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Cultura Pop

Clipes estrangeiros pré-MTV: descubra agora!

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Clipes estrangeiros pré-MTV: descubra agora!

Antes de ter a MTV como principal opção para ouvir música na televisão (isso rolou a partir de 1º de agosto de 1981, há quase quarenta anos), o mercado de clipes, ou promos, como esse tipo de material já foi chamado, não era um troço tão quente assim.

O hábito de pegar uma câmera e filmar um artista cantando uma música servia para alavancar as vendas de singles, para dar ao público um pouco mais do que havia no disco, ou para levar à música de artistas conhecidos um estilo até bem mais próximo dos curtas-metragem. Não havia exatamente uma linguagem de clipes, como a que começaria depois com a MTV. Embora houvesse tentativas disso.

E, opa, os promos feitos entre os anos 1960 e 1970 têm uma linguagem cinematográfica que ainda influencia bandas e artistas novos, e era bastante imitada mesmo no auge da MTV. Vários deles, inclusive, eram dirigidos por grande documentaristas. Ou eram feitos especialmente para a televisão, mas com o pensamento voltado para atrações como Top of the pops e Ready, steady, go!

Com a ajuda de amigos e leitores do POP FANTASMA fizemos uma listinha de 19 clipes estrangeiros lançados bem antes de 1º de agosto de 1981 que você precisa ver. Pode começar a maratonar já!

“GO NOW” – MOODY BLUES (1964). A banda britânica, considerada pioneira do rock progressivo, geralmente nem é citada quando se fala de proto-clipes. Mas mereciam: o vídeo deles para o melancólico single Go now, dirigido pelo empresário Alex Murray, tem até lá seus cruzamentos de bigodes com o de Bohemian rhapsody, do Queen, com os integrantes da banda na penumbra (mas em preto e branco).

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“SUBTERRANEAN HOMESICK BLUES” – BOB DYLAN (1965). Filme (é um filme, ora bolas) feito pelo cineasta D.A. Pennebaker para aparecer no documentário Dont look back. Dylan teve a ideia de fazer fichas com trechos da letra (a caligrafia dos cartões foi feita por amigos como o poeta Allen Ginsberg, e ele até aparece no clipe) e lá foram ele e Pennebaker filmar num beco perto do luxuoso Savoy Hotel, em Londres.

“THESE BOOTS ARE MADE FOR WALKIN’” – NANCY SINATRA (1966). Filmado um ano após o lançamento da música, o clipe teve produção mega: foi realizado no Paramount Studios, em Hollywood, e ajudou a alavancar mais ainda não apenas a canção, mas a coreografia dela (graças às várias dançarinas convidadas). E na hora de lançar? Além da TV, o filme foi aproveitado no próspero negócio de máquinas Scopitone (uma espécie de jukebox de clipes).

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“RAIN”, BEATLES (1966). Por causa desse filme e do de Paperback writer, George Harrison costumava dizer que os Beatles “inventaram a MTV”. Na verdade, inventaram o hábito de fazer várias versões para o mesmo clipe, já que Rain teve três clipes, todos dirigidos por Michael Lindsay-Hogg. Num dos mais populares, os quatro parecem saídos da contracapa do LP Revolver (1966). Paul, que tivera um acidente de moto, aparece com um dente quebrado.

“ARNOLD LAYNE”, PINK FLOYD (1967). Existem duas versões para o clipe dessa faixa. A oficial (a “da praia”) foi feita para o Top of the pops, cancelada devido às baixas vendagens do grupo, e depois recordada justamente na era da MTV. A segunda foi filmada perto da Igreja de St Michael, em Highgate. E deixa uma sensação amarga: Syd Barrett, perto de ser abandonado pelo grupo, protagoniza cenas de luta com o futuro líder da banda, Roger Waters, e dubla a canção olhando fixo para a câmera, com olhar triste.

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“WE LOVE YOU” – ROLLING STONES (1967). Não é magia, é psicodelia. Os Stones chamaram o diretor Peter Whitehead para fazer uma espécie de curta surrealista tendo como tema o entra-e-sai de tribunais que a banda enfrentava na época. Mick Jagger aparece julgado e acorrentado, Keith Richards fantasia-se de juiz e a então namorada de Mick, Marianne Faithfull, em participação especial, leva o tal tapete de pele com o qual ela aparecia vestida nas fotos dos tabloides, na batida policial na casa do guitarrista.

“LIFE ON MARS?” – DAVID BOWIE (1973). Com Bowie já devidamente nos braços do povo, a RCA lançou o single de Life on mars? (do disco Hunky dory, lançado dois anos antes) e o diretor Mick Rock foi convocado para colocar em imagens e cores toda a melancolia da música. Antes da remexida que Mick deu em 2016, o clipe trazia imagens das plateias de Bowie enxertadas em alguns momentos. Foi redescoberto pela MTV anos depois.

“MIND GAMES” – JOHN LENNON (1974). Filmado um ano após o lançamento do disco de mesmo nome, o vídeo de Mind games emociona qualquer lennonmaníaco: traz um dia feliz na vida do beatle, que anda pelo Central Park, atende fãs, alimenta elefantes no zoológico, faz uma visitinha ao Marquee Club e dança em frente às câmeras.

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“BOHEMIAN RHAPSODY” – QUEEN (1975). Tem quem considere esse o primeiro clipe, feito com linguagem de clipe, com suporte de clipe (vídeo) e já pensando em TV. Em 1975, em plena turnê, o Queen estava sem tempo de ir ao Top of the pops dublar seu hit mais recente, Bohemian rhapsody. Mas resolver “ir” ao programa sem ir e mandou o vídeo. O quarteto usou seu estúdio de ensaios, um caminhão de externa, os serviços do diretor Bruce Gowers (que já havia feito um vídeo da banda no Rainbow Theatre em 1974) e gastou pouco mais de quatro mil libras para fazer o clipe (er, promo) da faixa, feito em 10 de novembro de 1975 durante quatro horas.

“DANCING QUEEN” – ABBA (1976). A banda formada pelos dois casais (que, você deve saber, se separaram e já viviam às turras no auge do sucesso) percebeu logo a importância não apenas dos filmes musicais, como também de olhar no olho dos fãs enquanto cantavam as músicas. Por mais que o ABBA não pudesse ir a todos os países que amavam seu som, eles estavam “lá” sob o formado de protoclipes. O de Dancing queen virou clássico instantâneo.

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“CRACKERBOX PALACE” – GEORGE HARRISON (1977). Filmado nas dependências da enorme mansão gótica de Harrison, Friar Park, parece uma comédia dirigida por Kenneth Anger, se é que isso é possível. O beatle contou com a direção de Eric Idle (Monty Python), a participação de Neil Innes (também um phyton) e de vários atores convidados. Olivia, sua futura esposa, aparece rapidinho. Serviu como celebração da união do beatle com o grupo de humor.

“(I CAN’T GET NO) SATISFACTION” – DEVO (1978). A ideia de regravar o clássico dos Stones surgiu na vida do Devo de maneira inusitada – a banda começou a tocar e tentou encaixar Paint it black, outra música de Jagger & Richards, na melodia, mas não conseguiu. Sobrou pra Satisfaction. A dança maníaca (e perigosa) do clipe contou com participação especialíssima do dançarino Craig Allen Rothwell, o popular Spazz Attack. A MTV deve muito a isso.

“STAYIN’ ALIVE” – BEE GEES (1978). O trio convidou o mesmo diretor do clipe de Bohemian rhapsody, Bruce Gowers. O diretor fez logo dois. O primeiro trazia a banda andando pelas ruas cenográficas do MGM Studios em Culver City, Califórnia. O cenário era o mesmo onde eles já estavam filmando o super-fracasso Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, produção da mesma gravadora da banda, RSO. O segundo foi feito em estúdio, com imagens que lembram vagamente as mesmas feitas pelo diretor para o clipe de Bohemian rhapsody, e um enxerto de imagens das ruas de Nova York (que também passaram por um grafismo psicodélico de araque).

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“HEART OF GLASS” – BLONDIE (1978). O grupo da loura Debbie Harry contratou o diretor David Mallet para fazer um clipe para cada faixa do disco Eat to the beat (1978). O de Heart of glass fez o Blondie ficar cada vez mais popular e provou que ex-punks faziam dançar e cabiam bem no espaço de uma discothéque (com direito a globo de luz rodando). Detalhe: a banda queria aparecer dançando e foi proibida de se mexer pelos diretores. Isso explica que até mesmo Debbie pareça pouco à vontade no palco, usando um vestido desenhado pelo fashionista Stephen Sprouse.

“WUTHERING HEIGHTS” – KATE BUSH (1978). Mais um clipe com duas versões: a primeira com a cantora numa sala escura, com um vestido branco; a segunda com a cantora entre pinheiros e gramados, usando um vestido vermelho. O primeiro clipe, repleto de efeitos especiais, virou meme: a coreografia era imitada pelos fãs, e a plástica do vídeo ajudou a sedimentar a primeira linguagem de MTV da qual se tem notícia.

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“I WILL SURVIVE” – GLORIA GAYNOR (1978). O grande hit da disco, o grande hit LGBTQIA+ associado ao estilo. Foi filmado na discoteca Xenon, de Nova York, com participação de um patinador do grupo The Village Wizards. Um texto do site Pitchfork chama a atenção para o fato de que Gloria parece bastante solitária no clipe. “Como o vídeo mostra, as discotecas serviam também como um ambiente de auto-fortalecimento, reforçado pela gloriosa sensação de solidão em meio a uma multidão elétrica de estranhos”, diz o texto.

“I WANNA BE YOUR LOVER” – PRINCE (1979). Com pouca roupa, cabelos alisados e visual andrógino, Prince fez duas versões desse clipe. Na principal, ele dança e canta, usando uma camisa desabotoada. O segundo vídeo trazia Prince ao lado de sua banda, mas acabou banido porque as emissoras de TV acharam que o cantor estava com menos roupa ainda.

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“COMING UP” – PAUL McCARTNEY (1980). Lançado no Saturday Night Live (EUA), no Kenny Everett Show (Inglaterra), e no Fantástico (aqui no Brasil), o clipe mostra Paul interpretando dez personagens e sua esposa Linda interpretando dois backing vocalistas. Paul, que tocou todos os instrumentos na faixa, encartou várias imitações de músicos de rock, como John Bonham (bateria), Buddy Holly (guitarra) e Ron Mael (teclados), além de interpretar um “Paul” da era beatle.

“ASHES TO ASHES” – DAVID BOWIE (1980). A canção que “enterrou os demônios” de Bowie e ajudou o cantor a ficar em paz com o passado ganhou um clipe que é considerado o mais caro de todos os tempos (250 mil libras). Trouxe Bowie acompanhado de figurinhas da cena do clube londrino Blitz, pôs o movimento new romantic na linha de frente e fechou um ciclo na vida do cantor – que retornaria em nova fase três anos depois, com Let’s dance. Mas aí a MTV já bombava.

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Pera, que história é essa do ecstasy ter feito 110 anos?

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Pera, que história é essa do ecstasy ter feito 110 anos?

A data tá passando batida até o momento e, como tudo que diz respeito ao assunto “drogas”, nada é tão exato assim, mas até mesmo os anais da ciência dão conta de que o MDMA – composto químico que, entre idas e vindas, é conhecido como ecstasy – completou 110 anos neste ano. Ao que consta, os  arquivos da Merck dão conta de que o composto 3,4- Metilenodioximetanfetamina foi sintetizado pela primeira vez nos laboratórios da empresa em 1912.

Segundo o texto The origin of MDMA (ecstasy) revisited: the true story reconstructed from the original documents, de três cientistas alemães, dois documentos encontrados nos arquivos da Merck dão conta disso – um deles é o Relatório Anual de 1912, do laboratório científico da Merck. Apesar de ter surgido a ideia de usá-lo de maneira medicinal como inibidor de apetite, não havia nenhuma indicação nesses documentos de que isso poderia acontecer. Quem sintetizou a substância foi um químico chamado Anton Köllisch, mas a patente do MDMA só veio mesmo em 2014.

“Na especificação da patente, o MDMA apareceu apenas como fórmula química e no relatório anual foi referido como Metilsafrilamina. O pano de fundo preciso para a primeira síntese de MDMA foi que a Merck queria encontrar e patentear caminhos que levassem a substâncias hemostáticas (para acabar com hemorragias), não a supressores de apetite”, diz o texto.

Uma curiosidade sobre o MDMA, e tem um texto enorme do site Ciência Psicodélica explicando isso, é que até os anos 1970 não haviam sido feitas experiências em humanos com a substância. Nos anos 1950, a Universidade de Michigan realizou experimentos com MDMA em parceria com o Exército dos Estados Unidos, mas tudo foi realizado em cinco espécies diferentes de animais. Entre 1975 e 1976, um químico norte-americano chamado Alexander Shulgin (1925 – 2014) fez sessões de experiências com MDMA em pessoas próximas e publicou artigos a respeito. Shulgin, considerado o “padrinho do ecstasy”, deu uma entrevista para a Wired em 2002 lembrando a época em que deu uma dimensão científica ao estudo sobre a substância, e reclamando do uso que considerava inapropriado (por frequentadores de raves, festas, etc) de uma de suas maiores ferramentas de pesquisa.

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Em 1976, foi a vez de Leo Zeff (1912-1988), terapeuta junguiano de Oakland, Califórnia, introduzir a substância no contexto da psicoterapia. Zeff, que tinha sido tenente-coronel do Exército dos EUA, já havia feito tentativas com o LSD no trabalho terapêutico, administrando uma dose aos seus pacientes,  que ficavam ouvindo música de olhos vendados. Zeff foi apresentado ao MDMA pelo próprio Shulgin e tentou usá-lo para fortalecer o vínculo terapêutico – chegou a apelidar a droga de “Adão”, já que acreditava que ela levava o ser humano à inocência dos primórdios. Já o 3,4-metilenodioxietilanfetamina (MDEA) era chamado de “Eva”.

Milhares de textos espalhados pela web, uns bons, outros ruins, mostram que o MDMA, até ser popularizado na forma de comprimido e ganhar o apelido de ecstasy, tem muita história. Os causos da época em que ele começou a se popularizar entre os frequentadores da noite em Manchester, Londres e outros cantos da Inglaterra, ocupam páginas e mais páginas. Surgiu como uma espécie de “verão do amor” interminável (já que dura até hoje), e até hoje, precisa de muito estudo e informação (e redução de danos).

Uma curiosidade sobre esse começo da onda de ecstasy é que o New Order havia feito uma canção chamada Ecstasy, no disco Power, corruption and lies, de 1983. Não apenas a música não tinha nada a ver com o assunto “drogas”, como o New Order nem sabia o que era ecstasy. Nessa época, o grupo foi fazer um show em Dallas e foi relaxar num clube, quando soube pelos promotores do show que uma turma da série de TV Dallas também estava indo com a turma para descolar ecstasy na casa noturna. “Ecstasy? O que é isso?”, perguntou o quarteto.

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Bermard Sumner, cantor do New Order, arriscou certa vez uma explicação sobre porque é que o ecstasy e a acid house (subgênero supostamente “psicodélico” da house music) eram tão interligados. “Os sons abafados de baixo, que eram a marca registrada do estilo, soavam fantásticos com uma dose de E, acho”, recordou. Faz todo sentido. No Brasil, o termo “acid house” ficou popularizado

Em 1988, já com a cena da Inglaterra tomada por casas que tocavam house music, os novos tempos e o ecstasy foram responsáveis por mudanças básicas em pelo menos uma banda: o Primal Scream, um grupo de jangle-pop meio sem rumo, que iniciaria a caminhada que daria em seu terceiro álbum, Screamadelica (1991). Loaded, o primeiro single ligado ao disco, saiu em 1990 e foi chamado pela revista Muzik de “Sympathy for the devil da geração ecstasy”. Seja como for, de lá para cá, e mais ainda de 1912 para cá, o crescimento do ecstasy deu em novas percepções sobre a cultura de drogas, novas visões sobre o dia a dia do usuário recreativo, novas nomenclaturas e variações (como o MD, conhecido como “a droga do amor”) e… como sempre acontece nesse casos, muita necessidade de informação.

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E saiu 1979, o livro!

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E saiu 1979, o livro

O ano de 1979 veio como uma virada na música popular brasileira, trazendo pelo menos um grande festival de música (o da TV Tupi, por sinal um ano antes dela sair do ar), algumas estreias em disco (a de Marina Lima com Simples como fogo,  e o disco epônimo do Boca Livre, por exemplo), a eclosão de um grande movimento (a vanguarda paulista) e vários nomes emplacando músicas no rádio – Fagner, Gal Costa, Rita Lee, Fabio Jr, Ivan Lins, muita gente.

Roberto Carlos já era rei havia bastante tempo e não tinha muita coisa ameaçando o reinado dele – músicas como Na paz do seu sorriso e Desabafo tocariam nas rádios e conquistariam os fãs como sempre. Chegando perto de ameaçar o cantor, só mesmo a onda de canto feminino que invadiria as rádios naquele momento. Maria Bethânia conseguiria vendagens excelentes com o romântico Mel, lançado naquele ano.

Foi um ano decisivo para a produção independente na música brasileira, com muitos discos saindo por intermédio de pequenos selos, ou de iniciativas de artistas. De modo geral ainda era simultaneamente cedo e tarde para falar em “rock brasileiro”. Isso por não havia mais aquela movimentação dos anos 1970, e muitas bandas que fariam sucesso após 1982 nem sequer existiam ainda. O que tinha era o 14 Bis lançando o primeiro disco, Rita Lee virando mania e Raul Seixas em baixa com Por quem os sinos dobram.

Músicos como Herbert Vianna, Renato Russo e Arnaldo Antunes ainda estavam nas garagens ou envolvidos em outros projetos pós-adolescentes. Quem tinha uma cópia importada estalando de nova de Unknown pleasures, do Joy Division, lançado naquele ano, estava umas vinte casas à frente no tabuleiro pop – fãs “moderninhos” de música internacional estavam escutando The Clash, The Police ou reggae.

Isso aí é só um resuminho bem humilde do que você vai encontrar no livro 1979 – O ano que ressignificou a MPB (Ed. Garota FM Books), organizado por Celio Albuquerque, que também já havia feito um livro parecido sobre o ano de 1973, O ano que reinventou a MPB. O livro de 1979 tem cem autores falando sobre cem discos lançados naquele ano, além de textos especiais contextualizando a música brasileira de 1979.

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Entre os colaboradores, tem Chris Fuscaldo, Silvio Essinger, Carlos Eduardo Lima, Bento Araújo, Roberto Muggiatti, Luiz Felipe Carneiro, Lorena Calabria, Daniella Zupo, Gilberto Porcidonio, Kamille Viola, Leandro Souto Maior. Músicos como Marlon Sette, Moacyr Luz e Rildo Hora também estão na lista de autores, falando sobre discos importantes das suas vidas. Na lista, entre outros, álbuns de Angela Ro Ro, Azymuth, Baby Consuelo, Milton Nascimento, Roberto Carlos, Maria Bethânia, Marku Ribas, Elomar, Jorge Ben, Gal Costa, Gretchen, Ronaldo Resedá, Sá & Guarabyra.

Aliás, eu também sou um dos colaboradores e estou no livro falando sobre o segundo disco de Fabio Jr, epônimo, lançado em 1979 – o disco que tem Pai, o maior sucesso da vida dele como autor, e uma música que demorou até fazer sucesso de verdade, e passou por um momentinho de descrédito (leia sobre isso no meu texto).

O livro já chegou na mão da turma que apoiou o crowdfunding e em breve, vai ganhar evento de lançamento e chegar pra todo mundo que estiver a fim de conhecer a música brasileira lançada naquele ano. Ficou um livro bem grande, bem variado (da MPB mais regional à pós-disco music) e bem honesto, como a música de 1979.

(Fotos: Aline Haluch)

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E os 35 anos de Document, do R.E.M.?

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E os 35 anos de Document, do R.E.M.?

Conheci Life’s rich pageant (1986), quarto disco do R.E.M., e Document (1987), o quinto disco, praticamente juntos. Daí até hoje, mesmo sendo discos conceitualmente separados por vários aspectos, só consigo vê-los como sendo interligados.

Life’s ainda é mais sujinho na produção, mas já intenso e variado musicalmente. Document, que completa 35 anos em 31 de agosto, já traz o grupo de Michael Stipe (voz), Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo) e Bill Berry (bateria) focalizando cada vez mais o lado sessentista e ensolarado de sua música – um lado que sempre esteve lá, desde o começo, ainda que mais envolto em sombras nos primeiros álbuns.

Document marca também a entrada, no dia a dia do quarteto, de um engenheiro de som experiente, que começara a produzir havia poucos anos, e que a partir desse disco produziria vários clássicos do grupo. Scott Litt tinha sido produtor de uma banda amiga do quarteto, The dB, e começou os trabalhos com o R.E.M. quando o grupo fez Romance para a trilha do filme Paixão eterna, de Alan Rudolph.

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Juntos, fizeram as primeiras demos, e logo o novo disco do grupo foi surgindo, com o objetivo de mostrar o R.E.M. com uma banda que, além de ser boa de palco, dava shows nos discos. Sim, porque Peter Buck chegou a dizer à Rolling Stone que a banda queria, mais do que tudo, fazer um disco que soasse como ao-vivo-no-estúdio. “Um disco solto, estranho, com uma postura mais dura”, disse o guitarrista, que sabe-se lá o motivo, via Life’s como “um disco do Bryan Adams”.

Mais do que ajudar o R.E.M. a fazer um excelente disco, Litt ajudou o grupo a quebrar o sistema, reescrever a história do rock e (claro, por que não?) fazer dinheiro – e não custa lembrar, Document é o disco de The one I loveIt’s the end of the world as we know it (And I feel fine). Honrando a tradição dos músicos honestos armados de boas canções (à maneira de Byrds, Bob Dylan e Joni Mitchell), o grupo já fazia  bastante sucesso antes desse LP. Praticamente tudo da banda vendera mais de 500 mil cópias até então.

Mas Document foi o disco que vendeu mais de um milhão de cópias, pôs nos ouvidos dos fãs canções que já nasciam clássicas, e ainda por cima ensinou algumas lições à I.R.S., selo da banda. “Em praticamente todos os discos que entregamos à gravadora, ouvimos opiniões externas de que ‘este é o disco que vai levar vocês à falência’”, contou Buck no papo com a Rolling Stone.

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O R.E.M pegava em fios de alta tensão desde sempre, mas o clima de guerra do governo Ronald Reagan e os ares da década perdida (para os países latinos) estavam pairando no estúdio na era de Document. Tanto que era também o disco de Exhuming McCarthy, que lembrava do cão-fila anticomunista Joseph McCarthy, e falava que a caça às bruxas dos anos 1950 não estava tão distante assim. “É exatamente o que parece – são os anos oitenta, e McCarthy está voltando, então por que não desenterrá-lo?”, contava Buck.

Até o momento, era o disco que melhor valorizava os versos do vocalista e a combinação de letra-e-música das canções, ainda que alguns álbuns anteriores (como Reckoning, de 1983, de So. Central Rain) fossem páreo duro. Com fama de detalhista e de atento ao mercado, Litt deu à voz de Stipe um volume e uma dinâmica inauditos até então, em plena conformidade com o fato do R.E.M ir muito além do pós-punk e ameaçar uma new wave pesada em músicas como Finest worksong. E em pleno acordo com o clima tranquilo de folk rocks modernizados como Welcome to the occupation (cuja letra fala sobre intervenção do governo Reagan na América do Sul e América Central), ou com o tom meio Kinks da própria Exhuming McCarthy.

Havia ainda Disturbance at the Heron House, uma visão muito pessoal do cantor sobre o livro A revolução dos bichos, de George Orwell, e que já havia ganhado múltiplas interpretações até que Stipe explicasse a letra, anos depois. Strange, um punk rock lascado da banda britânica Wire (do LP Pink flag, de 1977), ganhava uma versão quase power pop. The one I love e It’s the end of the world… foram as primeiras músicas que muitos fãs brasileiros do R.E.M. escutaram em suas vidas – numa época em que, diz a velha lenda, locutores de FMs falavam “rem”, sem soletrar, para que o público não entendesse algo como “I am” (eu sou) e procurasse nas lojas o disco de uma banda que não existia.

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Document é mais que um grande disco. É um estudo de caso, uma demonstração do por quê do R.E.M. ter conseguido ao longo de sua carreira, simultaneamente, fazer um som “fora de moda” e tocar quase tantos corações quanto Madonna. Doses quase iguais de mistério, talento, suor e atenção aos sinais contaram para isso, na hora de escrever letras, músicas, dar entrevistas e dialogar com um mercado cada vez mais exigente. Mas havia muita coisa a vislumbrar ali, e ninguém adota impunemente um nome como R.E.M. (rapid eye movement, a fase do sono na qual os sonhos aparecem). Algo que ficaria claro alguns anos depois.

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