Bob Dylan disse uma vez que Alice Cooper era um grande compositor não reconhecido. Eu também acho que algumas de suas letras são de um senso de humor apurado. Sua melhor fase vai de 1970, com o seu terceiro LP Love it to death até 1974, com Billion dollar babies, passando pelo fantástico Killer e o clássico School’s out. Mas uma ótima canção do Love it to death ficou meio ofuscada pelo hit I’m eighteen: era The ballad of Dwight Fry.

(“Mantido na enfermaria de cuidados intensivos deitado no chão/ Eu estive fora por todos esses dias, mas eu não estava sozinho/ Fiz amizade com muitas pessoas na zona de perigo/ Veja minha única mente explodir/ Desde que eu fui embora/ Acho que perdi um pouco de peso lá e tenho certeza de que preciso descansar/ Dormir não é muito fácil em uma camisa-de-força/ Gostaria de ver aquelas crianças pequenas/ Ela tem apenas quatro anos de idade (…) Eu tenho que sair daqui!”).

A canção descreve um louco – pedófilo assassino- internado em uma instituição e que seria condenado à morte na cadeira elétrica, razão pela qual Alice Cooper suprimiu o “e” do final do sobrenome; para fazer um trocadilho de “Fry” (Fritar) com o nome de Dwight Frye, um conhecido ator do cinema.

Extremamente versátil e criador de várias caracterizações memoráveis no gênero de filmes de terror, Dwight Frye teve uma notável carreira teatral na década de 1920 na montagem de sucesso de Seis personagens em busca de um autor, de Luigi Pirandello, em 1922. O ator continuaria atuando nas produções da Broadway ao longo da década.

Por causa de sua memorável e apaixonada atuação como Renfield, agente imobiliário e louco comedor de moscas escravo dos vampiros, em Dracula (1931) e como Fritz, o sádico assistente de laboratório corcunda de Frankenstein, o ator nunca mais se livrou dos papéis de maníaco. O ator britânico desconhecido Boris Karloff foi escalado para o papel do monstro e o transformaria em uma lenda do cinema. A atriz Mae Clarke lembra: “Dwight era quieto, charmoso e poderia até fazer uma piada. No entanto, maquiado e com a corcunda, ele assustava todo mundo, às vezes era mais do que o monstro!”. E Dwight estabeleceu, para a fila que viria a seguir, um padrão de como deveriam ser os loucos assistentes de laboratório em filmes de terror.

Dwight dizia: “Se Deus for bom, poderei interpretar comédias, nas quais participei da Broadway por oito temporadas e nas quais nenhum produtor de filmes me dará uma chance! E, por favor, Deus, que seja antes de eu enlouquecer interpretando idiotas, idiotas e lunáticos na tela!”

E, praticamente, foi só o que fez nas telas em mais de 60 filmes: papel de idiotas, imbecis e lunáticos, desequilibrados e vilões neuróticos e assassinos. Pra piorar, suas cenas eram tão assustadoras e convincentes que, às vezes eram cortadas para apaziguar os censores.

A carreira de Dwight continuou a diminuir tragicamente quando a guerra se espalhou pelo mundo. Com seus cabelos louros e olhos azuis, o ator foi cada vez mais escalado como vilões — agentes sabotadores e inimigos nazistas. O que gerou uma imagem extremamente negativa. Na realidade nada poderia estar mais distante da verdade, pois para ajudar os EUA no esforço de guerra — e também para sustentar sua família — Dwight trabalhou como desenhista na Lockheed Aircraft Company à noite enquanto passava os dias procurando papéis no cinema.

Em 1943, as esperanças de Dwight para uma carreira de sucesso em Hollywood se renovaram quando ele conquistou um papel “sério” no filme Wilson. Mas três dias antes do início das filmagens, Dwight Frye faleceu de trombose coronária. Seu atestado de óbito registra que sua profissão era projetista de ferramentas da Lockheed, no entanto o The New York Times publicou um longo obituário digno de uma grande estrela da Broadway. Ficou conhecido como “O homem com o olhar de 1.000 watts”.

(Fontes: “IMDB”/ “Wikipedia”/ “Vintage Gold Live Journal/ e Eu mesmo) ::