Presley, se é que isso é possível.

Os hits Jeepster e Baby Strange abriam o filme. Na sequência, o T. Rex aparecia tocando com Elton John (piano) e o próprio Ringo (na bateria) os hits Children of the revolution, The slider e até Tutti Frutti, de Little Richard.

Outros trechos do filme lembram as sequências malucas de Magical Mystery Tour, com Bolan contracenando com Ringo fantasiado de urso num Cadillac, e a famosa cena do “tea party”, filmada nos jardins da mansão de John Lennon. Convencido de que o resultado jamais captaria a energia dos shows de Bolan, Ringo investiu numa filmagem que captasse detalhes dos shows e reações do público – que aplaude até mesmo na hora em que o microfone de Bolan ameaça cair durante um set acústico. No final, foram mais de cinquenta horas (!) de filmagens, reduzidas para pouco mais de uma hora. Anos depois, boa parte desse material (que sobreviveu por três décadas) sairia em blu-ray.

A despeito do talento de Ringo como diretor e de Bolan como popstar, Born to boogie saiu em dezembro de 1972 com resenhas meio frias – muita gente achou que as sequências não-documentais eram dispensáveis. O T. Rex se manteria no topo por mais algum tempo. Já Ringo, em 1974, depois da aventura com Bolan, produziria e atuaria numa espécie de revisão roqueira da história do Conde Drácula, Son of Dracula, interpretando o Mago Merlin. Harry Nilsson interpretou o Conde Downe, inimigo de Drácula. Uma sensação do filme era a banda de Downe, que incluía participações especiais de John Bonham (Led Zeppelin), Peter Frampton, Klaus Voorman e Keith Moon (Who).

E, claro, tá aí Born to boogie, na versão que foi para os cinemas em 1972.