O Wire, banda britânica que surgiu em 1976, é fundamental para se compreender não apenas o punk britânico, como o hardcore, o pós-punk e até cenas recentes como post-hardcore. Se você nunca escutou nada deles, há obras extremamente recomendáveis, como Pink flag (1977) e Chairs missing (1978), os dois primeiros discos. E até álbuns recentes, como Nocturnal koreans (2016).

Assim como acontecia com os Stranglers, o grupo liderado pelo compositor, guitarrista e produtor Colin Newman chutava para longe qualquer estigma de primarismo ligado ao punk rock. Usavam sintetizadores, misturavam várias informações musicais em canções que não ultrapassavam os dois minutos, muitas vezes caíam dentro de estilos que eram quase heresias dentro do punk, como o power pop. Também eram fãs de rock alemão e do começo do Pink Floyd.

Abaixo, você confere a bela Outdoor miner, single de Chairs missing, segundo disco do Wire. O som é bem mais cantarolável que boa parte da obra do Wire, por sinal.

O Wire, antes de tudo, era uma banda experimental, do tipo que entrava no estúdio e trabalhava no velho método de tentativa e erro. Quando estavam gravando Pink flag, primeiro disco do contrato da banda com a Harvest, selo anteriormente mais ligado ao hard rock e ao som progressivo, cismaram que uma das faixas tinha um certo aspecto de “música brasileira”. A música, curtíssima, acabou ganhando o nome de Brazil. Pago um jantar para quem conseguir achar algo de brasileiro nisso aí.

Esse lado malucão do grupo acabou afastando alguns fãs, mesmo nas plateias punk. No primeiro show, em 1º de abril de 1977, a banda tocou (segundo o vocalista Colin) para “três pessoas e meia”. Quando assistiram a bandas como Ramones e Buzzcocks, que faziam um som bem mais comercial que o deles, os caras do Wire tomaram uma decisão que fez toda a diferença: passaram a tocar mais depressa.

O som rápido e abrasivo, misturado ao ouvido para boas melodias e à atitude da banda no palco (o grupo mandava pau em sets concisos, Colin permanecia sério o show inteiro e a banda pouco interagia com a plateia) acabou chamando a atenção de plateias em lugares que seriam berços do punk nos anos 1980, como Washington DC e Nova York. Quem ficou encantado com o Wire assim que escutou a banda, por exemplo, foi Henry Rollins.

“As coisas que me impressionaram foram a precisão, a falta de solos, o tom quase zombeteiro da voz de Colin Newman, a intensidade do tom da guitarra”, contou Rollins num papo com a Rolling Stone. Em 1989, no disco Drive by shooting, que lançou creditado a Henrietta Collins & The Wife-Beating Child-Haters, o cantor registrou sua própria versão de Ex lion tamer, do primeiro disco do Wire.

E essa introdução é só para falar que alguém subiu o show do Wire em 1979 no programa pop alemão Rockpalast. Esse show chegou a sair em DVD em 2004 como On the box. No repertório, clássicos dos três primeiros discos da banda e uma entrevista.