Houve uma inspiração para a criação de Ziggy Stardust, personagem de David Bowie. Aliás, houve várias – de Iggy Pop a ecos de nomes como Gene Vincent e Hoagy Carmichael. O filme Stardust, dirigido por Gabriel Range, que conta a gênese do personagem e está em cartaz na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, inclui mais um nome na roda: o britânico Vince Taylor.

Vince não é um nome estranho para fãs do disco London calling, do The Clash (1979), já que a banda gravou seu hit Brand new Cadillac no álbum. Grande ícone da rebeldia no rock, ele nasceu em 1939 e começou a cantar em 1958, inspirado pelo rock norte-americano (Elvis Presley, Gene Vincent). E aliás era, ele mesmo, também um personagem.

LONDRES, NOVA JERSEY…

O nome verdadeiro de Taylor era Brian Maurice Holden. Nascido em Londres, morava nos Estados Unidos desde os 7 anos de idade (a família foi primeiro para Nova Jersey, depois para a Califórnia). Numa viagem de volta à terra natal, foi a um bar no SoHo e deu de cara com um show do mais novo ídolo teen na Grã-Bretanha: um sujeito boa pinta e com cara de meninão chamado Tommy Steele, querido pelo público de música pop da Inglaterra.

A partir daí, a ideia de jerico de Brian foi adotar uma persona em que ele fosse tudo na vida, menos um artista pop queridão. Adotou o nome Vince Taylor unindo o nome do personagem de Elvis no filme Jailhouse rock, Vince Everett, ao do ator Robert Taylor. Há quem diga também que ele olhou a frase “in hoc signo vinces” num maço de cigarros Pall Mall e curtiu o “vinces”. Em seguida, definiu que sua performance incluiria roupas de couro preto, gritos e tremeliques no palco e uma dança ainda mais agressiva que a de Elvis.

No fim dos anos 1950, Vince passaria a gravar com sua banda, The Playboys (formada por músicos que conhecera no tal show de Steele). Por causa de suas atuações malucas no palco, Vince virou figura da televisão. O grupo conseguiu contrato com o selo Parlophone, que funcionava na base do “alguma coisa tem que dar certo” antes dos Beatles (você já leu sobre isso no POP FANTASMA). Mas não vendeu discos o suficiente para se manter lá, embora a banda tivesse muito público nos shows.

CIÚME E ÁCIDO

Para piorar só um pouco, Vince era ciumento compulsivo. Em 1962, durante uma ida a Hamburgo para um show no Star Club, Vince ligou para a namorada em Paris e não conseguiu falar com ela. Não pensou duas vezes: pegou um avião para a capital francesa para ir atrás dela e deixou seus Playboys chupando o dedo. Por causa dessas e outras, a banda foi cansando dele.

Vince acabaria voltando para o grupo quando se ofereceu para cantar num show dos Playboys no Olympia de Paris em 1961. Fez uma performance tão louca no palco que virou ídolo na França, arrumando até um contrato para ele e os Playboys com o selo Barclay. Virou uma espécie de “Elvis inglês” na França, sempre metido em roupas de couro. Só que em 1965, ferrou tudo: Taylor, numa festinha animada no Savoy Hotel, em Londres, fez sua primeira viagem de LSD. Gostou da coisa, tanto que passou a cair dentro do ácido por vários anos.

EU SOU FILHO DE DEUS

Em 1965, Joseph Barbera (o da dupla com William Hanna) estava pensando em lançar uma gravadora e, como era marido da irmã de Vince, Sheila, foi lá conferir o show do cunhado. Mas não deu muito certo: Vince apareceu no palco despenteado, com a barba por fazer, segurando uma garrafa de vinho e dizendo que era “Mateus, o novo filho de deus”. Chegou – dizem testemunhas – a caminhar pela plateia para abençoar seguidores. Em um encontro com os Playboys, queimou dinheiro na frente dos colegas de banda para mostrar o quanto eles eram ligados aos bens materiais. O grupo precisou continuar sem ele.

Os problemas de Taylor com álcool e drogas foram diminuindo com o passar dos anos, mas a carreira musical nunca mais voltou aos trilhos. Vince mudou-se para a Suíça e virou mecânico de aeronaves, emprego que manteve até morrer de câncer no pulmão, em 1991, aos 52 anos. Mas, como vários biógrafos de Bowie lembram, não apenas a história de Vince Taylor inspirou a criação de Ziggy Stardust como David Bowie acabou tendo encontros com ele. Em 1996, Bowie chegou a falar sobre isso.

“Eu o encontrei algumas vezes em meados dos anos 1960 e fui a algumas festas com ele. Ele estava louco. Totalmente pirado”, contou. “Ele costumava carregar mapas da Europa ao redor com ele, e eu me lembro dele abrindo um mapa do lado de fora da estação de metrô Charing Cross, colocando-o na calçada e se ajoelhando com uma lupa. Ele apontou todos os locais onde OVNIs estavam indo para pousar”.

Em outras entrevistas, Bowie disse que, na época, Vince se tornou mesmo um norte para ele (“parecia muito atraente: ‘oh, eu adoraria acabar assim, totalmente maluco'”, contou). Em 1976, quando Vince estava sumido do mercado musical, Bowie já havia revelado que Ziggy Stardust tinha muito dele, e lembrado que certa vez Vince havia “subido ao palco enrolado num lençol branco” e dito à audiência “para se acalmar, porque ele era Jesus”.

RELANÇAMENTOS

De qualquer jeito, a carreira de Vince foi levemente lembrada nos momentos em que seu nome voltou à mídia. Em 1976, o selo Chiswick reeditou o single Brand new cadillac. O mesmo compacto voltou às lojas em 1979. Em 1980, saiu Luv, um single novo, na França. Volta e meia alguma gravação de Vince reaparece em alguma coletânea. Em 1992, saiu 1973 legendary sessions, com um show dele gravado em Paris.

E recentemente saiu uma coletânea de nome apropriado, The original Ziggy. Um excelente momento para recordar Vince Taylor, um artista cuja vida também daria um filme.

Via Culture Sonar, The Independent e Weeping Elvis.