Cultura Pop
E as bandas marciais descobrem White Rabbit, do Jefferson Airplane

White rabbit, um dos maiores clássicos da história do rock, baseou-se – você deve saber – nas aventuras meio psicodélicas do livro Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol. A canção escrita e cantada por Grace Slick no disco Surrealistic pillow (1967), de sua banda Jefferson Airplane, fez bastante sucesso. E o JA, num daqueles cavalos de pau bizarros que a vida dá, tornou-se uma banda extremamente popular. Embora (e talvez por causa disso) preferisse cantar sobre anarquismo, revolução, drogas e temas anti-guerra.

Mas não era só o público da banda (imenso a ponto do grupo lançar de dois a três LPs por ano) que estava de olho neles, não. O ano de 1968 já tinha passado por tensões suficientes (Guerra do Vietnã, mortes de Martin Luther King e Robert Kennedy, AI-5 no Brasil, ditaduras em torno da América Latina) quando, em novembro, Richard Nixon foi eleito presidente dos EUA. Aliás, no ano seguinte o republicano iniciaria uma política de combate às drogas que marcou época na cultura pop. Especialmente quando a briga chegou até mesmo na capa da Time, a revista mais popular entre leitores mais velhos e conservadores.
DROGAS TÔ FORA
Publicada na edição de 24 de setembro, a matéria Drogas e a juventude, usando estatísticas tiradas dos mais fundos recônditos de sabe-se lá que editor, apontava que “90% dos jovens presentes ao festival de Woodstock” (realizado em agosto de 1969) “fumaram abertamente maconha, trazendo a cultura juvenil da droga para um novo apogeu”. Em seguida, a reportagem entregava que astros do rock usam drogas desde sempre. Além disso, afirmava que “desde os Beatles, com With a little help from my friends“, a cultura pop é crivada de referências a substâncias ilícitas.
Em seguida, Nixon passou a realizar bate-papos na Casa Branca sobre drogas e juventude. A ideia era traçar planos estratégicos com líderes congressistas, com a finalidade de pôr os temas na mira. Até que o apresentador de TV Art Linkletter esteve com o presidente numa dessas reuniões. Art, cuja filha havia se suicidado (o culpado, acreditava o pai, era o uso de LSD), bateu um longo papo com o presidente. E aproveitou para explicar sobre como o Top 40 das rádios, se ouvido minuciosamente, poderia transformar qualquer jovem incauto num ser vegetativo, drogado até a medula. Afinal, havia profusão de letras com expressões como “viajar”, “eu fico alto”, etc.
VACILÃO CONTRA AS DROGAS
Quem também tinha interesse pessoal na guerra às drogas era o vice-presidente de Nixon, Spiro Agnew, um dos principais cães-fila do governo quando o assunto era atacar frontalmente os inimigos. Agnew, um sujeito tão bem-falante e articulado quanto vacilão (em 1973, foi investigado por crimes como conspiração criminosa e suborno, e renunciou ao cargo), chegou a passar horas e horas ao lado de Nixon, na finaleira de 1969, desvendando filmes que reproduziam viagens de ácido e ouvindo discos que estavam nas paradas. A ideia da dupla era pinçar referências a drogas, bem como tentar entender que bicho se passava nas cabeças das novas gerações. Mas além desse monitoramento, Agnew fez, em setembro de 1970, um discurso espalhando brasa para as indústrias do cinema e da música.
A arenga de Agnew ficou bem popularizada. Aliás, foi declamada na frente de 1.200 republicanos num hotel em Las Vegas, reunidos para um jantar de arrecadação de fundos. Entre os temas, o vice deitou falação sobre canções como With a little help from my friends (Beatles) e White rabbit (Jefferson Airplane). Segundo o notável, ambas as canções tinham o objetivo de fazer uma “lavagem cerebral” na cabeça das crianças e jovens.
Spiro também queixou-se dos desencaminhadores jornais underground (muito populares entre a juventude). E disparou contra “um certo filme em que dois jovens se acham capazes de viver uma vida despreocupada graças ao produto ilegal das drogas” (Easy rider, possivelmente). Por acaso, quando Jimi Hendrix e Janis Joplin morreram, nesse mesmo ano, viraram verdadeiros troféus para essa turma toda, na base do “que isso sirva de aviso pra vocês”.
PERA, E A GRACE SLICK? E O JEFFERSON AIRPLANE?
Ao mesmo tempo, curtindo um sucesso que parecia não ir embora nem mesmo com as mudanças constantes no line-up da banda, o Jefferson Airplane não estava tão alheio assim aos acontecimentos envolvendo sua música. Em 1970, a Do It Now, organização anti-abuso de drogas da Califórnia, convidou Grace Slick para gravar um spot de rádio. A cantora topou fazer uma paródia da própria White rabbit em que incluía o verso “se você tomar speed (tipo de anfetamina), você não chegará lá de jeito nenhum, porque você estará morto”.
Aliás, White rabbit sobreviveu através dos tempos e chegou até o movimento punk, numa versão de tom quase gótico feita pelo The Damned.
Os rolldrums incluídos na abertura da versão do The Damned, um pouco mais retos que o do original, inspiraram uma turma enorme ao redor do mundo. Afinal, muitas escolas por aí afora acharam que White rabbit era uma música excelente para ser tocada por bandas marciais. Olha aí uma turminha animada da Universidade de Wisconsin tocando a música.
A Golden Band do Universidade do Estado da Louisiana caprichou na versão.
DEU RUIM
A coisa já não deu tão certo quando a Panther Pride Marching Band (pertencente a uma escola de O’Fallon, cidade do Missouri, a Fort Zumwalt North High School) resolveu fazer sua própria versão marcial de White rabbit. Em outubro de 1998, o site da MTV avisou que a banda tinha sido proibida pelos diretores da instituição de tocar a música numa competição. Apesar de a banda tocar White rabbit em versão instrumental, os diretores consideraram a letra ofensiva (!) porque falava de drogas, e cortaram a música.
Os pais reclamaram que a proibição, feita por um superintendente, rolou sem total aprovação do conselho consultivo, e houve também proibição, no dia do desfile, do uso das bandeiras que os pais dos membros da banda haviam costurado. Como a letra de White rabbit falava em “você acabou de comer algum tipo de cogumelo, e sua mente está se movendo para baixo”, tinha um cogumelo numa das bandeiras, o que deixou o superintendente bem puto da vida. A Panther Pride, que vinha ensaiando diariamente a música, acabou perdendo a batalha de bandas. Um diretor da American Family Association chegou a dizer que o JA e outras bandas promoviam a “religião do satanismo”, etc.
Enquanto você pensa sobre o assunto, pega aí o clipe de White rabbit (sim, não tinha nem MTV, mas a música tinha clipe).
Com informações de Pop History Dig
Veja também no POP FANTASMA:
– O rooftop concert do Jefferson Airplane, em 1968
– Grace Slick cantando White rabbit: só os vocais!
– O dia em que Grace Slick falou “fuck” na televisão
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.
Cultura Pop
R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

No dia 31 de maio de 1982, a gravadora I.R.S. enviava um press release avisando que havia assinado com o R.E.M., “uma banda de Athens, Georgia, aclamada pela crítica”. E já anunciava que no dia 26 de agosto sairia o EP Chronic town, com as faixas 1,000,000, Stumble, Wolves, lower, Gardening at night e Carnival of sorts (Boxcars). A foto de imprensa, em preto e branco, trazia Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo), Bill Berry (bateria) e Michael Stipe (vocais) com visual pós-adolescente.
“O EP vai ser seguido por um álbum no ano que vem. O R.E.M. planeja fazer uma turnê pelo Oeste do país durante o verão, seguida pelos estados da Costa Leste e do Canadá durante o Outono”, avisava a gravadora, oferecendo também o contato da empresária Betsy Alexander, primeira pessoa a cuidar profissionalmente do grupo, ajudando em contatos, logística e gestão. O release só errava na ordem das músicas do EP, que possivelmente ainda não estava decidida (Chronic town também saiu dividido em duas partes, com lado A nomeado Chronic town e lado B com nome Poster torn)
O contrato era de longo prazo e previa cinco discos – ou seja, tudo que saiu do grupo até Life’s rich pageant, o quarto álbum, de 1986. Depois disso, o grupo renegociou e lançou o quinto disco, Document, de 1987 – mas acabou migrando para a Warner e terminando o contrato com a coletânea Eponymous (1988).
A I.R.S. tinha sido criada em 1979 por Miles Copeland III, irmão de Stewart Copeland, baterista do The Police. O selo vinha da cena punk/new wave britânica e funcionava como uma espécie de ponte entre o underground e uma estrutura profissional de distribuição via A&M (a gravadora do Police, por acaso).
Na época em que o R.E.M. assinou, a I.R.S. já tinha grupos como Wall of Voodoo, Oingo Boingo, The Go-Go’s e The English Beat. Era um selo muito ligado a college radio, pós-punk, new wave e à ideia de independência artística. Depois, virou praticamente sinônimo do rock universitário americano dos anos 1980 por causa do próprio R.E.M.
A entrada da banda na gravadora aconteceu muito por conexões da cena. O empresário/agente Ian Copeland, irmão de Miles e Stewart, já acompanhava o grupo desde os primeiros shows em Athens. O baterista Bill Berry tinha trabalhado para Ian em Macon como roadie e serviços-gerais, e mantinha contato com ele. Isso ajudou o R.E.M. a conseguir shows de abertura para bandas maiores, como The Police e Gang of Four, até chamar atenção da I.R.S.
E olha o post comemorativo do R.E.M. aí.
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Cultura Pop
George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube
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“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).
O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).
Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.
A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.
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A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.
Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.
Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.
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