Se você está assustado de ver como, da década passada para cá, todo mundo passou a gostar da arte da capa de Unknown pleasures, primeiro disco do Joy Division (1979), imagina Peter Saville, autor do design. Ele contou a história da capa e dividiu um pouco dos seus assombros com o sucesso do design no vídeo abaixo (infelizmente está em inglês sem legendas). O designer já viu cinzeiros (!), tênis e coleções de moda com a capa do disco.

O Washington Post também bateu um papo com Peter e descobriu que no que dependesse da vontade inicial da banda, o fundo da capa de Unknown pleasures poderia ser branco em vez de preto. A Enciclopédia de Astronomia de Cambridge, na qual o guitarrista Bernard Sumner encontrara o desenho (que é uma visualização de dados que “mostra uma série de períodos de radiofrequência do primeiro pulsar a ser descoberto”), trazia a ilustração nessa cor. Saville não quis nem saber e fez a capa em branco sobre preto mesmo.

Como a capa de Unknown Pleasures, do Joy Division, virou essa Coca-Cola toda
No lado B do vinil original de Unknown pleasures, o desenho saiu com fundo branco mesmo

“Eu estava convencido de que soaria mais sexy em preto. Esta é uma energia de rádio do espaço. O espaço é negro”, afirmou ao Washington Post.

O Washington Post lembra que muito da redescoberta (ou até da descoberta) da capa e da transformação da arte de Unknown pleasures em algo tão icônico quanto a vaca de Atom heart mother, do Pink Floyd, veio da redescoberta do pós-punk na década passada – ou seja, do aparecimento de bandas como Strokes e The Killers. Em 2003, o estilista belga Raf Simons fez com Saville uma linha de outono-inverno chamada Closer (mesmo nome do segundo disco do Joy Division), com blusas de malha, jaquetas de couro preto e várias outras peças com a imagem da capa do álbum.

Depois, entre peças oficiais licenciadas pela Warner e muito material bootleg, todo mundo passou a gostar da capa do disco. Rolou até aquilo ali, da foto lá de cima: um designer chamado Adam J. Kurtz pegou a ilustração de Unknown pleasures, imprimiu numa camiseta e escreveu: “O que é isso? Vi no Tumblr”. Kurtz jura que nunca escutou o disco inteiro. E as vendas da camiseta o ajudaram a pagar um monte de dívidas. Adam é também o autor de um livrinho chamado Uma página de cada vez, lançado até aqui no Brasil.

Ainda teve isso: em 2012, a Disney resolveu vender uma camiseta que fazia um mash-up do Mickey Mouse com a capa do LP. Ficou bem pouco tempo na loja da Disney e deixou todos os ex-integrantes da banda bem putos, porque ninguém foi consultado a respeito.

“Fiquei muito bravo quando vi pela primeira vez. Ninguém nos pediu autorização. Eles mexerem na capa do nosso álbum, mas achavam que se safaram dizendo que o design foi inspirado na gente. Eu não gosto muito do design. É horrível. Não posso imaginar nenhum fã da Joy Division usando um troço desses”, disse o batera do JD e do New Order, Stephen Morris, ao Manchester Evening News, assim que bateu o olho no desenho (se quiser tentar adquirir uma camisa dessas, ainda dá pra achar no eBay).

Possivelmente alguém levou um baita esporro na Disney por ter feito uma caldeirada um tanto quanto indigesta para o público infantil, sustentáculo da empresa: o personagem mais icônico da marca, misturado com um dos discos mais icônicos do pós-punk, feito por uma banda liderada por um músico suicida. No papo com o Washington Post, a especialista em memes Joelle Bouchard até se assusta com a descontração de alguns memes ligados ao disco. Chegou a mostrar alguns ao repórter que eram bastante engraçados e estavam longe pra burro do que poderia representar um disco com músicas com nomes como Desordem, Ela perdeu o controle e Não me lembro de nada. “A capa transcende a internet, as tendências e qualquer outra subcultura”, diz Joelle.