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Crítica

Ouvimos: Graham Coxon – “Castle Park”

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Resenha: Graham Coxon – “Castle Park”

RESENHA: Graham Coxon revisita o pop britânico dos anos 1960 em Castle Park, disco gravado em 2011 e lançado anos depois, fora do tempo e das tendências.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 10
Gravadora: Trangressive Records
Lançamentos: 19 de junho de 2026

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Já que Damon Albarn hoje em dia se preocupa mais com o Gorillaz, restou para o guitarrista Graham Coxon o bastão do Blur. Ou pelo menos o bastão de uma ideia musical e estética associada à banda, que passa por rocks ganchudos e de inspiração sixties, e letras cheias de histórias, situações e personagens. Tanto que Castle Park, um disco anglicista desde o nome e a capa, já abre logo com o suingue quase mod de Billy Says, música com melodia cheia de surpresas e clima que passa por The Who, Beatles, Small Faces e sons afins.

Castle Park é curto se comparado aos clássicos do Blur – que é uma banda típica da “era do CD”, com álbuns já pensados para o formato digital e duração tão extensa que certos discos acabam parecendo mais caóticos do que realmente são. No caso do álbum de Coxon, são 36 minutos, dez faixas e uma vibe musical que lembra bastante aquelas coletâneas que o selo português Movieplay (lembra disso?) lançava no Brasil lá pelos anos 1990, tipo Good Morning Saigon Vol. 1 e 2 – ou a trilha sonora do filme Forrest Gump.

Músicas como Alright são tão reverentes a Paul McCartney que acabam lembrando maravilhas dos anos 1960 que se refestelavam na mesma receita beatle, como Lovin’ Spoonful, Tommy James & The Shondells, ou bandas que lamentavelmente não conseguiram ficar tão ilustres quanto os quatro de Liverpool, como os Hollies.

É o mesmo esquema de palmas, violão e “vou contar uma história, só que rimada”, de muitas faixas do ex-beatle – e que parece ser uma espécie de medida para o álbum, em vários momentos. Na terceira faixa vem uma cover que se adapta tão bem ao conceito do disco que parece feita para Coxon. É When you find out, hit da banda de power pop estadunidense The Nerves – a mesma banda que criou Hangin’ on the telephone, música que se tornaria um hit com o Blondie.

Castle Park vai passando pelo lado sombrio do pop inglês dos anos 1960 (a psicodélica e fantasmagórica Isn’t it funny), pelo bubblegum sem culpa (There’s a little house, com Lucy Parnell dividindo os vocais, parece um grude musical feito por Lou Reed, a quem Coxon deve muito como cantor), pelo pop psicodélico herdado do folk (Easy, com uma lembrança ou outra de Harry Nilsson) e até pela chiqueza do pop francês (o sombrio tema orquestral Mélodie pour Christine).

Já a percussiva e cigana Dripping soul põe heranças do Fleetwood Mac inicial e do Jefferson Airplane na história, enquanto Forget today soa como uma balada dos anos 1950 relida pelos Rolling Stones de 1964 (sem Mick Jagger nos vocais, claro). O final, com All the rage, soa como uma demo de Donovan, algo feito num gravador amador, só pra registro, lá por 1968, e que ganhou uma refação com orquestra anos depois, para surgir num box.

Faltou contar que Castle Park estava no baú de Coxon há tempos: foi gravado em 2011, nas mesmas sessões que geraram outro solo dele, A+E (2012), com produção de Ben Hillier. Era para ele ter saído logo depois, como a contrapartida “nostálgica” (Castle Park é um parque da cidade de Graham, Colchester) do experimental e eletrônico A+E, mas outros projetos, como a volta do Blur, foram ganhando mais importância.

O músico temeu que Castle Park fosse apenas um disco “de arquivo”, sem importância, e o álbum ficou parado mesmo quando ele tinha tempo de mexer nas fitas. Ouvido hoje, parece literalmente feito hoje – até porque se fosse lançado em 2011, já não seguiria tendência alguma. Um disco com tempo e espaço próprios.

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Crítica

Ouvimos: Sleep – “Hempispheres”

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Resenha: Sleep - "Hempispheres"

RESENHA: Sem Matt Pike, o Sleep retorna com Hempispheres, mas o novo disco de stoner e doom psicodélico aposta em riffs e atmosferas que soam mais repetitivos do que hipnóticos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 6
Gravadora: Third Man Records
Lançamento: 3 de setembro de 2026

Enquanto o cofundador do Sleep, Matt Pike, leva adiante o High On Fire – com direito a um show agendado no Brasil – a banda veterana de stoner + doom, conhecida pelo disco clássico Dopesmoker, continua sem ele, numa nova formação em que resta apenas o baixista e vocalista Al Cisneros como membro original. O novo guitarrista do Sleep é Bubba Dupree, do Void. Na bateria, está o eternamente ocupadíssimo Dale Crover, que toca também no Melvins e no Redd Kross. E foi essa turma que entrou em estúdio para gravar um inesperado novo disco do Sleep, Hempispheres.

Um novo disco de uma banda tão sui generis (tudo neles gira em torno de fumar maconha o dia inteiro, usando apetrechos que vão desde maricas comuns até cálices de coco, e fazer músicas sobre isso) envolve muita coisa: as agendas dos músicos, a disposição para permanecer à cata de aventuras esquisitas, a vontade de permanecer fazendo cagada de maneira profissional.

O lance é que Hempispheres é “profissional” demais para os estranhos padrões de uma banda que já quis abrir seu contrato com uma grande gravadora lançando um disco com uma só faixa, de mais de uma hora (Dopesmoker, engavetado pela London em 1995, e só lançado com o “corte definitivo” em 2022). Os discos anteriores do Sleep eram bons porque eram repetitivos – aquela bem vinda repetição “chapada”. Hempispheres parece repetitivo por falta de ideias melhores para riffs, solos e ambiências sonoras.

O material de Hempispheres soa mais como uma sobra de discos anteriores ou uma mixtape – até mesmo na decolagem stoner + doom de Have spacesuit will travel e no clima indiano de The morrisist, faixas que tinham tudo para serem bem legais. Se você já atravessou os 60 minutos de Dopesmoker feliz da vida, vai estranhar sentir tédio nos dez minutos de Arrival of the industry ships e vai estranhar mais ainda achar que Whole wheat mountain / Well baked parece demais com uma sobra do Kyuss.

No geral, é como se o metal moroso, psicodélico e sabatthiano do Sleep já estivesse acostumado a uma fórmula – que inclui trocadilhos com o nome de Tony Iommi nas letras, além de uma referência cara de pau ao Hemispheres, disco de 1978 do Rush, no título. Quem nem sequer esperava um disco novo do Sleep vai ter que esperar mais um pouco.

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Ouvimos: Big Marias – “Hungry heart” (EP)

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Resenha: Big Marias – “Hungry heart” (EP)

RESENHA: Big Marias, trio de Palmas (TO), lança Hungry heart, EP que cruza punk, stoner, grunge e doom, entre ecos de Nirvana, Babes In Toyland, Hole e Black Sabbath, em canções viscerais e sombrias.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Wheels of Confusion Records / Rocklab
Lançamento: 28 de agosto de 2026

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O EP novo dessa banda de Palmas (TO) é quase uma sessão de bruxaria rocker, influenciada por punk, stoner, grunge, e por vivências viscerais e sangrentas. Em Hungry heart, Sam Cayres (guitarra e voz), Didia Cayres (bateria) e Felipe Supernaut (baixo), os três do Big Marias, soam como o encontro entre Kyuss e Babes In Toyland na faixa-título, impõem clima cantarolável à moda de Hole e Ramones a Nasty, capricham no peso depressivo em Deep trip e Gone… E quase sempre soam como uma banda que ouviu atentamente a estreia do Nirvana, Bleach (1989), mas juntou tudo com vibes que fazem lembrar bandas como Sisters Of Mercy e até Black Sabbath.

Hungry heart adere ao punk quase puro, mas com uma gama de lembranças que vai de Black Sabbath a Rita Lee, em Mistakes can bleed, canção com título em inglês, e boa parte da letra em português. E ganha ares metálicos e arrastados na última faixa, Ti – que adapta uma ideia da era do CD e encerra com uma coda, trazendo a mesma música em versão de voz e piano, após alguns segundos de silêncio. Bonito e pesado.

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Ouvimos: Sundayclub – “Sundayclub”

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Resenha: Sundayclub - "Sundayclub"

RESENHA: O duo canadense Sundayclub estreia com um disco de shoegaze etéreo, cruzando guitarras distorcidas, new wave e emo para transformar saudade, paixão e frustração em “alegria triste”.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Paper Bag Records
Lançamento: 10 de julho de 2026

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Vindos de Winnipeg, Courtney Carmichael e Nikki St. Pierre (os dois do Sundayclub) têm uma curiosa origem em estilos bem diferentes do shoegaze que marca seu álbum epônimo de estreia). O duo começou quando Courtney e sua irmã queriam produzir uma demo para enviar ao festival folk de sua cidade, e acabaram esbarrando com Nikki, que erã fã de metal, punk e indie rock. Courtney, aliás, chegou a tocar polca (!) numa banda liderada por seu tio – sua família é da Ucrânia e ela tocava violino e violão no grupo.

Sundayclub, o disco, não reflete essas experiências anteriores: o som é distorcido, meio eletrônico (a curta Tune in, na abertura, une guitarras a um beat intermitente e quase industrial) e etéreo, com vocais quase sempre overdubbados. Blue wave, uma canção de saudade e de “alegria triste”, tem uma onda quase new wave na composição – pode ser basicamente o hit “de arena” do grupo. A dedilhada Sad summer tem uma energia de férias frustradas, em que tudo poderia ter dado certo, mas não foi bem o que rolou (“eu queria me divertir / curtir o sol / mas não consigo me arrastar da minha própria cama”).

Essa vibe de “por que estou tão triste quando deveria estar alegre”, juvenil até a medula, é a cara do Sundayclub, que põe nuances de paixão teenager-jovem na emo-gaze Camera shy e na bela e ruidosa Corydoon Ave (To meet you). O grupo igualmente invade áreas mais sonhadoras em faixas celestiais como Lombard e Turquiose, antes de falar de um casal meio explosivo na docinha-fake Sober (“essa festa é uma merda / e eu iria pra casa se pudesse / eu te daria 50 dólares / se você calasse a boca”).

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