Cultura Pop
Leia, descubra, ouça, conteste: um papo com o cara do Floga-se

Não são poucas pessoas que consideram o Floga-se um dos dez melhores espaços para se conhecer música indepedente hoje em dia. Numa época em que interessa a muita gente repetir frases batidas como “o rock morreu”, o site surge com séries importantes como discos da vida (onde convidados falam sobre os álbuns mais marcantes de suas discotecas e cabe tudo quanto é tipo de música), ou listas de discos para ouvir de graça, ou entrevistas com nomes nacionais e internacionais.

O lema do site
No POP FANTASMA, a gente tem conversado com gente que vem criando conteúdo pop: youtubers, donos de gravadoras, criadores de sites. Fomos conhecer um pouco do trabalho do Fernando Augusto Lopes, que criou o blog, e descobrimos que a motivação dele ao criar o Floga-se foi bastante parecida com a nossa: escrever o que a gente gostaria de ler
POP FANTASMA: Como começou sua relação com a música? Você é jornalista? Era do tipo que curtia ler revistas e escrever em cadernos sobre o assunto?
FERNANDO AUGUSTO LOPES: Minha família sempre foi de ouvir muita música e não necessariamente música “popular”. Meu pai sempre foi do jazz e do blues, e curtia desde nomes consagrados até discos obscuros. Um dos passatempos dele era fazer fitas-cassete de todos os seus discos e dos nossos também. Esse lance meio de colecionador, de garimpeiro e de organizador acabou passando pra mim. Meu irmão é jornalista e herdou esse lance de garimpar, a gente ia às lojas do centro de SP buscar os discos que víamos e líamos na Bizz, na Melody Maker e na New Music Express, quando a gente conseguia uma banca que tivesse essas publicações gringas pra vender, senão era só a Bizz mesmo. E era um programa bacana de final de semana ir a essas lojas procurar LPs e descobrir outras coisas. Acabei me formando em Cinema e indo trabalhar com marketing, de modo que escrever sobre música virou um hobby que uniu toda essa história.
O que te motivou a criar o Floga-se? Você diria que sentia falta de algo e criou o que você gostaria de ler? Basicamente isso. Acho que é padrão nas histórias de nascimento de zines e blogues e sites. A pessoa quer escrever e publicar exatamente aquilo que gostaria de ler por aí e geralmente não encontra. O Floga-se nasceu em 2006 e de lá pra cá foi passando por muitos e muitos ajustes editoriais, até chegar ao que é hoje: um site de textos mais elaborados, tentando misturar história e lançamentos, bandas minúsculas e subterrâneas com bandas consagradas e populares. Dar o mesmo peso de importância pra bandas nacionais que ninguém dá bola e bandas que habitam a grande mídia. Mas o básico é: informar, dar opinião e contar histórias.
Você era daquela geração que montou blog lá por 2001, 2002? Como resolveu investir no formato? Desde que eu comecei a trabalhar com o marketing below the line, lá em 1996, a gente tentava colocar um site na comunicação das campanhas de incentivo. Era um troço bem moderno naquele momento, quase 100% das campanhas usavam comunicação impressa e a gente procurou esse novo caminho. Mais do que isso: a gente produzia os sites de modo caseiro, em FrontPage. Um troço bem amador e tosco, vendo em perspectiva, agora. Só que era o que tinha e acabou sendo sucesso. Os clientes queriam menos impressos e mais online.
É claro que o avanço da tecnologia e acesso a internet no Brasil ajudaram bastante, mas foi essa nossa insistência num formato não utilizado até então que me fez curtir esse negócio de escrever online. O Floga-se começou como um blogue no UOLblog. Eram textos engraçadinhos, metidos a descoladinhos, algo que parece ter sido feito por um adolescente, e vendo hoje eram até divertidos, embora bobocas. Só em 2010 é que migrei pro WordPress, acho que quase como todo mundo. No WordPress, o mundo de possibilidades aumentou muito e tals, principalmente na parte visual e na facilidade organizacional, o que deu um impulso ao Floga-se.
Hoje, não há uma única campanha ou comunicação que não se utilize de ferramentas online, aplicativos específicos, sites, disparos pra celulares, e-mail marketing, redes sociais etc. Daí que, embora ainda seja redator e criador, o Floga-se é minha única dedicação online específica hoje. Há muita, muita, muita, muita gente boa e especializada em tocar esse ferramental online.
Como você descobre músicas novas? Você costumeiramente descobre mais sons novos ou antigos? Isso é curioso, porque depende da fase. Por conta do Floga-se, recebo centenas de e-mails e indicações toda semana. Deve acontecer o mesmo no POP FANTASMA. Rola uma obrigação minha de ouvir tudo o que recebo. Acho que é o mínimo de consideração, mesmo que a pessoa que enviou não faça ideia que eu esteja ouvindo. Como o volume é grande, é difícil você apreciar música como se apreciava nos anos 80 e nos anos 90. A dedicação exclusiva à música ou ao álbum, qualquer álbum, requer que você deixe de ouvir uma outra novidade, porque o tempo é um só, afinal de contas. Então, eu provavelmente sou como qualquer pessoa nesse sentido, até mesmo pela idade e falta de tempo: acabo voltando àqueles discos que significaram alguma coisa na minha vida e esses discos estão ficando mais velhos, é inevitável. Os novos são raros de bater no coração, mas de vez em quando acontece. Um bom exemplo é a Aldous Harding. Vi um show dela numa fase muito boa pra mim e aquela música significou algo. Hoje, ela parece uma velha companheira.
Você escuta mais música depois das plataformas digitais? No que tua relação com as novas descobertas mudou? Você fica com mais discos acumulados? Faz tempo que parei de comprar discos. Ainda recebo CDs de bandas brasileiras e tals, mas sempre que posso, peço pra assessoria ou pra banda não mandar o disco físico. Sei que é caro pro artista, então prefiro que me mandem o link. Assim, vou ouvir, pelo menos uma vez. Minha ferramenta ainda é o iPod, embora isso pareça bem antigo hoje em dia. Como infelizmente ele quebrou, acabei, com bastante contrariedade, assinando uma dessas plataformas digitais. Então, acho que em questão de volume de música que eu escuto segue a mesma coisa do iPod pro streaming.
Não houve mudança de comportamento nesse caso. A única coisa que alterou foi que é um negócio a menos pra carregar no bolso, já que agora é só o celular. O que eu quero dizer é que as “indicações” das plataformas digitais não me atingem. Eu prefiro as indicações do Bandcamp, por exemplo, que parecem muito mais orgânicas e despretensiosas. Na página principal do Bandcamp eu acabo entrando em contato com muita novidade que não recebo no e-mail, muita coisa mesmo. Curiosamente, quando o disco é gratuito, eu baixo. Então, nesse sentido, sigo sendo um acumulador de MP3.
O Floga-se tem listas bem legais, como a das capas criadas por Peter Saville. Qual lista você está adiando há anos para fazer e nunca faz? Eu não curto muito listas, tirando aquelas de final de ano, de melhores álbuns do período, porque acho um belo serviço pro ouvinte vasculhar e descobrir coisas que deixou passar batido durante o ano. São listas úteis. As que eu coloco no Floga-se são mais por tiração de sarro, passatempo. Têm vida curta. Exceto quando elas são bem informativas, como essa do Peter Saville, ou aquela de dez resenhas que foram desmentidas pela história. Como a ideia delas vem de supetão, depois de ler algum artigo, depois de alguma conversa de bar, então não tem nada que eu esteja adiando.
Qual tua relação com o público do site? Muita gente comenta sobre discos que conheceu lá? Tem gente assídua no site, o que eu acho bizarro. Tenho um público fiel e isso é uma delícia. Eu escrevo pra esse público, não mais pra mim. Não é que eu faça concessões e tals – eu sempre vou escrever sobre um assunto que eu queira escrever, mas a forma é que deve ser pensando no público. Por “forma”, entenda a seriedade com que a coisa é feita, o apuro, o tão ético quanto possível, sem ofender minorias, sem ofender por ofender, algo que fui aprendendo e moldando com o tempo.
Nada contra quem faz blogue só pra conseguir ingressos de graça. Nada contra quem fica pedindo favores pra assessorias de imprensa, pra artista, pra casa de shows, pra produtores. Cada um faz o seu caminho, mas eu prefiro manter a distância mais razoável possível. Justamente porque o público percebe uma falsidade naquilo. O leitor sabe se você tá escrevendo sobre um disco que não ouviu, mas acabou escrevendo pra agradar o artista ou o selo ou a assessoria. Fujo ao máximo desse troca-troca de cliques e compartilhamentos.
Não me importo nem um pouco se escrevi sobre um disco e a banda não compartilhou meu texto. Não escrevo pra banda. Escrevo pra quem dedica alguns minutinhos do seu tempo pra ler o que escrevi. Essa pessoa merece meu esforço de fazer algo que considero de qualidade. E eu vejo que funciona quando as pessoas comentam que foram atrás de tal obra só porque leram no Floga-se. É gratificante poder funcionar como filtro pra algumas pessoas. São bem poucas, mas vale. E recebo também muita dica, o que são dicas mais preciosas do que e-mails oficiais. Se uma obra tocou a mente de alguém, tem possibilidade de tocar a minha, a sua, a de mais alguém.
Podcasts, webradios e rádios significam algo pra você hoje em dia? Sim. Acho um negócio legal ouvir gente falando, principalmente sobre música ou futebol ou política. Mesmo assim, ouço menos podcasts do que gostaria. É a tal falta de tempo… Já rádio, ainda ouço bastante, mas só de notícias. Escutar música nas rádios brasileiras é um suplício.
Em 2019, teve algum disco que especificamente chamou sua atenção? Eu citei a Aldous Harding e o disco novo dela, Designer, é ainda melhor do que o anterior. Vale demais. Achei interessante o novo Corrupted data, do Cadu Tenório. Tem o New atlantis, do Efdemin, o Motor activity, do Swiss Magnetic, cuja faixa-título é uma das mais legais e viciantes do ano. E tem o novo do Jair Naves, o Rente. A lista é grande.
Você já escuta música pensando em escrever sobre ela? Costuma ficar com muito material acumulado? Não costumo ouvir pensando em escrever. Até porque me daria palpitação no coração o desespero de não conseguir fazer a fila andar. É justamente o contrário, escrevo bem menos do que gostaria e o material só não acumula porque simplesmente deixo passar. E porque criei mecanismos pra atender certa demanda própria. Um delas é uma lista semestral com cinquenta discos nacionais no Bandcamp pra pessoas ouvirem, conhecerem, baixarem de graça. Discos de banda que saem do eixo Rio-SP, mostrando que tem muita coisa sendo produzida no Brasil afora, mas que não recebe a atenção mínima. Mesmo assim… sim, fica muita coisa sem eu dar a atenção que gostaria. Infelizmente. Eu precisaria de uma equipe muito grande pra dar vazão. E gostaria de pagar pra essa equipe, o que evidentemente é impossível.
Pensa em mais algo além do site? Tem vontade de criar um canal no YouTube ou algo assim? Não. Já tive um podcast com a Amanda Mont’Alvão, do Sounds Like Us, e com o Elson Barbosa, da gravadora Sinewave. Era o O Resto É Ruído, mas o podcast entrou numa hibernação prolongada e era a única coisa fora do Floga-se pra falar de música. Faria outro podcast, mas tem que ser com as pessoas certas, gente bacana como a Amanda e o Elson, e sobre mais do que música, sobre política também. O Floga-se é um site que fala muito sobre política, tentando analisar obras por um olhar político-social atual e tem funcionado com muito gosto pra mim. Só que acho essa pegada de um cara falando pra câmera , derramando opiniões, um negócio muito egocêntrico, sei lá, não funcionaria jamais comigo. Sou do bate-papo, do debate, da discussão.
Cultura Pop
Urgente!: E agora sem o Ozzy?

Todo mundo que um dia se sentiu meio estranho e ouviu Ozzy Osbourne na hora certa, foi levado para um universo bem melhor, e para sempre. Tudo começou com uma banda, o Black Sabbath, que já era um verdadeiro errado que deu certo – um ET musical que fazia som pesado quando mal havia o termo “heavy metal” e que falava de terror na ressaca do sonho hippie. E prosseguiu com a lenda de um sujeito que gravou álbuns clássicos como Blizzard of Ozz (1980), Diary of a madman (1981) e No more tears (1991) – eram quase como filmes.
Ozzy pode ser definido como um cara de sorte – e também como um cara que abusou MUITO da sorte, mas pula essa parte. A depender daqueles progressivos anos 1970, não havia muito o que explicasse o futuro de Ozzy Osbourne na música. Em várias entrevistas, Ozzy já disse que não sabia tocar nenhum instrumento quando começou – na verdade nunca nem chegou a aprender a tocar nada. Tinha a seu favor uma baita voz (mesmo não ganhando reconhecimento algum da crítica por isso, Ozzy sempre foi um grande cantor), um baita carisma, ouvido musical e a disposição para encarnar o estranho e o inesperado no palco em todos os shows que fazia.
Imortalizada em livros como a autobiografia Eu sou Ozzy, a história de Ozzy Osbourne é um daqueles momentos em que a realidade pode ser mais desafiadora que a ficção. Afinal, quem poderia imaginar que um garoto da classe trabalhadora britânica se tornaria o que se tornou? Talvez tenha sido até por causa das dificuldades, que também moveram vários futuros rockstars ingleses da época – ou pelo fato de que o rock e a música pop do fim dos anos 1960 ainda eram quase mato, universos a serem desbravados, com poucos parâmetros. Seja como for, se hoje há artistas de rock que se dedicam a discos e a projetos que parecem ter saído da cabeça de algum roteirista bastante criativo, Ozzy teve muita culpa nisso.
Fora as vezes que o vi no palco, estive frente a frente com Ozzy apenas uma vez, numa coletiva de imprensa do Black Sabbath – da qual Tony Iommi não participou, por estar se recuperando de uma cirurgia (havia tido um câncer). Seja lá o que Ozzy pensasse da vida ou de si próprio, me chamou a atenção o clima de quase aconchego da sala de entrevistas (acho que era no hotel Fasano): um lugar pequeno, com ele e Geezer Butler (baixista) bem próximos dos repórteres. Que por sinal não eram inúmeros.
Já havia feito entrevistas internacionais antes mas nunca imaginei estar tão perto de uma lenda do rock que eu ouvia desde os doze anos. Fiz uma pergunta, ele respondeu, e eu, que sempre fiquei nervoso em entrevistas (imagina numa coletiva com o Black Sabbath!) voltei pra casa como se tivesse ido cobrir um buraco que apareceu numa rua no Centro. Não que não tenha me dedicado à pauta, mas era o Ozzy e eu estava… numa tranquilidade inimaginável.
Ozzy também já me deu uma entrevista por e-mail, em 2008, em que reafirmou sua adoração por Max Cavalera, disse que não tinha ideia se a série The Osbournes havia levado seu nome a um novo público, e reclamou da MTV, “que virou uma versão adulta da Nickelodeon”. Também disse que nunca diria nunca a seus então ex-companheiros do Black Sabbath (“nos falamos por telefone e quando as agendas permitem, nos encontramos”).
Nesse papo, Ozzy só se irritou quando fiz uma pergunta que envolvia o Iron Maiden, que tinha passado recentemente pelo Brasil, ou estaria vindo – não lembro mais. “Bom, não sei te responder, pergunta pro Iron Maiden!”, disse, em letras garrafais (todas as respostas foram em caixa alta). Lembro que ri sozinho e fui bater a matéria.
Até hoje só acredito que isso tudo aí aconteceu (e não é nada perto do que uns colegas viveram com Ozzy e o Black Sabbath) porque vi as matérias impressas. Mas acho que antes de tudo, consegui humanizar na minha mente um cara que eu ouvia desde criança. Ozzy era de carne e osso, respondia perguntas, tinha lá seus momentos de irritação e, enfim, mesmo tendo o fim que todo mundo vai ter, viveu bem mais do que muita gente. E mudou vidas.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Divulgação
Crítica
Ouvimos: Justin Bieber – “Swag”

RESENHA: Swag, novo disco-surpresa de Justin Bieber, mistura lo-fi, trap e synth pop com vibe indie e desleixo calculado. Musicalmente rico, mas com letras rasas.
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Justin Bieber opera hoje num universo de, vamos dizer assim, venda fácil e compreensão difícil. Ser um cantor branco de r&b significa basicamente que você vai ter que fazer shows, gravar discos e existir no show business, de modo geral, no limite da polêmica. Afinal, tanto r&b quanto rap são áreas de artistas negros, ligadas a um histórico que se estende ao soul, e a vivências pessoais – e o mundo mudou o suficiente para que o mercado quase entenda o peso de certas coisas.
Por quase entenda, leia-se que, na maioria dos casos, tudo pode ser resolvido por uns posts nas redes sociais e uma tour pelos lugares certos, com as pessoas corretas. Mas pra piorar um pouco, nos últimos tempos, Justin andava brotando mais no noticiário de fofoca do que nos cadernos de cultura. As notícias eram sobre cancelamentos de shows, brigas com a mulher Hailey, relacionamentos supostamente mais do que íntimos com o rapper P. Diddy e supostos abusos de substâncias.
E, bom, o que faz um astro como Justin Bieber numa hora dessas? Para calar a boca de uma renca de gente durante um bom tempo, ele simplesmente lança um disco novo do mais absoluto nada – e este disco é Swag, uma epopéia de quase uma hora, com 21 faixas. E antes de mais nada, Swag consegue colocar de vez Justin numa espécie de “espírito do tempo” pop no qual artistas como Taylor Swift, Rihanna, Beyoncé e Miley Cyrus já se encontram há um bom tempo.
Esse tal (hum) zeitgeist significa que tais artistas – seguindo uma linhagem que inclui de Beatles a Marvin Gaye – decidiram se libertar de amarras para fazerem o que bem entendem. Ou seja: discos de protesto, álbuns com design musical troncho, feats que os fãs vão estranhar, projetos com produtores pino-solto, singles com referências que o fã-clube vai ter que buscar no Google, lançamentos com fotos de divulgação distorcidas – ou capas no estilo meu-sobrinho-fez.
De modo geral, são artistas que podem se dar ao luxo de perder alguns fãs, em nome de verem seus álbuns se tornarem (vá lá) pretensos barômetros do nosso tempo, ou pelo menos crônicas pessoais-autoficcionais. Alguns exemplos: Brat, de Charli XCX, trouxe a zoeira da noite de volta. Hit me hard and soft, de Billie Eilish, foi importante na onda de música sáfica. GNX, de Kendick Lamar, explora misérias existenciais e brigas no showbusiness. Vai por aí. Fazer disco com “desencucação” virou, mais do que nunca, coisa de roqueiro – aposto que você se divertiu muito com Cartoon darkness, de Amyl and The Sniffers, e ficou assustado/assustada com as teorias geradas por Brat.
Se a essa altura do meu texto você já está prestes a desistir de ler, por eu ainda não ter dito se Swag vale seu tempo precioso, aqui vai: vale, e muito. Justin já vinha de uma tradição de álbuns ligadíssimos na atualidade – o melhor deles é Purpose, de 2015. Swag tem um subtexto de “libertação”, já que Bieber acaba de dar adeus a seu empresário de vários anos, Scooter Braun (um adeus que vai lhe custar mais de 30 milhões de dólares, por sinal). E traz o cantor investindo em climas lo-fi, sons texturizados, vibes derretidas e muita coisa que virou moda de uma hora para a outra.
O G1 disse que Swag é um disco chato. Eu discordo bastante, mas o The Guardian chegou perto da realidade ao dizer que as letras prejudicam o novo álbum – de fato, a poética de Swag tem a profundidade de um pires. Já musicalmente, a diversão é garantida até para quem nunca ouviu nada do cantor. Bieber e sua turma de produtores e parceiros transformam trap e sons lo-fi em pop adulto, em faixas muito bem feitas e bem acabadas, como All I can take, a estilingada Daisies, o bedroom pop Yukon e a viajante Go baby.
O design musical de Swag é minimalista, e boa parte das músicas têm aquele clima de desleixo estudado do indie pop atual. Things you do tem guitarras decalcadas do The Police e silêncios entre vozes e sons, Butterflies é uma gravação quase caseira que vai crescendo, e faixas como First place, Way it is, Sweet spot e Walking away unem synth pop, modernidades, sons derretidos e tentativas de emular Michael Jackson.
Já Dadz love, com o rapper Lil B, evoca Prince, com tecladeira dos anos 1980 e texturas de 2025. A vibe dos Rolling Stones, e das voltas do grupo britânico em torno do soul e do r&b, dáo as caras em Devotion e na vinheta Glory voice memo. Uma curiosidade é o trap da faixa-título, com participações de Cash Cobain e Eddie Benjamin, e um verso proscrito sobre cocaína (“seu corpo não precisa / de nenhuma linha prateada”) que aparentemente só o Spotify transcreveu.
Vale dizer que, tentando tomar de volta o controle da própria narrativa, Justin derrapa feíssimo ao decidir colocar em Swag três diálogos com o comediante negro norte-americano Druski. Num deles, o humorista diz a ele que “sua pele é branca, mas sua alma é negra, Justin” (o cantor só responde um “obrigado” desajeitado) – em outro, o assunto inclui paparazzi e redes sociais. No final, quem ouve o disco inteiro é “premiado” com a estranhíssima presença do cantor gospel Mavin Winans ocupando sozinho a última música – o cântico religioso Forgiveness.
Enfim, é Bieber buscando legitimidade para o autoperdão e para a própria carreira de cantor branco de r&b – e mandando recados de maneira tão desajeitada que Swag, um excelente disco, quase rola escada abaixo. Swag não resolve todas as questões em torno de Justin Bieber – mas quando acerta, lembra que, às vezes, é melhor fazer do que explicar.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Def Jam
Lançamento: 11 de julho de 2025
Cultura Pop
Urgente!: Nova do Hot Chip, “DVD” do Oasis em Cardiff, The Rapture de volta com turnê

RESUMO: Hot Chip (foto) anuncia coletânea e lança single e clipe. Fã produz vídeo do primeiro show do Oasis em Cardiff só com imagens feitas por fãs. The Rapture anuncia turnê pelos Estados Unidos e Canadá.
Texto: Ricardo Schott – Foto Hot Chip: Louise Mason/Divulgação
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Vai sair pela primeira vez uma coletânea do Hot Chip, Joy in repetition, prevista para 5 de setembro. Vale até a pergunta que muita gente já se fez: qual a importância de coletâneas nessa época de playlists e aplicativos de música com poucas infos? Bom, a importância de uma boa coletânea de hits é enorme, vale por uma setlist bem montada e pode contar uma história. E elas eram as playlist de duas décadas atrás.
No caso de Joy, ela traça o caminho do Hot Chip do tempo dos cachês baixos até a época em que jornais como The Guardian já estavam classificando Alexis Taylor, Joe Goddard, Owen Clarke, Al Doyle e Felix Martin como o maior grupo pop de seu tempo. E entre hits como Ready for the floor, I feel better e Look at where we are, ainda tem uma música nova de altíssimas proporções de grude: Devotion, já lançada em single, que é uma mescla de pop adulto, eletrônica psicodélica e futuro hit de pista, com clipe gravado no Japão.
Taylor rasga seda: Devotion é “uma celebração da devoção a este projeto coletivo”. E ele ainda faz um baita elogio ao colega Joe Goddard: “Penso no Joe como alguém parecido com o Brian Wilson, com uma dedicação enorme em descobrir como criar a música pop mais incrível possível”. Errado não está.
***
Alguém com (felizmente, não estamos julgando) muito tempo livre pegou varias imagens diferentes do primeiro show do Oasis em Cardiff, feitas por fãs da banda, e compilou um (digamos) DVD do show.
O registro tá o mais fiel possivel, apesar das imagens à distância e do som nem sempre maravilhoso – vale como um belo bootleg das antigas. Tem ate o som da fitinha de Fuckin in the bushes na abertura, e a voz do apresentador do show. Detalhe: quem botou o video no ar tentou se livrar de problemas avisando que o video nao é monetizado. Pode ser que não ganhe strike do YouTube. “É de um fã apenas para fãs”, avisa.
***
E ainda Oasis: vale ler o texto de Liv Brandão, fera do jornalismo musical brasileiro recente, sobre como a setlist do show do Oasis não foi apenas uma setlist. Foi uma aula de storytelling daquelas – como numa (olha aí) coletânea daquelas que vinham com textos contextualizando tudo.
“Muito se falou da escolha das canções, que privilegia os dois primeiros álbuns, como se só eles importassem (…). Mas tão especial quanto a seleção das 24 músicas que compõem o set, idêntico nos dois dias, é a ordem em que elas aparecem, montada para contar a história de quando o Oasis foi a maior banda do mundo – justamente na época desses discos – e tudo o que aconteceu desde então”. Leia o restante na newsletter dela
***
Banda importante do dance punk dos anos 2000, The Rapture voltou, mas não há ainda nenhuma novidade a respeito de disco novo – nem de shows no Brasil, já avisamos. Na real, esse grupo novaiorquino já está de volta desde 2019, com o cantor Luke Jenner como único membro fixo, mas não havia retornado de fato. Fizeram alguns shows, mas pararam as atividades por conta da pandemia, e foi só. Dessa vez, o grupo tem uma turnê de verdade pela frente, que começa dia 16 de setembro no mitológico First Avenue, em Minneapolis, e passa por várias cidades dos EUA e Canadá até novembro.
“Anos atrás, quando me afastei da banda, eu precisava de tempo e espaço para reconstruir minha vida”, conta Jenner sobre a volta, sem comentar diretamente sobre as brigas intermináveis que a banda tinha lá por 2014. “Eu precisava consertar meu casamento, estar presente para meu filho e, por fim, trabalhar em mim mesmo. Esta turnê marca um novo capítulo para mim, moldado por tudo o que vivi e aprendi ao longo do caminho. Conquistei tudo o que esperava alcançar através da música e agora posso usá-la para ajudar qualquer pessoa que talvez precise, como eu precisei naquela época”.
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