Cultura Pop
Videoclipers: quando a produção de clipes vira estilo de vida

A ideia não é só fazer clipes: é criar um novo estilo de vida para a turma que trabalha com vídeos. O casal Diana Boccara e Leo Longo (que mantém a empresa Couple Of Things) já havia criado o programa Around the world in 80 music videos, que está sendo exibido pelo canal Bis e traz clipes realizados em vários países, com artistas locais. Dessa vez, com o projeto Videoclipers, Diana e Leo fizeram o mesmo durante três meses, só que no Brasil.
A trabalheira do casal resultou em 16 clipes feitos em plano sequência. Os primeiros da série já estão no canal da empresa. Trazem Alceu Valença pelas ruas do Centro Histórico de Olinda (PE) cantando a música Nas asas de um passarinho, o cantor Barro soltando a voz em Cavalo marinho, Dona Onete cantando Carimbó arrepiado e Felipe Cordeiro, com a própria Dona Onete, em Onde é que eu vou parar. O casal lança clipe novo toda quarta-feira, e o roteiro de Diana e Leo incluiu Recife, Belém, Goiânia, Belo Horizonte, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Além do clipe, rola sempre um making of.
Os dois projetos envolveram muita coragem (a dupla vendeu tudo o que tinha para sair viajando pelo mundo e fazer clipes para o Around the world) e muito nomadismo. Leo e Diana também aprenderam que existem outras formas de captar recursos (e outros recursos, e maneiras de se pagar por eles, por que não?) e realizaram tudo de maneira bastante inovadora. Tanto no modo de trabalhar, quanto na maneira de encarar assuntos de suma importância como monetização.
Como aqui no POP FANTASMA a gente bate um papo com a turma que está tentando criar coisas novas para reportar e mostrar cultura pop (fora os eventuais novos negócios que surgem na área), batemos um papo com Leo Longo e ele contou para a gente o que está por trás do Videoclipers e o que vem por aí. Confira.
POP FANTASMA: Como surgiu a ideia de montar o Videoclipers? Vocês sentiam falta de um projeto de clipes que não estivesse necessariamente atrelado ao “lançamos uma música nova, vamos fazer um clipe” e trouxesse um conceito por trás? Qual foi a motivação?
LEO LONGO: Foi a saudade de poder vivenciar relações de trabalho e colaboração em torno da arte, sem serem norteadas ou promovidas pela presença do dinheiro, que nos fez criar o Videoclipers. Entre 2015 e 2016, filmamos Around the world in 80 music videos. Foi a primeira vez que uma equipe viajou o mundo pra filmar uma série de videoclipes oficiais – atualmente a série é exibida nos canais BIS e Multishow com o título em português, e está na íntegra em nosso canal.
Naquela oportunidade, por não termos tido sucesso na captação de recursos financeiros, acabamos bancando quase a totalidade do projeto, salvas algumas parcerias com marcas. Mas aquilo era suficiente para bancar nosso custo de vida, não mais do que isso. Não pra bancar a produção de 80 clipes pelo mundo. Nossa solução pra falta de investimento foi entender que nem tudo na vida é a troca baseada no dinheiro.
Nos voltamos então pro conceito da colaboração sem vínculo no dinheiro mas sim com vínculo na troca de experiências e na interconexão de habilidades e talentos. Tudo mundo tem ou sabe algo que pode oferecer e sempre tem alguém que precisa do que você tem pra dar. Descobrimos que existe um mundo paralelo, bastante maduro e sedimentado, ao mundo no qual tudo é pago. Então, finalizando a resposta, foi assim que vivenciamos as experiências colaborativas mais intensas que já havíamos vivido. E entre 2016 e 2018, começamos a sentir falta de poder vivenciar isso. E a solução foi voltar pra estrada.
Todos os clipes que filmamos em nossos projetos, inclusive Videoclipers, são de músicas inéditas e do atual álbum de trabalho dos artistas. A gente gosta de estar conectado com a cena atual e, de alguma forma, até ser um recorte do que está acontecendo da música brasileira neste momento. A única exceção foi com Alceu Valença, isso porque ele e sua equipe queriam muito dar um clipe à música Nas asas de um passarinho. Ela foi lançada em 2002 mas teve uma releitura em 2014, no álbum Amigo da arte, que a gente adora. E por isso, topamos.

Cá pra nós, como fãs, qualquer oportunidade de trabalhar num set com Alceu já seria mágico por si só. Acho que tanto ele quanto nós sabíamos exatamente o que deveria ser feito neste clipe, sabe?! Então, bastaram 25 minutos pra pensar no que faríamos e filmar dois takes.
Já que você falou no Around the world…, o que essa experiência, que era mais complexa ainda do que o Videoclipers (que é realizado no Brasil) ensinou a vocês? Aprendemos que as dificuldades de realizar projetos como o nosso são as mesmas em quase todos os lugares. E também, que a alegria de produzir arte e colaborar com pessoas é a mesma em todo mundo. Ficamos muito amigos de pessoas que trabalharam com a gente em Portugal, Russia, Egito e México, por exemplo, igualmente como no Brasil. Mesmo com as dificuldades iniciais que o idioma ou a cultura local pode trazer, quando estivemos com pessoas dispostas, tudo aconteceu de maneira coesa, leve e feliz.
Também acho que ter feito nosso primeiro projeto autoral e independente pelo mundo, ao invés do Brasil, nos trouxe uma metodologia de trabalho muito dinâmica e eficiente. Obviamente, muitas destas técnicas a gente está aplicando agora nas filmagens de Videoclipers, como por exemplo como otimizar tempo na busca por uma locação, ou como conseguir convidar pessoas a participar das nossas gravações, etc. Ter trabalhado em tantas condições diferentes nos 22 países pelos quais passamos, trouxe essa versatilidade pro nosso processo.
E de onde tiraram coragem para realizar o Around the world? Qual foi o gatilho para isso? Que difícil essa pergunta! As vezes a gente acha mesmo que teve coragem, mas na época nos pareceu tão natural que lembro que parecia algo que precisava ser feito, sabe?! Mas pensa só, a gente ficou 7 meses gestando o projeto, pensando em todos os detalhes enquanto em paralelo a gente tentava grana pra fazer. Depois deste período, e sem os recursos que precisávamos, tomar a atitude de vender tudo o que tínhamos e investir todas nossas economias não foi um ato de coragem. Foi um ato de respeito e amor pelo que mais gostamos de fazer da vida, que é filmar histórias e fazer arte com nossas câmeras. O contrário disso seria negligenciar o que queríamos.
E o gatilho foi quando, ainda quando trabalhávamos na indústria da TV (eu estava dirigindo uma série para o History Channel e Diana produzindo uma série no Discovery Channel), decidimos passar as férias numa roadtrip pelo sul dos Estados Unidos. Fomos conhecer as cidades mais importantes pro nascimento dos estilos musicais mais populares do mundo, como jazz, rock, soul, folk, blues, etc. Visitamos Nashville, Memphis, Clarksdale, cidades nas margens do rio Mississippi, New Orleans, entre outras. Quando voltamos dessa viagem, estávamos carentes daquele movimento, de conhecer pessoas, de contar histórias e, principalmente, de fazer tudo isso em função da música. Foi assim que começamos a criar Around the world.

Aliás, o que aprenderam com a busca por patrocínio dos projetos? Repetiriam ou não repetiriam algo que fizeram? Aprendemos que ninguém vai confiar mais no seu projeto do que você mesmo. E se em algum momento você titubeia, todos titubeiam juntos. Ninguém vai levantar por você todos os dias e ninguém vai se arriscar por você. Se você acredita numa ideia que inventou, é só você que pode botá-la de pé. E tem sido assim nos últimos cinco anos, nos quatro projetos que já filmamos. Dois estão no ar e outros dois esperando um oportunidade. É assim que levamos nosso lifestyle com a Couple of Things. Nunca conseguimos recursos pra financiar um projeto antes de filmá-lo. Ou somos péssimos vendedores ou é muito azar (risos). Ao menos, depois de filmados a gente consegue algum retorno. Poderia dizer que é sorte, mas a gente se dedica muito pra fazer as coisas acontecerem.
O Videoclipers é “tentativa de causar rupturas e reflexões sobre a forma como trabalhamos e geramos conteúdo cultural”, como vocês dizem. No que vocês creem que o mercado de geração de conteúdo precisa ser modificado? Um grande problema é que, de modo geral, muita gente tem dificuldade de monetizar conteúdo gerado na web… Não só o mercado de geração de conteúdo, mas sinto que em qualquer tipo de trabalho ou produção laboral, o “monetizar” vem antes do “produzir”. E, pior do que isso, o “ter” vem antes do “ser”. Aí a gente já começa o jogo da vida perdendo de goleada.
No YouTube, a gente não monetiza os clipes e making ofs de Videoclipers. Preferimos abrir mão da monetização ali por uma série de razões. Mas já estamos negociando o licenciamento da série com um canal de TV. É assim que a gente espera ter o dinheiro que investimos de volta.
Achamos, e nosso estilo de vida prova isso, que muitas trocas e experiências não são vivenciadas quando colocamos muito peso sob o aspecto monetário. Criamos uma rede muito mais integrada, colaborativa e lúcida nos cinco anos fazendo projetos sem grana do que em 15 anos trabalhando em canais e produtoras como assalariados. O dinheiro nos trouxe muitas coisas. A falta dele nos trouxe liberdade pra decidir se precisamos dele e quando precisamos dele. Parece conversa de auto-ajuda, mas é que quando a gente se dá conta disso, começamos a entender que temos uma vida inflada. Aos poucos, a gente se acostuma a achar que precisamos ter sempre mais e que é necessário pagar por tudo que queremos e receber por tudo que produzimos. Isso não é verdade. Inclusive, o mundo tecnológico permite que seja justamente ao contrário.

É possível viver e trabalhar explorando muitas plataformas e metodologias colaborativas, aprendendo novas habilidades de graça e se conectando com pessoas certas. E quando se adota esse estilo de vida, tendo a consciência de que precisamos de muito menos, entendemos que nem tudo precisa ser monetizado e que é possível ser “pago” de mil e uma maneiras distintas.
Só pra dar um exemplo, todo mundo precisa comer. E comida, quando se mora numa cidade, você consegue no supermercado ou no restaurante. Durante o Videoclipers, trocamos refeição e compras por conteúdo. Reduzimos o custo de vida pagando com nosso trabalho e, o mais legal, nos conectamos com donos de restaurantes e mercados, criando relações afetivas com todos. Fizemos isso com moradia também. Então, o problema não é que as pessoas têm dificuldade de monetizar conteúdo, mas sim dificuldade de ser criativo pra não depender apenas da monetização de conteúdo.

Pode citar um exemplo de como funcionou isso na prática? Durante as filmagens do Videoclipers, Recife foi a cidade que mais passamos tempo, por conta daquela esticada que demos pra conseguir filmar com o Alceu. Ao todo, foram 19 dias (o normal foi 10 dias por cidade pra filmar dois clipes). E como ficamos mais tempo lá, decidimos estabelecer três tipos de parceria: com o Airbnb pra ter acomodação, com um empório de comida que ficava no nosso bairro (Empório Pura Vida) e também com restaurantes (Motche Restô e Flô de Jambo). Entramos em contato com todos eles bem antes de ir pra Recife, oferecendo menção deles em nossas redes sociais e também produzindo fotos pra eles postarem em suas redes sociais. Dessa forma, o custo de vida nosso caiu cerca de 70%. Em nosso Instagram tem várias fotos dessas, referente a essas parcerias. Tentamos o mesmo com Uber e passagem aérea, mas não conseguimos.
E outro exemplo legal foi em Porto Alegre, a antepenúltima cidade que visitamos pelo Videoclipers. A gente queria muito filmar um dos clipes lá – com a banda Dingo Bells – no Vila Flores, um espaço cultural que é co-working, galeria e várias outras coisas. Era o lugar perfeito pra ideia que tivemos.
Só que o lugar tinha um custo de locação muito alto e jamais poderíamos pagar por ele, até mesmo porque nossa ideia é tentar filmar os clipes sem gastar nada. Faz parte do nosso desafio. E conversando com os proprietários do espaço, oferecemos a troca: a gente grava nosso clipe aí e em contra-partida fazemos uma palestra pra comunidade que frequenta o Vila Flores. E eles toparam. Como a gente tem algumas palestras já montadas (ja que ja participamos de TEDx, do SXSW, e de outros festivais de criatividade), e gostamos muito de dividir nossas experiências com outros, pra gente foi muito legal.
Então essas são provas de que, com criatividade e trabalho, tem muitas maneiras de estabelecer trocas e ganhos.
No que acham que os projetos de vocês podem inspirar pessoas? A ideia é de fato criar um mercado diferente para a turma de vídeo? O objetivo não é fazer com que as pessoas achem os clipes legais. A gente espera mesmo é que as pessoas possam hackear a forma como a gente vive, que permite viver fazendo o que gostamos. Mas não temos nenhuma pretensão de inspirar pessoas, só mesmo ser case de um estilo de vida que dá certo também, assim como muitos outros.
(foto destaque: Lumos Estudio)
Cultura Pop
Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.
O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.
Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.
Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.
A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.
Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?
Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração
O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.
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Cultura Pop
Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.
Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.
Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.
A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.
No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.
Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.
Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.
Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.
Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.
Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.
No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.
Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.
Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.
Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.
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Cultura Pop
Qual é a do The Coverups, banda de covers de Billie Joe (Green Day) e amigos?

Antes de Bruce Dickinson, cantor do Iron Maiden, aparecer de surpresa no palco em Québec, o The Coverups já dava muitos sinais de vida havia anos. O projeto paralelo de Billie Joe Armstrong continua funcionando exatamente como nasceu: como uma desculpa para tocar músicas que seus integrantes amam, sem a pressão de lançar discos ou sair em turnê.
Criado em 2018, o grupo reúne integrantes e colaboradores do Green Day em apresentações pequenas, normalmente em clubes da Califórnia. A formação original contava com Billie Joe Armstrong (voz e guitarra), Mike Dirnt (baixo e voz), Jason White (guitarra), Bill Schneider (baixo) e Chris Dugan (bateria) – Mike e Jason são os únicos que fazem parte também do Green Day, sendo que Jason atua como músico de turnê. Nos últimos anos, porém, Dirnt deixou de participar dos shows, e o The Coverups passou a atuar como quarteto.
O repertório é uma carta de amor ao rock e ao punk. Clássicos de Ramones, David Bowie, The Clash, Cheap Trick, Joan Jett, Tom Petty, Misfits, Nirvana, Rolling Stones e até Strokes costumam aparecer nas apresentações, que muitas vezes são anunciadas poucas horas antes de acontecer. Diferentemente de outros projetos paralelos de Billie Joe, como Foxboro Hot Tubs e The Longshot, o The Coverups nunca teve a intenção de gravar músicas próprias. A proposta é apenas revisitar clássicos em um ambiente intimista, recriando um pouco da atmosfera dos primeiros dias do Green Day nos clubes da região de Berkeley e Oakland.
Mesmo sem lançar um único álbum de estúdio, a banda conquistou um público fiel justamente por isso: oferece a rara oportunidade de ver Billie Joe tocando as músicas que ajudaram a moldar sua formação musical, longe das grandes produções e da rotina de estádios do Green Day.
Nos últimos meses, o The Coverups voltou a fazer apresentações esporádicas na Califórnia, mantendo esse espírito despretensioso. Não havia qualquer indicação de mudanças de rumo, nem anúncios de gravações ou turnês. A maior novidade acabou sendo justamente a participação-surpresa de Bruce Dickinson em um show realizado em Québec. Sem aviso prévio, o vocalista do Iron Maiden subiu ao palco para cantar All the young dudes, clássico do Mott the Hoople escrito por David Bowie, num encontro improvável que reuniu dois dos nomes mais conhecidos do rock em um contexto bastante informal.
Houve uma outra novidade recente, que rolou durante o show da banda no Roxy, na Califórnia, dia 21, uma segunda-feira. Antes de tocar Drain you, clássico do Nirvana (do disco Nevermind, de 1991), Armstrong dedicou a música a Jennifer Finch, baixista do L7, que morreu recentemente. Antes, Adrienne Armstrong, esposa do músico, havia doado US$ 5 mil para uma campanha criada para ajudar a custear o tratamento de Finch.
De qualquer jeito, Bruce fi a primeira participação especial de grande repercussão na história recente do The Coverups e, naturalmente, chamou muito mais atenção do que os próprios shows da banda. Ainda assim, tudo indica que o projeto continuará exatamente como sempre foi: um grupo de amigos reunidos para tocar os discos que mudaram suas vidas, sem maiores pretensões além da diversão.
Ah, sim: importante falar que All the young dudes faz parte do repertório solo de Bruce há bastante tempo. Ele a havia regravado em seu primeiro álbum solo, Tattoed millionaire, de 1990. Na época, teve até clipe da faixa.
Foto: Reprodução Internet








































