Cultura Pop
Videoclipers: quando a produção de clipes vira estilo de vida

A ideia não é só fazer clipes: é criar um novo estilo de vida para a turma que trabalha com vídeos. O casal Diana Boccara e Leo Longo (que mantém a empresa Couple Of Things) já havia criado o programa Around the world in 80 music videos, que está sendo exibido pelo canal Bis e traz clipes realizados em vários países, com artistas locais. Dessa vez, com o projeto Videoclipers, Diana e Leo fizeram o mesmo durante três meses, só que no Brasil.
A trabalheira do casal resultou em 16 clipes feitos em plano sequência. Os primeiros da série já estão no canal da empresa. Trazem Alceu Valença pelas ruas do Centro Histórico de Olinda (PE) cantando a música Nas asas de um passarinho, o cantor Barro soltando a voz em Cavalo marinho, Dona Onete cantando Carimbó arrepiado e Felipe Cordeiro, com a própria Dona Onete, em Onde é que eu vou parar. O casal lança clipe novo toda quarta-feira, e o roteiro de Diana e Leo incluiu Recife, Belém, Goiânia, Belo Horizonte, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Além do clipe, rola sempre um making of.
Os dois projetos envolveram muita coragem (a dupla vendeu tudo o que tinha para sair viajando pelo mundo e fazer clipes para o Around the world) e muito nomadismo. Leo e Diana também aprenderam que existem outras formas de captar recursos (e outros recursos, e maneiras de se pagar por eles, por que não?) e realizaram tudo de maneira bastante inovadora. Tanto no modo de trabalhar, quanto na maneira de encarar assuntos de suma importância como monetização.
Como aqui no POP FANTASMA a gente bate um papo com a turma que está tentando criar coisas novas para reportar e mostrar cultura pop (fora os eventuais novos negócios que surgem na área), batemos um papo com Leo Longo e ele contou para a gente o que está por trás do Videoclipers e o que vem por aí. Confira.
POP FANTASMA: Como surgiu a ideia de montar o Videoclipers? Vocês sentiam falta de um projeto de clipes que não estivesse necessariamente atrelado ao “lançamos uma música nova, vamos fazer um clipe” e trouxesse um conceito por trás? Qual foi a motivação?
LEO LONGO: Foi a saudade de poder vivenciar relações de trabalho e colaboração em torno da arte, sem serem norteadas ou promovidas pela presença do dinheiro, que nos fez criar o Videoclipers. Entre 2015 e 2016, filmamos Around the world in 80 music videos. Foi a primeira vez que uma equipe viajou o mundo pra filmar uma série de videoclipes oficiais – atualmente a série é exibida nos canais BIS e Multishow com o título em português, e está na íntegra em nosso canal.
Naquela oportunidade, por não termos tido sucesso na captação de recursos financeiros, acabamos bancando quase a totalidade do projeto, salvas algumas parcerias com marcas. Mas aquilo era suficiente para bancar nosso custo de vida, não mais do que isso. Não pra bancar a produção de 80 clipes pelo mundo. Nossa solução pra falta de investimento foi entender que nem tudo na vida é a troca baseada no dinheiro.
Nos voltamos então pro conceito da colaboração sem vínculo no dinheiro mas sim com vínculo na troca de experiências e na interconexão de habilidades e talentos. Tudo mundo tem ou sabe algo que pode oferecer e sempre tem alguém que precisa do que você tem pra dar. Descobrimos que existe um mundo paralelo, bastante maduro e sedimentado, ao mundo no qual tudo é pago. Então, finalizando a resposta, foi assim que vivenciamos as experiências colaborativas mais intensas que já havíamos vivido. E entre 2016 e 2018, começamos a sentir falta de poder vivenciar isso. E a solução foi voltar pra estrada.
Todos os clipes que filmamos em nossos projetos, inclusive Videoclipers, são de músicas inéditas e do atual álbum de trabalho dos artistas. A gente gosta de estar conectado com a cena atual e, de alguma forma, até ser um recorte do que está acontecendo da música brasileira neste momento. A única exceção foi com Alceu Valença, isso porque ele e sua equipe queriam muito dar um clipe à música Nas asas de um passarinho. Ela foi lançada em 2002 mas teve uma releitura em 2014, no álbum Amigo da arte, que a gente adora. E por isso, topamos.

Cá pra nós, como fãs, qualquer oportunidade de trabalhar num set com Alceu já seria mágico por si só. Acho que tanto ele quanto nós sabíamos exatamente o que deveria ser feito neste clipe, sabe?! Então, bastaram 25 minutos pra pensar no que faríamos e filmar dois takes.
Já que você falou no Around the world…, o que essa experiência, que era mais complexa ainda do que o Videoclipers (que é realizado no Brasil) ensinou a vocês? Aprendemos que as dificuldades de realizar projetos como o nosso são as mesmas em quase todos os lugares. E também, que a alegria de produzir arte e colaborar com pessoas é a mesma em todo mundo. Ficamos muito amigos de pessoas que trabalharam com a gente em Portugal, Russia, Egito e México, por exemplo, igualmente como no Brasil. Mesmo com as dificuldades iniciais que o idioma ou a cultura local pode trazer, quando estivemos com pessoas dispostas, tudo aconteceu de maneira coesa, leve e feliz.
Também acho que ter feito nosso primeiro projeto autoral e independente pelo mundo, ao invés do Brasil, nos trouxe uma metodologia de trabalho muito dinâmica e eficiente. Obviamente, muitas destas técnicas a gente está aplicando agora nas filmagens de Videoclipers, como por exemplo como otimizar tempo na busca por uma locação, ou como conseguir convidar pessoas a participar das nossas gravações, etc. Ter trabalhado em tantas condições diferentes nos 22 países pelos quais passamos, trouxe essa versatilidade pro nosso processo.
E de onde tiraram coragem para realizar o Around the world? Qual foi o gatilho para isso? Que difícil essa pergunta! As vezes a gente acha mesmo que teve coragem, mas na época nos pareceu tão natural que lembro que parecia algo que precisava ser feito, sabe?! Mas pensa só, a gente ficou 7 meses gestando o projeto, pensando em todos os detalhes enquanto em paralelo a gente tentava grana pra fazer. Depois deste período, e sem os recursos que precisávamos, tomar a atitude de vender tudo o que tínhamos e investir todas nossas economias não foi um ato de coragem. Foi um ato de respeito e amor pelo que mais gostamos de fazer da vida, que é filmar histórias e fazer arte com nossas câmeras. O contrário disso seria negligenciar o que queríamos.
E o gatilho foi quando, ainda quando trabalhávamos na indústria da TV (eu estava dirigindo uma série para o History Channel e Diana produzindo uma série no Discovery Channel), decidimos passar as férias numa roadtrip pelo sul dos Estados Unidos. Fomos conhecer as cidades mais importantes pro nascimento dos estilos musicais mais populares do mundo, como jazz, rock, soul, folk, blues, etc. Visitamos Nashville, Memphis, Clarksdale, cidades nas margens do rio Mississippi, New Orleans, entre outras. Quando voltamos dessa viagem, estávamos carentes daquele movimento, de conhecer pessoas, de contar histórias e, principalmente, de fazer tudo isso em função da música. Foi assim que começamos a criar Around the world.

Aliás, o que aprenderam com a busca por patrocínio dos projetos? Repetiriam ou não repetiriam algo que fizeram? Aprendemos que ninguém vai confiar mais no seu projeto do que você mesmo. E se em algum momento você titubeia, todos titubeiam juntos. Ninguém vai levantar por você todos os dias e ninguém vai se arriscar por você. Se você acredita numa ideia que inventou, é só você que pode botá-la de pé. E tem sido assim nos últimos cinco anos, nos quatro projetos que já filmamos. Dois estão no ar e outros dois esperando um oportunidade. É assim que levamos nosso lifestyle com a Couple of Things. Nunca conseguimos recursos pra financiar um projeto antes de filmá-lo. Ou somos péssimos vendedores ou é muito azar (risos). Ao menos, depois de filmados a gente consegue algum retorno. Poderia dizer que é sorte, mas a gente se dedica muito pra fazer as coisas acontecerem.
O Videoclipers é “tentativa de causar rupturas e reflexões sobre a forma como trabalhamos e geramos conteúdo cultural”, como vocês dizem. No que vocês creem que o mercado de geração de conteúdo precisa ser modificado? Um grande problema é que, de modo geral, muita gente tem dificuldade de monetizar conteúdo gerado na web… Não só o mercado de geração de conteúdo, mas sinto que em qualquer tipo de trabalho ou produção laboral, o “monetizar” vem antes do “produzir”. E, pior do que isso, o “ter” vem antes do “ser”. Aí a gente já começa o jogo da vida perdendo de goleada.
No YouTube, a gente não monetiza os clipes e making ofs de Videoclipers. Preferimos abrir mão da monetização ali por uma série de razões. Mas já estamos negociando o licenciamento da série com um canal de TV. É assim que a gente espera ter o dinheiro que investimos de volta.
Achamos, e nosso estilo de vida prova isso, que muitas trocas e experiências não são vivenciadas quando colocamos muito peso sob o aspecto monetário. Criamos uma rede muito mais integrada, colaborativa e lúcida nos cinco anos fazendo projetos sem grana do que em 15 anos trabalhando em canais e produtoras como assalariados. O dinheiro nos trouxe muitas coisas. A falta dele nos trouxe liberdade pra decidir se precisamos dele e quando precisamos dele. Parece conversa de auto-ajuda, mas é que quando a gente se dá conta disso, começamos a entender que temos uma vida inflada. Aos poucos, a gente se acostuma a achar que precisamos ter sempre mais e que é necessário pagar por tudo que queremos e receber por tudo que produzimos. Isso não é verdade. Inclusive, o mundo tecnológico permite que seja justamente ao contrário.

É possível viver e trabalhar explorando muitas plataformas e metodologias colaborativas, aprendendo novas habilidades de graça e se conectando com pessoas certas. E quando se adota esse estilo de vida, tendo a consciência de que precisamos de muito menos, entendemos que nem tudo precisa ser monetizado e que é possível ser “pago” de mil e uma maneiras distintas.
Só pra dar um exemplo, todo mundo precisa comer. E comida, quando se mora numa cidade, você consegue no supermercado ou no restaurante. Durante o Videoclipers, trocamos refeição e compras por conteúdo. Reduzimos o custo de vida pagando com nosso trabalho e, o mais legal, nos conectamos com donos de restaurantes e mercados, criando relações afetivas com todos. Fizemos isso com moradia também. Então, o problema não é que as pessoas têm dificuldade de monetizar conteúdo, mas sim dificuldade de ser criativo pra não depender apenas da monetização de conteúdo.

Pode citar um exemplo de como funcionou isso na prática? Durante as filmagens do Videoclipers, Recife foi a cidade que mais passamos tempo, por conta daquela esticada que demos pra conseguir filmar com o Alceu. Ao todo, foram 19 dias (o normal foi 10 dias por cidade pra filmar dois clipes). E como ficamos mais tempo lá, decidimos estabelecer três tipos de parceria: com o Airbnb pra ter acomodação, com um empório de comida que ficava no nosso bairro (Empório Pura Vida) e também com restaurantes (Motche Restô e Flô de Jambo). Entramos em contato com todos eles bem antes de ir pra Recife, oferecendo menção deles em nossas redes sociais e também produzindo fotos pra eles postarem em suas redes sociais. Dessa forma, o custo de vida nosso caiu cerca de 70%. Em nosso Instagram tem várias fotos dessas, referente a essas parcerias. Tentamos o mesmo com Uber e passagem aérea, mas não conseguimos.
E outro exemplo legal foi em Porto Alegre, a antepenúltima cidade que visitamos pelo Videoclipers. A gente queria muito filmar um dos clipes lá – com a banda Dingo Bells – no Vila Flores, um espaço cultural que é co-working, galeria e várias outras coisas. Era o lugar perfeito pra ideia que tivemos.
Só que o lugar tinha um custo de locação muito alto e jamais poderíamos pagar por ele, até mesmo porque nossa ideia é tentar filmar os clipes sem gastar nada. Faz parte do nosso desafio. E conversando com os proprietários do espaço, oferecemos a troca: a gente grava nosso clipe aí e em contra-partida fazemos uma palestra pra comunidade que frequenta o Vila Flores. E eles toparam. Como a gente tem algumas palestras já montadas (ja que ja participamos de TEDx, do SXSW, e de outros festivais de criatividade), e gostamos muito de dividir nossas experiências com outros, pra gente foi muito legal.
Então essas são provas de que, com criatividade e trabalho, tem muitas maneiras de estabelecer trocas e ganhos.
No que acham que os projetos de vocês podem inspirar pessoas? A ideia é de fato criar um mercado diferente para a turma de vídeo? O objetivo não é fazer com que as pessoas achem os clipes legais. A gente espera mesmo é que as pessoas possam hackear a forma como a gente vive, que permite viver fazendo o que gostamos. Mas não temos nenhuma pretensão de inspirar pessoas, só mesmo ser case de um estilo de vida que dá certo também, assim como muitos outros.
(foto destaque: Lumos Estudio)
Cultura Pop
Os bastidores do raro “Joy Division – A Malcolm Whitehead Film”, que ganha lançamento oficial

Falamos na semana passada: tá pra sair a caixa Eternal (Live) contendo praticamente tudo que existe do Joy Division ao vivo. O pacote sai em 25 de setembro e é um box com 16 álbuns ao vivo completos, distribuídos em 14 CDs, além de dois DVDs. Um dos DVDs traz uma edição oficial de Joy Division – A Malcolm Whitehead Film, filme raríssimo da banda, feito em 1979, e que virou uma espécie de “figurinha difícil” do álbum do JD.
Malcolm era o chefe da Ikon/FCL, braço cinematográfico da Factory Records. Para fazer Joy Division, que tem 17 minutos de duração, ele compilou imagens em super-8 feitas durante a gravação da estreia Unknown pleasures (1979), e no show dado no Bowden Vale Youth Club em 4 de março de 1979 – por acaso, foi a primeira vez que um show do grupo foi filmado. Há também uma entrevista com a banda.
Se você fizer uma busca no YouTube, acha apenas trechos desse material, em péssima qualidade de som e imagem – alguns trechos estão com outra trilha sobreposta, ou surgem editados em vídeos feitos por fãs. Joy Division – A Malcolm Whitehead Film foi feito apenas para ser exibido em setembro de 1979 na primeira edição do Factory Flick, no cinema Scala, em Londres.
O Factory Flick foi um evento criado por Malcolm e Tom Wilson, dono do selo. A ideia era apresentar bandas da Factory Records em um formato que misturava cinema experimental, videoclipes, documentário e arte de vanguarda. Era algo muito alinhado ao espírito da Factory, que nunca quis ser apenas uma gravadora – e não foi apenas o Joy Division que ganhou seu curta, já que filmes sobre bandas como A Certain Ratio, Orchestral Manoeuvres in the Dark e The Durutti Column estavam também nos programas do evento. Só que, como o JD virou objeto de culto após a morte de Ian Curtis, o filme deles virou lenda.
Não foi só isso que tornou o filme uma lenda: Whitehead não fez um simples filme-concerto e decidiu dar – por conta própria – dimensões políticas ao Joy Division.
Ele enquadrou o Joy Division como uma resposta ao clima social britânico do fim dos anos 1970, à ascensão do thatcherismo e ao autoritarismo. O filme intercala imagens da banda com entrevistas com um sujeito chamado James Anderton, chefe de polícia da Grande Manchester e tido por artistas, jovens e membros da comunidade gay local como um agente da repressão.
Há também referências ao romance House of dolls, de Yehiel Dinur, que popularizou o termo “joy division” (como referência aos grupos de mulheres judias aprisionadas em campos de concentração, que se prostituíam para soldados nazistas durante a Segunda Guerra Mundial). Já era algo que causava polêmica, mas quanto à visão do JD como resposta ao autoritarismo, muita gente reclama que Whitehead impôs um viés político à banda.
Em 2007, o documentário Joy Division, dirigido por Grant Gee, mostrava a história da banda a partir de entrevistas inéditas e imagens nunca vistas ou bem raras. Malcolm não apenas foi um dos entrevistados como também teve imagens de seu curta incluídas no filme.
A revista Arts & Music fez uma entrevista com Malcolm na época, e descreveu Joy Division – A Malcolm Whitehead Film como um retrato de uma “Manchester perdida”. O site FactoryRecords.org resgatou o papo com Malcolm, feito pelo repórter Jamie Holman. E nós reproduzimos abaixo. Pra entender mais o que está por trás do filme, é importantíssimo.
Como surgiu seu filme? Aconteceu porque eu já era amigo do Rob (Gretton) desde que trabalhávamos no aeroporto e depois quando ele era DJ no Rafters. Eu costumava ir lá assistir bandas e o Rob acabou empresariando uma banda chamada The Panik. Eu estava começando como cineasta na época, autodidata, filmando em 8mm.
E começamos um filme que não deu em nada. O show do The Panik na última noite do Electric Circus. Estava muito escuro e a filmagem ficou péssima. Acabou ficando de lado. Aí o Rob me ligou e disse: “Estou empresariando uma banda nova chamada Warsaw e me perguntou se eu queria ir vê-los no The Factory”.
Fui vê-los no antigo Russell Club e eles foram absolutamente incríveis; me arrepiaram. Quis fazer algo com eles naquele instante. Fui falar com o dono da loja de discos local e contei a ele sobre o clube Bowden Vale em Altrincham, onde eu tinha visto inúmeras bandas em 1963-64, e disse que ele deveria voltar a promover shows.
Mais tarde, apresentei-o ao Rob, que tinha um monte de cópias do primeiro EP da banda que sobraram. Eles estavam sem dinheiro, então venderam tudo para o dono da loja de discos, e ele as colocou para tocar em Bowden Vale. E era isso que eu queria desde o início, sabe? Eu queria filmar a banda. Então, aluguei alguns andaimes e equipamentos e fiz tudo.
Com que equipamento você filmou? Bom, tudo custou setenta e duas libras, o que eu achei um absurdo! (risos) Filmei com uma câmera de cinema Hannimex baratinha, a primeira câmera que tive. Usei um filme da Agfa que lançaram na época, que tinha uma faixa de som, mas vinha num cartucho silencioso e o som era adicionado depois, no projetor. Então filmei sem som e gravei o áudio num gravador de rolo. Era para sincronizar depois, mas não funcionou! Filmei a vinte e quatro quadros por segundo, mas só funcionou a dezoito.
Só descobri depois! Filmei tudo com uma câmera e só tinha dinheiro para três cartuchos. Cerca de nove minutos. Filmei duas músicas e meia de uma vez e depois fiz cortes, tentando não incluir instrumentos para poder inseri-los como cenas adicionais sobre o que já tinha filmado. Então, fiquei com os três cartuchos e uma fita de rolo com o show inteiro. Eu já tinha começado as outras partes do filme antes do show.
Isso é a parte técnica da atuação. Mas qual é o significado do filme como um todo? O que você estava tentando fazer? Começa com New dawn fades. Você sabe, essa é a música que está tocando, e ela simboliza esse novo amanhecer do fascismo com James Anderton, o chefe de polícia de Manchester na época. Ele foi um precursor de Thatcher, pois era de extrema-direita, religioso e queria reprimir os jovens.
Então o filme passa de “O Desvanecimento de uma Nova Aurora” para o tema nazista. Mas não era uma nova aurora, era um retorno ao passado. Ouvimos discursos de Adolf Hitler misturados com Anderton falando sobre campos de trabalho forçado em uma entrevista que ele deu a Tony Wilson, curiosamente (o criador da Factory era apresentador de talk shows na TV). Ele dizia coisas como: “Eles serão obrigados a trabalhar como nunca trabalharam antes”, e isso leva a uma montagem de anúncios e cenas de ruas do centro de Manchester. Este é o consumismo – o novo fascismo! Nesse ponto, era algo local, mas dava a sensação de que algo muito ruim estava acontecendo e que se tornaria maior.
Então você tem essa coisa de lei e ordem, esse fascismo corporativo, e aí eu corto para a banda na sala de ensaio. Parece ótimo, bem underground. Sabe, underground no sentido político, tipo a resistência francesa. Mas esse era um underground cultural. Eles eram a resistência contra tudo isso lá fora.
O que era que havia de tão especial no Joy Division? Eles eram simplesmente poderosos demais. Eu sabia que eles iam bombar. Não havia motivo para pensar isso, na verdade, só tinha umas dez pessoas no Factory Club. Eu não conseguia acreditar. Eu simplesmente sabia que aquilo era a nova onda. Era isso. Eles eram muito mais do que o punk tinha se tornado, que basicamente era só uma banda para substituir as bandas de pub rock. Aquilo era algo maior e artisticamente mais significativo do que o punk. Pelo menos para mim.
O que aconteceu com o filme quando foi editado e sincronizado? Foi exibido pela primeira vez no antigo cinema Scala, em Londres – um cinema de verdade!
Qual foi a reação a isso? Bem, eles fizeram três exibições ao longo de um dia, e todas estavam lotadas; houve aplausos e tudo mais, o que foi estranho, já que eu nunca tinha exibido um filme em público. Foi realmente emocionante.
Onde mais foi exibido? Bem, um cara me ligou de Berlim e, honestamente, eu era tão inocente na época que mandei o filme para ele. Não dava para fazer cópias decentes. Então ele foi para Berlim, e tinha gente fazendo fila na porta para assistir. Eles exibiram e exibiram, sabe-se lá quantas vezes. Por sorte, eu tinha coberto o filme com preservativo e antirrisco. Tinha umas perfurações amassadas quando recebi de volta, mas não era nada demais. Na verdade, não causou problemas de verdade até bem recentemente, quando restaurei o filme com Brian Nicholson (associado de longa data da Ikon, ‘confidente e cúmplice’; ‘guardião do que alguns chamam de arquivo’).
Há alguma filmagem ou trilha sonora que não entrou no filme? Tem o áudio completo do show, exceto New dawn fades, porque eu estava ajustando os níveis naquele momento. Também tem uma tentativa de entrevista que deu errado porque eles não queriam falar! Então eu gravei essa parte, já que o filme era muito caro e não dá para desperdiçar. Tem também uns trinta minutos de áudio da sala de ensaio. Eu também entrevistei o Rob no meu apartamento. Essa entrevista está em uma fita cassete, acho que tem trinta minutos.
A banda viu isso? O Ian adorou; o resto da banda não entendeu muito bem. Eles desceram para falar com um amigo meu, mas o Ian ficou e depois disse que tinha entendido e achado ótimo, e isso significou muito, já que era o Ian que eu queria para dar o aval. Quando foi transferido para vídeo, nós o exibimos algumas vezes em shows — A Certain Ratio — e a primeira versão, que é uma porcaria, é o bootleg que você vê na internet. É realmente uma porcaria, essa cópia, e só tem a performance do Joy Division.
Por que nunca foi lançado pela Factory ou pela Ikon? Por que não está na Here are the young men? (coletânea de vídeos do grupo). Bem, este era o meu filme. Não era um filme do Joy Division nesse sentido. Era o meu filme e eu nunca pensei que estivesse terminado; ele seria muito mais longo. E havia um problema com a questão nazista. A banda estava farta disso, e eu não ia tirar. Significava algo. Eles estavam cansados de serem associados ao fascismo. Mas eles não eram, sabe? O nome sugere o que eles realmente eram: antifascistas. E então o assunto não foi discutido por mais de vinte anos.
Então, quem é o proprietário agora? A Cherry Red Records comprou. Quer dizer, não me importa quem seja o dono, eu só queria que fosse restaurado corretamente.
Quem o restaurou? Eu e Brian Nicholson. Eu e Brian trabalhamos juntos como uma parceria cinematográfica há vinte e seis anos. Ele restaurou e transferiu o filme para a emissora Granada, e eu o reeditei e o estendi para incluir três músicas completas.
Você algum dia vai se livrar do Joy Division e seguir em frente? Bem, senti essa responsabilidade ao longo dos anos e espero poder passar todo o resto adiante. E com o lançamento do novo documentário, pelo menos sei que parte dele finalmente está sendo visto e que existe uma cópia remasterizada decente por aí.
Cultura Pop
“Salt of the Earth”: o filme que surge no clipe de Tom Morello

Quem assistiu ao clipe de Adjourn it, single novo de Tom Morello (que tem participações de seu filho Roman Morello, na guitarra, e do cantor do System Of A Down, Serj Tankian, nos vocais) reparou que há várias cenas em preto e branco, com greves, manifestações e gente sendo presa. Dirigido por Isabella Margolis, o clipe intercala cenas do trio em estúdio, com trechos do filme Salt of the Earth, lançado em 1954, e que conta a história real de mineiros mexicano-americanos que lutaram contra a opressão e o racismo.
Salt of the Earth tem muita história: para começar, ele foi dirigido por Herbert Biberman (1900-1971), um cineasta que fazia parte da lista dos “dez de Hollywood” – um grupo de dez roteiristas e cineastas de esquerda, que estava sendo vítima de uma caça às bruxas. Ou melhor, de uma caça a supostos comunistas, realizada no começo da guerra ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Biberman chegou a ficar encarcerado durante seis meses, e ao sair da prisão, decidiu dirigir um filme ficcional sobre a greve dos mineiros do Condado de Grant, no Novo México. O tal filme acabou ganhando roteiro de Michael Wilson e produção de Paul Jarrico – e ele é justamente Salt of the Earth, uma produção que já inovava por ser totalmente independente, off-Hollywood.
O filme acabou sendo uma das principais aparições na telona da atriz mexicana Rosaura Revueltas – por sinal, durante as filmagens, ela foi presa por uma suposta violação de passaporte e acabou sendo proibida de trabalhar nos Estados Unidos, um baque nunca superado em sua carreira. Ela interpreta Esperanza Quintero, a esposa de um mineiro, que faz parte de um grupo de manifestantes mexicano-americanos – a queixa deles era que a Delaware Zinc, Inc, para a qual trabalhavam, não dava a eles a mesmas condições que dava aos mineiros anglo-saxões.
Pra acompanhar a história é melhor ver o filme (tá no YouTube), mas vale dizer que Esperanza fica grávida, seu marido acaba preso e ela se junta a um grupo de esposas de mineiros, que faz piquete no lugar dos maridos. Um detalhe importante sobre Salt of the Earth é que só cinco atores profissionais estavam no elenco: Biberman e a produção convocaram mineiros de verdade, além de moradores do Condado. Nas cenas que você vê no filme, muita gente viveu aquilo de verdade.
Se você está achando que isso foi uma ideia para dar mais veracidade ao filme, não foi nada disso: os sindicatos de atores e de profissionais de Hollywood simplesmente proibiram seus associados de ter qualquer relação com Salt of the Earth, e a equipe ficou sem ter com quem contar. Houve quem notasse que aquela situação era absurda, já que eram sindicatos prejudicando um filme que fazia basicamente uma apologia ao movimento sindical. Mas isso não ajudou em nada, até porque veículos como Hollywood Reporter e Newsweek já estavam falando barbaridades como “filme de comunistas anti-americanos” e outras babaquices.
Claro que a pós-produção e o lançamento de Salt of the Earth não foram nada tranquilos: a equipe teve dificuldade de achar laboratórios que terminassem o filme e ele foi censurado e incluído na lista anti-comunismo dos EUA (foi o único filme incluído lá, aliás). Pauline Kael, uma dessas críticas de cinema que tiravam o sono dos cineastas, desprezou o filme e ainda escreveu que ele não passava de “uma peça de propaganda comunista tão clara quanto qualquer outra que tivemos em muitos anos”. Com o tempo, o filme foi sendo descoberto, e ganhou lançamentos em formatos como laserdisc e DVD. Uma matéria recente do The Guardian traz uma declaração de Biberman dizendo que ele foi “o primeiro longa-metragem já realizado nos EUA pelos trabalhadores, sobre os trabalhadores e para os trabalhadores”.
“Salt of the Earth foi um poderoso ato de desafio em sua época e, mais de meio século depois, seus temas continuam a ressoar no cenário político atual. Adjourn it canaliza o legado de resistência do filme, reforçando a importância da solidariedade para unir as pessoas contra o medo e a divisão”, escreveu Tom Morello num dos textos de divulgação do clipe. E os dois (clipe e filme) estão aí embaixo.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.








































